O sangue da Meia Noite – Capítulo 10: Verdades dolorosas.

Escrito por Natasha Morgan.

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Dimitri estacionou o carro em frente o jardim lateral da casa. Havia alugado o Lexus com um velho amigo tão logo chegou ao aeroporto de Seattle. De longe avistou Dolan elegantemente parado na garagem, o rosto preocupado. Antes que ele pudesse pensar ou dizer qualquer coisa, Gwen saltou do carro e atirou-se nos braços firmes do ex-guarda. Dimitri não pôde deixar de se surpreender, jamais entenderia como Gwen era tão afeiçoada à sua espécie. Ele desviou os olhos por um momento, perturbado.

– Minha menina – Dolan sussurrou no ouvido dela, igualmente emocionado com o reencontro. Ele a afastou para fita-la com mais atenção. – Como está? Cuidaram bem de você?

– Eu estou bem – ela sorriu, enxugando as lágrimas. – Heron cuidou muito bem de mim. Ele mandou lembranças.

Dolan assentiu, pensativo. Seus olhos se voltaram para Dimitri, parado ao lado de uma jovem ruiva. Ambos estavam em silêncio, apenas esperando.

– Heron alertou que viriam – disse Dolan. – Pelo visto Brasov não é mais segura.

-Houve um acidente. – Dimitri explicou. – Um dos exilados escapou de vista e adentrou as muralhas. Heron achou conveniente trazê-la de volta. Vou leva-la para Baton Rouge.

– Heron me avisou sobre isso também. – Dolan disse e estava claro em seu tom que ele não aprovava nada aquela ideia.

– Ela ficará segura ao meu lado, Dolan. –Dimitri garantiu.

– Ninguém está totalmente seguro ao seu lado, Fitzroy. Mas se meu filho deu tais ordens, eu as respeito.

-Heron não me dá ordens – Dimitri disse, um tanto irritado. – E não entendo o motivo de suas desconfianças, acaso eu alguma vez faltei com minha palavra?

– Quando há mulheres envolvidas, sua palavra nada significa. No entanto, vou confiar no julgamento do meu filho.

– Onde está minha mãe? – Gwen perguntou, impaciente com a conversa dos dois.

– Na cozinha. – Dolan a fitou, desconfortável com alguma coisa, sua voz saiu tensa. – As coisas andam meio complicadas por aqui.

– Por quê? O que aconteceu? – Gwen quis saber.

– Elin ligou para Sam ontem à noite para ter noticias suas – Dolan contou.

– Essa não.

– Deu o que ver para conseguir acalmá-la quando Sam disse que você não estava com ele. Sua mãe quis ir á polícia. Fiz um esforço danado para convencê-la de que você só estava buscando um lugar para se acalmar e que logo ligaria. Mas você a conhece…

Gwen suspirou, não gostando nada daquela situação. Lentamente se desvencilhou dos braços de Dolan e adentrou em casa, sentindo o aroma familiar de coentro. Seus olhos imediatamente encheram-se de lágrimas, não imaginava a dimensão da saudade que estava de sua casa, das suas coisas, da sua família.

Elin estava debruçada sobre a pia, trabalhando em algum prato especial. Ainda estava de pijama, os cabelos negros soltos e desalinhados, sua aparência refletia seu estado de preocupação. Gwen já a havia visto daquele jeito muitas e muitas vezes.

Aproximou-se lentamente. Podia sentir seu coração martelando no peito, ele doía ao pensar na próxima mentira que teria de contar àquela mulher tão extraordinária a quem amava tanto. Não gostava nem um pouco disso, mas se era para mantê-la segura, ela o faria sem pensar duas vezes. Sua mãe vinha sempre em primeiro lugar, era sua heroína.

Respirando fundo, ela disse:

– Mãe.

Elin se virou quase que imediatamente e pousou os olhos na filha. Suas feições, antes preocupada e triste, transformou-se em alívio. Ela correu naquela direção, tomando a filha num abraço sufocante e deixando o choro ha tanto tempo guardado finalmente fluir.

Gwen enterrou o rosto nos cabelos da mãe, inspirando o aroma adocicado que ela tanto amava. Aquele era o cheiro que ela reconhecia como lar. Imediatamente se sentiu segura de novo, como se os perigos estivessem todos enterrados e ela finalmente pudesse respirar aliviada. Estava em casa.

– Gwen – Elin soluçou, completamente emocionada. – Onde é que você estava?

– Perdoe-me, mãe. – Gwen pediu, chorando. – Perdoe-me não ter avisado onde estava, desculpe ter ido embora…

– Você está bem? – Elin a fitou com olhar preocupado.

– Agora eu estou. Eu só precisava de um tempo longe de todos. Mas não aguentei de saudades, precisava vê-la antes…

– Antes de quê? – os olhos de Elin eram atentos.

– Mãe, eu vou precisar voltar para a casa do Sam – Gwen cuspiu as palavras, odiando mentir para a mãe novamente.

– Você não estava na casa do Sam. – Elin disse, duramente.

– Não. Eu… – Gwen desviou o olhar. – Eu estava em um lugar diferente, não muito longe. Estava apenas esfriando a cabeça, mas achei que você pudesse estar preocupada, então voltei para garantir que estava tudo bem.

– Gwen, está mentindo para mim?

– É claro que não, mãe.

– Então por que eu tenho a impressão de que está? – Elin a fitou diretamente nos olhos.

– Não estou. – Gwen a encarou de volta, sentindo seu corpo inteiro tremer. – Estou apenas nervosa e envergonhada por ter mentido. Desculpe.

– Onde você estava?

Gwen hesitou por um momento.

– Estava em Los Angeles – disse ela, finalmente. – Tenho alguns amigos por lá.

– Você não tem amigos em L.A.

– É claro que eu tenho…

– Pare de mentir para mim, Gwen! – Elin explodiu, aborrecida. – Você saiu daqui contra a minha vontade, abandonou tudo dizendo que ia ficar com Sam para esfriar a cabeça e colocar tudo em ordem. Mas ambas sabemos que não estava com ele! Eu liguei e ele me disse que você não estava por lá. Devo mencionar o fato de ele ter ficado tão preocupado quanto eu quando soube que você estava sumida?

Gwen abriu a boca para argumentar, mas o olhar de sua mãe a fez calar imediatamente. A essa altura, Dolan, Erika e Dimitri já estavam ali também, ambos em silêncio, apenas observando o rumo que as coisas tomavam. Dolan se moveu uma única vez, postando-se ao lado da esposa como sempre fazia quando as coisas saiam dos eixos.

Elin esquivou-se dele.

– Eu exijo que me diga onde estava! – ela cobrou, fitando a filha seriamente.

– E- eu já disse que estava na casa de uns amigos…

– Ela estava na minha casa! – Erika disse, rapidamente.

– Está mentindo.

– Elin… – Dolan começou.

– Não! – ela explodiu, furiosa – Já chega de suas mentiras! Alguma coisa está muito errada por aqui e estou farta de vocês me escondendo. Exijo saber o que está havendo.

Gwen enrijeceu, seus olhos se voltaram para Dolan em uma súplica silenciosa. Já era hora de acabar com aqueles segredos, sua mãe merecia muito mais do que apenas mentiras vazias. Ele assentiu uma vez em silêncio, fitando a esposa com intensidade.

– Está bem – ele suspirou. – Você merece saber a verdade, Elin. Gwen, por que você não sobe para arrumar suas coisas?

– Dolan… – ela começou, pronta para argumentar, mas Dimitri agarrou seus ombros gentilmente, fazendo-a encarar aqueles olhos negros e profundos.

– Está tudo bem – ele disse, a voz muito gentil – Não vai querer ficar aqui. Sua mãe merece a verdade, permita que Dolan conte a ela.

Gwen o fitou por alguns longos segundos, absorvendo as palavras dele. Então assentiu uma vez timidamente e permitiu que ele a tirasse dali. Erika os seguiu, em silêncio absoluto.

Livre da presença da filha e sem entender nada do que estava acontecendo, Elin voltou seus olhos para o marido, pedindo-lhe a verdade silenciosamente. Dolan se aproximou com cautela e pegou as mãos dela nas suas, puxando-a em direção à sala. Ele a fez se sentar em um dos sofás, silencioso. Sua expressão era uma mistura perturbadora de preocupação, tristeza e medo. Elin jamais o vira assim em todo o tempo em que estiveram juntos, o que indicava que o que ele tinha a dizer não era nada fácil.

– Eu gostaria de nunca ter de lhe dizer tal coisa – ele começou, pouco a vontade. – Ou ao menos lhe contar tudo em um momento mais apropriado. Gostaria que fosse de minha vontade lhe revelar meus segredos, mas infelizmente não é.

– Você está me assustando – ela disse, a voz fraca.

– De fato você ficará assustada – ele garantiu.

– Apenas me diga. Eu quero saber, principalmente se tem alguma coisa a ver com Gwen.

– Honestamente, não sei como contar a você.

– Simplesmente diga. – disse Elin, impaciente.

Dolan a encarou por longos minutos, absorvendo a beleza daquele rosto. Quanto tempo mais ela o encararia daquele jeito tão doce? – ele se perguntou com amargura. Talvez ela jamais voltasse a olhar para ele depois que soubesse de seus segredos, isso lhe partia o coração. Mas que escolha ele tinha?

– Elin… – ele começou, hesitante. – O que vou lhe contar agora é algo muito sério, um segredo que guardo ha mais tempo do que você pode sequer imaginar. Preciso que você acredite em cada palavra que eu te disser, ouça com bastante atenção e saiba que não estou mentindo para você. Será muito difícil absorver tal segredo, talvez você nem possa… Mas ainda assim precisa saber. É seu direito saber do que está acontecendo a sua volta. – ele a fitou – É um direito seu saber o que eu sou. Mas eu peço a você, não eu imploro que me escute até o fim. Precisa entender que em nenhum momento eu quis e nem vou machucar você ou a Gwen. Tenha a certeza de que eu amo você. Amo vocês duas como uma família. Entenda e tenha a certeza disso.

– Diga! – Elin exigiu, perdendo-se em tantos pensamentos.

– Eu e meu filho viemos de uma família diferente… Diferente de uma maneira que você não pode entender. Ninguém de fato entende certas coisas. Somos parte de uma lenda tão antiga quanto o mundo, uma lenda que perdura até hoje em livros, filmes e contos populares. Mas de lenda nossa história não tem nada. Somos reais, assim como você. Apenas nos mantemos nas sombras, evitando o contato com humanos – ele pronunciou tal palavra com cuidado, percebendo como o corpo de Elin estremeceu.

– O que está tentando me dizer, Dolan? – ela o fitou, perturbada.

– Nós amamos a noite, vivemos por muito mais tempo do que vocês, mortais; não gostamos muito da luz do sol, veneramos a lua… Alimentamo-nos de sangue.

– Mas que babaquice é essa?!

– Acho que você não precisa que eu diga.

– Acho que quero ouvir de sua própria boca!

Dearg-Due na Irlanda, Ekiminus na Síria, Kathakano em Creta, Obours na Bulgária, Strigoiul na Romênia, Vârcolac na antiga Moldávia, Upierczi na Rússia, Vlokoslak, Inccubbus, Nosferatu… Tantos nomes em tantos lugares do mundo! Mas para vocês somos conhecidos como vampiros. – Dolan finalmente disse, fitando-a com cuidado.

Elin o fitava sem qualquer expressão definida, seus olhos estavam fixos nele, absorvendo tudo o que havia dito. Ela poderia ter rido, poderia ter se levantado e lhe dado um tapa pela piada sem graça, poderia ter fingido acreditar e desmascará-lo depois. Mas ela não fez nada disso. Seu rosto desmoronou em uma tristeza profunda e ela chorou, pois sabia no fundo de sua alma que aquelas palavras eram reais, que absolutamente tudo o que ele disse era verdade. Dolan jamais brincaria com uma coisa dessas e ela sempre soube, no fundo, que ele era diferente de tudo o que ela já conhecera.

– Eu não acredito em você. – ela se obrigou a dizer em meio ao choro compulsivo, como se dizendo isso apagasse a revelação dele.

– Você acredita sim – disse ele, tocando gentilmente seu ombro para confortá-la.

Elin recuou bruscamente, encarando-o com os olhos furiosos.

– Não encoste em mim!

– Elin… – ele parecia surpreso com a reação dela, embora não fosse uma surpresa tão grande ela reagir daquela forma. – Eu não vou machucar você.

Ela encostou-se à parede fria da sala, deixando seu corpo escorregar. Seus olhos o condenavam em silêncio.

– Como você se atreveu a entrar na minha casa? – ela perguntou, cruel. – Como se atreveu a entrar na minha vida? Na minha família! Como você se atreveu a me tocar!

– Elin…

– Você envolveu minha família nessa sujeira! – ela o acusou, furiosa.

– Eu amo você – ele deixou escapar, como se isso explicasse seus atos.

– Mentira! – ela cuspiu.

– Não, Elin – Dolan avançou em direção a ela, puxando-a do chão e agarrando-lhe as mãos bruscamente para imobilizá-la.

Furiosa e aterrorizada, ela se debateu tentando se libertar. Mas ele a segurou fortemente e a obrigou a fita-lo, prendendo-a em seus braços musculosos. Deixou que ela esperneasse até cansar, deixou-a descontar toda a raiva que estava sentindo.

– Elin, pare – ele disse, sacudindo-a – Eu não vou te machucar!

– Eu não acredito em você – ela gritou.

– Se eu quisesse machuca-la já estaria morta – disse ele, sombriamente.

Elin estremeceu com tais palavras, aquietando-se. Pelo pouco que conhecia das lendas sobre vampiros sabia o quão perigosos e cruéis eles eram, então tinha certeza de que Dolan estava falando sério.

– Você me magoa duvidando assim do meu amor. – disse ele baixinho, afrouxando um pouco o aperto. – Eu posso ser o monstro que você pensa que sou, mas eu amo você com todas as forças do meu coração e jamais a machucaria.

– Monstros não amam – ela murmurou com raiva. – Não são capazes de amar.

– Mas eu amo você. Com toda a minha alma eu amo você.

– Não! – ela tentou se soltar mais uma vez.

– Não acredita em mim, não é mesmo? – ele disse, triste. – Quando eu a vi naquele museu há alguns anos, eu pensei que jamais fosse capaz de me apaixonar novamente por uma mortal. Mas provei estar enganado no exato momento em que você cruzou seu olhar com o meu. Você me fascinou no primeiro instante em que eu a vi até o momento em que aceitou ser minha esposa e continua me fascinando todos os dias. Eu te amo como você jamais entenderá, mesmo que você me odeie agora.

– Mentiras – ela disse e o empurrou com todas as suas forças – Você vem mentindo para mim todo esse tempo!

– Somente porque eu precisei. – ele se defendeu. – Acha que foi fácil esconder essas coisas de você? Acha que eu gostei de te enganar dessa forma? Eu queria poder ter contado o que eu era desde o momento em que a conheci. Mas não é seguro para um mortal saber sobre nós, eu não podia me arriscar a perder você.

Elin balançava a cabeça de um lado para o outro, recusando-se a acreditar em qualquer coisa que pudesse sair da boca daquele monstro. Não podia acreditar que se permitiu amar aquilo, não podia acreditar que estava sofrendo por causa dele! Ela o odiava com o fundo de sua alma…

– Você permitiu que minha filha cometesse o mesmo erro que eu, você deixou seu filho entrar em minha casa e seduzir a minha filha. Você deixou Gwen se envolver com um monstro! – ela o acusou, insana de tanta raiva.

– Heron não fará mal à Gwen. Ele jamais faria isso, eu não o teria deixado se aproximar se fosse perigoso.

– Todos vocês são perigosos e cruéis. Caso não tenha percebido, Gwen sofreu mais do que você sequer pode imaginar por causa do seu filho quando ele foi embora!

– Heron só foi embora porque precisava acatar um chamado de nosso superior…

– Não interessa! – cuspiu Elin, cada vez mais irada – Ele foi embora e, mesmo eu estando feliz por isso no momento, não posso ignorar a dor que isso provocou na minha menina! Pouco me interessa suas desculpas por ter mentido, pouco me interessa suas justificativas por ter entrado na minha vida!

– Você é injusta comigo, Elin. – Dolan disse, fitando-a com tristeza. – Eu lhe dei amor sincero e em troca você me acusa de mentiras.

– Mentiras? – ela riu sem nenhum humor – Olha só quem está falando! Você mentiu para mim, você me enganou. Você me seduziu com suas trevas.

– Não é possível você pensar assim depois de tudo o que vivemos. Não é possível que você duvide assim do amor que sinto por você. Eu te amo, Elin Alles!

– Eu não acredito em você – disse ela, fria.

– Você não quer acreditar em mim.

– Não, eu não quero. E eu não vou! – ela desabou a cabeça nas mãos, soluçando. Não se permitira acreditar em mais nada do que ele dissesse, não permitiria que a sedução suja dele a corrompesse novamente. Pensar em tudo o que vivera ao lado daquele homem, se é que podia chama-lo de homem, lhe partia o coração. Ela realmente acreditou que tinha encontrado o homem de sua vida, ela se entregou completamente a ele, ela se permitiu amá-lo… E agora percebia o quanto havia errado.

– Elin… – Dolan sussurrou, a voz agoniada, e ameaçou se aproximar.

– Por favor, vá embora. – foi tudo o que ela disse.

Aquelas palavras o atingiram impiedosamente, fazendo-o paralisar ali mesmo onde estava. Ele a fitou por um longo tempo, procurando combinar as palavras dela com o que ela verdadeiramente sentia. Lentamente seus olhos se encheram de lágrimas ao se dar conta de que ela estava falando sério, ela realmente o odiava. Tudo o que viveram foi em vão afinal, todas as palavras, todos os toques, todas as promessas de amor. Ela simplesmente se esqueceu ou não se importava  mais com tudo aquilo, o que pesava, o que realmente a importava era o fato de ele ser um monstro.

Dolan sentiu seu coração se partir em mil pedaços ao se dar conta de que mais uma vez perdera um grande amor por ser o que era.

– Não! – o grito de Gwen o despertou de sua tristeza fria, ela desceu a escada correndo. – Não, mãe! Você não pode fazer isso!

Elin ergueu os olhos para a filha, incrédula.

– Você sabia! – ela a acusou.

– Sim – Gwen assentiu, incapaz de não se sentir culpada.

– E mesmo assim aceitou tudo isso? – Elin gritou, ainda mais indignada.

– Quando se ama, o resto é irrelevante.

– Amar? – Elin caçoou, por um momento deixando de ser a mulher que era. – Você só tem dezessete anos, não sabe o que é o amor de verdade. Sequer imagina! Mal viveu a vida.

