Bloody Mary

Escrito por Naiane Nara

É uma dor estrondosa a que sinto; torna o simples ato de respirar me fazer ter vontade de morrer. Houve uma época em que senti amor e vi a vida como luminosa e bela… Mas isso foi quando eu era muito jovem. Agora sinto apenas o vazio e a dor. Física, dessa doença maldita que está me consumindo, e a dor na alma, a dor do abandono, o vazio puro e simples.

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Elizabeth Regina

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Escrito por Naiane Nara

 

Anos depois daqueles acontecimentos, eis que estou parada, quase sem respirar, quedada a tentar estancar a dor. Pensei ser forte, pensei ter superado os acontecimentos do meu passado, porém vejo que não é verdade. Se algo tão pequeno e simples pôde fazer sangrar novamente uma ferida profunda, é por que essa ferida jamais foi cicatrizada realmente.

Nunca houve um fim, nem haverá; essa é a maldição da minha família.

Jamais poderá imaginar pelo que passei para ter essa coroa cingindo a minha fronte. Quantas boas pessoas morreram, quão perto da morte eu mesma fiquei. Tive que tornar-me ferro, ou não sobreviveria a este mundo.

Não só sobrevivi, como venci. Sento no trono dos meus ancestrais, governo o meu país sem precisar ter me acorrentado a essa instituição horrenda a que chamam casamento.

Mas bastou um pedido para deixar a poderosa Rainha em prantos, sangrando por dentro dia e noite. O fato de ter partido de alguém que amo, pouca coisa que restou do que posso chamar de família, torna tudo pior.

Encaro o rolo que contém o pedido ainda sem acreditar: como meu querido primo, que muitos dizem ser meu irmão, pôde propor-me uma zombaria dessas?

Meu primo Henrique, Barão de Hunsdon, a quem confiei tantas missões e que sempre fora bem sucedido para mim… Solicita um dos títulos de nosso avô em seu nome, já que não posso ser considerada uma herdeira direta.

Conde de Wiltishire.

Nenhum problema se encontra em fornecer um novo título a meu primo – ele é meu enviado em difíceis missões, sejam no campo de batalha ou diplomáticas e sempre tem uma vitória a me oferecer quando retorna – mas por Deus, pelos Santos, qualquer título menos este.

Qualquer riqueza menos essa, não esse cargo que custou o sangue da minha mãe.

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As lágrimas de uma Rainha

 

 

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Escrito por Naiane Nara

 

E mais uma vez estou aqui, neste lugar suntuoso, o local de minha coroação. Naquela maravilhosa ocasião, eu pensava haver vencido a batalha contra o esquecimento. Pensava estar a salvo de tudo de ruim que pudesse me alcançar. Eu era a Rainha e carregava o herdeiro presuntivo da coroa em meu ventre, o mundo se abriria para mim em felicidade e meu nome seria inserido nos anais da História.

Como pude ser tão tola e insensata?

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O Dilema de um Rei

 

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Escrito por Naiane Nara

 

Muitos dos meus súditos acreditam que estou assim, tão miserável e entristecido, devido a perda de minha amada esposa, a Rainha Jane. Não sabem, porém, que muito mais aflige minha consciência e me faz sentir o mais vazio dos homens. Sou Henrique VIII e sempre atravessei as diversidades como um grande e poderoso dragão, conseguindo o que desejava em todas as ocasiões. Sempre sagrado vitorioso, amado pelo povo mesmo quando me tornei um tirano, não é de meu feitio demonstrar medo de nada e nem de ninguém.

 

Mas agora, depois de enterrar minha terceira esposa, me sinto tão só como jamais me senti em toda a minha vida. Sinto medo por que estou a envelhecer, estou a me tornar muito gordo e irritável, a juventude foi embora de uma vez por todas, e mulher nenhuma, por mais viçosa que seja, trará isso de volta. Se tiver que voltar a me casar, e sei que terei, será uma aliança de Estado para trazer paz ao meu Reino, não mais alguém que eu ame. Já me desgastei e levei sofrimento demais aos outros. Minhas três primeiras esposas morreram diretamente por minha responsabilidade. Matei – sim, esta é a palavra correta, matei – minha primeira mulher de desgosto, a segunda decapitada e a terceira ao lhe dar minha semente. Não quero mais sofrer. Não quero mais lembrar. Por que, afinal, os anos não foram gentis comigo?

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