Amigos de Outrora (Pt. Final) – Renasci

Renasci

Amigos de Outrora (Pt. Final)

Renasci

Escrito por: Zuleika Juliene

  Pedi a Aninha que levasse Dona Cida ao médico, pois ela estava muito debilitada, no momento em que elas estavam saindo as espiãs do Glauco estavam chegando, em minhas contas muito antes do esperado, talvez estivessem por ali só esperando as novas instruções do Glauco, novamente disse a elas que deveria haver um engano e que poderiam ir embora que no mesmo instante ligaria para o Glauco que provavelmente estaria fazendo alguma confusão. As mulheres me olharam com um olhar fuzilador, mas acataram e foram embora. Imediatamente liguei para a polícia e relatei o fato da Dona Cida estar há dias amarrada, da carteira do Olavo que encontrei e dos meus tios terem ido viajar e não terem voltado no tempo estipulado e nem terem dado notícias, das palavras que Glauco havia usado se referindo a eles quando disse “eu cuidei de tudo” e que agora eu estava correndo risco de morte, pois a qualquer momento ele poderia chegar.

  Corri para o quarto do Glauco e peguei algumas coisas que eram do meu interesse, alguns diários, livros, instrumentos entre outros e escondi no meu antigo quarto, naquele momento nem sabia ao certo o motivo de estar fazendo aquilo, mas o fiz como em um impulso, sem demora o telefone tocou e do outro lado da linha uma voz alucinada, carregada de ódio, dizia:

  – O que você pensa que está fazendo? Acha que tenho cara de idiota, Lara?

  -Não Glauco, mas para você acabou aqui, descobri todas as suas maldades e já chamei a polícia para descobrir o restante e te prender. Você me subestimou, achou que eu era uma menina ingênua e que poderia me dominar, mas descobri que tenho amigos em muitos lugares e que eles estão sempre comigo me protegendo, me ajudando a passar por obstáculos como você, a descobrir a verdade para o bem e descanso de todos, que o bem sempre irá vencer o mal.

  – Hahaha, olha como ela é esperta, realmente surpreendente querida irmãzinha. Para mim tanto você quantos seus amiguinhos são uma piada, pois o meu intuito eu cumpri, acabei literalmente com a vida daquela traidora que nos deu a vida, matei o filho imbecil de um amigo do meu pai que encontrei no México falando o que não devia sobre um assunto que não lhe dizia respeito, e que meu pai nunca deveria ter comentado com ninguém e muito menos ter deixado um moleque idiota escutar, então dei cabo dele também, mas antes fiz questão de avisá-los que também faria algo que não iria importar o inferno em que eles se encontrassem iriam sentir o mesmo ódio, a mesma vergonha e indignação que eu ao saber que minha própria mãe era uma vadia e que meu pai um verme que a aceitou de volta. Disse que dormiria com você e que arruinaria sua vida medíocre e tudo isso eu consegui Lara.

  Em meio a toda aquela confusão não consegui atinar o verdadeiro significado e tampouco as conseqüências de tudo que havia no conteúdo daquelas cartas, mas ouvindo aquelas palavras percebi que Glauco conseguiu muito mais do que suas intenções, ele conseguiu me modificar, conseguiu despertar em mim um lado obscuro que talvez nessa existência eu jamais tomaria conhecimento que existisse, não era senso de justiça, era algo perverso, era como se o ódio que Glauco sentia tivesse me contaminado e talvez superado o dele em força e intensidade. Ele achava que havia destruído minha vida, mas ela já tinha sido destruída mesmo antes de eu nascer e tudo o que ele fez foi me deixar mais forte, mais madura e com motivação suficiente para perceguí-lo onde quer que ele estivesse.

  – Você se acha muito esperta, não é? Mas a polícia nunca irá me encontrar, posso não ser o mago mais experiente, mas consigo me camuflar e acredito que o que eu tinha a tratar com você já tenha acabado.

  – Glauco, posso só fazer uma pergunta? E Dona Cida, que motivo o levou a fazer isso com ela?

  – Nunca quis machucá-la, quis poupá-la. De fato disse para ela tirar férias, mas ela não quis alegando não ter para onde ir, então tive que fazer isso, mas havia contratado duas senhoras que estavam instruídas a não deixar nada faltar a ela. Se tem alguém a quem eu considere é a Dona Cida e mais ninguém.

  Desliguei o telefone, pois a campainha tocou.

  A polícia fez muitas perguntas para mim e também questionou Aninha quando ela chegou do hospital, como Dona Cida ia passar uma noite em observação no hospital, após terminarem com Aninha alguns policiais foram para lá interrogar Dona Cida, outros se dividiram em averiguar a casa e interrogar os criados que cuidavam das plantações e outros que cuidavam dos animais, além do caseiro.

  Quando encontraram em meu quarto os livros, diários e instrumentos do Glauco disse a eles que estava estudando para escrever um artigo com o tema Magia, não sei se fui convincente, mas como não era crime portar aqueles objetos, então ninguém se importou. Tiraram algumas fotos do cativeiro de Dona Cida e recolheram a carteira de Olavo como prova.