Gwen recuou com as palavras da mãe, mal acreditando que ela tivesse dito mesmo aquilo. Logo Elin que sempre fora uma mulher tão alegre, compreensiva e amorosa. Não podia acreditar em tal reação.

– Eu sei o que eu sinto, mãe. – disse Gwen, magoada. – Eu tenho absoluta certeza de que é amor, pois sinto isso no fundo do meu coração. Como você me ensinou, você lembra? “Se você sente no fundo do coração, se sente na alma e em sua essência, se você sente em cada parte do seu corpo, então é amor” – ela recitou as exatas palavras que Elin tinha lhe dito há tanto tempo atrás quando estava explicando o amor à filha.

Por um momento, Elin abaixou a cabeça sentindo-se verdadeiramente envergonhada. Ela se lembrava exatamente daquele dia. Gwen havia chegado da escola, tinha treze anos e estava muito chateada porque não entendia por que tantas meninas tinham namorado e só ela não se interessava, lembrou-se da filha perguntando se o amor existia de verdade ou era só um mito. Ela havia se ajoelhado ao lado da filha e dito que o amor vinha na hora certa para cada um, que ela era jovem demais para encontrar tal sentimento, mas lhe disse para não desistir dele…

Essas lembranças só aumentaram a ferida no coração de Elin, pois ela não havia desistido do amor, mas ele a tinha traído no final ao fazê-la cair na sedução de um monstro e amá-lo com todas as suas forças.

– Eles não são humanos – ela disse num fiapo de voz. – Não se pode amar monstros, Gwen. E tampouco eles podem nos amar.

– Eles não são monstros, mãe. São apenas diferentes. E o amor… O amor não tem formas, Mãe. Nós apenas o sentimos e deixamos que ele nos complete incondicionalmente. Você sabe disso tão bem quanto eu, pois ama o Dolan de uma forma que só os que se permitem amar sentem. E eu tenho certeza de que esse segredo idiota não vai destruir esse sentimento.

– Segredo idiota? –Elin a fitou, cética. – Ele mentiu para mim! Escondeu coisas que eu tinha o direito de saber. Todos vocês esconderam – seus olhos passaram por todos ali e se fixaram e Dimitri – Aposto que você é um deles. Quantos mais de vocês existem?- seus olhos se voltaram para Erika.

– Eu não tenho nada a ver com eles, sou humana! – ela garantiu.

– Muitos – Dimitri respondeu. – Existem muitos.

– Está vendo? – ela voltou-se para Gwen. – Eles não têm alma, são frios como o gelo. Monstros! Não podem amar! São assassinos, Gwen.

– Mãe, você não sabe o que está dizendo… – Gwen começou, angustiada com a histeria da mãe.

– Não, Gwen. Ela está certa. – disse Dimitri, imponente. Com apenas alguns passos, ele se colocou na frente de Elin, capturando-lhe a atenção com o olhar sombrio. Pôde sentir a preocupação de Gwen e Dolan, mas não deu atenção a eles. Sua atenção estava fixa na mulher a sua frente.

– Você está certa – ele disse a ela. – Nós somos cruéis, monstros famintos por sangue. Você não pode imaginar as coisas terríveis que somos capazes de fazer com a sua espécie e até mesmo com a nossa. Você não faz ideia da dimensão da nossa fome ou a tentação da nossa sede. Posso garantir que seus medos são fracos perto do que deveria sentir. Mas eu posso garantir também que Dolan não lhe oferece perigo nenhum. Sim, ele é um de nós, um vampiro que precisa de sangue para viver. Mas ele jamais machucaria você ou sua família, tampouco outras pessoas. É um homem correto, por assim dizer, e um guarda honrado. Não precisa temer a ele e nem qualquer outro de nós enquanto ele a tiver em consideração, ao lado dele você e sua família estarão em perfeita segurança.

Ao seu lado, Gwen deixou de lado qualquer raiva ou ressentimentos que ainda nutria por ele e se permitiu admirar sua atitude. A sombra de um sorriso se formou em seus lábios à medida que ela o observava com os olhos brilhantes.

– Agora que você sabe que ele não fará mal a você, precisa fazer exatamente o que mandarmos se quiser que sua filha sobreviva. – Dimitri continuou, a voz sombria.

– Do que você está falando? – Elin recuou um passo, aflita além do normal.

– Estamos sendo perseguidos por nossos inimigos. – Dolan explicou. – Nós os chamamos de Filhos da Noite. Lobos selvagens e ferozes, incapazes de voltar a forma humana.

– Lobisomens? – Elin perguntou, assombrada.

– Não gostamos dessa expressão. Os Filhos da Noite eram como nós, mas se rebelaram contra nosso líder, Morris, e foram exilados. Eles se curvaram ao ódio e isso os fez ficarem presos dentro da fera.

– Vocês podem se transformar em lobos?

– Há muita coisa sobre nós que a lenda não conta.

Elin o ignorou completamente.

– E onde Gwen entra nisso tudo? – ela quis saber.

– Eles sabem sobre ela, sabem que ela é importante para nós e querem mata-la.

Instintivamente, Elin recuou dois passos e tomou a filha nos braços, apertando-a.

– Ninguém vai tirar minha filha de mim – ela disse e havia uma coragem admirável em sua voz.

– É claro que não! – Dolan fez menção de se aproximar. – Eles não vão pegá-la, nós não vamos deixar.

– É por isso que ela tem que vir comigo – Dimitri se adiantou, fitando a mulher com os olhos negros e profundos – Eles sabem que ela vive aqui. Já fizeram uma visita uma vez.

– O ataque de Heron – Elin se lembrou, espantada.

– Sim. Fui obrigado a mentir sobre isso também – Dolan disse, lamentando tal fato. – Aqui não é mais seguro. Ela precisa partir.

– Ir para onde?

– Para minha casa – disse Dimitri. – É o lugar mais seguro para ela nesse momento. Moro em Baton Rouge e tenho amigos que podem defendê-la por lá. Eu vou protegê-la.

Elin fitou o vampiro com atenção.

– E quem é você? – ela quis saber.

– Um amigo – Dimitri disse, respondendo de boa vontade. – Cuidarei bem da sua filha, Elin. – ele prometeu.

Gwen se obrigou a desviar os olhos dele, surpresa com a paciência que ele estava demonstrando. Voltou-se para a mãe, encarando-a com carinho.

– Vou ficar bem – prometeu. – Dimitri vai me manter segura.

– No que você foi se meter, Gwen? – Elin disse com tristeza.

– Vai ficar tudo bem, Mãe. Isso tudo é apenas uma fatalidade.

– Não, isso tudo é culpa dele – Elin apontou Dolan. – Se ele não houvesse arrastado nossa família para o mundo deles nada disso teria acontecido.

– Não, mãe. Isso não é culpa de ninguém. Ninguém me arrastou para esse mundo. Eu o teria descoberto mesmo sem conhecer Heron ou Dolan, pertenço à Meia-Noite tanto quanto eles.

Sem entender, de fato, o que Gwen queria dizer com aquelas palavras, Elin se concentrou no rosto da filha, os olhos enchendo-se de lágrimas.

– Nunca vou me perdoar se alguma coisa acontecer com você. – ela disse.

– Nada vai acontecer comigo, eu prometo. – Gwen disse e abraçou a mãe.

– Você precisa se aprontar – Dimitri as interrompeu – Devemos ir o mais rápido possível.

Gwen assentiu.

– Volto já. –ela disse, beijando a testa da mãe e subindo a escada junto de Erika.

Dolan se voltou para a esposa, o olhar profundo e repleto de tristeza.

– Você também deve partir. Esse lugar não é seguro para mais ninguém.

– Deixar minha casa? – ela parecia indignada.

– É preciso.

– Eu não tenho para onde ir, Dolan. Essa casa é tudo o que eu tenho, caso não tenha notado. – disse Elin, seca.

– Vá para a casa de Sam. Pelo menos até aqui ser seguro novamente.

Elin começou a protestar, mas Dolan a interrompeu.

– Elin, eu sei que você não quer mais me ver. Não vou insistir nisso, a decisão é sua. Mas ainda assim eu vou mantê-la segura.

– Manter minha filha em segurança é o bastante para mim. Estarei muito bem aqui, obrigada.

– Não estará, não. – disse Dimitri. – Eles vão voltar para cá tão logo perceberem que Gwen não está mais em Brasov e não vão se importar se ela não estiver mais aqui. Eles vão entrar, Elin, e você não vai querer estar aqui quando isso acontecer.

– Mesmo que isso seja verdade – disse ela – Não posso me arriscar a levar essas coisas para outro lugar.

– Eles não vão segui-la. É a Gwen que eles querem. E pode acreditar, eles roubam vidas a qualquer hora e em qualquer lugar. Acredito que o garoto Sam tenha forças para proteger você.

– Sam? – Elin fitou Dolan, surpresa.

– Sam é um de nós. –ele confirmou. – A história dele é complicada. Pode perguntar à ele quando estiver em Nova Orleans.

– Há mais algum de vocês que eu conheça? – ela perguntou de mau humor.

– Não – Dolan respondeu.

Por um momento, Elin se permitiu corresponder o olhar dele, perdendo-se na lembrança vaga do homem que um dia ela amara.

– Para onde você vai? – ela perguntou.

– Estarei por perto observando. Você me mandou embora e eu não oferecerei resistência. – disse ele, deixando a sala.

*-* *-*

Gwen bateu a porta do quarto com força e enterrou o rosto nas mãos, sentindo uma enorme vontade de gritar. Não podia acreditar em como as coisas estavam desmoronando ao seu redor. Tudo era uma grande confusão em sua cabeça, a separação temporária de Heron, o ataque cruel de Amadeo, as atitudes contrárias de Dimitri, a mudança para Baton Rouge… E agora aquela loucura com Elin. Tudo estava acontecendo muito rápido.

Erika aproximou-se cautelosamente.

– Eu sinto muito pelo que aconteceu.

– Tudo bem –Gwen suspirou – Já estava na hora da minha mãe saber de tudo. Eu só não imaginava que a reação dela seria assim.

– Foi uma grande revelação para ela. É difícil absorver tudo isso sem surtar.

– Eu e você não surtamos – Gwen a fitou com as sobrancelhas erguidas.

– Nós não somos normais – Erika deu um sorrisinho.

– Você não entende – Gwen suspirou – Eu nunca vi um casal tão apaixonado como aqueles dois, a sintonia em que eles viviam era intensa. Minha mãe jamais amou alguém dessa forma, tampouco foi amada. Entendo ela surtar, mas manda-lo embora depois de tudo o que eles viveram?

– Descobrir que o marido que você amou durante tanto tempo é um vampiro não é uma coisa fácil. Dividir uma parte de sua vida com alguém que você pensa que conhece e depois descobrir um segredo desses é um baita choque.

– Eu já estive no lugar dela. Quando eu conheci o Heron me deparei com essa situação, eu tive que fazer uma escolha. Eu escolhi aceitar o que ele era. Eu o escolhi.

– Há quanto tempo sua mãe conhece o Dolan?

– Já faz cinco anos.

– E há quanto tempo você conhece o Heron? – ela perguntou com as sobrancelhas erguidas.

– Muito menos que isso – Gwen admitiu.

– Viu só? É diferente. Você decidiu aceitar o Heron porque foi fácil para você absorver essa verdade mais cedo. Sua mãe não teve tempo de absorver tudo ainda. Cada um tem uma visão da vida, cada um tem um tempo certo para assimilar as coisas.

Gwen fitou a jovem com intensidade, percebendo a sabedoria naquelas palavras. Jamais imaginaria que aquela garota fosse capaz de dizer coisas tão inteligentes. Bom, ela nunca pensou que aquela garota fosse acabar sendo sua amiga. Não, elas não eram amigas, mas tinham uma ligação. E as coisas estavam melhorando entre elas – o que já era um progresso.

Realmente, as pessoas podiam surpreender de uma forma incrível.

– Vai ficar tudo bem – Erika garantiu.

– Você realmente acha isso?

– Tudo sempre acaba bem. E, além disso, se eles se amam tanto quanto você diz, então é claro que vão se acertar. Só é preciso ter paciência.

– Acontece – disse Gwen, marchando em direção à mala aberta no chão. – Que eu já vi essa história antes e sei como termina.

– Do que você está falando?  – Erika perguntou.

– Astrid.

– O que tem ela?

– Ela já foi apaixonada por Dolan e esse foi um preço alto a se pagar. Um preço que minha mãe jamais aceitaria.

– Não estou entendendo nada, Gwen. – Erika a fitou com confusa.

– Você se lembra de quando eu disse que Astrid era uma guerreira?

– Sim.

– Ela é uma guerreira – Gwen afirmou. – Ela sacrificou algo grande e muito poderoso para poder salvar a vida do filho. Ela entregou a própria felicidade para salvar as pessoas que ama.

– Do que é que você está falando? – Erika parecia estar cada vez mais confusa.

– Estou dizendo que quando Morris conheceu Astrid, ela era mulher de Dolan. – Gwen explicou enquanto socava as roupas dentro da grande mala preta.

– Faz sentido, eles têm um filho juntos. – Erika concordou, ajudando a colega com as coisas.

– Sim, mas o que você não sabe é que Astrid era humana nessa época – Gwen disse, vendo a expressão surpresa no rosto da outra – Esse amor lhes custou muito no final. Quando Astrid engravidou de Heron, Dolan foi obrigado a transformá-la em um deles para que sobrevivesse. O que ele não sabia é que o nascimento da criança despertaria a raiva de Morris, que já estava irritado com o romance dos dois. Dolan acabou se dedicando à família, muitas vezes esquecendo-se de sua obrigação para com o mestre, o que levou Morris a ameaçar a criança.

– Astrid se sentiu obrigada a proteger o filho e também o homem que amava, então se ofereceu à Morris como rainha. Morris não negou, é claro, pois já tinha se rendido aos encantos dela quando ainda era humana. Ela sacrificou o grande amor de sua vida para proteger o filho. – Gwen contou.

– Mas Morris parece amar o Heron – Erika argumentou.

– Ele gosta do Heron agora, depois que se tornou um bom e leal guerreiro.

– Mas o que isso tem a ver com a sua mãe?

– Minha mãe jamais será uma guerreira como Astrid. – Gwen explicou – Minha mãe jamais vai sacrificar seu mundinho feliz para viver com o Dolan nesse novo mundo que se abriu para ela.

– Não pense assim. Você não sabe como ela vai agir mais para frente, ninguém conhece o coração das pessoas a não ser elas mesmas. Dê um tempo à  ela  para pensar e digerir tudo isso. Eles vão se acertar.

– Eu realmente espero isso. Dolan fez muito por nós e também já sofreu muito. Ele não merece sofrer mais.

– Não estamos livres de sofrer quando decidimos amar alguém – Erika disse, com bastante sabedoria, ajudando Gwen a guardar algumas coisas em uma pequena necessaire.

Gwen sorriu uma vez para ela, gostando daquela camaradagem de última hora.

– Você vai querer se despedir de seus pais antes de irmos? – ela perguntou, em dúvida, lembrando-se da conversa que tiveram sobre a família de Erika.

– Não. – Erika respondeu, sem olhá-la nos olhos.

– Não sabemos quando iremos voltar. Tem certeza de que não quer ao menos dizer que está tudo bem?

– Eles não se importam. Qualquer mentira que eu conte está bom para eles, não vão criar problemas.

– Ok – Gwen assentiu, sem dizer mais nada. Respeitava a opinião da colega. Realmente, ter pais ruins devia ser uma droga. – Então a gente só passa por lá para você pegar suas coisas.

– É. Pode ser. – disse Erika, distraída.

Ela vagou os olhos distraídos pelo quarto, levantando-se para caminhar por ali e explorar as coisas da colega. Não queria falar sobre os problemas pessoais com a família, jamais gostara disso. Na verdade, nunca foi boa em lidar com sentimentos, por isso talvez fosse tão egoísta.

– Você o ama de verdade, não é? – ela perguntou, pensativa. – Quer dizer, você está deixando tudo para trás mais uma vez para poder ficar com ele.

Gwen não precisava perguntar de quem a outra estava falando.

– Na verdade estou deixando tudo para trás nesse momento para sobreviver – Gwen sorriu um pouco. – Mas, respondendo a sua pergunta, sim. Eu o amo de verdade.

– E você sabe disso como? – Erika a fitou.

– Eu sinto – disse Gwen com um sorriso.

– Você sabe que isso é loucura não é mesmo?

– O que é loucura? – Gwen a encarou, séria.

– O amor. Cedo ou tarde ele acaba te ferrando.

– Eu não penso dessa forma – disse Gwen, pensativa. – E nem consigo entender como você ou qualquer outra pessoa pode pensar assim. A Deusa, Deus e acho que todas as outras entidades veneradas no mundo ensinam que o amor é a base de tudo.

– Bom, eu não acredito nisso. – Erika disse muito sinceramente.

– E eu me pergunto quem foi que magoou você para que pense assim.

– Ninguém. Eu jamais gostei de ninguém dessa forma. – ela confessou.

– Então como não acreditar em uma coisa que nunca sentiu?

– Talvez seja esse o motivo. Eu nunca amei ninguém, tampouco fui amada. É normal eu não acreditar na existência de algo que jamais provei.

– Eu conheço pessoas que acreditavam no amor mesmo antes de poderem amar – Gwen lhe lançou um sorriso fraco.

– Bom, eu não tenho toda essa sua evolução – Erika brincou, permitindo-se sorrir também.

– Sabe, Erika, só porque você não acredita não significa que não exista. Uma hora você verá com seus próprios olhos e vai poder sentir. – Gwen deu uma piscadinha para ela. – Ou talvez opte por ficar sozinha mesmo assim.

– Não tenho toda a sua paciência, então vou me divertindo com as pessoas erradas até aparecer alguém que valha a pena. Se valer a pena! – a outra riu.

– É uma opção – Gwen concordou. – Tom seria a pessoa errada?

– Uma delas – Erika gargalhou. – Na verdade, Tom é controle. Só fico com ele para aumentar minha popularidade.

– Há outros meios de ser querida para as pessoas. Convenhamos, o Thomas é um babaca!

– Desta vez eu tenho que concordar com você – Erika assentiu. – Sempre o achei bobo, mas depois do que ele fez com você passei a ter absoluta certeza de que é um babaca.

Gwen deu um sorrisinho tímido.

– Espero que isso signifique que nossa briga por ele termina por aqui. – disse ela, brincando.

– Ah, não esquenta. Eu só implicava com você porque eu gostava. Nada tinha a ver com ele. Além do mais, nossa briga já acabou faz tempo. – Erika deu uma piscadinha camarada.

