O retorno de Elise

O retorno de Elise

O retorno de Elise

Escrito por: Zuleika Juliene

Eu me chamo Elise e desde algum tempo pessoas estranhas habitam a minha casa, pois assim que minha mãe faleceu eles vieram para cá. Creio que sejam parentes, mas a verdade é que após o falecimento fiquei anos enclausurada em meu quarto devido a uma forte depressão, quando resolvi sair ninguém falava comigo, talvez tenham ficado ressentidos pela falta de atenção e hospitalidade, mas durante muito tempo não conseguia interagir com ninguém ou apenas não queria.

Tenho agora dezenove anos, mas sinto minha alma mais velha, com gostos que não são mais moda nesta por aqui, olho no espelho e não me reconheço naquela imagem nem nas vestimentas, a tecnologia daqui me assusta, o futuro me assusta. Penso onde estão às sutilezas, as tardes no jardim, onde está o meu bordado, a confeitaria, sinto gosto de chá na boca. As músicas que escutam agora são barulhentas e beiram o insuportável, as roupas não têm classe e na maioria das vezes acho que acabou o tecido na costureira ou a criatividade da modelista acabou no meio do processo. O jardim da minha casa permanece lá, mas não com a mesma vida que tinha na época em que minha mãe cuidava com tanto esmero.

Não fiquei contando os dias, sei que foram anos, mas parecesse que estou em outra sociedade, parece que se passou um século na verdade

Não tenho certeza, mas inúmeras vezes senti impulsos incontroláveis de vontade de tocar piano… Olho para esta família e essas pessoas não me dizem nada, absolutamente nada, não sou parte deles, são estranhos para mim, apenas a casa me é familiar. A angústia me toma o peito, então olho ao redor em busca do meu chapéu. Quero sair. Lembro que as pessoas aqui não usam chapéus para sair e nem mesmo eu sei onde estão os meus.

Vago pelas ruas da cidade em busca de algo familiar para mim, sempre que me sinto assim gosto de andar pelo centro, ver construções e prédios antigos me conforta, entrar em sebos, ficar sentada por horas em uma estação de trem antiga. Tudo isso faz parte de mim, faz com que eu me sinta em casa, faz com que eu me sinta real.

Observo as pessoas passarem e vez ou outra vejo alguém que me parece conhecido, não de agora, de um outro tempo, normalmente pessoas bem idosas Percebo como as pessoas olham horrorizadas pelos trajes antigos dessas ao passo que eu gostaria de lhes perguntar para onde estão indo, pois de repente lá é o meu lugar.

Volto para casa me sentindo uma intrusa em um ambiente totalmente hostil, vou para meu quarto e passo horas lendo, é o mais próximo que consigo chegar da minha realidade e dos meus ideais quando estou em casa. Muitas vezes tive vontade de gritar que a casa é minha e expulsar estas pessoas daqui, pois tenho em minha mente que são uma corja de aproveitadores, oportunistas. Mas sempre deixo para lá, tenho um pouco de medo da solidão agora que voltei ao meu estado normal.

De uns tempos para cá esta vontade anda aumentando, pois percebi que muitas coisas minhas que procuro têm desaparecido, os chapéus são exemplo disso, alguns livros, minha caixa de bordados e até meu enxoval.

Acho uma covardia fazerem isso. Não os mando embora, mas também não irei lá questioná-los, tenho quase certeza que estão fazendo isso para que eu puxe assunto com eles. Vã ilusão.

Não tem problema se não acho meu livro que tanto queria ler, vou à biblioteca que é um dos meus lugares preferidos e com certeza um ambiente muito mais agradável que este aqui.

Acabo adormecendo envolta em meus pensamentos e acordo bem mais tarde do que gostaria, incrível que há anos tenho o mesmo sonho, minha casa pegando fogo. Não sei o que isso significa, sinto-me sufocada pela fumaça e acordo sempre desesperada com os gritos da minha mãe. Que saudade que tenho dela.

Têm coisas que são difíceis de aceitar, mas procuro não pensar muito nisso para não voltar àquele estado de trevas, neste momento procuro distração, então me dirijo à biblioteca e lá chegando avisto uma moça que me chama muito a atenção, pois tenho plena certeza de conhecê-la. Ao me aproximar percebo que ela folheia um grande livro de registros sem ao menos piscar, suas roupas são muito semelhantes as minhas, observo seu penteado e lembro que durante um tempo usei o cabelo daquela maneira. Tenho receio de chegar mais perto e assustá-la tamanha a concentração em que ela se encontra, mas de onde estou sinto o perfume de rosas que eu costumava usar, então noto que lágrimas escorrem de seu rosto caindo sobre o livro toda vez que ela soluça.

Começo a ter uma sensação estranha que não consigo distinguir entre tristeza, agonia, saudade ou outra coisa qualquer, começo a sentir-me enjoada e com uma intensa dor de cabeça que a faz pender para frente, de repente sinto-me fraca como se fosse cair.