  Depois de algumas horas o investigador designado ao caso recebeu uma ligação do hospital, era um de seus homens dizendo que Dona Cida tinha sido liberada pouco antes deles chegarem lá, pois um responsável com as descrições de Glauco havia ido buscá-la assinando um termo de responsabilidade com assinatura e documentos falsos, mas que Dona Cida havia deixado um envelope na recepção para que fosse entregue a Lara.

  Alguns policiais tentaram rastreá-los, mas eu sabia que seria inútil. Quando chegaram com o envelope todos se entreolharam demonstrando já terem conhecimento do conteúdo, então o abri surpresa por ser apenas um bilhete, mas as poucas palavras escritas em letra primária, uma letra que tantas vezes eu vi em anotações na cozinha eram uma verdadeira bomba.

Lara,

 Sempre tive o Glauco como um filho, e como uma verdadeira mãe sempre irei apoiá-lo. Fiz e faço coisas por ele, mas é por amor.

 Desculpa ter te enganado com aquela farsa de Seu Tonho para confundir ainda mais sua mente e sentimentos e todas as outras coisas de me fazer sua amiga, de querer te ajudar, mas eu tinha que ajudar meu menino. Você me pareceu uma boa menina, mas ele é meu filho e sempre estarei ao seu lado.

Cida.

  Não podia esperar atitude mais baixa, vi que os amigos de outrora eram apenas o Olavo e meu anjo que estaria comigo sempre, não importando as decisões que eu tomasse, tempos depois fiz algumas pesquisas e descobri que assim como nós os anjos têm dois lados, então eu mudando de lado poderia usar o outro lado dele também, mas se ele não aprovasse poderia evocar outras forças para me ajudar, não precisaria nem me esforçar, pois o que mais o Glauco havia feito ao longo da vida era inimigos neste e em outro mundo.

  Depois de alguns dias investigando a polícia encontrou um cara que confirmou ter matado meus tios a mando do Glauco, que ele havia lhe dado um adiantamento em dinheiro e que depois do serviço feito sumiu sem deixar rastros e sem acertar o restante, entraram em contato com a polícia mexicana e também constataram que no dia da morte de Olavo houve uma denúncia de um morador de um prédio que disse ter visto o suposto assaltante com a mesma descrição do Glauco.

  Coloquei a casa de minha vó para vender e como ainda não podia mexer na fazenda e nem nos bens da família tive que viver com o que minha vó havia me deixado por um bom tempo. Aproveitei para estudar sobre magia e fiz alguns contatos com pessoas mais experientes para poder me aprimorar. Conheci um homem muito poderoso e mantive um relacionamento com ele durante algum tempo, não deu certo, mas mantivemos a amizade, ele me ensinou muita coisa e disse que eu sempre poderia contar com ele.

  Demorou até eu ter noticias do Glauco, mas sabia que um dia eu teria. Soube por alguns contatos que em uma cidadezinha da Inglaterra havia um homem denominado Lord Demian que era dono de quase todas as terras naquela região e que todos o temiam por acreditarem que ele tinha poderes sobrenaturais que atribuíam a fatos e mortes que estavam acontecendo no local.

  Arrumei minhas malas para partir rumo à Inglaterra no dia seguinte, sabia que era ele. Naquela noite sonhei que um dragão surgia em minha janela e me dizia:

  – Chegou a hora do acerto de contas Alegna, você está pronta.

  Acordei como se tivesse renascido, acordei como Alegna e parti destinada a me vingar dos inimigos de agora.

Fim

 

Amigos de Outrora (Pt.6) – Descobertas

Descobertas

Amigos de Outrora (Pt.6)

Descobertas

Escrito por: Zuleika Juliene

  Fiquei ali meditando sobre os últimos acontecimentos por um bom tempo e um filme passou pela minha mente, percebi que de fato deveria tomar uma atitude, que não importasse de que maneira, teria que me levantar, então voltei para casa e lá chegando perguntei ao caseiro se ele tinha como entrar em contato com a Aninha e com a Dona Cida, pois precisava muito falar com elas, ele disse que conseguiria falar com Aninha, mas que da Dona Cida ele não sabia.

  Entrei em casa e percebi que não havia ninguém, na cozinha encontrei um bilhete de Glauco dizendo que iria se ausentar durante alguns dias e que havia dispensado as empregadas por serem todas incompetentes, mas já havia providenciado outras que não demorariam a chegar.

  Achei que aquilo veio mesmo a calhar, pois tinha o intuito de vasculhar a casa e testemunhas não seriam convenientes. Subi correndo para o quarto dele e comecei a procurar, procurava qualquer pista sobre o que o meu anjo havia dito, mas sem muito sucesso, achei várias velas negras, algumas pedras, livros de magia negra e um diário escrito em um idioma que eu nunca tinha visto, havia uma caixa de madeira muito pesada, mas esta estava trancada, então comecei a procurar em todas as gavetas uma chave para abrí-la e desta vez tive sucesso, pois na gaveta de meias dentro de um pé de meia encontrei uma chave e pimba, ela abria a caixa. Dentro da caixa havia terra escura e alguns bonequinhos de pano muito feios e fedorentos virados de bruços, fui virando um a um, o primeiro que virei tinha a foto do meu tio colada, o segundo tinha foto da minha tia e o terceiro tinha a minha foto, quando virei este tomei um susto tão grande que acabei esbarrando na caixa e a virando toda no chão, desci correndo para pegar uma vassoura para limpar. De repente comecei a escutar uma voz na minha cabeça falando para eu destruir todos aqueles bonecos, eu não tinha ideia do que eles significavam, mas me sentia arrepiada cada vez que os olhava, subi, despedacei todos eles e dentro de cada um havia objetos pessoais, no meu havia um anel que há muito tinha dado como perdido, limpei tudo, tranquei a caixa e quando fui colocá-la no lugar senti que algo atrapalhava, então subi em um banco para ver o que era e achei uma carteira e quando a abri quase caí do banco, a carteira era do Olavo, fiquei imaginando como aquela carteira podia estar ali e de repente me deu um click, como se algo me dissesse que o Glauco havia matado o Olavo e isso me deixou mal, comecei a ficar tonta, neste momento a campainha tocou, guardei a carteira e desci para ver quem era.