– Sabe, eu gosto da ideia de sermos amigas agora – Gwen confessou, preparando-se para a reposta sarcástica da colega.

Mas Erika a surpreendeu.

– Eu também – ela disse com um sorriso sincero.

E foi nessa hora que alguém bateu na porta. Dimitri entrou lentamente, correndo os olhos pelo quarto numa expressão aparentemente despreocupada.

– Devemos ir agora – disse ele.

– Tudo bem – Gwen assentiu, esvaziando mais uma prateleira rapidamente.

Dimitri se aproximou cauteloso à medida que ela terminava de aprontar as coisas , os olhos distraídos com o que ela estava fazendo.

– Eu devo desculpas a você – disse ele – Você estava certa no que disse. A culpa foi minha você ter sido atacada. E eu sinto muito mesmo por isso.

Gwen o fitou surpresa, procurando alguma coisa no rosto dele que delatasse cilada. Mas tudo o que encontrou foi sinceridade.

– Tudo bem – ela assentiu – Desculpe ter sido dura com você antes. Na verdade a culpa não foi de ninguém. O que aconteceu foi uma fatalidade. – ela o fitou intensamente – E obrigada por ter ajudado com a minha mãe lá embaixo.

Surpreso com a reação dela, ele desviou os olhos. Ao que parecia não gostava muito de ser conhecido como o bonzinho.

– Isso é tudo? – ele perguntou, apontando a mala gigante no chão.

– Quase tudo – Gwen disse, então se virou para o corredor e estalou os dedos – Psi, psi.

Tão logo ela chamou, Meia Noite veio correndo de onde quer que estivesse e, ignorando o vampiro no quarto, foi em direção à dona, esfregando-se em suas pernas e ronronando. Gwen a ergueu do chão com delicadeza e a beijou na bochecha macia, matando as saudades que estava sentindo de sua eterna companheira felina.

– Ela é linda! – disse Erika, aproximando-se e afagando a gata com carinho.

Meia Noite permitiu que a garota lhe acariciasse, mas lançou um olhar fulminante para Dimitri, avisando-lhe para nem pensar em tocá-la. Não que ele quisesse, pois olhava o animal com total desinteresse.

– Ela gostou de você – disse Gwen à Erika quando a gata começou a ronronar.

– E eu de você – Erika disse em uma voz infantil para o felino. – Ela vai conosco?

– De jeito nenhum! –Dimitri se apressou em dizer.

– É claro que ela vai! – Gwen rebateu.

– Nem pensar! – Dimitri teimou. – Um gato em minha casa? Pode esquecer. Caso não tenha percebido, eles não gostam muito de vampiros.

– Faz todo sentido. Sua energia é densa demais – disse Erika, fazendo uma careta.

– Não me importa se ela não gosta de você ou se você não gosta dela – disse Gwen. – Ela vai.

– Ela não vai! – Dimitri insistiu.

– Eu não vou embora sem a minha gata!

– Diabos, você é teimosa – Dimitri disse, frustrado.

– Sou e muito! – ela o encarou com determinação, pronta para enfrenta-lo com todas as suas forças e argumentos se assim fosse necessário para levar Meia Noite junto.

Mas não foi preciso. A carranca dele desmoronou e deu lugar a um sorriso por demais malicioso que arrepiou até os últimos fios de cabelo dela.

– Tudo bem, Gwen – disse Dimitri, cedendo. – Ela pode ir conosco.

Desconfiada, Gwen pegou o resto da bagagem e os seguiu pela escada, pensando no que aquele vampiro estaria aprontando. Não podia se esperar coisa boa por detrás daquele sorriso malicioso dele.

Elin estava sentada no sofá, a cabeça levemente baixa. Quando seus olhos avistaram a filha, seu desespero chegou ao limite e ela se entregou às lágrimas silenciosas mais uma vez.

Gwen tentou aparentar serenidade quando se aproximou, não queria magoar ou desesperar a mãe ainda mais. Abraçou-a com força, enviando uma boa dose de energia para ela através do abraço, na tentativa de fazê-la mais forte.

– Eu prometo que assim que isso tudo terminar, eu volto para você, Mãe – ela disse.

– Gwen, quando você voltar para casa, nada será como antes – Elin também prometeu, a expressão muito séria.

– Enquanto eu estiver fora pense muito bem sobre isso. Porque eu não quero que você cometa um erro estúpido somente por medo – Gwen a fitou com intensidade. – Você tem a chance de fazer uma grande diferença na sua vida e na vida do Dolan, então pense com muito cuidado, Mãe.

Ela se soltou dos braços de Elin gentilmente e se voltou para Dolan, atirando-se nos braços fortes e carinhosos dele.

– Sentirei saudades – ela sussurrou, fazendo força para conter as lágrimas.

– Eu também vou sentir – ele prometeu, abraçando-a com força. – Que sua Deusa a proteja sempre, minha menina.

– Assim seja – Gwen sorriu.

– Cuide delas, Dimitri – Dolan disse, fazendo um aceno afetuoso para Erika, que, surpresa, retribuiu.

Gwen se voltou mais uma vez para a mãe, o coração apertado. Queria ser capaz de adiar aquele momento para sempre. Mesmo com o comportamento egoísta, Elin ainda era sua heroína. Deixá-la era a coisa mais difícil que estava fazendo, muito mais difícil do que deixar Heron.

– Tchau, Mãe – ela disse, a voz quebradiça. – Sentirei saudades todos os dias.

Elin a tomou nos braços, suavizando a expressão dura e apertando a filha com força.

– Apenas volte para mim, minha menina – ela chorou.

– Eu voltarei – Gwen prometeu.

Surpreendendo a todos, Elin se voltou para Dimitri, os olhos suplicantes.

– Cuide da minha filha – ela pediu.

– Ela estará em perfeita segurança comigo – prometeu ele, surpreso com a reação da mulher. – Você tem a minha palavra.

– Ela ficará bem, Elin – Dolan garantiu, aproximando-se automaticamente. Mas parou tão logo percebeu seu erro, ela não era mais sua esposa. – Dimitri é um excelente guerreiro.

Elin o fitou, por um momento sem aquela raiva cega. Mas logo desviou os olhos para a filha, suavizando a expressão, voltando a ser a antiga Elin.

– Que Deus a acompanhe, filha – ela disse.

– Eu acredito em uma Deusa mulher agora, Mãe – Gwen sorriu. – E tenha a certeza de que Ela sempre me acompanha.

Elin não pareceu surpresa com as palavras da filha, então apenas assentiu uma vez, beijando-lhe a testa antes de deixa-la finalmente partir.

O Sangue da Meia Noite – Capítulo 09

Escrito por Natasha Morgan.

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Gwen sentou pesadamente na cama, pensando no que faria primeiro. Ainda tinha a toalha felpuda enrolada ao redor de seu corpo, os cabelos penteados e secos. Seus olhos avançaram para a mala ao pé da cama, toda desarrumada e a tristeza novamente a invadiu ao pensar em voltar para casa.

Estava louca de saudades de Elin, é claro. Mas pensar que teria de se despedir dela mais uma vez para ficar fora por um tempo indeterminável era angustiante. Quando aquilo tudo terminaria? Quando poderia voltar para a sua vida normal? Quando poderia estar reunida com sua família amada novamente e ser feliz?

Aquelas perguntas não tinham respostas ainda…

E, de repente, uma vozinha maldosa sussurrou em seu ouvido: Não era você mesma que sempre se queixou de uma vida normal? Não era você mesma que ansiava por um amor que lhe tirasse o chão e reverberasse por sua alma?

Gwen suspirou, irritada. A voz tinha razão. Ela não queria uma vida normal, ela queria uma paixão intensa. E conseguira.

– E eu não mudaria nada! – ela disse a si mesma. – Amo Heron e se pudesse voltar no tempo faria tudo de novo. Não serão esses exilados idiotas ou a distância cruel que me farão me arrepender de minhas escolhas.

Decidida e enfrentar as consequências por suas escolhas, ela se levantou da cama e fuçou a mala, procurando por qualquer roupa que a mantivesse protegida daquele frio cruciante que fazia ali em Brasov. Vestiu uma calça jeans reforçada, uma blusinha de renda fina e um suéter verde oliva. Por fim, empurrou o restante das roupas para dentro da mala e fechou o zíper sem muito esforço.

A batida suave na porta a sobressaltou. Heron certamente não se incomodaria em bater. Seus pensamentos voaram para Dimitri e ela sentiu seu corpo estremecer, não queria ficar perto dele tão cedo. Se pudesse adiar aquele encontro por apenas alguns minutos a mais, ela seria eternamente grata…

Mas ao se aproximar da porta, sentiu a suave energia conhecida e não pôde deixar de sorrir por reconhecer quem era. Gwen murmurou um entre e aguardou, sentada na cama.

A porta se abriu lentamente e Erika entrou bailando. Usava uma calça de lycra preta que modelava perfeitamente o corpo bem feito e uma blusa grossa de mangas compridas na cor bege. Os brilhantes cabelos ruivos estavam soltos em ondas suaves. E ela trazia uma caneca fumegante nas mãos.

A garota sentou-se ao lado de Gwen na cama e lhe entregou a caneca.

– Como você está? – perguntou, a voz rouca.

– Estou bem – Gwen suspirou, realmente se sentindo bem. – O que é isso? –ela olhou em dúvida para o líquido fumegante.

– Chá. Helve me ajudou a preparar, vai te fazer bem. Tem um pouco de Mõlly aí dentro.

– Obrigada – Gwen agradeceu e bebericou o chá, suspirando quando o líquido quente e gostoso desceu por sua garganta.

– Eu senti… – Erika disse no silêncio que se fez. – Senti quando você foi atacada.

Gwen a fitou, surpresa.

– Eu tentei ir até você, mas Dimitri não me deixou – Erika explicou. – Ele disse que Heron cuidaria de você melhor do que ninguém. Disse que ele teria que sugar o veneno que o exilado deixou em você. Eu senti tudo. Sua dor, sua agonia…

– Eu sinto muito – Gwen disse, sincera.

– Eu sei. – Erika deu de ombros. – Não foi sua culpa. Temos uma ligação agora.

– Você não parece muito gostar disso.

– Bom, eu não gosto de sentir dor, então não me culpe por estar fula da vida com essa história de sentir o que você sente. De qualquer forma, essa erva – ela apontou para a caneca – Vai impedir que aqueles exilados mordam você novamente. Isso os repele.

– Vou me lembrar disso – Gwen assentiu.

Erika a fitou por alguns momentos em silêncio e então explodiu:

– Honestamente? Você é uma idiota! – disse, furiosa. – O que diabos você estava pensando quando saiu sozinha no meio da noite? Se tivesse ficado lá comigo naquela torre nada disso teria acontecido.

Gwen a encarou, pronta para rebater, mas ao olhar bem para a colega se deu conta da preocupação espreitando os olhos claros.

– Sim, sim… – Erika confirmou, exasperada. – Eu me preocupo com você, sua tola!

– Lê meus pensamentos agora? – Gwen escondeu o sorriso.

– E acaso eu tenho escolha?

– Não acho que nenhuma de nós tenha, embora eu não me importe de estar ligada a você.

– Ah, claro. É maravilhoso compartilhar dor e agonia! – ela disse, irônica.

– Eu teria impedido isso se soubesse como. – Gwen respondeu, sentida.

Erika suspirou.

– Sim, eu sei disso. Você está bem mesmo?

– Agora eu estou. Heron me deu um pouco do sangue dele para eu me recuperar. – Gwen contou.

– E o que isso provoca em você? – Erika perguntou, verdadeiramente curiosa.

– Sarou a minha ferida – Gwen ergueu a bainha da blusa para mostrar a pele intacta. – E eu me senti muito, muito bem.

– Certamente não foi só isso – Erika a fitou com intensidade por um breve momento, enxergando algo através dela. – Sua aura está muito mais brilhante.

– Ele disse que isso aconteceria mesmo.

– Como é? – Erika perguntou – Como é sugar o sangue de um vampiro?

– A sensação é inexplicável. Quando eles sugam o seu sangue, a saliva deles libera endorfinas. Mas quando é você quem suga… É inexplicável.

– O gosto é…

– Doce – Gwen sorriu. – É claro que não se espera isso uma vez que para nós, humanos, o sangue tem gosto de ferrugem. Mas o sangue dele é doce, como uma mistura inebriante de vinhos antigos.

– Você parece ter gostado – Erika observou.

– É difícil não gostar de alguma coisa que tenha haver com Heron. – ela sorriu timidamente.

– Ah, sim… Porque ele é lindo, sensual e gostoso. – Erika sorriu, insolente como sempre. – Olha, Gwen… Seu namorado pode ser tudo isso, mas eu fico com o Dimitri. Aquele cara é o cara…

Gwen enrijeceu ao ouvir aquele nome novamente. Sua mente vagou pelas lembranças dele se deliciando com aquelas duas mulheres e depois com a lembrança cruel do beijo que lhe roubou. Seu coração pulou uma vez dentro do peito e então voltou a bater descompassado.

– Eu só saí do bar sozinha ontem à noite porque Dimitri me beijou – ela disse abruptamente, sentindo a necessidade de contar a alguém.

– O que foi que você disse? – Erika a fitou, cética.

– Isso mesmo que você ouviu. Eu fugi dele, por isso fui atacada.

– Uau! – Erika corou um pouco.

Gwen ficou em silêncio, observando-a absorver aquela verdade.

– E o que você fez? – Erika quis saber.

– Eu correspondi. – confessou, Gwen, perturbada.

– Não acredito! E eu achando que você era toda certinha… Parabéns, Gwen. Agora sim você me surpreendeu.

– É sério, Erika! Não tem a mínima graça. Eu não queria que ele me beijasse.

– Então por que você o correspondeu?

– Eu não sei… – ela suspirou, angustiada.

– Está arrependida.

Não era uma pergunta, mas Gwen respondeu mesmo assim.

– É claro que estou arrependida! Foi uma total idiotice. Eu amo o Heron e me sinto uma cretina por tê-lo traído desse jeito.

– Você não o traiu. Foi apenas um beijo roubado ao qual você não teve chances de resistir.

– Eu tive chances de resistir!

– Gwen, Dimitri é alguém completamente fora do comum. Ele é lindo, sensual, sedutor… É normal sentir interesse por ele. Quem não sente? Mas você ama o Heron. O que aconteceu já passou, foi uma estupidez sem sentido. Apenas isso. Nada mais importa.

Gwen a fitou por um longo momento, analisando a expressão sensata da colega.

– Você deve ter razão. – disse por fim em um suspiro aliviado.

– Eu devo? – Erika deu uma gargalhada, voltando a ser a insolente de sempre. – Não, meu bem. Eu tenho razão!

Gwen não pode deixar de rir.

– Arrogante como sempre…

– Ora, essa é minha marca registrada! Não está contente? Peça à Deusa então para quebrar nossos laços e te dar outra parceira. – ela disse e piscou.

Gwen estava rindo quando a porta se abriu novamente e Helve adentrou. Ela usava o mesmo vestido vermelho de antes e um manto acima do ombro, a coroa de cristais de Alta Sacerdotisa pendia em sua testa, brilhante.

– Minha querida – a bruxa sorriu afetuosamente, estendo os braços.

Gwen saiu da cama apressada e se atirou no abraço da Sacerdotisa, soluçando.

– Ora, bruxinha, por que está chorando? – Helve perguntou.

– Gostaria de não ter que ir embora – Gwen disse baixinho.

– Não quer abandonar Heron – ela sorriu compreensiva.

– Não… E nem você.

– É necessário. – Helve sentou-se na beira da cama, entre as duas jovens – Estaremos esperando você retornar quando for seguro.

– Não gosto da maldita distância – Gwen resmungou, fungando.

– E quem é que gosta? – Helve riu. – Pense na distância como um aprendizado. Como um fortalecimento no amor que você sente pelo jovem Heron. Você tem uma jornada pela frente, Gwen – os olhos da Sacerdotisa brilhavam, sérios e misteriosos – Tem coisas a aprender sobre você mesma nesse período. Você tem vai evoluir antes de poder ficar ao lado de quem ama.

– Não acho que eu vá evoluir coisa alguma convivendo com Dimitri, a não se a minha paciência.

– Você vai perceber que ele tem muita coisa a ver com a sua evolução, pequena – Helve disse com um toque de humor na voz, fazendo Gwen estremecer levemente. – Não tenha medo de se afastar um pouco de Heron. Ele ama muito você, mas também precisa saber da dimensão desse amor. Nada como a distância para reforçar tais laços.

– Eu sei que você tem razão, Helve. Mas a distância é também muito cruel.

– Eu entendo o peso da distância. Mas no momento ela é necessária para a sua segurança e para a sua evolução. Confie em mim.

– Eu confio – Gwen assentiu. – Assim como eu confio na minha própria intuição me dizendo que devo ir, embora eu saiba que é a maior furada.

– Uma bruxa sempre sabe o que deve fazer.

– Sentirei saudades – Gwen disse, sentindo as lágrimas invadir os olhos. – Não sei como e nem por que, mas gosto de você como se fosse minha mãe.

– Posso dizer o mesmo de vocês duas. – Helve disse, fitando as duas meninas com carinho. – Para uma Sacerdotisa, todos seus aprendizes são como filhos. E eu as vejo como as minhas mais queridas meninas.

Ambas a abraçaram, mergulhando na paz profunda que emanava daquela mulher misteriosa e antiga.

– Vou deixa-las agora, pequenas bruxinhas. – Helve disse e lamentou tal fato – Vim me despedir e desejar que façam uma viagem tranquila. Que o vento leve vocês em segurança, que o fogo queime os perigos que se atrevam entrar em seus caminhos, que a água acalente as tristezas impostas e que a Terra sustente cada uma de vocês. E que a Deusa abençoe suas almas – ela fez uma pequena mesura, abençoando-as tão logo recitou a antiga benção celta que conhecia.  – Não temam, pequenas. Tudo vai se resolver no final e vocês poderão escolher o caminho que querem seguir. E se acaso quiserem meus conselhos, simplesmente me procurem… Sei que arrumarão um modo de me achar. – a Sacerdotisa piscou uma vez, misteriosa antes de sair suavemente.

Erika sorriu para a colega, entendendo a mensagem secreta nas palavras de Helve. Uma bruxa sempre reconhece os truques de outra.

– Acho que não ficaremos tanto tempo sem vê-la – disse Erika.

– Também acho – Gwen sorriu em cumplicidade.

A porta mais uma vez se abriu e desta vez foi Heron quem entrou no quarto, acompanhado de Astrid. A vampira estava bela como sempre e foi logo abraçando Gwen com afeto enquanto Heron pegava as malas no chão e se encaminhava para fora.

