Entre Vidas

lagrimas_olhos_02

Escrito por Mille Meiffield.

INGLATERRA, 1850

 

– Nãoooooo. – a dor lancinante queimava meu peito. Ela estava morta. – A culpa é de vocês. Vocês a mataram. – eu berrava para minha mãe e minha tia.

– Do que você está falando Emily? – o cinismo de minha mãe me deixava enojada.

– Com certeza a ordem partiu de você. –gritei enquanto as lágrimas banhavam meu rosto. – tia Amellie não seria capaz de matar a própria filha.

– Você está nos culpando pelo acidente com a Marina? – minha mãe não demonstrava nenhum sentimento. Sua expressão rígida, sem nenhum traço de dor me fazia pensar e repensar porque a Marina queria tanto fugir de Lancaster.

– Vocês descobriram, mas não havia nada a descobrir. Por toda a minha vida só ela se preocupava comigo e eu com ela. Vocês duas só querem saber de joias, sapatos e vestidos caros. Nós duas sempre fomos diferentes dessa sociedade hipócrita.

– Em, sei que está triste, mas não pode culpar sua mãe. – tia Amellie demonstrava dor e alívio, como se a morte da própria filha a tivesse livrado de um grande fardo.

– Se não for se trocar agora vai perder a hora do funeral.

– Como pode falar do funeral da sua sobrinha sem demonstrar nenhuma emoção? – meu peito estava ardendo com a dor da perda. – Você é uma bruxa. – gritei.

– Olha aqui mocinha – disse minha mãe segurando meu braço  – se pensa que pode falar comigo como bem entender fique sabendo que não vou tolerar suas grosserias.

– Você não tem que tolerar nada – gritei do fundo do peito. – Amanhã partirei para longe. Tenho o dinheiro que a vovó deixou para mim. Vou para bem longe de Lancaster, longe o suficiente para nunca mais olhar para vocês.

Meu pai chegou e me ouviu gritando. Ele não era uma boa pessoa. Mantinha seus arrendatários como escravos. Andava de bordel em bordel, noite após noite. Chegava  em casa bêbado todas as madrugadas. Era cruel com qualquer pessoa que desobedecesse suas ordens, e eu tenho algumas marcas no corpo para provar.

– Que gritaria é essa? – indagou furioso. Tudo o que tinha a ver com sua família o deixava furioso.

– A escandalosa da sua filha gritando a plenos pulmões que nós matamos a Marina.

– Emily vá agora para o seu quarto, não quero chegar atrasado para o funeral da sua prima.

– Como se o senhor se importasse, tudo o que lhe importa são as vadias com quem o senhor dorme todas as noites.

Ele desferiu um tapa em meu rosto. Se um dia eu cheguei a ter algum sentimento por esse ser, ele acabou naquele momento.

– É uma ordem, lorde Falchy chegará a qualquer momento. Ele lhe acompanhará durante a cermônia.

– Jamais. – gritei. Eu não suportaria viver mais nenhum dia naquele lugar. – lorde Falchy que vá para o inferno. Eu vou embora de Lancaster.

– Mas é claro que irá. – disse  meu pai com uma naturalidade que me assustou. – Dentro de três meses irá para a França, morar com a família do Lorde Falchy como sua esposa.

– Nunca, eu não vou me casar com aquele porco imundo.

– Você vai fazer o que eu mandar. – ele me colocou contra a parede e olhando em meus olhos com ar de desprezo concluiu. – Se ousar a fazer qualquer coisa contra a minha vontade seu fim será o mesmo que o da Marina.

 

Depois dessas palavras eu não tive mais dúvidas. Eles a haviam matado. Eles a mataram porque eu a amava. A mataram porque ela me amava. A mataram porque não tiveram amor o suficiente para entender que nós duas éramos diferentes.

 

UMA SEMANA ANTES.

 

Eu estava na clareira da floresta, que beirava um pequeno lago. Pensei no que Amanda e Marina haviam me dito.

Precisava fugir de Lancaster, ir para o mais longe possível. Sabia que precisava ir, mas não tinha coragem. Tinha medo que meu pai me encontrasse e me machucasse.