Sem olhar para trás ela acena com a mão para que eu me aproxime. Ainda me sentindo fraca vou ao seu encontro e cada passo que eu dou a fraqueza aumenta, quando chego ao seu lado tenho que me apoiar na mesa para não cair e meus olhos param sobre uma noticia de jornal que fala sobre um incêndio que havia ocorrido cinquenta anos antes matando uma senhora viúva e sua jovem filha enquanto dormiam.

Caio ao chão sentindo-me sufocar, olho para a moça que chorava e reconheço meus olhos em seus olhos. Antes de todo o local se transformar em chamas e destroços vejo cada pedaço dela derreter e torrar no fogo e misturado à fumaça o cheiro de carne queimada me fazem perder a consciência.

Acordo em meu quarto, todo queimado e ainda consigo ver cinzas flutuando no ar. A porta se abre deixando entrar uma claridade que me faz encolher supondo que ainda sejam chamas, mas é apenas luz, uma luz intensa de onde sai minha mãe que estendendo os braços me diz:

  – Pronto, não está mais perdida. Te levarei para casa

Fim

A semente maligna

 Semente Maligna 1

Escrito por Zuleika Juliene

  Há coisas que são difíceis para a mente humana assimilar. Assuntos não resolvidos, pendências de outra vida podem transcender o tempo e o espaço fazendo-nos expiar nossos erros passados.

   Sônia nascera em uma família comum, humilde, com toda sorte de privações, mas isso não é o mais importante e sim o fato de Sônia ter nascido com uma anomalia, algo a mais, algo que não faria falta, que até seria melhor se ela não possuísse.

   Mas estava lá, era como um nódulo maligno, como algo que a forçasse a ser alguma coisa que não era.

   Desde pequena Sônia colecionava fatos, aborrecimentos, nada de bom lhe acontecia e não era por acaso que coisas e fatos ruins somavam-se a ela, desde que a conheci nunca consegui perceber algo de realmente bom que tenha acontecido a ela, Sônia realmente tinha um imã, como um chamamento, sempre o péssimo, o catastrófico a acompanhava.

   Teve uma infância e uma adolescência difícil, ninguém pode contestar, talvez uma mocidade traumática, então ela decidiu que poderia mudar, poderia esquecer o passado e construir um belo futuro, mas mais forte que seu desejo de mudança, estava aquilo, incrustado em sua alma, uma semente ruim que a cada dia ia sendo germinada por seus pensamentos, aquilo que a fazia rebater para bem longe qualquer positividade que pretensiosamente tentasse se aproximar; mas ela não percebia, aquilo já fazia parte dela, como perceber? Então seguiu sua vida, conheceu um rapaz, se apaixonou e gerou uma criança, achou que fosse a manifestação do verdadeiro amor, esperança e reconciliação com a vida, mas estava enganada, amargou muito mais do que pudesse suportar.

 Sua maldição, aquele algo a mais que possuía havia crescido consideravelmente, aliás, crescia a cada sofrimento seu. Abandonada e com uma criança em seus braços ela sofria desesperadamente, a ela parecia uma dor insuperável, mortal, enlouquecedora. Não morreu, nem enlouqueceu, então considerou-se guerreira, suportou seus fantasmas, seus conflitos e na medida do possível, tropeçando, apanhando, em meio a gritos, necessidades, humilhações e praticamente imersa em lama ela conheceu outra pessoa e casou-se.

  Todos observavam imaginando que as portas daquele inferno se fechassem, todos emanavam vibrações positivas e votos de infinita felicidade, mas a revelia da vontade de todos aquelas portas se arreganharam, o ápice da loucura a dominou e desde então as tormentas jamais cessaram.

  Do casamento teve outra filha, nunca soube o que era a paz. Decidiu que criaria esta segunda filha a sua imagem e semelhança, uma vez que não se sentia semelhante a ninguém. Fez dela sua cópia, pensamentos, angustias e sofrimentos; ainda assim não conseguiu partilhar sua dor e nem a ver refletida na menina, sua dor era única, sentia-se sozinha e isto alimentava aquela energia maligna que ia expandindo dentro dela e ela a alimentava cada vez mais com comentários maldosos, previsões ruins, maldições, pragas que adentravam a mente e o espírito de entes queridos.

  Todos, por amor, compaixão, benevolência ou qualquer que fosse a razão tentavam ignorar,não sentir os impactos de seus olhares invejosos, de seus maldizeres, mas era impossível não ser contaminado, arrebatado por tamanha negatividade e assim aos poucos cada familiar próximo de Sônia foi adoecendo, enfraquecendo, como se a única forma de aliviar a sua dor fosse plantando uma semente do mal em quem se aproximasse dela, alguns chegaram até a falecer, pois não tinham tanto equilíbrio para suportar tais impactos fortes e arrebatadores.

  A essa altura Sônia começou a perceber a grande gerador de males que ela era, queria destruir a si mesma, pois não tinha forças para lutar, falhou.

   Foi destes seres presenteados com uma longevidade espantosa, em sua vida restou apenas recordações, pois daqueles que ainda restaram entre amigos e parentes aos poucos foram todos se afastando para não adoecerem, não se contaminarem. Então ela se viu sozinha e pode refletir que o mal que a acometia fora designado para este fim, deixá-la sozinha, imersa na reflexão de seus atos desta e talvez de outras vidas.

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