Erika o acompanhou em silêncio pelos corredores sombrios, deixando Gwen com sua amiga, ou seria sogra? Ela deu de ombros, mais preocupada em sair logo daquelas terras frias do que pensar em bobagens.

Gwen realmente aproveitou a presença de Astrid, andando ao seu lado.

– É uma pena que não possamos ficar juntas por mais tempo – Astrid disse com tristeza – Gostaria de lhe mostrar tantas coisas.

– Você me mostrará! Teremos essa chance quando isso tudo terminar. – Gwen prometeu.

– Assim eu espero, minha querida. Já era tempo de tudo isso ter acabado. Espero que não demore mais. – uma tristeza antiga fundiu seus olhos.

– A esperança é a última coisa que devemos perder. – Gwen disse ao lhe tocar o ombro suavemente.

– É como todos aqui pensamos – ela sorriu, aprovando o comentário da jovem. – Espero vê-la de volta a essas muralhas, ao lado do meu filho como uma princesa. Seríamos uma família feliz. Você até perderia o medo de Morris. – a vampira sorriu, divertindo-se com aquilo.

– Eu espero realmente um dia perder esse medo – Gwen confessou com um sorriso.

– Ele não é tão cruel quanto aparenta. É durão demais, apenas isso.

– Espero um dia poder conhecer o coração dele de verdade – Gwen disse com sinceridade.

Astrid lhe sorriu com carinho.

Gwen caminhava pelos cascalhos brilhantes, vendo o grande portão de ferro logo a frente. Embora estivesse compelida a ir naquela direção, sua vontade era agarrar-se a Heron e fugir para um lugar só deles onde ninguém pudesse separá-los novamente. Como se pudesse ouvir seus pensamentos, ele assumiu o lugar onde Astrid estava, dando um beijo suave na bochecha da mãe. Astrid sorriu uma vez, enlaçando o braço na cintura do filho com o mesmo carinho.

Gwen desejou desesperadamente ficar ali com eles, como uma família de verdade. Mas ela sabia que isso não seria possível no momento. Recordou-se das palavras de Helve e tirou forças dela para conseguir atravessar aqueles portões.

Seu coração se apertou de um jeito doloroso quando percebeu que o momento da partida estava chegando rápido demais. Seu medo não era tanto o de ficar longe de Heron, mas sim a possibilidade de ficar perto de Dimitri.

Ele estava lá, parado casualmente ao lado do portão, sedutor e sensual. A calça grossa e negra em conjunto com o casaco marrom escuro dava a ele um ar sobre-humano, mas também uma beleza irresistível. Quando seus olhos se encontraram, ele abriu um sorriso estonteante que a fez querer sair correndo.

– Vejo que está melhor – ele disse, observando-a com atenção. – Bom.

– Graças ao Heron estou muito bem, obrigada. – Gwen disse, seca, e desviou os olhos.

Astrid lhe sorriu com carinho e lhe deu mais um abraço.

– Vá com sua Deusa, querida. E que ela te proteja sempre. – disse a vampira, com afeto.

Morris, que até então não estava presente, se aproximou a passos largos. Sua presença sempre seria surpreendente para ela, principalmente quando ele se vestia com tanto esmero. A túnica negra daquela noite tinha o bordado cor de sangue, o que o fazia parecer ainda mais sobrenatural e atraente.

– Faça uma boa viagem, pedacinho de gente – disse ele e, ao que parecia, sua voz soara gentil.

– O-obrigada. – Gwen agradeceu em um sussurro, mas viu Astrid apertar o braço do companheiro em sinal de aprovação.

Erica se despediu dos outros também, um pouco acanhada e então eles se dirigiram ao carro luxuoso do lado de fora dos portões, onde Dimitri os esperava. Gwen agarrou a mão de Heron com força, acompanhando-o em silêncio. Ele colocou a bagagem no porta-malas e se voltou para o colega.

– Leve-as para San Diego para que possam se despedir da família. Depois vá para Baton Rouge e as mantenha em segurança. Cuide delas como se fossem parte de sua família. – Heron alertou, sério. – Estou confiando em você para isso, Dimitri.

– Elas ficarão bem – Dimitri garantiu. – Sua Gwen ficará bem.

– Não deixe que nada aconteça a nenhuma das duas. – Heron insistiu. – E não pense que eu não sei que você a beijou. – ele disse, lançando um olhar muito sério ao outro. – Não tente nenhuma idiotice ou eu acabo com você!

– Não seja egoísta, Heron. – Dimitri o provocou – Já dividimos tantas mulheres antes.

Heron sentiu o sangue ferver em suas veias, a provocação do outro o irritou o suficiente para fazê-lo virar-lhe um soco. Dimitri cambaleou, esfregando o ponto onde o soco o atingiu. Com um sorriso malicioso, ele limpou o sangue do canto da boca.

– Até parece que nunca foi assim – ele riu, fazendo Heron se recordar do passado e irritando-o ainda mais.

– O que eu fui um dia já morreu. Mantenha-se em seu lugar!

Dimitri cuspiu o sangue no chão e entrou no carro, o sorriso malicioso intacto no rosto. Gwen o acompanhou com o olhar, não sabia ao certo o que dizer ou fazer. Aquele soco fora muito bem vindo, ele merecia.

Heron a envolveu gentilmente com os braços, enterrando o rosto nos cabelos macios e cheirosos sem dizer uma única palavra. Queria poder se lembrar do cheiro dela para sempre… Seus lábios roçaram os dela gentilmente, exigindo um beijo. Algo que ela jamais lhe negaria.

Gwen envolveu-o com os braços, deslizando os dedos pelo cabelo macio como tanto amava fazer, desejando que aquele beijo durasse uma eternidade. Seus lábios não eram gentis, ela queria guardar o gosto dele em sua boca por tempo o suficiente para não sentir saudades.

– Tome cuidado, Mici. – ele disse entre um beijo e outro – Fique sempre ao lado de Dimitri, mas tome cuidado com ele. Se ele tentar qualquer coisa, defenda-se com a sua magia, sei que pode fazer isso.

– Desculpe, eu devia ter… – ela começou, mas os lábios de Heron a silenciaram novamente, tomando seu fôlego.

– Sem desculpas, Gwen – ele sussurrou contra a boca dela – Não precisa me pedir nada. Eu sei que a culpa não foi sua, ele joga sujo. Por isso deve ter o máximo de cuidado. Eu confio nele inteiramente apenas para protegê-la, mas duvido que ele possa manter as garras longe de você.

– Eu terei cuidado. – ela prometeu.

– Não se esqueça de mim, Mici. Porque eu não vou me esquecer de você em nenhum momento. Prometo te buscar o mais rápido que eu puder.

Ele a beijou mais uma vez, apaixonadamente.

Te iubesc – sussurrou em seus lábios.

Gwen não precisava de tradução.

– Eu também amo você – ela disse.

Heron a beijou uma vez mais na testa, então seus olhos se voltaram para Erika.

– Cuidem uma da outra – ele disse, sério. – Helve não as uniu à toa. Cuidem uma da outra e fiquem sempre juntas.

– Não se preocupe, Heron. Vou cuidar dela – Erika garantiu.

– Não é somente com ela que eu me preocupo, Erika. – ele disse, com intensidade. – Vocês duas são responsabilidade minha.

Erika o fitou, confusa e surpresa por um momento, então assentiu, entrando no carro.

Gwen se voltou para Heron mais uma vez.

– Mantenha-se sempre na luz. Não deixe a escuridão chegar perto de você novamente e se acaso elas insistirem, lembre-se de sua estrela. Jamais deixarei de brilhar para você. – ela disse e o beijou uma última vez antes de entrar no carro.

Quando fechou a porta, Gwen pôde sentir as lágrimas banhando seu rosto e soube que aquilo era apenas o começo. Mas ela precisava enfrentar isso e estava decidida a trilhar aquele caminho com espadas nas mãos…

O portão de ferro se fechou atrás do carro e logo o encanto de Brasov foi ficando para trás junto com suas sombras impiedosas e o homem que ela amava.

*-* *-*

 – Você deveria passar para a frente. – disse Dimitri quando alcançaram a estrada principal para o aeroporto em Bucarest.

– Não, obrigada. – Gwen respondeu de mau humor. – Estou muito bem aqui.

Erika havia adormecido com a cabeça apoiada no ombro de Gwen tão logo a viagem começou, estavam bem acomodadas no banco traseiro e nem por um milhão de dólares Gwen se sentaria ao lado de Dimitri. Seus olhos se distraíam com as paisagens fascinantes da estrada conforme a viagem transcorria, não estava com vontade de dormir e dispensava qualquer conversa com aquele vampiro.

Ele a olhava de cinco em cinco minutos através do espelho retrovisor, os olhos profundos como sempre. Mas ela o ignorava totalmente, não queria correr o risco de mergulhar na escuridão daquele olhar, como sabia que aconteceria caso ousasse cruzar os olhos com os dele. Não, ela preferia observar as árvores cobertas de neve pela janela, concentrava toda a sua atenção naquelas paisagens para não se trair.

– É impressão minha ou você está me ignorando? – Dimitri perguntou em dado momento com o sorriso malicioso.

– Impressão sua.

– Não sabia que meu beijo provocaria tal reação em você – ele riu, divertindo-se em provoca-la.

– Como está o seu queixo? – ela perguntou, maldosa.

Dimitri deu uma risada gostosa, examinando o queixo no espelho. Não havia nem vestígios do soco que havia levado.

– Você não faz ideia do quanto eu e Heron já brigamos pelas mulheres. Costumávamos dividir muitas. – ele sorriu.

– Bom, então eu sugiro que você se contente com todas as outras, porque a mim você não terá. –ela disse, muito educada.

– Você está certa disso, Gwen? – ele a fitou com sensualidade.

– Completamente. Não sou uma Prostituta de sangue para vocês trocarem ou dividirem como uma figurinha.

– Não, você certamente não é uma Prostituta de sangue – ele disse e alguma coisa em sua expressão fez Gwen se sentir incomodada. – No entanto, você não pode negar que sente alguma coisa por mim.

– Oh, sim, eu sinto algo por você… Asco. – ela o olhou diretamente nos olhos, apreciando ver aquela presunção morrer no rosto dele.

Dimitri pisou no freio com tudo, fazendo o carro dar um tranco no meio da estrada vazia. Ele se virou no banco lentamente e fitou os olhos assustados de Gwen.

– Diga-me que você não sentiu nada quando a beijei – ele disse, a voz tão intensa quanto seu olhar.

Gwen o fitou em profundo silêncio, acuada com a presença dele. Era absurdamente intimidador a forma como ele a fitava, como se pudesse enxergar através dela, como se pudesse fazê-la confessar seus mais íntimos segredos… Como se a desafiasse a seduzi-lo.

Ela desviou os olhos, perturbada.

– Está enganado – ela disse, a voz mal disfarçada.

– Está mentindo – ele disse, imperturbável.

– Não estou! –ela teimou.

– Então por que não olha para mim enquanto fala?

– Pouco me importa o que você pensa. –ela disse, ferina.

Dimitri continuou fitando o rosto virado para a janela. Quanto mais ela o ignorava, mais ele queria provoca-la, mais ele a desejava. Para alguém como ele, ser dispensado era algo inaceitável, ainda mais vindo de uma humana tão simplória. Em séculos, nunca uma mulher – mortal ou imortal – ousou recusá-lo. E agora ela o fazia de uma forma tão ousada que o instigava a querer devorá-la.

– Será que podemos ir embora? – Gwen perguntou, impaciente. – Não é seguro ficar parado no meio de uma estrada vazia com aqueles exilados por aí.

– Eu estou armado – ele respondeu como um dar de ombros, os olhos fixos nela.

Gwen perdeu a paciência e finalmente o encarou.

– Pode, por favor, ligar o carro e nos levar para longe daqui?

– Temos tempo.

– Mas que inferno! Qual é o seu problema comigo? O que você quer? – ela atirou as mãos para o alto, exasperada.

– Você – ele disse simplesmente, fazendo-a estremecer.

– Vai ficar querendo. – ela disse, inclinando-se para a frente, o rosto a centímetros de distância do rosto dele. – Agora, se você não parar de tentar me seduzir e não ligar esse carro para nos tirar daqui, eu vou atirar você para fora e eu mesma vou dirigir até o aeroporto. – ela o ameaçou, balançando os dedos levemente iluminados por sua magia.

Dimitri deliciou-se com a ameaça.

– Você não tem poder para me lançar para fora daqui, mesmo sendo uma bruxa. Embora a ideia seja bastante excitante. – disse ele, rindo.

– Ah, Dimitri você não vai querer ver a dimensão dos meus poderes – ela o alertou.

– É uma ameaça, Gwen? – ele a fitou com os olhos ardentes.

– Eu posso ser humana, mas sou bruxa. Então acredite em mim quando digo que eu tenho força o suficiente para te por para fora!

– Ah, Gwen… – ele suspirou, verdadeiramente deliciado. – Você é deliciosamente tentadora. Mal posso esperar para você me jogar para fora do carro, talvez eu até lhe dê mais um beijo para adoçar sua vida.

– Dimitri, a próxima vez que você ousar me beijar, pode ter a certeza de que arrancarei a sua língua fora. – ela alertou, bastante séria.

Ele gargalhou.

– Não negue o que você tanto anseia.

– Não seja assim tão presunçoso. Não é porque você é bonito e imortal que todas devem cair aos seus pés. Pare de me provocar. Não sei qual é o seu problema comigo, mas não vou cair nesse seu joguinho sujo.

– Você ficaria surpresa do quanto gostaria de jogar esse joguinho sujo. Eu percebi isso no momento em que a beijei. Você sentiu algo sim, só não quer admitir.

– Eu não senti absolutamente nada.

– Eu não acredito em você. – ele sorriu. – Se isso fosse verdade você não teria correspondido tão arduamente.

– Sabe o que eu senti quando você me beijou, Dimitri? – Gwen perguntou, séria. – Uma dor desgraçada causada pelos dentes de Amadeo. Afinal de contas foi por causa do seu beijo que eu saí correndo e fui atacada. Agradeço a você por isso.

Os olhos dele se tingiram com uma tristeza profunda, ele se voltou para a frente e deu partida do carro, prosseguindo então com a viagem sem mais nem uma palavra.

Quando chegaram ao aeroporto, Erica puxou Gwen para um canto afastado.

– Você pegou pesado com ele no carro, Gwen. – ela repreendeu a outra, apontando Dimitri do outro lado da sala de espera.

-Você estava acordada! – Gwen a acusou.

– É claro que eu estava! Só não queria me intrometer no joguinho de vocês dois.

– Não há joguinho nenhum! Ele que não me deixa em paz. Foi bem feito para ele ouvir tais coisas, ele mereceu.

– Sim, mereceu. Mas você o fez se sentir culpado. Ele é culpado por tê-la beijado e não pelo ataque do Amadeo.

– Se ele não tivesse me beijado nada disso teria acontecido, então a culpa é dele sim! – disse Gwen irritada e se afastou da colega, procurando se sentar bem longe daqueles dois.

O Sangue da Meia Noite – Capítulo 08

Escrito por Natasha Morgan.

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Ela acordou com o toque suave dos lábios de Heron em seu pescoço. Sorriu, abrindo os olhos e emitindo um gemido de pura satisfação. Seus dedos encontraram os cabelos macios dele, envolvendo-os suavemente.

Ela amava fazer isso.

Heron sorriu, manhoso e a beijou nos lábios apaixonadamente.

– Bom dia, Mici. – ele sussurrou em seu ouvido.

Gwen se deliciou com aquelas palavras, estar na cama ao lado dele, ser acordada pelo toque dos lábios dele e saber que ele era seu a fazia a mulher mais feliz do mundo. Ela sorriu, fitando o rosto de quem mais amava. A pele dele estava pálida e gelada, os olhos um tanto escuros.

– Não se alimentou – ela percebeu.

– Não tive tempo para isso – ele disse, pouco se importando. – Você estava fraca…

– Eu estou bem – ela o assegurou. – Na verdade estou muito, muito bem – sorriu, lembrando-se da noite mágica que tiveram.

Como se lendo seu pensamento, Heron sorriu malicioso e mordiscou-lhe o pescoço.

– Foi a noite mais perfeita de toda a minha vida. – Gwen lhe confidenciou, os olhos brilhando.

– Se você tirar a parte em que quase morreu, acreditaria se eu dissesse que a minha também? – ele perguntou, fitando-a com intensidade. – Já tive mulheres ao longo de minha vida toda, você sabe, mas nenhuma que me fizesse sentir o que você me faz sentir.

Gwen sentiu o sorriso se espalhar por seus lábios e atirou-se nos braços de Heron, esmagando os lábios nos dele num beijo intenso e sufocante. Ele correspondeu ao beijo com o mesmo entusiasmo.

– Você se guardou para mim – ele disse, maravilhado e a beijou novamente.

– Eu sempre achei que tivesse que me guardar para alguém especial – ela corou um pouco – Estava esperando por você.

Desta vez quem cedeu aos impulsos daquela paixão foi ele, puxando-a de encontro ao seu corpo e beijando-lhe a boca avidamente. Aquela confissão martelava em seu peito, sentia-se honrado por aquela pequena coisinha, mas que para ele era muito. Havia conhecido mulheres em todos os cantos, em todos os séculos, mulheres de todos os tipos… Mas Gwen… Gwen o desarmava tão facilmente.

– Você está fraca – ele sussurrou em seus lábios, relutante em soltá-la. – Perdeu muito sangue ontem.

– Estou bem – ela garantiu, sem a mínima vontade de separar-se do corpo dele.

– Isso é porque meu corpo anestesia você.

– Deixe então que ele me anestesie – ela disse, esfregando o rosto manhosamente no dele.

– Ah, Gwen… – ele suspirou, deliciando-se com o desejo dela.

Segurando-lhe o rosto entre as mãos, ele a fitou muito sério.

– Gwen, eu tenho bebido o seu sangue várias vezes para saciar minha fome e me fortalecer. Mas hoje eu quero que você beba o meu sangue.

Gwen franziu o cenho.

– Mas… – ela disse e então se calou.

– Vai fortalecer você. Deixá-la mais forte e recuperar o sangue que você perdeu. – ele explicou.

– Não sabia que isso era possível.

– Meu sangue é mágico, Gwen. Ele cura.

– Qualquer coisa? – ela perguntou, surpresa.

– Qualquer coisa – ele assentiu – Até mesmo a morte.

Ela o fitou, espantada.