  Eram duas senhoras se apresentando para trabalhar, consegui pensar rápido e disse que deveria haver um engano, pois as vagas já haviam sido preenchidas. Sentia que ainda havia muita coisa para encontrar e para tanto não poderia ter espiões do Glauco na casa. Elas se entreolharam, agradeceram e saíram no mesmo instante em que Aninha estava chegando.

  – Aninha, temos que conversar, mas preciso agir rápido, então venha comigo!

  Coloquei-a a par de tudo e pedi a ela que me ajudasse, ela confessou ter muita raiva do Glauco e disse que faria qualquer coisa para que ele pagasse pelas maldades que havia feito.

  – Aninha, eu não sei se terá alguma paga, na verdade eu tenho até medo do que possa descobrir, não sei nem o que estou procurando, mas sinto que pode ser algo terrível.

  – Se for algo terrível Lara, ele terá que pagar…

  Terminamos de olhar o quarto do Glauco e eu fui para o quarto dos meus tios, a Aninha foi olhar a cozinha, era algo insano se pararmos para pensar, duas pessoas virando a casa de cabeça para baixo atrás de algo que não tinham a mínima ideia do que fosse, procurei como uma doida em gavetas, armários até que encontrei uma caixa de documentos com algumas coisas antigas junto, havia uma correntinha, algumas fotografias, algumas notas, uma toalinha e muitos envelopes. Comecei a ler e eram algumas cartas de amor da minha tia para meu tio e do meu tio para minha tia, uma delas falava sobre traição e pedidos de perdão, minha tia prometia se afastar se ele desse a ela mais uma chance. Outra falava sobre uma possível viagem de reconciliação, que deixariam Glauco com Dona Cida e teriam uma segunda lua de mel, sugeria alguns lugares e fazia planos para dias apaixonados.

  Tirando a questão da traição ali não havia nada de interessante mesmo assim ainda olhei mais algumas e em uma delas minha tia dizia a ele que alguém havia descoberto alguma coisa e que agora eles corriam risco de morte, que o certo era ela ir pegar a menina, pois se algo acontecesse a ela, ela não conseguiria conviver com a culpa.

  As coisas começaram a parecer enigmáticas demais e àquela voz voltou dizendo que eu estava no caminho certo, então continuei a ler, algumas eram muito românticas, outras ainda mencionavam o deslize, achei uma que era a resposta do meu tio a respeito dela ir pegar a tal menina e ele dizia que não, que aquilo era assumir o erro, que enquanto houvesse dúvidas tudo estaria bem, mas que se ela tomasse aquela atitude todos saberiam a verdade e que isso não seria bom para ninguém, ele dizia que estava com muita saudade e que ele deveria mudar de emprego em breve para poder ficar mais com a família, que sentia muita falta do Glauco e que ele se sentia sozinho. Faltavam poucas cartas para eu terminar quando peguei um telegrama que me fez querer estar tendo um pesadelo, tive a sensação de estar dentro de um castelo de horrores, comecei a duvidar da minha sanidade, na carta meu tio dizia com certo tom de desespero que estaria voltando para casa naquele dia, pois o que ele mais temia havia acontecido, sua irmã em uma crise de ódio e ciúme havia jogado o carro em uma ribanceira ocasionando na morte dos dois, li e reli aquele telegrama umas cinco vezes me certificando que não havia lido errado, as ideias estavam confusas na minha cabeça, então peguei outra carta e esta era da minha mãe,ela dizia que diferente dele não soube perdoar principalmente pelo fato dela não poder ter filhos e dele ter levado uma menina para casa que era fruto de uma traição, de ter a enganado dizendo que era de um casal muito pobre que o havia procurado dizendo não ter condições de criar e que agora mediante esta monstruosidade ela não conseguiria mais viver nem com ele e nem com a menina e que se sentia traída por ele também que era seu irmão.

  Senti um nó apertando a minha garganta, mas não tive nem tempo de raciocinar, pois o telefone tocou e eu corri para atender, era o Glauco questionando o fato de eu ter dispensado as empregadas, disse a ele que quando Dona Marisa saiu pediu que eu cuidasse da casa junto a Dona Cida e que esta já deveria estar voltando das férias, pois faltava pouco para completar um mês que ela havia saído ao que ele me respondeu:

  – Ela não irá voltar Lara, soube que ela não está bem e com sua atitude temo que ela possa piorar.

