Fome [+18]

Escrito por Gabi Waleska.

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“A toast to lonely souls
Who never could take control of life
Burning pain, hell frozen rain falls down
Down

Life is cold here
Empty hallowed ground
In my head blood-colored rain falls down
Falls down.”

O outono daquele ano era implacável, a chuva caía, não como uma bênção vindoura ou como anunciadora de boa colheita, mas como um prenúncio de alagamento e perdas. Estava mais frio que de costume, como se o inverno e o outono ousaram se fundir em uma nova estação tão alagada, quanto gelada, escura e agourenta.
Quando a noite chegava, todos trancavam-se para se aquecer no interior de suas casas. Ninguém poria o corpo nas ruas encharcadas pela chuva gélida outrora abençoada, agora maldita como que vinda do inferno.
Na velha igreja, até os sacerdotes não mais oravam para agradecer as semanas chuvosas, levando em consideração que todo o plantio e, portanto, o sustento da Vila do Campo estava perdido, afogado sob aquelas águas escuras e lamacentas. Continuar lendo “Fome [+18]”

Entremeios

Escrito por Naiane Nara

Quinta-feira, calor intenso mesmo na sombra da estação. Ao entrar no trem, empurra-empurra, ar gelado, choque pela diferença de temperaturas. Aborrecimento ao perceber que está mais lotado que de costume, mais lento também.

Mas tudo bem, Lídia saíra trinta minutos mais cedo que o horário habitual. Seu chefe já lhe admoestara sobre os atrasos constantes, não podia se dar ao luxo de uma advertência ou mais descontos nos salário que já não era grande coisa.

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Dia de los Muertos

Escrito por Naiane Nara

Uma semana estressante, um mês horrendo, o ano que tem sido pior ainda. Preciso de paz, uma bebida coroada de silêncio, passar o dia entre o cochilo e a meia luz. Tanto tempo se passou desde que pude ter dois dias de descanso na semana, o domingo sozinho não consegue repor as energias.

Mas ela não para de me chamar na voz estridente que tanto detesto. Estou cansada, esgotada, e sua insistência apenas me irrita ao invés de convencer.

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La Llorona

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As roupas foram jogadas de qualquer maneira sobre o interior da mala escancarada. Uma “arrumação” muito diferente em comparação com a do dia em que saíra de viagem. Rosa havia se preparado com meses de antecedência, fizera listas e mais listas para não se esquecer de nada. Não estava disposta a aceitar menos que a perfeição para as suas tão sonhadas férias no México, com sua pequena família. Continuar lendo “La Llorona”

Teardrop

Escrito por Gabi Waleska.

Teardrop (Gabi)

As pancadas na madeira me despertaram. Não sei por quanto tempo dormi, mas aquele som intenso e persistente era alto e me arrancou de um sono tão profundo que fiquei desorientada por alguns instantes, tentando me situar. O ambiente sulfuroso e abafado me trouxe à realidade e comprimia-me. O eco da madeira apodrecida cedendo era desesperançoso.

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