– É o que acontece quando presenteamos alguém com o Beijo da Meia Noite. – ele explicou – Quando fazemos a troca de sangue com a pessoa que escolhemos beijar, nosso sangue preenche as lacunas do corpo humano, misturando-se ao sangue mortal e assim transformando a pessoa em algo perfeito. O Beijo é para selar o compromisso eterno.

– Isso é… Mágico.

– A Magia está em todos os lugares do meu mundo – ele lhe sorriu.

– Mas se eu beber do seu sangue, o que irei me tornar? – ela perguntou, cautelosa.

– Irá se tornar ainda mais amada – ele sorriu, beijando-lhe os lábios suavemente. – O seu brilho vai aumentar, assim como o laço que temos. Quando você foi Tocada pela Meia-Noite, nós desenvolvemos um laço. Bebendo o meu sangue, você intensificará essa nossa ligação, pois terá parte de mim dentro de você.

– Você sentirá dor?

– Não – ele riu da preocupação dela – Na verdade será muito prazeroso.

Gwen franziu o cenho para ele, desconfiada.

– Ah, Gwen… Você não pode imaginar o quanto eu vou gostar de sentir seus lábios sugando o meu sangue. – ele disse a ela de uma forma tão sensual, que ela piscou, zonza.

– Você é absurdamente malicioso. – ela o repreendeu, mas sorriu.

Heron a endireitou na cama, estendo-lhe o corpo nu nos lençóis revirados e deitou-se ao lado dela, levemente inclinado. Seus olhos estavam dilatados, parecia ansioso com o que iria acontecer.

– Não tenho dentes afiados – ela o lembrou, nervosa.

– Não vai precisar.

Ele passou suavemente a unha levemente afiada pelo pulso, fazendo o sangue poderoso e antigo fluir.

– Que gosto tem? – Gwen perguntou, a respiração pesada à medida que via o sangue pingar próximo a sua boca.

– Experimente – ele disse, sensualmente e estendeu o pulso sobre os lábios dela.

Gwen sentiu uma sensação estranha quando seus lábios encontraram o pulso ferido. Primeiro ela passou a língua gentilmente pelo corte, experimentando uma leve doçura, então ela abriu a boca e deu uma forte sugada, sentindo e ouvindo o gemido intenso de Heron.

O gosto doce, forte e antigo anestesiou sua boca, fazendo-a sentir o poder extenso do que corria nas veias de Heron. O líquido era grosso, delgado, desceu como veludo por sua garganta, fazendo-a se lembrar do sabor intenso do vinho mais antigo que já provara. Era inebriante. Podia senti-lo preenchendo todos os pontos fracos de seu corpo, fortalecendo-a… Fazendo seu corpo formigar numa sensação gostosa.

Heron gemeu enquanto a sentia sugar cada vez mais forte. Era maravilhosa a sensação de seu sangue vertendo para dentro do corpo dela. Ela não liberava endorfinas, é claro, mas sentir os lábios dela sugando, vê-la se contorcer e apreciar cada gota de seu sangue o excitava ao extremo. Era quase erótico.

Sabia que teria de pará-la em dado momento, mas decidiu aproveitar cada segundo. Sua mão deslizou-se pelo corpo dela, lentamente, encontrando os seios rijos. Os dedos hábeis, apertaram-nos carinhosamente, fazendo-a gemer uma vez com profundidade. Ela estava entregue tanto quanto ele.

Heron sorriu com málica e decidiu ir um pouco mais fundo. Desejava explorar aquele corpo novamente, os dedos ansiosos por tocar, acariciar e arrepiar a pele macia. Ele sabia ser cruel, sabia ser sedutor e sabia ser ousado. Quando seus dedos encontraram a carne feminina por entre as coxas dela, ele a ouviu arfar e soltar-lhe o pulso.

– Continue – ele ordenou, a voz rouca.

Gwen obedeceu, voltando os lábios para o sangue pecaminoso que ele tão livremente oferecia e sentiu os dedos dele roçarem sua intimidade. Seu coração acelerou com a expectativa, ele sabia muito bem como provocá-la. Um dos dedos deslizou para dentro dela enquanto ele ocupava sua boca com um dos seios suaves e rosados.

Gwen estremeceu, mas continuou a beber, sentindo os dedos dele se moverem em movimentos circulares, arrancando-lhe arrepios e gemidos intensos. Quando soltou-lhe o pulso pela segunda vez não houve protestos, a boca dele subiu sôfrega, apossando-se da sua num beijo ardente. Ela agarrou-se a ele imediatamente, desejando que o corpo dele a anestesiasse como na última vez.

Heron não largou os lábios dela, extasiado com o gosto do próprio sangue. Mas pôde sentir o toque suave e hesitante de Gwen em seu corpo, as mãos dela deslizaram lentamente por seus ombros, tórax, barriga e finalmente encontraram seu membro rijo. Ele gemeu alto uma vez e num movimento rápido, separou-lhe as pernas e penetrou-a.

Gwen gemeu e cravou as unhas nas costas dele, sentindo seu corpo se mover por vontade própria ao ritmo do corpo dele.

– Amo você – ele disse, olhando-a fixamente.

Em resposta, Gwen o beijou deixando-se levar pela paixão intensa que sentia por ele. Consumidos por aquela paixão, eles flutuaram naquela onda intensa rumo ao clímax. Heron arqueou o corpo, sentindo a sensação extasiante se espalhar por todo o seu ser… Sentindo Gwen estremecer sob ele e cravar as unhas mais uma vez em suas costas.

Ele sorriu, malicioso, imaginando se ela deixaria marcas.

Gwen suspirou, totalmente satisfeita. Seus olhos se encontraram com os dele, intensos. Heron virou-se de costas na cama e a puxou para cima, sentindo as pernas dela envolverem seu quadril.

– Como se sente? – ele perguntou, a voz pastosa.

– Eu me sinto… – ela inspirou, fechando os olhos momentaneamente. – Perfeitamente bem. – sorriu.

Ele a fitou por longos minutos em silêncio, observando o rosto dela. A cor já estava de volta, os lábios não estavam mais pálidos, os olhos recuperaram o foco e ela estava quente novamente.

Ele suspirou aliviado.

– Gwen, aqui não é mais seguro para você.

Ela franziu o cenho, sem entender.

– Mas você disse que aqui é o lugar mais seguro para mim. As muralhas e os guardas nos protegem.

– No entanto nenhum deles foi suficiente para te proteger ontem à noite. – Heron disse, a amargura tingindo-lhe a voz.

– Então o que você sugere?

– Você vai voltar para os E.U. A – ele disse.

– Deixar você? – ela perguntou, incrédula.

– É um mal necessário – e sua expressão dizia claramente o quanto ele estava odiando tudo aquilo.

– Eu não quero me afastar de você novamente!

– Eu também não, Mici. – ele tocou os lábios dela gentilmente. – Eu também sofri com a sua ausência, mais do que você pode imaginar. Quase perdi a minha humanidade. Mas eu preciso pensar na sua segurança! Não estou disposto a deixar você à mercê de Amadeo.

– O lobo albino era Amadeo? – Gwen perguntou, surpresa, e estremeceu ao se dar conta de que fora atacada pelo líder dos Filhos da Noite.

– Sim -Heron disse, com raiva – Ele é o único albino da alcateia… E o mais perigoso também! Você viu como as coisas saíram de controle, viu o quanto é perigoso ficar à mercê de Amadeo. Eles farão de tudo para matá-la. Se não fosse por Dimitri você estaria morta… Ou pior, Amadeo poderia tentar transformar você em uma exilada.

Gwen estremeceu com a ideia.

– Não é seguro para você aqui, Gwen. Precisa ir embora – Heron disse com pesar.

– Heron, não vou deixar você! Se esse lugar não é seguro para mim, então nenhum outro será. Quer me mandar de volta para casa? Lá é o lugar mais fácil para eles me encontrarem.

– Você não vai voltar para San Diego. – ele disse, de má vontade. – Só há um lugar seguro para você agora. Você vai para Baton Rouge com Dimitri.

Gwen arregalou os olhos numa expressão cética.

– Eu vou para onde? – ela se obrigou a perguntar.

– Dimitri vai mantê-la em segurança até que eu possa cuidar de você pessoalmente.

– Você só pode estar brincando! – ela se afastou dele, sentando-se na cama e cobrindo-se com um lençol. – Está mesmo dizendo que eu preciso ir morar com um vampiro totalmente traiçoeiro, perigoso e tarado?! Você me alertou para ficar bem longe dele e agora vem me dizer que eu devo confiar nele?

– Dimitri vai fazer exatamente o que eu disser a ele para fazer. – Heron disse, sombrio.

– Ah, claro! Você é chefe dele, não é mesmo? – ela disse, irônica.

– Não, Gwen. Eu não sou! Mas Dimitri sabe que você precisa estar segura e vai me ajudar a protegê-la. Ele pode ser o que for, mas quando se trata de lealdade, quando se trata de alguma coisa séria, ele não decepciona.

Gwen o fitou de mal humor.

– E por que você acha que eu estarei segura ao lado dele? O que te faz pensar que ele não vai me atacar, afinal você mesmo disse que Dimitri é um selvagem que só responde aos próprios instintos. O que te faz pensar que Amadeo não vai conseguir me achar?

– Dimitri controla sua selvageria quando realmente é importante. E Amadeo não ousaria pisar no território dele.

– Amadeo não ousaria pisar no território de Dimitri? – Gwen ergueu as sobrancelhas.

– Amadeo não enfrenta Dimitri. – Heron explicou – Por motivos que nem Deus responde, ele não entra no caminho de Dimitri… Parece ter medo dele.

– Medo? – Gwen franziu o cenho.

– Medo, receio. Quem pode saber? A questão é: você estará completamente segura em Baton Rouge.

– Não tenho tanta certeza disso – ela murmurou.

– Gwen, confie em mim. Eu jamais mandaria você para um lugar se não tivesse certeza de que você estaria segura.

– Confiar em você? – ela repetiu, sentindo o sangue ferver. – Você tem alguma ideia de como foi horrível ficar longe de você? Tem alguma ideia do quanto eu sofri saindo da minha casa? Eu tenho sentimentos, Heron! Não sou uma Prostituta de Sangue para você me abandonar ou me dar de presente quando não quiser mais! – ela foi cruel, sabia disso, mas naquele momento a raiva comandava suas palavras.

– Acha mesmo que eu a considero uma Prostituta de Sangue? – a voz dele saiu extremamente magoada, assim como seus olhos.

Gwen se arrependeu imediatamente do que havia dito. Seus olhos encheram-se de lágrimas.

– Não – ela baixou os olhos – Desculpe.

Heron se aproximou lentamente, envolvendo-a nos braços e limpando as lágrimas. Seu olhar era pesaroso, triste.

– Eu amo você, Gwen. – disse ele, apertando-a – Não é possível que você ainda duvide disso. Não quando vê o que eu sinto por você. Afastar-me de você vai ser mais difícil do que imagina, mas você precisa entender que eu não posso correr o risco de perdê-la. Eu prefiro mil vezes saber que você está longe e segura do que tê-la aqui em meus braços e saber que posso perdê-la a qualquer momento.

– Quanto tempo? – ela sussurrou. – Quanto tempo terei que ficar longe?

– Pelo menos até eu resolver as coisas por aqui. Morris precisa de mim. Não posso me dar ao luxo de ir embora com você. Ele ficaria furioso, ainda mais depois que eu prometi servi-lo quando ele precisasse desde que a deixasse viva. Eu não tenho escolha.

– Todos temos escolhas – argumentou ela, amarga.

– Não nesse quesito. Preciso ficar.

– Quanto tempo? – ela repetiu.

– Não tenho como saber, Mici. Prometo que resolverei o mais rápido que puder e então voltarei para os seus braços, se assim você permitir.

Gwen o fitou com intensidade, deixando o silêncio dominar o quarto. Seus olhos eram tristes, raivosos e por alguns momentos, desolados.

– Você sabe o quanto eu amo você, não sabe? – ela finalmente falou. – Mais do que já amei qualquer um. E é por esse amor tão grande que sinto por você que me permito aceitar uma coisa dessas. É pelo que eu sinto por você que vou esperá-lo voltar. Mas não pense nem por um minuto que estou gostando disso!

– E você acha que eu estou? Acha que gosto da ideia de me separar de você? De deixar você aos cuidados de Dimitri? – ele a fitou com intensidade.

– Acho que a minha segurança é mais importante para você do que qualquer outro sentimento mesquinho que você possa ter em relação a Dimitri. – ela admitiu.

– E isso não prova o quanto eu te amo?

– Você provou que me ama quando me beijou pela primeira vez – disse ela, fitando-o com carinho. A raiva ia se dissipando de seus olhos a medida que falava – Você provou que me ama quando me salvou do veneno de Amadeo. Você provou que me ama quando fez amor comigo, quando tocou cada pedacinho do meu corpo com os seus dedos – ela se aproximou dele, roçando os lábios nos dele – Com seus lábios – ela o beijou – Com a sua alma.

Heron a puxou para junto dele e esmagou a boca na dela num beijo apaixonado e sôfrego.

– Ah, Gwen… – ele murmurou.

– Amo você – ela disse, por sua vez.

Ele a ergueu no colo suavemente e a colocou no chão. Por um momento os olhos dele se perderam na beleza do corpo dela, desejando perder-se nele mais uma vez. Mas então ele sorriu, beijando-lhe a orelha.

– Por que você não toma um banho quente? – ele sugeriu.

– Está me dizendo que estou fedida? – ela se permitiu sorrir.

– Você cheira a alfazema – ele disse, sensualmente –Em qualquer circunstância, seu cheiro é o mesmo para mim.

Gwen sorriu, beijando-o de leve nos lábios.

– Amo você, Heron.

– E eu amo você, Iubirea mea. – ele disse com a mesma intensidade.

Ela o fitou, fascinada.

– Significa meu amor – Heron traduziu com um sorriso.

Gwen se atirou nos braços dele mais uma vez, beijando-lhe a boca com intensidade. Então, lançou-lhe um olhar significativo e foi tomar seu banho. Mas assim que pisou no banheiro ela pôde sentir o desespero tomando conta dela, sufocando-a e fazendo seu coração bater mais forte. Não podia acreditar que teria de deixar Heron mais uma vez… Ficar longe dele por um tempo indeterminável.

Nem tivera a oportunidade de matar as saudades. Não ficara com ele tempo o suficiente para suportar se afastar. A sombra daquela dor desconfortável que havia sentindo quando ele se foi pela primeira vez ameaçou voltar com força, tirando-lhe o fôlego.

Ela não era estúpida. Sabia que precisava ir embora, compreendia os motivos que o fizeram tomar tal decisão. Ela precisava ficar segura, precisava permanecer em segurança. Depois de ser atacada, percebeu o quanto aqueles exilados eram perigosos, eles estavam mesmo empenhados em matá-la. E, sem dúvidas, ela não queria morrer. Mas saber disso não atenuava a dor em seu peito ao pensar em quanto tempo teria de ficar longe. De Heron e da família.

Quando não se ama ninguém, quando o amor é apenas uma simples palavra sem crédito para as pessoas, elas não entendem, de fato, o quanto é doloroso se afastar da pessoa amada. Mas quando se ama alguém intensamente, com todas as forças de seu coração… Aí é tudo diferente. Você passa a entender exatamente como é se separar da outra pessoa.

Gwen suspirou e ligou o chuveiro, sentindo o jato de água quente massagear seu ombro e aquecê-la da brisa fria de Brasov. Não queria pensar no depois, não queria pensar em deixar para trás aquele lugar… Não queria pensar em se separar de Heron. Então se concentrou no banho, aproveitando cada minuto do calor gostoso que ele lhe proporcionava.

Não, ela não iria chorar. Teria tempo para fazer isso depois, quando a saudade a dominasse nas noites vazias. Em vez disso, pensou na noite maravilhosa que tivera. Ah, como ela havia amado cada momento em que passou sendo amada nos braços de Heron. Cada toque, cada beijo… Cada roçar de pele. Fora maravilhoso. Um momento inesquecível. Algo que ela levaria para o resto da vida…

Gwen fechou os olhos, deixando a água morna banhar seu rosto enquanto se entregava às lembranças intensas daquela noite. Sua pele arrepiou ao se recordar de como havia sido tocada. Ela deslizou as mãos pelo corpo, refazendo o caminho que Heron tantas vezes fizeram com os dedos… Com os lábios.

Quando seus dedos tocaram o quadril, Gwen franziu o cenho, olhando para baixo. Estava liso. A pele, antes dilacerada, estava agora intacta como se jamais houvesse sido ferida por dentes cruéis.

– Não haverá cicatriz. – a voz de Heron a sobressaltou, não o havia escutado entrar.

Ele estava parado de frente ao Box, fitando-a com intensidade. Seu corpo nu ainda era espetacular aos olhos dela. Lindo, sedutor, musculoso… Ela o desejou de imediato.

Heron se aproximou com lentidão, os movimentos ensaiados, e a abraçou, colando os lábios frios no ouvido dela.

– Não quero que vá embora sem eu ter estado dentro de você novamente – ele sussurrou, fazendo-a estremecer.

Com um gemido baixinho, Gwen envolveu os braços em seu pescoço e o beijou, entregando-se de boa vontade. Precisava que ele deixasse sua marca nela antes de partir, algo que ela pudesse levar consigo. E ao que parecia, ele queria a mesma coisa, pois quando a beijou, seus lábios foram possessivos e ardentes nos dela, como se estivesse mesmo marcando-os como dele.

Heron a ergueu, sentindo as pernas dela se enlaçarem em seus quadris automaticamente. Ele sorriu nos lábios dela, aprovando. Gostava da sintonia em que seus corpos se moviam, como se tivessem movimentos próprios, ansiando em alcançar aquele prazer maravilhoso que somente os apaixonados conseguiam.

Gwen tocou o rosto dele gentilmente com a ponta dos dedos, fitando os olhos amendoados que tanto amava.

– Não me deixe ficar longe de você – sussurrou, o olhar suplicante.

– Não por muito tempo – garantiu ele.

– Fique comigo.

– Para sempre, Iubirea mea. – ele prometeu, com intensidade, e a sentiu relaxar em seus braços. Gentilmente, ele afastou os cabelos molhados do rosto dela para que seus lábios pudessem roçar.

Gwen o beijou apaixonadamente, sugando os lábios frios e aveludados com carinho e deixando que o corpo dele reforçasse a lembrança da noite anterior.

*-* *-*

 Heron desligou o chuveiro com a respiração ainda ofegante, ouvindo o som delicioso do coração dela batendo. Como ele adorava saber que aquele coração batia tão rápido e forte devido aos toques dele. Era um prêmio, uma satisfação quase tão doce quanto beber do sangue dela.