  Engoli a seco, fiquei imaginando que maldades ele poderia estar fazendo com ela, seria chantagem, tortura, teria matado ela também…

  – Lara, está me ouvindo?

  – Sim.

  – As senhoras que enviei para trabalhar irão voltar, receba-as para o bem de todos…

  – Se você acha melhor assim Glauco, tudo bem.

– Em no máximo dois dias estarei de volta, as coisas aqui correram melhor do que eu imaginava.

  – Tudo bem, pode deixar.

Desliguei o telefone quase entrando em colapso, então a Aninha gritou:

  -LARA ME AJUDA AQUI NO PORÃO.

  Quando cheguei no porão não pude acreditar no que meus olhos viam, Dona Cida estava amarrada a uma cama e amordaçada.

Continua

 

Amigos de Outrora (Pt.5) – Desejo

Desejo

Amigos de Outrora (Pt.5)

Desejo

Escrito por: Zuleika Juliene

  Fui envolvida por algo mais que paixão, maior que desejo, ele não precisou fazer nada para que eu me entregasse toda a ele ali mesmo no fim da escada. Naquele instante não sabia mais quem eu era, onde estava, nada me importava só ele e ele soube bem fazer o seu papel com uma delicadeza que tomou a minha alma, sim, naquele momento senti ser tão dele que ele conseguiria qualquer coisa de mim, eu já era completamente sua escrava e ele estava ciente disso.

  Passamos a noite toda juntos, eu me sentia em transe e em algum momento ali, momento este que nem eu consigo definir qual foi, eu me perdi, não era mais a Lara, era outra pessoa, alguém que tinha um único objetivo – seguir aquele homem onde quer que fosse.

  Acordei sobressaltada e com vários fantasmas me assombrando, estava confusa como se tivesse tomado algum tipo de entorpecente, mas sabia que não tinha tomado nada, nada além dele. Tive receio sobre o que Dona Cida iria pensar ou se meus tios já tivessem chegado, estava na cama de Glauco, mas ele não estava lá…

  Levantei correndo e corri até meu quarto, mas a porta estava trancada, então respirei fundo e desci as escadas, Glauco já me esperava com um lindo desjejum, havia três novas empregadas em pé ao redor da mesa que além de repleta de geléias, queijos e frutas estava lindamente adornada com orquídeas vermelhas. Ele continuava a me olhar como examinador, envolto a um mistério que me despertava sede de desvendar.

  – Sente-se Lara, tudo aqui é para você.

  Olhei as moças, todas muito novas e também muito bonitas, mesmo uniformizadas não aparentavam pertencer àquela posição.

  – Onde está Dona Cida?

  – Férias… Dei férias a ela, creio que há muito tempo ela não as tira. Mas não se preocupe, contratei novas funcionárias.

  – Mas…

  – Disse para não se preocupar, eu cuidei de tudo.

  – Seus pais…

  – Não virão agora, eu cuidei de tudo.

  Disse isso sussurrando em meu ouvido e me abraçando tão forte que por um instante tive medo.

  Perguntei a ele o motivo de o meu quarto estar trancado e ele me respondeu com um simples:

  – Porque agora você me pertence.

  Disse isso abaixando delicadamente a alça da minha camisola e me jogando de súbito em cima das geléias, onde saboreou seu café da manhã, ali mesmo na frente de todos.

  No começo me senti incomodada, mas ele tinha poder sobre tudo, principalmente sobre mim e por esta razão fez tudo que tinha que fazer ali mesmo na frente das empregadas que não se atreveram a sair sem permissão.

  Nos dias que se seguiram me senti ociosa e apreensiva, pois ele não queria que eu fizesse serviços de casa e nem mesmo que conversasse com as empregadas, ele se trancava por horas no quarto e às vezes não descia nem para almoçar, às vezes pedia para que eu colhesse algumas plantas para ele, ou que fosse ao centro buscar alguma encomenda que normalmente estava muito bem embrulhada, mas quando eu ia sempre era correndo, pois ele sempre tinha extrema urgência e quando voltava era sempre igual, momentos intermináveis de ócio e solidão.

  Esta situação já estava me enfraquecendo quando em uma noite eu lembrei que minha avó sempre dizia que nos momento difíceis devíamos orar para nosso anjo da guarda, que certamente ele escutaria e nos daria uma resposta, então em uma daquelas noites após servir ao meu senhor orei e pedi sabedoria para discernir onde eu estava errando, queria que ele me amasse como eu o amava, queria que ocupasse seu tempo comigo, que sentisse tudo o que eu sentia.

  Na manhã seguinte quando ia descer para o café escutei muitos ruídos vindos do meu antigo quarto e entre gargalhadas e gemidos reconheci a voz de Glauco. Não conseguia acreditar que ele estava com outra, fiquei ali parada e o ar começou a me faltar, então escutei mais duas vozes de mulheres, desci as escadas correndo e trombei com Lisa, uma das empregadas novas que Glauco havia contratado.

  – Ia mesmo chamar a senhora, pois telefonaram…

  – Quem ligou?

  – Uma moça chamada Daniela.

