Pavilhão Cinza – A Fuga

Por: Natasha Morgan

O primeiro a perecer sob as garras gélidas de Sofia fora o enfermeiro responsável pelo pavilhão A-10.

O Pavilhão A-10 era conhecido pelos gritos enlouquecidos do paciente que se mantinha amarrado à cama cinzenta. E a barbárie com que era tratado pelo enfermeiro Ronaldo.

Qualquer um que se aproximasse das portas chumbadas ouviria os gritos que povoavam os corredores numa súplica sôfrega. Um alerta perigoso.

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Sob Olhos Sombrios Pt.2

Mas não era somente a gentileza que toldava os muros daquela casa.

Havia uma aura estranha. Sombria. Como se algo pegajoso e denso profanasse aquelas paredes.

Ernest se sentia acolhida, paparicada e aceita. Mas aquela aura estranha a intimidava. Como o roçar gélido do vento na madrugada, infiltrando-se pelo corredor escuro e tocando suas pernas num sedoso roçar.

Ela se estremecia toda e corria para o quarto, abrigando-se debaixo das cobertas. Pensando na mãe que a deixara, na solidão angustiante e no silêncio assustador que ecoava pelo hall.

Mark estava sempre calado, perdido em seus pensamentos. O charuto cubano pendendo em seus lábios enquanto degustava a dose de conhaque, sentado em sua poltrona.

Joy sustentava o silêncio do marido, alisando a aliança dourada pousada no dedo ossudo. Seus olhos eram inesgotáveis.

Somente Racoon parecia lidar, realmente, com a tristeza, extravasando a raiva e decepção com o heavy metal num som particularmente alto – o que parecia zombar e desafiar Mark.

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Sob Olhos Sombrios Pt. 1

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Por: Natasha Morgan

Num suave roçar do vento, ela desapareceu.

Ernest

Ela desceu do avião um tanto assustada. Não esperava uma viagem repentina como aquela. Não esperava ter que deixar os campos verdejantes do interior e se arriscar até New York debaixo de uma chuva cinzenta. Não logo após a morte de sua amada mãe.

Mas ela também não esperava ser confrontada com uma notícia como aquela.

Seu pai. Continuar lendo “Sob Olhos Sombrios Pt. 1”

Pavilhão Cinza

*Conto inspirado nos relatos acerca do hospital psiquiátrico de Barbacena.

Por: Natasha Morgan

Aquela não era uma boa época para se usar saias.

Quando coronéis trajando uniformes cáqus e fumando charutos importados assombravam a seca do sertão, manipulando, intimidando e dirigindo o povo carente era um fardo ser a jovem bela e promissora de uma família em ascensão.

Foi o que descobriu Ana naquela tarde fatídica em que estendia as roupas no varal puído de seu quintal. Quando os olhos cinzentos do Coronel Alfredo pousaram sobre seu corpo juvenil e cintilaram em malícia selvagem.

Quando as mãos grossas daquele homem grotescamente perfumado passearam por seu corpo, invasivas. Quando seus lábios secos experimentaram o sabor de sua pele e seus músculos a sufocaram no celeiro, ameaçando afundá-la na palha áspera conforme ele violava sua inocência e fragmentava sua alma.

Ana não pode dizer nada.

O que o Coronel queria, ele pegava.

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