 

– Não sei no que está pensando, mas espero sinceramente que seja em mim.

– Marina, o que está fazendo aqui? – indaguei receosa. – Pensei que tivéssemos combinado de nos encontrarmos um pouco menos.

– Emy. não seja tão medrosa, todo mundo sabe que somos amigas.

– Amigas sim, amantes não. – eu estava furiosa com ela. – Se nossos pais souberem vão nos separar para sempre, e eu não quero isso.

Levantei e fui andando em direção ao estábulo. Ficar um tempo com os cavalos me acalmava.

– Emily, nós não somos amantes.

– Somos sim. – falei e me virei para ela. – Você me beijou e eu cedi. Não podemos, isso é pecado.

– Duas pessoas se amarem não é pecado.

– Quando elas são do mesmo sexo é sim

– Não é, e mesmo que fosse, como Deus poderia permitir  que sentíssemos o que sentimos uma pela outra se Ele achasse errado?

– Para com isso Marina. – Ela estava linda. Vestida com um vestido de cetim e renda em tom de rosa bem claro. – Eu não sou rebelde como você.

– Não sou rebelde. Sou livre e ninguém precisa saber disso. Eles só precisam achar que me controlam. Emily, você está prometida a Lord Falchy. Se casar com ele nunca mais poderemos ficar juntas.

Eu paralisei. Sabia que ela estava certa, mas duas mulheres? Isso não era correto.  Eu nem sabia mais quem ou o que eu era. Meus sentimentos estavam confusos. Minha mente já não pensava com clareza.

 

NO DIA DO ACIDENTE, HORAS MAIS CEDO.

 

– Marina? – chamei. – O que você está fazendo?

– Estou me preparando para ir embora, essa madrugada. Vou para Hampshire, tenho uma amiga que mora lá e acabou de ficar viúva. Ela não tem ninguém da família e perguntou se eu queria ficar com ela. Emily vem comigo, por favor.

– Eu…não posso.

– Emy eu te amo.

– Não, não, não, você não pode . – Meus olhos marejaram e minha garganta fechou.

– Posso sim e você também. Se realmente me ama, do mesmo jeito que eu te amo, me diga.

– Não. Marina, você é minha prima, minha melhor amiga.

– Você sabe que somos muito mais do que isso. – ela fechou a mala. – Enfim, se você quiser vir está convidada, mas se não sentir o mesmo que eu, nem precisa se dar ao trabalho.

– Espera…

Segurei seu rosto em minhas mãos e a beijei. A beijei como se minha vida dependesse daquilo. A beijei como se nunca mais fosse vê-la.

– Eu te amo, te amo com todas as minhas forças.

– Então vem comigo. Hoje à noite.

– Vou. Eu vou com você.

Nos abraçamos. O calor do toque de sua pele na minha ardia de uma forma agradável.

Fui para meu quarto preparar minha mala. Não poderia levar muitas coisas. Um par de sapatos e dois vestidos eram suficientes.  Tudo valia à pena para passar a vida a seu lado.

Apaguei as velas e fingi estar dormindo. Minha mãe sempre entrava em meu quarto e no da Marina para nos desejar uma boa noite – mas em minha percepção sinto que era para saber se realmente estávamos em nossas camas, separadas – e assim que ela saiu do meu quarto me levantei e fui trocar de roupa.

Marina já devia estar pronta e me esperando. Ela disse que Amanda, uma de nossas amigas nos preparou uma carruagem que nos esperaria na parte de trás do estabulo.

Uma forte explosão fez com que eu me assustasse. Eu podia ver o fogo da janela do meu quarto. Uma explosão…no estabulo…Marina.

Não pensei duas vezes. Corri com toda a força que consegui reunir.

Quando cheguei lá, já era tarde. A carruagem estava coberta pelo fogo, mas uma coisa nunca vai sair da minha mente, os gritos da Marina, ainda viva, sendo consumida pelas chamas. Naquele momento, minha alma foi marcada.

