Pavilhão Cinza Pt. 3- O Resgate de um Corpo

Por: Natasha Morgan

O negociador estava atrasado.

Em trinta anos de carreira acadêmica, chefiando os interesses da universidade sempre tratou da negociação dos espécimes na hora exata.

O comércio era simples e dentro da legalidade. Ao menos ninguém jamais cogitou inquirir a universidade acerca de onde conseguiam os corpos para os alunos estudarem. Ambos os lados lucravam. O conhecimento e o cofre do Colônia.

O dinheiro era entregue e os carniceiros – assim os chamava Palmer devido à aparência grotesca – descarregavam o caminhão nos fundos da instituição, longe dos olhos curiosos dos alunos. Não precisavam saber de onde vinha a matéria prima para seus estudos.

Palmer era um estoico. Sempre elegante em seu tweed cáqui. A ideia de corpos misteriosos vindos de um hospital psiquiátrico não lhe assombrava as noites desde que houvesse um meio para seus alunos aprenderem e se tornarem excelentes profissionais. A causa da morte não lhe era pertinente. Nem os meios pelos quais eram transportados ou a sepultura vazia que deixavam diante de mães chorosas.

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Pavilhão Cinza – A Fuga

Por: Natasha Morgan

O primeiro a perecer sob as garras gélidas de Sofia fora o enfermeiro responsável pelo pavilhão A-10.

O Pavilhão A-10 era conhecido pelos gritos enlouquecidos do paciente que se mantinha amarrado à cama cinzenta. E a barbárie com que era tratado pelo enfermeiro Ronaldo.

Qualquer um que se aproximasse das portas chumbadas ouviria os gritos que povoavam os corredores numa súplica sôfrega. Um alerta perigoso.

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Pavilhão Cinza

*Conto inspirado nos relatos acerca do hospital psiquiátrico de Barbacena.

Por: Natasha Morgan

Aquela não era uma boa época para se usar saias.

Quando coronéis trajando uniformes cáqus e fumando charutos importados assombravam a seca do sertão, manipulando, intimidando e dirigindo o povo carente era um fardo ser a jovem bela e promissora de uma família em ascensão.

Foi o que descobriu Ana naquela tarde fatídica em que estendia as roupas no varal puído de seu quintal. Quando os olhos cinzentos do Coronel Alfredo pousaram sobre seu corpo juvenil e cintilaram em malícia selvagem.

Quando as mãos grossas daquele homem grotescamente perfumado passearam por seu corpo, invasivas. Quando seus lábios secos experimentaram o sabor de sua pele e seus músculos a sufocaram no celeiro, ameaçando afundá-la na palha áspera conforme ele violava sua inocência e fragmentava sua alma.

Ana não pode dizer nada.

O que o Coronel queria, ele pegava.

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