  Lembrei de tantos momentos doces que tive antes de tudo aquilo estar acontecendo, de como a Dani era minha amiga e o quanto eu havia me distanciado dela após ter ido para aquela casa, senti um ímpeto de retornar a ligação, de contar a ela tudo o que eu estava passando naqueles últimos dias, mas tive receio de pela primeira vez na vida ela não me compreender, então pedi a Lisa que se ela voltasse a ligar que dissesse que eu estava viajando.

  Sai para caminhar um pouco, estava tão perturbada que nem me preocupei em me vestir, sai andando a esmo, tentando entender minhas falhas, minha vida e quando dei por mim estava no caminho que dava na casa de Seu Tonho, então decidi ir até lá, talvez as respostas que eu estava procurando pudessem ser respondidas por ele, porém quando cheguei desmontei indo ao chão.

  Não havia casa alguma, apenas aquele descampado imenso.

  Continuei no chão e fechei meus olhos bem forte pedindo que tudo aquilo não passasse de um sonho, orando para que na hora em que os abrisse estivesse deitada na sala da minha avó e que nada daquilo tivesse acontecido, não queria abrir os olhos, estava apavorada, com medo daquela realidade, com medo do que minha vida havia se tornado. Fiquei ali quieta por horas até que senti uma mão me sacudir.

  Olhei para cima depressa e então avistei uma moça morena de cabelos longos e cacheados, não consegui me ater sobre a roupa, pois o choque com a claridade me impossibilitou, então ela disse:

  – Lara, sou seu anjo da guarda, me chamo Akieluz, estou com você há muito tempo, pra falar a verdade em todas as vidas.

  – Pensei que anjos fossem homens.

  – Anjos não têm sexo, você me vê na forma feminina porque sua segurança sempre veio de mulheres, você sempre confiou mais nelas. Olha Lara vim te alertar, estou te vendo afundar cada dia mais, chegará um ponto em que não conseguirá mais voltar.

  -Não sei o que estou fazendo de errado.

  Enquanto eu falava lagrimas rolavam pelo meu rosto seguidas de soluços sem que eu fizesse nenhum esforço.

  – Tem coisas que você não sabe, mas posso te afirmar que Glauco não é quem você pensa, você entendeu tudo errado. Aqui neste mundo não é permitida a relação de vocês e mesmo que fosse, essa não é a sua missão. Ele é uma pessoa que errou e que caiu na escuridão, seus pensamentos e suas ações conspiram constantemente para o mal, tudo que você tem que fazer é descobrir e resgatá-lo, puxá-lo de volta deste abismo.

  – Então me diga, seja mais clara. O problema é que todas as pessoas querem me dar enigmas, todos falam o tempo todo por metáforas, eu não entendo, eu não sei mais o que fazer. Por que não posso ficar com ele? Senti que entre nós há uma conexão forte e o que eu senti não é falso, não é uma mentira, não está errado!

  – Sim, há uma conexão muito forte, mas não a que você quer acreditar, eu não posso te falar muita coisa, não é da minha alçada, tudo que posso fazer é te guiar. Vasculhe a casa, todas as informações que precisa estão lá.

  – Mas…

  – Meu tempo acabou, lembre-se que estarei sempre com você, tentarei te intuir ao máximo, mas não tenho permissão para continuar nesta forma humana e Lara, aconteça o que acontecer saiba que você precisará ser muito, mas muito forte.

  E mal eu pisquei ela desapareceu.

 Continua

Amigos de Outrora (Pt.4) – Insensível

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Amigos de Outrora (Pt.4)

Insensível

Escrito por: Zuleika Juliene

  Sabe? Sonhos ou visões são difíceis de interpretar, sobretudo se você não tem um profundo conhecimento do assunto; são como quebra-cabeças daqueles mais difíceis de montar, ainda mais quando algumas peças estão no mundo real, mas em tempo e espaços diferentes e outras talvez estejam perdidas em seu subconsciente sendo recuperadas aos poucos. A questão que mais incomoda é que de porte de apenas algumas peças não se pode montar o quebra-cabeças, pois ainda que elas se encaixem, não formarão uma imagem significante e se formarem poderão comprometer os resultados futuros.

  Não quis contar à Dona Cida sobre minha visão, com o quadro apresentado nos últimos dias o mínimo que ela poderia achar é que eu estava completamente louca, então dei a desculpa de que ela parecia muito como um amigo de escola.

  Naquele momento tive uma interpretação errada da minha visão, atribuí tudo aos últimos acontecimentos, entendi que o recado de Olavo queria me alertar para o fato de que não estava sozinha, que mais cedo ou mais tarde teria perto de mim alguém em que poderia contar, que seria protegida, pois sentimos a mesma conexão, estávamos ligados pelo destino.

  Tomem cuidado amigos, a nossa mente na maior parte do tempo nos faz acreditar no que queremos acreditar, somos cegos de olhos abertos, criamos ilusões, fantasiamos…

  Passei o resto do dia assim como os demais me preparando psicologicamente e me fortalecendo para o momento em que Glauco chegasse. Será que ele me reconheceria de imediato? Será que também teria tido a mesma visão? Muitos pensamentos e questões como estas me atormentavam, faziam com que eu fosse dormir tarde sonhando acordada com os beijos e carícias que provavelmente trocaríamos em um futuro bem próximo, podia sentir seu cheiro, sentir seu toque, sua força ao me abraçar, podia sentir o volume de seus cabelos e ver através de seus olhos o seu amor, o seu desejo. Era uma sensação tão real que por vezes acordava procurando por seu corpo ao meu lado.