 

Rio de Janeiro 2010

 

Acordei em meio a lágrimas e com o peito ardendo.  Não era apenas um sonho. Não era só um pesadelo. Eu era a Emily. Marina era minha prima. Ela era minha alma gêmea.

O laço que nos unia – e ainda une – é tão forte que mesmo com a reencarnação não se rompeu. Se me perguntarem se eu ainda a amo, sem sombra de duvidas direi que sim.

Eu não sei quem é Marina, não nessa vida. O que eu sei é que quando eu a encontrar, se eu a encontrar, saberei que é ela. Seja como homem ou mulher, eu saberei.

 

  HISTÓRIA BASEADA EM FATOS REAIS

SCARLAT

um cafe e um amor3

Por Mille Meiffield

Scarlat. – Inspirado na música Vermilion – Slipknot

Ela estava ali me olhando. Seus olhos de um castanho quase vermelho fitavam todos os meus movimentos. Seu corpo esguio, sua pele pálida. Seus cabelos tão loiros como a luz da lua cheia após uma noite de tempestade.

Eu sempre frequentava esse bar e nunca havia me deparado com ela. Ela era especial. Feita sob medida para alguém, poderia ser para mim?

Ela estava meio suja e mal vestida, parecia estar fugindo de alguma coisa. Mas sabia aonde ia.

Aproximei-me e puxei uma cadeira da mesa em que ela estava. Seus olhos fitavam profundamente os meus. Sua pele era ainda mais pálida olhando de perto e abaixo dos olhos, marcas arroxeadas formavam meias luas deitadas, como se abarcassem suas órbitas oculares.

– Meu nome é Brett.  – falei. – Qual o seu nome?

Ela me analisou calma e demoradamente por um longo tempo. Parecia tão frágil e perdida. Seu olhar era um desencontro de informações.

– Mia. – ela disse.

– O que uma menina tão linda como você faz por aqui, Mia?

– Não me pergunte nada. Só, por favor, me leve para casa.

Vi um certo pavor em sua expressão. Ela olhava em sua volta com medo de alguma coisa. Nossa diferença de idade era óbvia, mas ela mexeu comigo como nenhuma outra. Ela não tinha mais do que vinte anos e eu já beirava os trinta e quatro. Por algum motivo ela confiou em mim. Tentei deixar meus instintos de lado e a levei à minha pick-up que estava no estacionamento do bar.

Ela entrou sem fazer perguntas, apenas me olhava curiosa. Era quieta, tímida.

Entrei na pick-up e comecei a dirigir. Não sabia para onde leva-la.

– Onde você mora, Mia?

– Não vou para minha casa. Leve-me para a sua. – Disse sussurrando.

– Por que a levaria para a minha casa?

– Porque eu sei o que você quer comigo. O que todos vocês querem.

– O que pensa que eu quero com você Mia?

– Ou me leva para a sua casa ou me deixa aqui na estrada.

– Mas está escuro. Há essa hora não há carros por aqui.

– Eu só preciso ir para casa.

Eu não podia deixa-la ir para minha casa, mas também não poderia deixa-la na rua. Ela iria comigo. Droga! Maldição! Eu não podia confiar em meus instintos perto dela. Havia algo mais nela. Mia me deixava louco, quase insano, apenas dirigindo seu olhar a mim. Estando sob o mesmo teto, não sei o que poderia acontecer.

Desci da pick-up em frente à minha casa e contornei-a para abrir a porta para Mia. Ela desceu segurando a minha mão. Suas mãos eram frias, mas estavam suadas. Ela se aproximou de mim e apoiou suas têmporas em meu peito.

Essa foi a noite em que ela veio para casa.

Seu olhar perdido é a única coisa que me deixa triste.

Ela é a única que me deixa triste.

Entrou em casa e eu a guiei até o sofá. O silêncio entre nós era estranho e assustador, mas ela mexia comigo como nenhuma outra mulher conseguiu.

Mia sentou-se e eu fui até a cozinha.

– Quer beber ou comer alguma coisa?

– Não obrigada.

Continuou no sofá fitando o nada. Sua pele parecia tão macia e sua estatura tão pequenina que me faziam lembrar uma Dahlia.