Seus olhos estavam quentes quando a ergueu no colo e a depositou, gentilmente, no degrau de azulejo. Se pudesse, ele a possuiria mais uma vez antes de deixá-la partir, mas se contentou em se sentar ao lado dela e secar-lhe os cabelos com uma toalha macia.

Gwen fechou os olhos, sentindo-o tocar seus cabelos e se apertou na toalha negra e felpuda que a envolvia tão delicadamente, protegendo-a da brisa gélida que insistia em entrar pelas frestas da porta. Era de seu desejo que aquele momento durasse para sempre, queria jamais ter que deixar o toque gentil que ele lhe proporcionava… Gostaria de nunca mais deixar os lábios frios e aveludados que tantas vezes a beijara com reverência. Se pudesse, ficaria para sempre em meio às sombras, somente para ter o calor do coração dele.

– Não tenho palavras para expressar o quanto adorei estar com você esta noite. – disse Heron, enquanto massageava o couro cabeludo dela com a ponta dos dedos. Ele lhe deu um beijo suave no topo da cabeça. – E não precisa se preocupar com nada. Não serei tolo como meu pai.

Gwen franziu o cenho.

– Tolo?

Heron sorriu.

– Eu não a engravidarei. Vampiros podem sentir quando uma mulher está em seu período fértil. Sendo assim podemos evitar nos deitar com mortais e engravidá-las. Meu pai foi um tolo de ter ignorados seus instintos.

– Hã… Heron, eu não vou engravidar.

– É claro que não. – ele a beijou gentilmente.

– Não, eu quero dizer que não vou engravidar mesmo. – Gwen o fitou. – Sou uma mulher prevenida. Tomo pílulas desde meus quinze anos para regular meu ciclo. Eu realmente não vou engravidar.

Heron pareceu um tanto perdido.

– Ah. – foi tudo o que disse. – A modernidade tem suas vantagens.

Fez-se um breve momento de silêncio. E então ele voltou a falar.

– Além do mais, mesmo que não tomasse suas modernas Pílulas. Você é uma Bruxa.

– O que isso tem a ver?

– Bruxas tem o dom de escolher se querem ou não engravidar. – ele explicou. – A Magia é tão natural para vocês, que é de sua escolha gerar uma criança ou não. Vocês bruxas tem total controle da fertilidade.

– Eu não sabia disso!

– Há muito que aprender sobre a sua magia ainda, Gwen. – ele lhe sorriu, afetuosamente.

– Espere, então você está me dizendo que Helve escolheu engravidar naquela noite de Beltane?

– Ela estava em ritual de fertilidade – ele deu de ombros – É normal que tenha engravidado. Talvez fosse de sua escolha.

– Helve é uma mulher extraordinária. – disse Gwen, pensativa.

Heron assentiu em concordância e ameaçou  se levantar , mas Gwen ofereceu resistência.

– Preciso mandar prepararem o carro e avisar aos outros de sua partida. – disse ele de má vontade.

– Tão cedo?

– O mais rápido possível, Mici. Estará segura somente quando pisar em Baton Rouge.

Gwen assentiu em silêncio.

– Amo você, Gwen – Heron disse com muita intensidade. – Não estaria fazendo isso se não a amasse tanto.

– Eu sei – ela sorriu, triste. – Eu sei…

E então ele deixou o quarto, lutando com todas as suas forças para não voltar atrás e leva-la dali para sempre.

 

O Sangue da Meia Noite – Capítulo 07: A Torre Leste.

Escrito por Natasha Morgan.

s

Gwen ainda não acreditava no que estava fazendo à medida que acompanhava Erika em direção à torre oeste. Estava usando o vestido branco de linho ao qual foi praticamente obrigada a vestir, mas não se sentia nem um pouco animada em entrar naquele lugar.

A torre não chegava a ser ameaçadora, na verdade. Não como aquela em que ficaram presas no passado. Esta era iluminada por luzes fortes. O som não estava muito alto, mas dava para ouvir a bateria por trás do rock pesado.

A porta entreaberta deixava escapar os sons de risadas, gritos e agitação.

Erika deu um sorrisinho malicioso para Gwen e a puxou para dentro. O ar abafado as atingiu assim que entraram, trazendo junto o forte aroma de bebidas – o que Gwen achou muito estranho. Vampiros bebendo Vodka? Mas então se lembrou de Heron em sua casa degustando uma garrafa de vinho.

Ah, sim. Para eles era normal beber qualquer tipo de bebida alcóolica, embora a maioria preferisse as tintas.

Seus olhos se voltaram para o movimento incessante do lugar, a maioria dos homens estava se divertindo na enorme mesa de sinuca. As risadas eram altas e os gritos agressivos. Nada diferente dos humanos… Exceto pelas roupas sofisticadas e a aura intensa.

Alguns ainda preferiam o velho e bom jogo de cartas, ocupando algumas das mesinhas espalhadas pelo estabelecimento. E ainda havia os que preferiam se entregar ao jogo das bebidas, sentados no enorme balcão ao fundo. Todos pareciam estar se divertindo a sua maneira, livrando-se de seus deveres por pelo menos uns minutos.

Não havia mulheres dentro daquele lugar – o que levou Gwen a pensar que talvez não fossem bem vindas num ambiente como aquele. Ela pensou seriamente em dar meia volta e ir embora, não estava a fim de arrumar confusão com ninguém por ali e a julgar pela algazarra que aqueles vampiros estavam fazendo dentro da torre com toda certeza duas jovens iria chamar bastante atenção. E só Deus sabia o que vampiros bêbados eram capazes de fazer…

Mas Erika não lhe deu a oportunidade de sair correndo, agarrou-a pelo braço e a puxou até o balcão onde as bebidas eram servidas. O barman estava ocupado com tantos pedidos, mas arrumou um tempo para atender á jovem, com um sorrisinho malicioso nos lábios pálidos. Erika ficou confusa sobre o que deveria pedir, não havia muitas opções para sua imaginação adolescente então acabou pedindo um Bloodmary e rindo da própria escolha.

Gwen revirou os olhos.

– E você, o que vai querer, gracinha? – o barman perguntou, dirigindo seu olhar malicioso para ela.

– Não vou beber nada, obrigada – ela respondeu um tanto seca demais.

– É uma pena. Temos muito o que se oferecer por aqui – ele disse ainda mais malicioso e indicou duas garrafas de cristal contendo um líquido vermelho carmim.

Gwen sentiu seu coração disparar e desviou os olhos na mesma hora.

Sangue.

Ela se perguntou, mentalmente, de onde seria.

Mas, pensando bem, não queria saber.

Perturbada demais, ela varreu seus olhos para o movimento do bar enquanto Erika se ocupava em paquerar o vampiro que as serviu. Honestamente não entendia como a colega poderia estar se divertindo ali no meio de tantos vampiros…

Seus olhos vagaram pelas mesas ocupadas e posaram em um sofá vermelho do outro lado onde havia um casal em verdadeiro êxtase, em plena multidão. O vampiro estava levemente inclinado sobre a mulher humana, os lábios pousados no pescoço delgado enquanto se alimentava lentamente dela.

Mais uma vez Gwen estremeceu e se perguntou se era mesmo uma boa ideia estar ali. Talvez o mais sensato fosse voltar para seu quarto e esperar por Heron lá. Aquele não era um lugar apropriado para ela estar.

– Ora, ora, ora… – uma voz conhecida e sensual a despertou de seus pensamentos e imediatamente aquele estranho formigamento se espalhou por seu corpo.

Gwen congelou. Sabia muito bem quem era e não estava certa sobre como deveria agir… Por fim, resolveu se virar e encará-lo. Dimitri estava levemente encostado no balcão segurando um copo de conhaque, o ar sensual como sempre.

– Jamais imaginei um dia vê-la por aqui – ele disse, malicioso.

– Estou acompanhando Erika – ela se viu na obrigação de responder.

– Ah, sim… Estou vendo – ele lançou um olhar rápido para a outra garota que se deliciava numa conversa animada com o barman. – Ela parece estar se divertindo. E você?

– Não gosto muito de bares.

– Mas é claro que não. – disse ele, observando-a meticulosamente.

Gwen se empertigou, não gostava que a olhassem daquela forma.

– Bonita – Dimitri aprovou.

– Você sabe onde Heron está? – Gwen perguntou abruptamente.

– Provavelmente com os outros guardas, guardando os muros – ele deu de ombros, o olhar perdido no rosto suave da jovem.

– Droga – Gwen murmurou. Tinha esperanças de encontra-lo por ali junto aos outros.

Dimitri a observou com atenção, o sorriso malicioso se espalhando pelo rosto inumanamente lindo.

– Eu posso leva-la até ele, mas vai lhe custar um beijo – ele sussurrou, provocante.

Gwen o fitou com incredulidade diante da ousadia.

– Ah, claro… Vai sonhando! – disse ela e deu meia volta para ir embora. Sentia muito por Erika, mas não ficaria nem mais um minuto naquele bar.

– Espere! – Dimitri a alcançou, segurando-a pelo braço. O toque dele aumentou a onda de formigamento pelo corpo dela. – Eu sei o que você viu – sussurrou ele com um toque de malícia.

Gwen estancou, sentindo o coração acelerar.

– Não sei do que você está falando! – ela disse, firme, mas sua voz falhou e ela acabou atropelando as palavras.

– Ah, você sabe sim – ele a fitou nos olhos, a malícia estampada no rosto. – Eu sei que você andou me observando enquanto eu me divertia. Espero que tenha gostado do que viu…

– Não seja ridículo! – Gwen disse, preparada para dar o fora dali. Não era obrigada a ouvir aquelas coisas.

– Vamos – ele insistiu. – O que é isso, Gwen? Confesse! Você ficou excitada…  Eu teria dado uma chance a você se tivesse pedido. Não me parece que Heron cuida muito bem de você…

A reação de Gwen foi tão imediata que ela nem teve tempo de pensar, virou um tapa com toda sua força no rosto dele, ouvindo o som ríspido da agressão.

Mas Dimitri agiu igualmente rápido, segurou a mão que o agrediu com força e puxou Gwen para seus braços, agarrando-a com uma força descomunal. Ela tentou recuar, assustada com a reação dele, mas então aqueles lábios frios tocaram os seus… E a luta acabou.

Gwen sentiu seu corpo inteiro ser tomado por aquele estranho formigamento que sempre lhe apossava todas as vezes que estava perto dele, seus ossos viraram gelatina e ela sentiu como se milhares de estrelas houvessem explodido acima de sua cabeça. Foi simplesmente impossível escapar daquele beijo agressivo e irresistível.

Então ela cedeu, sentindo-o evolver-lhe os cabelos com as mãos fortes e puxá-la para junto de seu corpo frio, mas que agora fervia em um calor intenso. Seu coração batia tão acelerado que ela podia jurar que ele era capaz de ouvir…

Gwen se deu conta da estupidez que estava fazendo tão logo cedeu, e o empurrou com toda sua força, libertando-se da sedução doce que a aprisionava.

Assustada com sua própria reação ao beijo, ela o fitou cheia de ódio.

– Você nunca, nunca mais encoste em mim! – gritou, ofegante, e saiu correndo.

*-* *-*

Gwen andava pelos cascalhos brilhantes rumo ao seu quarto seguro e quente. Estava tão zangada que seu corpo inteiro tremia, a alma queimando por dentro. Ainda podia sentir a textura macia e fria dos lábios de Dimitri. Fora muita audácia da parte dele achar que podia beijá-la!

Mais audaciosa foi a sua reação em corresponder àquele beijo insano. Ela se recriminava furiosamente por isso! Onde estava com a cabeça? Aquilo fora estúpido, idiota, cretino, cruel…

Imediatamente a culpa a invadiu, fazendo as lágrimas deslizarem suavemente pelo rosto entristecido. Não fora justo com Heron! Ele a amava tanto quanto ela o amava, a intensidade entre os dois, momentos antes, era prova disso. E então ela se permitiu beijar um estranho de quem nem mesmo gostava? Pior… Ela gostou de beijá-lo!

Mas quem não gostaria? Dimitri era completamente fora do comum. Era lindo, sensual e audaciosamente sedutor. Resistir a ele não era uma opção, principalmente quando ele se empenhava em conquistar. Um predador perigoso e convidativo.

Ela se odiou por parecer tão fraca.

– Você errou feio, Gwen… Muito feio! – ela disse a si mesma, severa, e limpou as lágrimas dos olhos. Chorar não ia diminuir sua culpa. E muito menos apagar a lembrança daquele beijo.

Furiosa consigo mesma, ela apressou seus passos, marchando pelo caminho longo e rochoso. A noite não estava tão fria agora, a brisa era suave e gostosa, tocava seu rosto numa carícia doce. A Lua no céu não era cheia, mas sim minguante. Estava linda! Dando um toque mágico em toda aquela escuridão sombria.

Quando finalmente alcançou o pátio, ela ouviu o primeiro sinal de que alguma coisa estava errada. A noite silenciosa foi rompida pelo som grotesco de um rosnado, fazendo com que Gwen estremecesse violentamente. Uma sombra imensa e assustadora se moveu na lateral do pátio, ameaçando se aproximar.

Gwen não esperou para ver do que se tratava. Saiu correndo para dentro do Castelo e se enfiou em um dos corredores estreitos.

Seu coração batia desesperadamente dentro do peito, esmagado pelo medo. Ela reconheceria aquele rosnado onde quer que estivesse, havia guardado muitas lembranças desagradáveis do Labirinto e aquele som sombrio era uma de suas lembranças mais cruéis. Ela não fazia ideia se aquilo que a perseguia era um dos vampiros de Morris ou algum exilado que poderia ter invadido as muralhas, mas correu mesmo assim. Não estava disposta a esperar para ter certeza de quem era.

À medida que corria a uma velocidade absurda pelos corredores sem fim, podia sentir a criatura em seu encalço, derrubando as estátuas de pedra maciça que ela desviava e rosnando furiosamente. Gwen se desesperou, sua respiração estava ofegante demais com aquela perseguição, ela se perguntava quanto tempo mais aguentaria correr. O medo a dominou.

Onde estavam os quartos? Onde estavam os guardas? Mas ela não podia ter certeza, havia se perdido na cadeia de corredores longos e escuros. Quando um uivo estridente reverberou pelas paredes de pedra, Gwen se deu conta de que estava encurralada. Não havia apenas um lobo atrás dela… Eram dois.

Um deles vinha a seu encalço pelos corredores e o outro a estava esperando, pacientemente no final do caminho. Gwen estancou, sentindo o pânico invadir sua alma, seu corpo e seu coração. Não havia saída para ela ali.

Ela ignorou os sons estridentes e assustadores que se aproximavam e se concentrou em suas mãos, que agora formigavam furiosamente. Gwen franziu o cenho e fitou as palmas incandescentes, dando-se conta do que estava acontecendo.

Ela era totalmente capaz de se defender. Tinha poder para isso!

Erguendo as mãos para cima, concentrou todas as suas forças em sua vontade. Era capaz de fazer isso, capaz de usar os poderes que herdara de suas vidas passadas como bruxa. Ela podia se defender!

Virou-se para o lado oposto do corredor, esperando seu perseguidor se aproximar com toda aquela fome homicida. O Lobo malhado e enorme veio sedento, a boca enorme e lambuzada de sangue, esperando cravar aqueles dentes afiados em Gwen. Ele lambia o focinho, cheio de expectativas.

Mas Gwen não o deixaria se aproximar nem mais um pouco. Lançou a duas mãos juntas em direção à criatura, invocando a magia dentro dela. O raio de luz violeta que saiu de suas mãos atingiu a criatura com tanta força que o lançou longe, fazendo-o chocar-se bruscamente contra uma das paredes e perder os sentidos.

Gwen sentiu a emoção crescer dentro de si por aquele feito, finalmente havia usado seus poderes. Ficara maravilhada com aquela luz, com aquela magia poderosa. Por um momento se permitiu sorrir, baixando a guarda.

Foi o bastante.

O rosnado sombrio a pegou de surpresa, fazendo-a se voltar para o outro lado. Ela se arrependeu imediatamente de ter comemorado a  vitória e não ter dado o fora dali.

O lobo albino estava postado majestosamente no corredor, sua beleza era ultrajante. Os olhos eram de um vermelho sangue, assim como a mancha que lhe cobria a boca repleta de dentes afiados.

Gwen só teve tempo de prender a respiração.

O Lobo mergulhou no ar com elegância e a derrubou no chão áspero, cravando os dentes impiedosamente na carne macia da cintura. Gwen soltou um grito estridente, surpreendendo a si mesma com sua capacidade em gritar. A dor a atingiu em cheio, tirando-lhe o fôlego.

Por um momento pensou seriamente que fosse morrer ali, devorada por uma criatura sedenta…

Mas o lobo não teve chance para desfrutar do sangue doce que manchava o chão, foi arremessada bruscamente para longe antes que pudesse cravar os dentes na pele macia de novo.

– Filho da puta! – Dimitri gritou, furioso.

Gwen virou-se de barriga para baixo, recuperando o fôlego perdido e se arrependendo imediatamente de ter respirado, pois a dor latejou no ferimento onde escorria sangue. Ela gemeu uma vez, sentindo as lágrimas banharem o rosto.

– Gwen – a voz de Heron a atingiu, tensa.

O toque frio e suave foi um alívio para ela, mas não ousou abrir a boca. Sabia que se o fizesse iria gritar.

– Leve-a daqui! Eu cuido de Amadeo. – disse Dimitri, letal.

Heron posou as mãos o mais delicadamente embaixo do corpo de Gwen, pronto para levantá-la e levá-la para a segurança de seus braços.

– Não… – ela tentou dizer, mas foi tarde demais. Ele a ergueu.

Gwen gritou, gritou e gritou, sentindo a garganta arder. As lágrimas escorreram abundantes pelo rosto pálido, fazendo-a parecer fantasmagórica. A dor era insuportável…

Heron ajeitou-a nos braços o mais gentilmente que pôde. Os gritos desesperados dela partiam seu coração em milhões de pedaços.

– Vá rápido! – Dimitri latiu a ordem – Precisa limpar o sangue dela!

Heron assentiu uma vez e saiu correndo pelos corredores, mantendo Gwen segura e estabilizada em seus braços. Ele chutou a porta do quarto, fazendo-a se chocar contra a parede bruscamente e depositou Gwen na cama macia, afastando-se só para se certificar em trancar a porta.

Quando voltou para o lado dela, parou por um momento, analisando os danos. O vestido que ela usava estava sujo de sangue e poeira, e rasgado onde o exilado a havia mordido. A ferida monstruosa escorria sangue.

Seus olhos eram pura agonia quando se ajoelhou ao lado dela na beira da cama.