  Durante o dia Dona Cida me ensinava muito dos afazeres domésticos e rotinas da casa, além de alguns conhecimentos sobre ervas e suas propriedades quando acrescidas na comida ou utilizadas em chás ou banhos, ela sabia muita coisa antiga e estes assuntos começaram a me fascinar, sentia que a cada momento estreitávamos laços, sentia que ali tinha uma nova amiga.

  Aninha era mais recatada, tinha em torno de vinte anos e trabalhava na casa desde os dezoito, não falava muito e corria o dia todo para dar conta da falta que as outras duas colegas estavam fazendo nos serviços, conversávamos muito pouco, mas certa vez me contou que tinha um noivo e que se viam a cada quinze dias, porém devido à viagem dos patrões, levaria um mês até revê-lo, mas que valeria a pena, pois eram muito apaixonados.

   O tão esperado dia chegou. Desde que havia tomado conhecimento de quem esperávamos, todos os dias estava arrumada, perfumada e radiante como quem espera por um príncipe; nunca irei me esquecer daquele dia, pois me arrumei e desci já com a certeza de que era o dia de sua chegada, era como se pudesse sentir sua presença cada vez mais próxima e nem tendo chegado ao final da escada paralisei com a aparição a minha frente, ele me olhou com um sorriso estranho e exclamou:

  – Nossa! Estamos cheios de empregados novos!!!

  Não tive reação, senti o vento dele passando por mim e seu perfume que era o mesmo, porém com algo mais denso, algo que ficou entalado em minha garganta, não era suave como antes, pesava e contaminava todo o ambiente, mas achei que era nervosismo devido a sua chegada e a confusão estabelecida em nosso primeiro contato.

  Continuei descendo e fui ao encontro de Dona Cida que se encontrava na cozinha com um semblante preocupado e respiração ofegante.

  – Está tudo bem Dona Cida?

 – Sim menina, apenas o ar que de repente ficou um pouco sufocante.

  – A senhora viu que o Glauco chegou?

   Ela me olhou de maneira que nunca antes havia olhado, virou-se e disse:

– Então vamos logo apressar este almoço, o patrãozinho deve estar com fome.

  Fiquei bastante confusa, nada tinha acontecido da maneira que eu havia imaginado e para ser sincera o ambiente e as pessoas estavam muito estranhas, mas aguardei para ver como as coisas iriam se desenrolar, fiquei ajudando Dona Cida com o almoço no mais profundo silêncio, também não queria falar nada, queria organizar meus pensamentos, queria voltar mil vezes àquela cena para tentar entendê-la e depois apagá-la.

  Após aproximadamente uma hora e meia Glauco entrou na cozinha e com ele aquela atmosfera pesada, vi Dona Cida dando uma cambaleada e novamente senti minha garganta fechar, Dona Cida tentou se recompor rapidamente, levantou a cabeça e emocionada disse:

  – Meu menino, como você está bonito!

  – Creio Dona Cida, que minha mãe não está em casa! Então, diga-me como estão as coisas por aqui?

  Os olhos de Dona Cida se encheram de lágrimas, percebi que ela tomou uma postura diferente, mais formal, olhei para o Glauco e sua postura era a de um rei, seus olhos eram gelados e sua voz fria, sua fala vinha sempre acompanhada de um sorriso estranho no canto da boca e naquele momento percebi que este sorriso era uma espécie de ironia.

  Mil coisas passavam pela minha cabeça até que a fala de Dona Cida me fez despertar de meus pensamentos.

  – Esta é sua prima Lara, seus pais trouxeram ela para morar aqui, eles estão fora e só vão voltar daqui duas semanas.

  Enquanto Dona Cida ia falando Glauco me olhava de cima a baixo como se estivesse analisando um… inseto. Quando Dona Cida terminou de falar ele virou para ela já se dirigindo a saída da cozinha e disse:

  – Vou ficar no meu quarto, preciso descansar. Quando o almoço estiver pronto peça àquela outra empregada novinha para ir me servir lá.

  E saiu.

  Naquele momento não sabia nem mais o que pensar, perguntei a ela se aquilo era normal e ela me respondeu:

  – Não minha filha, aqui não houve nada de normal, o Glauco está muito mudado; sei que o mundo e o estudo mudam as pessoas, mas não foi só isso que mudou o meu menino.

  Dona Cida me contou que trabalhava naquela casa desde que meu tio havia se casado com Marisa, que acompanhou a gravidez dela, que viu Glauco nascer, contou que durante toda a vida ela tinha sido um menino doce, que respeitava todos os seres vivos e em especial os animais, disse que sempre soube o seu lugar, porém Glauco sempre a tratou com o carinho de um neto, que ele nunca fez distinção entre pessoas.

  – Há cinco anos, quando ele saiu daqui menina, ele saiu com lágrimas que não paravam de cair, me abraçou tão forte que só Dona Marisa para soltá-lo de mim dizendo que ele não era mais nenhuma criança. Este que entrou nesta cozinha hoje de jeito nenhum é aquele Glauco.