Mia me lembra casa. Um lar. Como se ela vivesse aqui comigo por anos. Como se não tivesse chegado há poucos minutos. Perto dela meus instintos mais perversos e dominadores rugem para aflorar, mas me esforço para controla-los. Olhando em seus olhos fica pior, mais difícil de controlar esses instintos. É agora ou nunca. Ela está vindo na minha direção.

Levei-a ao banheiro e enchi a banheira com água morna. Entreguei-lhe uma camisa e uma toalha, junto com um short que minha irmã esqueceu aqui há meses.

Ao sair do banho, sua essência pessoal enchia o ar, me envolvendo como uma droga alucinógena.

Ela chegou bem perto e se apoiando em meus braços me beijou. Meu autocontrole desapareceu na hora. Rasguei sua camisa e a joguei longe. Botões voaram por todos os lados. Minha camisa também desapareceu rapidamente. Ergui Mia no colo e a levei ao meu quarto, joguei-a na cama e a ajudei a despir a calça. Seu corpo era tão claro que veias esverdeadas davam a sensação de serem desenhadas à tinta.

Seu corpo parecia esculpido para o pecado. Totalmente proporcional. Todas as formas perfeitas. A pele lisa e macia. Com tons de um rosa delicado em certas partes.

Nossos corpos se tornaram um só. Fazer amor com ela era mágico. Seu corpo completava o meu de uma forma única.

Virei-a de bruços para contemplar tamanha beleza. O desenho de suas costas mostrava uma simetria perfeita. Minhas mãos percorreram suas costas por toda a sua extensão.

A segurei forte em meus braços. Ela parecia assustada, não comigo, mas algo a incomodava.

– Está tudo bem, Mia?

Ela não me respondeu. Se jogou em cima de mim e fizemos amor alucinadamente. Era sexo. Mia queria apenas sexo. Sexo selvagem. Ela não pareceu prestar muita atenção nas preliminares.

Acordei assustado. Mia não estava na cama. Levantei e fui procurá-la. Ela estava à mesa, tomando seu café da manhã. Abriu um sorriso triste quando me viu e logo voltou a comer. Foi o mais próximo de felicidade que vi em sua expressão.

Não sei precisar o que me atraiu nela. Ela quase não falava. Mal olhava para mim. Fiquei parado no batente da porta fitando-a. Prestando atenção em cada movimento dela. Ela se levantou e foi para o banheiro. Poucos minutos depois voltou para a cozinha tomada banho e com os dentes escovados.

Ela passou por mim. Deixando sua mão roçar meu braço, descendo os dedos até que segurou meu polegar e me guiou novamente para o quarto. Ela me jogou na cama e começou a me chupar ali mesmo. Sentir sua boca ali me enlouquecia. Eu gemia alto com a forte sucção que seus lábios provocavam. Ergui-a e joguei na cama. Deitei-me sobre ela, penetrando-a com força e voracidade. Precisava estar dentro dela como se minha vida dependesse disso. Ela gemia alto chamando meu nome. Como se a palavra Brett estivesse talhada em meu rosto. A essência sexual que transbordava dela inundou todo o ambiente, me fazendo deseja-la como um louco. A insanidade era clara no jeito em que fazíamos amor. Fazer amor? Não! Nós fodíamos. Com força. Com prazer. Com vontade.

Eu não posso deixar que isso cresça dentro de mim.

Ela me tornou seu escravo, mas vou mostra-la que eu sou o mestre.

Levei-a para o chuveiro. Depois de gozarmos repetidas vezes, precisávamos de um bom banho para relaxar. Eu esfreguei suas costas e ela delirou. Seu gosto era mais viciante que a pior das drogas alucinógenas.

Eu precisava de mais dela.

Eu queria mais.

MAIS!

Acordei assustado e não a encontrei. Dessa vez a casa estava silenciosa. Não havia sinal de que outra pessoa havia estado ali.

Não podia ter sido um sonho.

Eu não sou louco!

Ela não é real!

Eu não posso torna-la real!

ELA NÃO É REAL!!!

EU NÃO POSSO TORNÁ-LA REAL!!!

FIM