A Lua do Caçador {Parte 3}

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         O quarto já não parecia tão sombrio quando Una retornou. A luz matutina o aquecia e espantava as sombras para longe da cama, onde um Theodore menos pálido verificava seu relógio astronômico de bolso; um presente do alquimista responsável por alavancar a companhia de seu pai. Ele ergueu o olhar ao ouvi-la se aproximar, aprumando-se sob as colchas grossas.

         — Sinto que tem estado muito preocupado com os planetas nos últimos dias.

         — Não é bem com os planetas que me preocupo. — Apesar de transparecer sua curiosidade, Una precisou se contentar com o silêncio como resposta. Continuar lendo “A Lua do Caçador {Parte 3}”

A Lua do Caçador {parte 2}

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         Lucinda abriu as cortinas um pouco mais tarde naquela manhã. A luz iluminou a bacia de ferro, refletindo nos olhos castanhos de Una. Ela virou o rosto por instinto e suspirou, exausta, após descansar apenas duas horas em uma bergère desconfortável. O pano úmido sobre o criado-mudo pingava uma água avermelhada próxima aos seus pés descalços, ainda sujos de areia. Sua pele cheirava a suor e fumaça da arena; um lembrete de sua péssima luta. Continuar lendo “A Lua do Caçador {parte 2}”

A Lua do Caçador { parte I }

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        O suor cobria suas peles como uma membrana cintilante sob a meia-luz. Os homens gritavam xingamentos e palavras obscenas para as duas mulheres dentro do cercado de madeira, quase invadindo a área em um frenesi animalesco. Não havia como esperar menos do público cativo das lutas clandestinas. Nobres e pés-rapados não se preocupavam com as diferenças entre si, espalhados pelo porão abafado. O odor rançoso de urina e sangue não lhes causava asco. O perigo de contrair a gripe não os assustava. Apostavam quantias gordas ou as moedas para o almoço do dia seguinte, reunidos ali para se deleitar com a humilhação da raça considerada inferior à sua. Continuar lendo “A Lua do Caçador { parte I }”

Etérea ao Luar

Etérea ao Luar

Por Raven Ives

 

“Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada […]”


Paraty, Rio de Janeiro — 1883

A carruagem parou de maneira brusca, obrigando a única passageira a se segurar onde pôde para não ir à frente. Chegou a ouvir as reclamações do cocheiro bronco que a conduzia pelas ruas de Paraty, como se o trajeto revestido com pedras irregulares que a faziam chacoalhar não fosse o suficiente. Observou os casarões e sobrados coloniais pela janela, recebendo alguns olhares curiosos de volta. Não duvidava que uma quantidade considerável de moradores soubesse de sua visita à cidade e isso a deixava apreensiva, por não saber lidar com atenção em tal alto grau.  Continuar lendo “Etérea ao Luar”