– Gwen… – ele sussurrou, acariciando-lhe os cabelos – Eu vou precisar limpar o seu sangue.

Ela gemeu, respirando pesadamente.

– L-Limpar meu s-sangue? – ele perguntou, a voz trêmula, engasgando-se com as palavras.

– Ele a mordeu – sua voz saiu pesarosa – Há veneno na saliva dos exilados.

Gwen estremeceu, sentindo a dor a corroer por dentro.

– É como o veneno que o dragão-de-Komodo libera ao morder suas vítimas, é uma toxina muito poderosa – ele explicou. – Vou precisar limpar seu sangue. – ele a fitou profundamente nos olhos – Vai doer. Muito.

Gwen prendeu a respiração.

– Faça o que precisa ser feito. – ela disse, tremendo.

Heron tentou não pensar no que estava prestes a fazer, desviou os olhos de Gwen e se concentrou na ferida aberta na cintura dela. Ele rasgou o vestido onde a ferida vertia sangue, observando as marcas cruéis de dentes na pele dilacerada. Sangrava muito. Ele fechou os olhos apertados, lamentando. Podia ver o veneno escurecendo a pele, queimando, corroendo… Causando uma dor insuportável à pessoa que mais amava naquele mundo.

– Eu sinto muito – ele murmurou antes de se inclinar sobre a ferida e encostar a boca na pele profanada.

Heron sugou o sangue amargo com força, sentindo o veneno amortecer sua boca. Gwen gritou, agarrando-se a ele. Nada havia daquele prazer delicioso quando ele a mordia, nenhum formigamento, nenhum êxtase. Era somente a dor insuportável e latejante, queimando-lhe a pele. Ela cravou as unhas no ombro dele, arfando. Por um momento achou que aquela dor a levaria para a silenciosa e fria morte… Mas então ela foi diminuindo lentamente, deixando apenas o torpor… Uma sensação docemente fria.

E então Heron parou de sugar. Sua língua deslizou por onde os dentes da criatura haviam sido cravados, fazendo a pele se restaurar lentamente. Podia sentir as unhas de Gwen cravadas em seu ombro dolorosamente, mas não se importava. O mais importante era ela estar viva… A salvo.

Ele afundou o rosto na barriga macia, respirando fundo o aroma doce da pele. Sentiu o aperto em seu ombro diminuir e seu alívio foi notório. Ela respirava mais tranquilamente agora, o coração acalmando-se aos poucos dentro do peito. Quando os dedos dela tocaram seu cabelo suavemente, ele teve certeza de que o pior de tudo já havia passado.

Heron ainda respirava com dificuldade, afundado na pele macia e morna. Quase a perdera. Isso o aterrorizou. Gwen era sua estrela, não podia perdê-la. Nunca! Seria como perder o mundo inteiro… Como mergulhar na escuridão fria e jamais voltar a ver a luz. Ele jamais voltaria à superfície se a perdesse. No entanto, isso quase aconteceu em poucos minutos. Se demorasse um pouco mais talvez ela já não estivesse mais viva. Pensar nisso o fez estremecer e ter a certeza do quanto a amava.

Ele teria chorado como um humano se pudesse.

Como se finalmente tivesse se dado conta de que ela estava ali, segura com ele, Heron despertou de seus pensamentos agoniantes. Seus lábios beijaram a pele suave da barriga dela com reverência, fazendo uma trilha lenta até chegar à boca pálida.

Ele a beijou intensa e apaixonadamente, sentindo-a envolver os braços em seu pescoço, os dedos afundarem-se em seus cabelos naquela sensação gostosa que ele tanto gostava. Os lábios dela o receberam ternamente, apreciando cada segundo daquele beijo profundo.

As mãos dele rasgaram o vestido no ombro de Gwen, livrando-se do tecido o mais rápido que pôde e expondo a pele convidativa. Seus lábios se separaram por um breve momento e ele a fitou no fundo dos olhos.

– Eu quero você – ela sussurrou, dando a ele a resposta para sua dúvida.

Heron voltou-se para a boca dela, apossando-se dos lábios macios ao mesmo tempo em que ela o envolveu novamente com os braços. Ele a ajudou a se livrar do resto do vestido e a ergueu gentilmente apenas para depositá-la na cama mais uma vez.

Os lábios moviam-se suavemente pela pele clara, beijando cada pedaço macio que lhe pertencia, amando cada nova parte que conhecia. Gwen fechou os olhos, entregue àqueles beijos doces que faziam sua pele arrepiar. Ansiava por aquele momento como o ar que respirava. Podia sentir as mãos de Heron percorrerem seu corpo avidamente, tocando pontos sensíveis e secretos. Ela deixou suas próprias mãos deslizaram pelas costas dele, livrando-se do suéter negro e explorando a pele igualmente macia.

Heron gemeu com o toque dela e a apertou com um pouco mais de força, envolvendo-lhe as pernas na cintura dele e fazendo-a sentar em seu colo. As bocas se encontraram novamente em um beijo intenso. Ele a amava tanto que essa paixão chegava a arder sua alma…

Movendo os lábios para o pescoço dela, ele os deslizou lentamente para baixo, encontrando um dos seios rosados. Gwen jogou a cabeça para trás, fechando os olhos para sentir o toque frio e delicioso de seus lábios. Ela gemeu uma vez, timidamente e ele se deliciou com aquele som.

Heron sugou-lhe o seio numa delicadeza absurda, apreciando a textura suave da pele, assim como o aroma envolvente que o cercava. Sua língua fazia círculos lentos, fazendo a jovem gemer intensamente. Podia senti-la arranhando seu couro cabeludo com as unhas e foi impossível controlar os próprios gemidos. Gwen o tinha na palma das mãos. Ele era dela para fazer o que quisesse, estava tão envolvido com aquela garota que chegava a se perder em si mesmo.

Voltando-se para seus lábios, ele a beijou avidamente. Gwen sorriu, entregando-se. Suas mãos deslizaram mais uma vez pelo peito dele, sentindo a maciez inumana da pele, os músculos firmes. Ele era tão perfeito!

Quando suas mãos chegaram aos limites da calça grossa que ele usava, os dedos ligeiros soltaram o botão de prata e então deslizaram novamente pelo abdômen macio, provocando-lhe arrepios com as unhas.

Heron sorriu, envolvendo-a nos braços e sentindo os seios rijos tocarem-lhe a pele num convite audacioso. Ela o beijou no pescoço docemente, sentindo com a ponta dos dedos a tatuagem tribal que ele escondia na nuca. Beijou seu queixo uma vez e então voltou a se apossar da boca fria.

Ele gostava do toque dela, gostava de como ela o beijava. De como o provocava sutilmente com o toque macio e suave de seus lábios. Ah, ela era a sua Gwen e ele amava cada pedacinho da alma dela.

Gentilmente ele a deitou novamente na cama, livrando-se da calça pesada que usava. Seus movimentos eram lentos, graciosos e sensuais. Quando se deitou sobre ela, encostando cada pedaço de seu corpo no dela, ele a sentiu gemer deliciosamente.

Sorriu, fitando-a com profundidade antes de mergulhar suavemente por entre suas coxas. Pôde ouvi-la prender a respiração, assim como pôde sentir a barreira do corpo reservado tão somente para ele.

Gwen estremeceu quando Heron a invadiu. Seu corpo o recebeu amorosamente, amando-o, salvando-o… Adorando-o.

Heron se moveu uma vez, fitando-a fixamente. Gwen posou a mão no rosto dele, deslizando os dedos até os lábios frios, reivindicando-os. Ele a beijou de novo, movendo-se mais uma vez e sentindo o corpo dela seguir seus movimentos com a mesma suavidade. Ela era tudo o que ele podia querer, tudo o que ele tinha para sempre. Seu amor, seu coração, sua alma. Sua estrela.

Podia sentir a energia intensa os unir em um laço inquebrável no momento em que ela atingiu o clímax. Ela estremeceu intensamente sob ele, levando-o na mesma onda àquela intensidade papável. Ele a apertou com força, sentindo seu corpo convulsionar e finalmente estremecer, aliviado.

Gwen podia sentir seu corpo inteiro formigando, aquela sensação deliciosa se expandindo por cada parte dela, chacoalhando sua alma. Sentir Heron ainda dentro de si só aumentava a mágica daquele momento, ficaria para sempre ali ao lado dele se fosse possível. Amá-lo-ia todos os dias, a todo momento somente para não deixar aquela sensação de alegria se esvair de dentro dela.

Amar era mesmo mágico!

Ele se virou de lado, envolvendo-a com os braços para que pudessem ficar abraçados e os cobriu com o cobertor vermelho que estava aos pés da cama. Seus lábios beijaram-lhe a orelha suavemente e ele a sentiu estremecer.

– Eu te amo tanto, minha pequena – ele sussurrou. – Pensei que fosse perdê-la hoje.

– Estou bem – ela disse, a voz rouca – Segura em seus braços. Não vou a lugar nenhum.

– Por um momento esta noite eu pensei que fosse – ele disse, a voz trêmula.

– Shhh – ela o silenciou, virando-se em seus braços para encará-lo. – Já passou. Você me tem em seus braços agora, nada vai me afastar de você.

Heron sorriu para ela, os dedos tocando o rosto para ele tão precioso. Seus olhos estavam dilatados pelo medo.

– Sim… – ele disse, intensamente. – Eu a tenho. Você é minha para todo o sempre.

Gwen o beijou profundamente, apagando o medo de suas lembranças. Deitou a cabeça no peito frio e se permitiu fechar os olhos, escutando o som suave de seu coração. Quando os dedos de Heron começaram a acariciar seu cabelo, ela sabia que adormeceria…

O sangue da Meia Noite – Capítulo 06: Complicações Internas.

Escrito por Natasha Morgan.

s

Leah esfregava o chão rochoso do pátio com a esponja encardida, sentindo o ódio borbulhar dentro de seu coração a ponto de fazê-la cerrar os dentes para não gritar. Maldita Gwen, ela pensava enfurecida. Aquela garota já lhe havia trazido problemas demais, desde a época em que conheceu Robert até aquele momento. Seu ódio por ela era imensurável, homicida. Enquanto ela estava ali, toda dolorida devidos às surras que levara de Morris, encardida da cabeça aos pés e sentindo-se um lixo, Gwen estava cercada de cuidados e atenção. Desfilava pelo Castelo como uma dama da alta sociedade, adorada por todos.

Toda sua raiva, mágoa e ressentimento a estavam corroendo por dentro, tornando-a uma pessoa ainda mais fria e perigosa. Se pudesse ter apenas dois minutos com aquela garota se certificaria que ela nunca mais voltasse a respirar. O pensamento frio a fez sorrir. Aquela menina sem graça era a responsável por sua desgraça, por tudo de ruim que havia sofrido nas mãos daqueles vampiros malditos.

Desde que foi sentenciada a servir Morris ela vinha vivendo num verdadeiro inferno, era usada da pior maneira que uma mulher poderia ser usada. Era humilhada, espancada e feita de escrava. Nem quando fugiu de casa aos doze anos e foi morar na rua tendo que fazer programa para sobreviver fora tão horrível como estava sendo agora. Nem tudo o que teve de aguentar dos homens que a possuíam era tão repugnante. Nem todas as vezes que apanhou de seu pai quando o respondia, nem todas as vezes que fora obrigada a transar com homens velhos e decadentes…

Nada disso fora tão humilhante em toda a sua vida.

Ela estava vivendo em um inferno frio… Um inferno onde nem mesmo o demônio suportava ficar. Nada tinha sentido, não existia mais esperança. Era como se toda felicidade fosse sugada de sua vida, restando apenas um mundo vazio, cruel e opaco.

E ela jamais se esqueceria de quem era a culpa de tudo aquilo. Lutaria com unhas e dentes para conseguir aqueles dois minutos a sós com a responsável por sua condição, e nem que fossem os últimos minutos de sua própria vida, ela iria se vingar.

Uma vingança fria, cruel e impiedosa.

Os passos pesados e imponentes a interrompeu, fazendo-a se encolher. Em geral, quando os guardas ou qualquer outro vampiro se aproximavam dela era para espanca-la ou se servir de seu sangue. E ela já não aguentava mais ser usada daquela forma. Não havia mais prazer… Apenas dor.

Mas ao fitar o vampiro a sua frente ela não sentiu mais nada além do torpor. Se ele pusesse as mãos nela não haveria mais nada além da morte. E toda dor que já havia sentido até aquele momento a anestesiou.

Dimitri se encostou a um dos pilares antigos, fitando-a com o ar perversamente divertido. Ele usava uma das habituais calças negras e grossas, a camisa escura levemente aberta. Aquele ar sensual o deixava parecido com um anjo sombrio.

Ele sorriu, malicioso, e mordeu a maçã vermelha que tinha nas mãos.

– Está desfrutando de sua estadia aqui? – ele perguntou, irônico. – Afinal de contas era isso o que você queria, não é mesmo? Desejava tanto ser apresentada à Morris… Ser amante do poderoso vampiro rei. Até me desafiou para ser a escolhida.

Leah o fuzilou com os olhos.

– Não sabe a satisfação que me dá vê-la desse jeito – Dimitri continuou, cruel – Vê-la esfregando o chão em que eu piso. Vê-la ser humilhada por todos que passam por aqui. Saber que você tem que servir todos os guardas. Ver você toda suja, encardida. Ah, não tem satisfação maior.

– Isso não vai durar para sempre – Leah se arriscou a dizer.

– Vai durar quanto tempo Morris quiser que dure. E sabe- se lá quanto tempo nosso suveran[1] pode se divertir com a sua desgraça – ele se aproximou, torcendo o nariz por causa do cheiro pútrido que ela exalava. – Mas não pense, nem por um segundo, que você será livre novamente. Quando Morris se cansar de te usar, ele a devolverá a mim. E quando isso acontecer… – ele sorriu, diabólico – Quando isso acontecer, querida Leah, seu inferno terá apenas começado.

– Não…  – ela balançou a cabeça, o pânico tomando conta de cada pedacinho de seu corpo.

– É claro que eu posso. Sou o seu mestre, esqueceu? Posso fazer o que eu quiser com você. Sou eu quem decide o seu destino… Eu decido até quando você pode respirar.

– Você não tem que fazer isso – Leah começou, suplicante. – Eu era uma boa companhia para você. Gostava de quando era o meu mestre. Ainda sinto falta do seu toque. Não há nenhum amante melhor do que você, Dimitri. Tudo pode voltar a ser como antes, eu posso me esquecer de tudo o que aconteceu. Podemos viver entre os prazeres da noite como fazíamos antes…

– Está tentando me seduzir? – ele gargalhou, desdenhoso.

Leah abaixou a cabeça, sentindo-se ainda mais humilhada.

– Você se esqueceu que me desobedeceu? Você me afrontou! E um vampiro como eu não perdoa tão facilmente esse ato insano de um mortal.

– Eu não entendo por que você ficou tão furioso – Leah começou, esquecendo-se de todo o perigo que corria e enfrentando-o abertamente. – Eu não fiz nada de mais. Apenas quis me livrar de um incômodo.

– Você desobedeceu as minhas ordens! – ele rebateu – Atentou contra a vida de uma garota inocente.

– Tudo isso por causa de uma humana? – Leah riu sem nenhum humor. – Ela não é inocente! É uma vagabunda sem escrúpulos que se meteu no meu caminho…

– Cuidado, Leah – Dimitri alertou, a voz fria e cheia de farpas.  – Suas palavras podem provocar a sua morte em apenas um segundo. Você já cometeu o erro de ofendê-la uma vez e o resultado não foi nada agradável.

– Pois saiba que eu vou me vingar! –Leah o enfrentou – Ela não vai se safar tão fácil pelo que me fez. Nem que seja a última coisa que eu faça na minha vida, eu ainda vou mata-la!

Dimitri agiu tão rápido que a surpreendeu. Em um minuto ele a observava com o habitual escarnio e no outro tinha a garganta frágil entre suas mãos. Seu olhar era homicida, como o fogo destruidor. Ele estava furioso.

– Se você encostar num só fio do cabelo dela, eu prometo fazer de sua vida um inferno. Esqueça-se do que sofreu nas mãos de Morris e dos guardas, eu vou fazer pior. Vou marcar cada pedacinho do seu corpo com fogo e dar a sua alma para os exilados devorarem – sua voz era letal – Não brinque comigo, garota. Eu não sou humano. Há séculos não sei o que é ser um. Provoque-me e veja a fera que há em mim ser libertada e lhe fazer em pedaços.

Quando ele a soltou, Leah se encolheu no chão imundo, soluçando.

– Não se esqueça que está diante de deuses – ele a lembrou. – Aqui você não passa de uma humana. Talvez ainda menos que isso… Você é apenas carne. Comida.

Ele cuspiu no chão e saiu andando.

Seu quarto não ficava muito longe dali e no momento tudo o que ele queria era um pouco de diversão, pensou sarcasticamente. Ele seguiu pelos corredores ornamentados, sentindo a escuridão e a frieza do castelo abraça-lo conforme penetrava cada vez mais fundo para dentro daqueles túneis.

Os quartos ficavam no último corredor, as oito portas uma ao lado da outra, uma em frente a outra. Mas não eram só aqueles aposentos que haviam no castelo. Havia muito mais. Aqueles eram os reservados para as visitas especiais, os mais luxuosos. E Dimitri adorava se colocar na categoria de visita importante.

Por um momento ele se deteve, próximo á porta de seu quarto. Os olhos se fixaram na porta logo a frente.

O quarto de Gwen.

Ah, Gwen…, ele sorriu ao pensar nela. Era um anjo… Talvez uma estrela, como Heron costumava dizer. Irônico o quanto aquela mortal o provocava. Ela era capaz de despertar nele uma luxúria sufocante, perigosa e irresistível.

Ele sorriu mais uma vez, imaginando se seria uma boa ideia entrar sorrateiramente no quarto dela para espera-la. A ideia o tentou, mas ele rapidamente desistiu. Não seria bom irritar Heron… Ao menos não por enquanto.

Dimitri se voltou para a porta de seu quarto, decidido a ir dormir. Mas quando ela se abriu e a surpresa se revelou, ele imediatamente dispensou tal ideia. E várias outras se formaram em sua mente, perversas e pecaminosas.

A mulher que o recebeu era uma vampira… E muito linda. Vestia uma camisola transparente, expondo partes do corpo voluptuoso. Os cabelos eram negros como a noite e os lábios levemente avermelhados. Ela fixou seus olhos caramelados nos dele, sensualmente.

– Dimka! – disse com um sorriso, seu sotaque era russo.

– Iva – ele sorriu, perversamente malicioso.

– Estávamos esperando por você – Iva ronronou, indicando uma jovem loira atrás dela.