  Aquela mulher fez seu pequeno relato regado a muitas lágrimas, eu podia sentir que sua dor era intensa, que seu sofrimento era profundo e frente àquelas palavras decidi me abrir com ela, se para ela minha história fosse uma bobagem pelo menos a distrairia, então abri meu coração e contei a ela tudo desde o começo.

  Quando terminei de falar sua pele estava pálida e seus olhos arregalados, então ela falou pausadamente como se estivesse me fazendo uma confissão.

  – Menina, não sei de todas as coisas do mundo, mas me parece que neste sonho continha uma mensagem, um aviso…

  Falei a ela da minha interpretação e ela me interrompeu dizendo:

  – Não seja precipitada, vamos esperar para ver como as coisas vão acontecendo, se as coisas piorarem, e eu acho que irão, então teremos que procurar ajuda.

 Como tínhamos ficado um longo tempo conversando ao terminarmos a conversa a comida já estava pronta e Dona Cida pediu para Aninha levar para Glauco, fizemos nosso prato e começamos a almoçar, de repente Aninha passou como um furacão em direção ao seu quarto e mal respiramos pudemos escutar o barulho da tranca da porta. Eu já ia me levantar quando Dona Cida me impediu:

  – Deixa, seja lá o que for ela só vai abrir a porta quando passar.

  Os dias foram passando em um clima bastante pesado, não era raro surpreender Dona Cida segurando o choro ou até mesmo choramingando escondida aos cantos.

  Glauco a todo momento provava ser uma pessoa perversa, maltratava os empregados que cuidavam dos animais, os que cuidavam das plantações e o que mais doía era ver a maneira como ele tratava Dona Cida e o quanto isso a afetava.

  Eu me sentia vazia, impotente perante aos fatos, pois ele sempre me ignorava, nunca permitia que surgisse uma oportunidade para nos falarmos, nem mesmo um “Bom dia”.

  Faltavam poucos dias para que meus tios chegassem quando Aninha em prantos declarou à Dona Cida que estava de partida, achamos muito estranho e Dona Cida resolveu ter uma conversa em particular com ela, desta conversa Dona Cida conseguiu extrair toda a verdade de Aninha, verdade esta que fez com que todos ficassem muito abalados, porém mais uma vez de mãos atadas.

  A questão é que desde o dia em que o Glauco havia chegado não havia passado um só dia que ele não tivesse faltado com respeito com Aninha e ela com medo de perder o emprego saia sempre correndo e chorando, porém o ápice de tudo foi quando ele a agarrou a força e tentou aproveitar dela.

  Fui tentar respirar um pouco de ar puro dando uma caminhada, refletindo sobre todas as coisas loucas que estavam acontecendo e então avistei algo que me embrulhou o estomago, já estava escurecendo quando vi Glauco matando um animal da maneira mais cruel que alguém poderia ser, pela distância não consegui discernir que animal era aquele e também não quis ficar ali olhando aquele monstro praticar aquela atrocidade, então voltei para casa rapidamente, chorando, desesperada, querendo também sair dali, querendo também ir embora para bem longe daquele monstro.

  Fui até a cozinha procurar por Dona Cida e antes mesmo que eu falasse alguma coisa ela disse:

  – Menina, é hora de procurarmos ajuda, conheço um senhor que exerce muitas funções ajudando as pessoas por aqui, ele tem dons especiais. Estou certa que ele saberá dizer o que está acontecendo e o que deveremos fazer com esta situação.

  – Um médium?

  – Não o denominaria assim, digamos que seja um senhor sábio…

  Dona Cida disse a todos que íamos ao Centro comprar algumas coisas que estavam sendo necessárias na casa, então fomos direto para casa do Seu Tonho.

  Andamos bastante, sempre cortando caminho entre uma fazenda e outra, uma trilha e outra até que chegamos a um descampado onde havia uma casinha bem humilde, praticamente uma cabana e em frente à porta havia um cão fazendo a guarda. Logo apareceu na porta um senhor de bastante idade segurando uma bengala feita de galho de árvore, com cabelos brancos e pele muito queimada de sol, conforme fomos nos aproximando reparei que ele era cego, seus olhos eram brancos. Quando já estávamos em frente a Seu Tonho reparei em algo curioso, sua camisa estava aberta e pude reparar como ele era malhado, seu tórax era musculoso o denunciando sua idade por meio da pele que era um tanto envelhecida.

  Meus devaneios foram interrompidos pela voz rouca de Seu Tonho dizendo:

  – Já estava te esperando Lara, há quanto tempo…

  Vamos fazer uma parada reflexiva… Eu já conheço seu Tonho? E também não entendi o lance de ele já estar me esperando, Dona Cida teria encontrado com ele anteriormente e lhe contado suas intenções de me levar lá? Venhamos e convenhamos, se eu já estava confusa neste momento então que minha cabeça deu um nó! Só pude retribuir em resposta com um sorrisinho sem graça e ao achar que não poderia ficar pior Dona Cida se despediu dizendo ter que ir ao centro, pois não poderia voltar para casa de mãos abanando.

  Seu Tonho me convidou a entrar, disse que precisávamos conversar um pouco, meio relutante por dentro tive que aceitar, pois tinha muitas questões sem respostas e precisava pelo menos de algumas.