Dimitri lançou-lhes um olhar provocante. Suas intenções eram as piores, pecaminosas e isso só se intensificou quando ele olhou para a loira vestida de vermelho. Ela tinha um olhar indecente sobre ele, os cabelos claros e lisos caíam pelas costas retas. O sutiã de renda abrangia os seios fartos, escondendo parcialmente o que ele estava ansioso por tocar.

A jovem se aproximou lentamente, aguardando os movimentos dele.

– Surpresa agradável, Iva – Dimitri sussurrou, os olhos perdidos no corpo mortal.

– Encontrei-a na cidade – Iva disse, rodeando a mortal com um desejo palpável. – Ela estava perdida – as mãos gélidas envolveram os cabelos macios – Não podia deixar uma belezinha como essa no meio de tanta gente – a vampira sorriu, altamente maliciosa – Há tantas pessoas más por aqui…

Dimitri repuxou os lábios num sorriso perverso, divertindo-se com a malícia de Iva. Ele a ensinou muito bem. A caça tornou-se sua companheira… Sua guia. E agora sua velha amiga e amante o presenteou com algo tão raro…

Ele se aproximou da mortal, tocando o rosto frágil. Gostou da maciez da pele rosada. Seus dedos gélidos passearam pelo queixo, chegando ao pescoço lentamente. Ele podia sentir o sangue doce e quente pulsando nas veias… Chamando-o, seduzindo-o.

Iva sorriu, juntando-se a eles. Ela abraçou a jovem por trás, afundando o nariz nos cabelos claros, inspirando o perfume sedutor. A mão deslizou pelo corpo esbelto, passeando ousadamente entre as curvas. Ela puxou o rosto da jovem, fazendo-a se virar para ela e tomou conta da boca delicada, beijando-a com paixão.

Dimitri sentiu seu corpo inteiro se aquecer com aquela provocação insana. As presas se alongaram e a ereção se inflou dentro da calça, exigindo liberdade. O desejo o atingiu, forte e perverso.

Ele tomou a mortal dos braços da vampira e a beijou possessivamente, envolvendo o corpo frágil. Ela não parecia nem um pouco assustada, retribuiu ao beijo com a mesma voracidade. Mesmo mortal, a jovem sabia como jogar aquele jogo de sedução, envolvendo o vampiro em suas teias e se entregando completamente.

Dimitri deslizou as mãos audaciosamente pelo corpo feminino, tocando a pele macia e convidativa enquanto seus lábios lhe devoravam a boca. Ele sentia seu corpo começar a exigir uma ação mais profunda, tentando-o. Podia sentir Iva ao seu lado, as mãos movimentando-se também no corpo da garota, arranhando a carne humana. Ela também gostava disso, gostava da sedução tanto quanto ele. Por isso ele a escolheu anos atrás para dar-lhe o beijo da meia-noite e ensiná-la a ser uma caçadora como ele.

A mortal gemia, entregue nos braços daquelas duas criaturas sedutoras. Ela não tinha ideia de quem eram eles, mas não resistiu à sensualidade daquela mulher quando a encontrou nas ruas sombrias da cidade e não resistiria àquele homem misterioso que insistia em tocá-la tão ousadamente. Não importava quem eles fossem, ela só queria sentir…

Iva a tocou com mais agressividade, girando o corpo da garota e tomando conta de sua boca mais uma vez enquanto Dimitri deslizava os lábios ao longo do pescoço, fazendo uma trilha perigosa pelos ombros, clavículas e chegando finalmente a um dos seios rosados.

Com as presas expostas, ele rasgou a renda vermelha e tomou um dos mamilos na boca, sugando-o suavemente. A garota gritou num gemido louco de prazer e arranhou as costas nuas do imortal. Iva a beijava com intensidade, devorando os lábios quentes e vermelhos devido à possessividade do beijo. Ousada, ela ousou mordê-los uma vez, docemente, apenas para sentir o gosto do sangue saboroso.

A mortal se deliciou com a mordida, agarrando-se a vampira com mais afinco, mas não se esquecendo dos lábios do vampiro em seu seio. A sensação era inebriante, algo que ela jamais havia sentido em toda a sua vida.

Não demorou muito e Dimitri se cansou de brincadeiras, ergueu a mortal no colo, sentindo as pernas dela o envolver com firmeza. Ele sorriu, malicioso. Uma presa tão fácil…

Era fácil demais seduzir os humanos, quase não havia diversão nisso. Tão frágeis, inocentes e influenciáveis.

Por um momento seus pensamentos se voltaram para Gwen. Ela era humana e com um simples olhar inocente…

Não, ele se interrompeu imediatamente. Não iria pensar em Gwen. Não enquanto tinha uma mortal loira, quente e apetitosa em seus braços.

Ele desligou seus pensamentos e mergulho a boca novamente no corpo convidativo que se oferecia tão descaradamente. Ousado, ele deslizou as mãos fortes pelas pernas compridas e se livrou rapidamente da calcinha pequena.

Quando ele a deitou na cama macia, ela estava mais do que disposta a se deixar possuir, pois abriu as pernas quase que imediatamente. Dimitri sorriu com perversidade diante daquele convite irrecusável e penetrou-a com força. A mortal gemeu uma vez, intensamente, e cravou as unhas vermelhas nas costas dele, fazendo-o soltar um gemido suave e aprovador. Ele se moveu uma vez, pressionando o corpo dela contra os lençóis de cetim e a ouviu gemer de novo, o que o incentivou a continuar.

Iva sorriu ao lado, deliciada com aquela cena pecaminosa. Ela estava ansiosa por participar, seu corpo correspondendo arduamente ao estímulo. Suas presas alongaram lentamente e ela se aproximou, tocando as costas do vampiro. Habilidosa, ela o despiu da camisa negra, revelando a pele pálida e tatuada.

Por um momento ela ficou extasiada com o desenho, como sempre ficava. O tribal negro e bem desenhado cobria as costas em toda sua extensão, alcançando o ombro forte e musculoso. Isso só o tornava ainda mais desejável.

Iva deslizou os dedos longos pelo desenho, acompanhando os traços que formavam um desenho misterioso e antigo. Seu toque provocou um leve arrepio na pele dele, o que ela adorou. Seus olhos escuros injetaram-se conforme ela o observava possuir a jovem humana. Os movimentos dele eram rítmicos, hora intensos, hora mais leves. Eram perfeitos… Ele era perfeito naquela dança sensual que levava ao mais puro prazer. Ela se lembrava muito bem o que era ser possuída por ele… E essa lembrança só a fazia o desejar ainda mais.

E pelo que parecia a mortal pensava o mesmo pelo modo como o agarrava com as unhas e as pernas, movendo-se junto dele.

Decidida a não perder nem mais um pouco da diversão, Iva o envolveu com os braços e posou a boca no pescoço convidativo. Dimitri gemeu uma vez, mas sem tirar sua boca do corpo da mortal. Iva beijou a pele nua, deslizando os lábios pelas costas dele lentamente. Ela amava provoca-lo daquela maneira, senti-lo estremecer sob seus lábios sempre foi uma sensação extasiante.

Dimitri estava ciente do toque provocante da vampira em seu corpo, assim como estava ciente do corpo da mortal sob o seu. Ele ainda sugava um dos seios fartos e se movia contra ela quando o orgasmo o atingiu, intenso. Ele jogou a cabeça para trás e urrou, liberando seu prazer dentro dela quase ao mesmo tempo em que ela atingiu o clímax.

A mortal se agarrou a ele com uma força desesperada, como se pudesse de algum modo prender aquela sensação extasiante que percorria cada pedaço de seu corpo em uma onda intensa. Ela se lembrava de ter feito sexo muitas vezes em sua vida, mas de jamais ter tido um orgasmo tão forte e arrebatador como aquele. Seus olhos se abriram devagar e fitaram o estranho que havia lhe proporcionado tamanho prazer.

Mas antes que ela pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, ele tomou conta da situação novamente. Girou seu corpo com rapidez, virando-a de bruços violentamente. A princípio ela se assustou, mas quando sentiu a mão dele afastar-lhe os cabelos gentilmente do pescoço, ela relaxou esperando por mais…

Dimitri expôs o pescoço convidativo, sentindo suas presas se alongarem novamente. Ele esfregou o nariz na carne macia, inspirando o aroma doce de um perfume qualquer e, sem poder conter a fera interior que ansiava por se libertar, ele a mordeu.

Quando o sangue cálido explodiu em sua boca, ele deu um longo gemido, apreciando o sabor. Sua fome era tanta que ele pressionou o corpo da mortal uma vez, agarrando-a com mais força. A jovem não conseguiu conter um gemido também. Não tinha a menor ideia do que estava acontecendo, mas sabia dizer o quanto aquela sensação era boa, um formigamento delicioso que se começava na nuca e descia pelo dorso até a ponta dos pés, levando-a a flutuar em sensações que jamais havia sentido.

Iva observava a tudo, grudada ao corpo de Dimitri. Seus olhos não perdiam nada e encaravam aquela cena com desejo. Os lábios inquietos passeavam pelo pescoço do vampiro, ansiosos por um beijo… Ansiosos por se abrirem sobre a pele e seus dentes se afundarem. Ela também estava faminta.

Dimitri não matou a jovem humana. Deixou-a estendida na cama, levemente adormecida enquanto se virava com um olhar altamente malicioso para Iva.

No momento em que ela viu a fome naquele olhar, a vampira soube que seria a próxima… E que ele não pegaria leve com ela. Ia ser brutal, sedutor e sombrio.

E ela adorava isso!

 *-* *-*

Gwen desviou os olhos da pequena fresta na porta, perturbada. Havia visto absolutamente tudo. Desde a recepção calorosa de Dimitri pela vampira morena até o momento em que ele se perdeu no meio das pernas da mortal loira.

Aquela era a segunda vez que ela surpreendia duas pessoas num momento tão íntimo e não gostava nada disso. Mas que inferno!

Era normal as pessoas se divertirem… Normal serem desinibidas. Normal gostarem de se divertir a três. O sexo era completamente natural.

Mas ver Dimitri daquele jeito… Tão imponente a deixou, de certa forma, chocada. Ele era bruto, selvagem, sensual… Irresistível. Seu modo de seduzir chegava a ser desleal.

Por um momento Gwen ficou irritada. Não queria ter visto aquilo… Não queria se sentir seduzida por aquilo. Ela queria desaparecer, explodir em um monte de fumaça e se esconder, envergonhada por tê-lo visto transando com aquelas mulheres.

Ela queria simplesmente sair correndo dali o mais de pressa que pudesse e se afundar numa banheira com água gelada. Somente para afastar o calor absurdo que sentia por dentro…

Gostaria de nunca mais olhar na cara dele!

Esse sentimento a pegou de surpresa, chocando-a. Estava mesmo irritada por ter flagrado Dimitri se divertindo com alguém? Mas que despautério era aquele?

Irritada, ela saiu pisando fundo para dentro de seu quarto e fechou a porta cuidadosamente, resistindo à ideia de batê-la e acabar com a festinha dele.

Ela suspirou, sentindo-se ridícula.

– Ele poderia ter fechado a porta. – ela resmungou, tentando convencer a si mesma de que havia uma boa razão para sua birra.

Seus olhos vagavam pelo quarto, perdidos na lembrança de Dimitri se saciando. Por mais que ela tentasse não pensar, a cena vinha em sua mente provocando-a. A lembrança dele nu, a enorme e linda tatuagem que ostentava pelo dorso até um dos ombros. Ele era maravilhosamente lindo. A forma como se movia dentro daquela mulher, como a beijava… Como sugava os lábios vermelhos nos seus tão perfeitamente esculpidos… A forma como ele arfava…

Gwen grunhiu, resistindo ao impulso de dar um tapa em si mesma. O que estava acontecendo com ela? De onde vinham aqueles pensamentos libidinosos?

Furiosa, ela abriu a porta do banheiro, ligou o chuveiro e se enfiou debaixo da água fria. Não se importou em tirar a roupa, deixou que a água caísse por seu corpo suavemente e aplacasse aquele fogo vivo que a fazia ferver.

Fechando os olhos, ela tentou pensar apenas na sensação suave que a água fria lhe proporcionava. Pensou em Heron e seus beijos doces… Em quanto já estava com saudades de Elin. Em quanto tinha o que viver e aprender. Pensou em como as trevas a incomodavam ali em Brasov…

Ela tentou pensar apenas nas coisas boas. Mas as imagens sedutoras de Dimitri se espalhavam por sua mente, deixando-a irritada, chocada e envergonhada.

Gwen deslizou pelo azulejo frio, soltando um suspiro irritado de frustração e se permitindo sentar no azulejo frio. Sua respiração se alterou lentamente e ela começou a ofegar – o que estranhamente quase lhe rendeu um ataque histérico de riso! Aquilo tudo era tão ridículo!

– O que está fazendo parada aí? – a voz feminina a surpreendeu.

Gwen ergueu os olhos abruptamente e fitou Erika. Ela usava um vestido azul escuro um tanto comportado e estava levemente maquiada. Seu olhar era preocupado.

– Calor.  – Gwen respondeu.

– Até parece – Erika bufou. – Um frio de congelar os ossos e você com calor?

Gwen franziu o cenho para ela.

– Eu sei exatamente quando estão mentindo para mim – Erika disse, aproximando-se para desligar o chuveiro. Delicada, ela ajudou Gwen a se levantar e a envolveu com uma toalha felpuda.

Erika conduziu-a de volta ao quarto e a empurrou gentilmente na cama, pegando outra toalha para lhe secar os cabelos. Não queria se aproximar tanto dessa garota, mas a ligação que as unia tornava isso inevitável.

Gwen não disse nada, deixou que a outra secasse e desembaraçasse seus cabelos. A sensação suave das cerdas da escova em seu couro cabeludo a fez fechar os olhos. Por incrível que pareça os pensamentos errôneos não a incomodaram novamente – o que a fazia pensar se Erika não estava usando de magia para acalmá-la.

– Obrigada – Gwen murmurou.

– Você me ajudou ontem – Erika deu de ombros – Se vamos ter que conviver juntas, então que seja em paz.

– Você quase não parece mais aquela garota nojenta que eu conheci.

– Não abuse – alertou Erika, mas havia um resquício de sorriso em seus lábios.

Gwen sentiu o sorriso e sorriu também.

– Vai me contar o que a levou à um banho frio à essa hora da noite num país onde o sol sequer aparece? – Erika perguntou, terminando de desembaraçar os fios dourados e macios.

– Eu vi Dimitri se divertindo com duas estranhas – Gwen respondeu.

A escova parou no alto de sua cabeça.

– Ah… – foi tudo o que Erika disse.

– Eu estava voltando para o quarto e encontrei a porta do quarto dele entreaberta. Foi quando os vi…

– Com duas mulheres? – Erika tentou fazer piada.

– Com duas mulheres. – Gwen assentiu.

Erika riu, o olhar malicioso brilhando.

– Não tem graça.

– Ah, você me desculpe, mas tem graça sim! – Erika continuou a rir. – Até parece que você nunca viu uma coisa dessas.

– Não seja boba. Só acho que momentos assim são íntimos demais para expor para qualquer um ver.

– A culpa é sua – Erika disse com a maior naturalidade – Quem foi que mandou ficar espionando através da porta?

– Eu não estava espionando! – Gwen se zangou.

Erika ergueu as mãos no ar como quem se rende.

– Tudo bem, tudo bem – disse ela e por um momento fixou os olhos na jovem ao seu lado, analisando-a. – Foi por isso que você estava debaixo do chuveiro gelado?

Gwen desviou o olhar, assentindo em silêncio.

– Por quê? – Erika perguntou suavemente, embora já soubesse a resposta.

– Você não entenderia – Gwen suspirou, cansada. – Nem eu mesma entendo.

– Você ficou mexida com o que viu – Erika disse e não foi uma pergunta.

– Não seja boba.

– Estou vendo a sua aura, Gwen – Erika a alertou, séria. – Está turbulenta, em cores fortes. O que indica emoções perturbadas.

– Como queria que eu estivesse? – Gwen a fitou com intensidade.

– Não sei – Erika admitiu. – Envergonhada? Excitada? Quem vai saber? – ela deu de ombros, compreendendo a colega. – Só acho que se sentir atraída por uma coisa dessas é completamente normal!

Gwen balançou a cabeça num suspiro longo. Recusava-se a pensar em qualquer possibilidade de ter se sentido atraída, de alguma forma, pela cena que presenciou. Não porque fosse algo fora do comum, mas porque não conseguia lidar com tal sentimento.

Seus olhos se voltaram para a outra.

– E você, o que veio fazer aqui? – ela perguntou, educada.

– Na verdade vim convidá-la para uma festa – Erika disse e seus olhos se iluminaram.

– Festa? – Gwen franziu o cenho, cética.

– Até mesmo os vampiros adoram uma boa festa. Na Torre oeste existe uma espécie de bar onde eles se divertem…

– E você sabe disso como? – Gwen a interrompeu.

– Sou muito bem informada – a jovem piscou. – Além disso, se vou pertencer a esse mundo desconhecido tenho que me informar de tudo sobre a vida aqui em Brasov.  Você e eu vamos nos divertir.

Gwen tentou reprimir a risada alta, mas não conseguiu.

– Você só pode estar de brincadeira! Eu e você num bar cheio de vampiros selvagens que adoram caçar humanos em noite de lua cheia?

– Não seja ridícula. Você e eu somos completamente capazes de nos defender. Estamos seguras em qualquer lugar de Brasov.

– Isso não significa que possamos sair por aí e nos enfiar em uma torre sombria onde vampiros famintos se saciam. O que deu em você? Isso aqui não é a Disney!

– Disney ou não, Brasov oferece diversão – Erika gargalhou de sua rima. – Vamos lá, Gwen. Eu preciso me divertir! Depois de tanta adrenalina, fuga e ameaça por parte daqueles cães fedorentos eu bem que mereço alguma diversão.

Gwen a fitou, cética.

– Você também precisa se divertir um pouco – Erika argumentou – Ficar aqui trancada o dia todo. Isso não faz bem.

– Como se um passeio num bar cheio de vampiros fizesse algum bem!

– Você pode encontrar Heron lá – Erika lançou a isca.

Gwen titubeou um pouco, seduzida pela ideia de poder se encontrar com Heron. Sabia que ele precisava ficar de vigia do lado de fora, mas talvez pudesse lhe fazer um pouco de companhia…

– Não importa. É mais seguro ficar aqui dentro – ela disse, atendo-se à razão.

– Covarde!

Por um momento Gwen se irritou profundamente.

– Eu lhe mostro quem é covarde – ela disse, irritada. Pegou seu casaco e saiu marchando pela porta.

[1] Soberano.