  Quando entrei na casinha fiquei impressionado com a simplicidade de todas as coisas que lá estavam, um fogãozinho, uma mesa com uma cadeira, um armário e uma cama, tudo muito simples e bem gasto, Seu Tonho pediu para que eu sentasse na cama e sentou na cadeira dizendo:

  – Querida Lara, você deve estar muito assustada, sei que há muitas questões sem resposta em sua cabeça, mas pretendo responder pelo menos algumas.

  Gente, a esta altura acreditava já ter matado a charada, certamente aquele homem era um bruxo, mas novamente errei, então como havia dito Dona Cida ele era um senhor sábio…

  – Aceita um pouco de chá? Aceite, vai te fazer muito bem, vai acalmá-la

  Aceitei o chá de ervas que era bem gostoso e que de fato foi me deixando muito calma, tranquila, alegre e de certa forma meio anestesiada.

  – Quero começar te dizendo uma coisa, esta não é a nossa única vida Lara, já tivemos muitas outras e ainda teremos tantas outras. Na maioria dessas vidas nos encontramos mesmo que estejamos em posições diferentes, mesmo que não nos lembramos, quando não estamos aqui na Terra estamos em outra dimensão, mas estamos sempre cuidando uns dos outros estejamos aqui ou lá, eu e você, por exemplo, somos amigos de outrora, não tivemos a oportunidade de nos encontrarmos nesta vida em momento anterior, mas já nos conhecemos.

  Eu estava me sentindo zonza a cada palavra que saia da boca de Seu Tonho e por esta razão resolvi deitar.

  – Você tem outros amigos de outrora nesta vida, muitos, que estão aqui ou em outro plano, Olavo mesmo é um deles, vocês não foram muito próximos nesta vida porque não houve necessidade, mas nunca deixaram de serem amigos em suas essências. Na sua visão ele veio pedir a sua ajuda, ele foi te dizer que só você pode salvar ele e também o Glauco, ninguém mais.

  – Não posso salvar alguém tão insensível como o Glauco, não saberia como fazer isso.

  – Você tem dois caminhos, pode seguir tanto um como o outro, pode seguir o caminho da razão ou o do amor, mas se quer um conselho, siga o do amor, pois é a energia mais poderosa com que um se humano pode contar.

  – Eu não vou conseguir…

  – Só você pode conseguir, ninguém mais…

  – Mas eu não entendo…

  – Está na hora de começar a montar o quebra-cabeça…

  Acordei rolando na minha cama, molhada de suor, pela janela via a água escorrer em meio a raios e trovões.

  Era madrugada, olhei para o criado- mudo ao lado da minha cama conferindo as horas, desci desesperadamente as escadas procurando Dona Cida, mas ao chegar no final trombei com Glauco que me segurou com seus braços fortes e perguntou:

  – Medo de chuva priminha?

  Era a primeira vez que ele me enxergava como gente, mesmo seu tom de voz sendo sarcástico senti aquela conexão novamente.

Continua

Amigos de Outrora (Pt.3) – Tormenta

Tormenta

Amigos de Outrora (Pt.3)

Tormenta

Ecrito por: Zuleika Juliene

  Boa parte do caminho foi silêncio e troca de olhares entre eles e quase ao final do percurso se animaram em me informar que moravam em uma pequena fazenda, que meu tio trabalhava o dia todo, mas ia para casa para almoçar, que Dona Cida, uma senhora que trabalhava para eles há anos, cozinhava que era uma beleza, que certamente eu iria engordar, que o filho deles, meu primo, havia terminado fazia pouco tempo a faculdade de medicina veterinária e já estava para voltar pra casa,que ele iria trabalhar nos negócios da família, que os fazendeiros vizinhos eram muito simpáticos e blá, blá, blá… Eu já estava ficando com câimbra no maxilar por forçar um sorriso e uma expressão de interesse quando finalmente chegamos.

  Estava quase escurecendo, mas deu para ver o quanto a casa era grande, porém estávamos todos exaustos, então decidimos por tomar banho, jantar e dormir. Dona Marisa me mostrou o quarto que daquele dia em diante seria meu, joguei as malas em um canto e não sai de lá nem para jantar alegando estar sem fome.

No dia seguinte acordei como de um sonho, havia me desligado completamente de tudo e tinha ainda a sensação de estar em minha antiga casa, que iria levantar ir até a cozinha e tomar o café feito por minha avó, mas ao abrir os olhos tive um choque de realidade, nada ali me era familiar, o quarto era lindo e enorme com janelas da dimensão de paredes cobertas por cortinas belíssimas, o tapete parecia uma gigantesca nuvem e mesmo sem tocar já dava para saber o quanto era macio, a cama era enorme e revestida com as roupas de cama mais macias e cheirosas que já havia visto.

  De repente cai em mim e nada parecia ter beleza, ou cor, ou cheiro.

  Fiquei três dias na cama chorando desesperadamente.

  Algumas vezes achamos que o nosso cérebro para, que as coisas passam sem que percebamos, acho que esta é a verdadeira fuga da realidade, porém quando decidimos voltar, a dor é lancinante. Fiquei na cama por me sentir fraca, por não conseguir levantar e correr, correr….

  No primeiro dia apenas Dona Cida estava em casa e por diversas vezes ela adentrou o quarto levando café, almoço, suco, lanche, janta, sempre quieta, passava um olhar em mim, como a verificar se eu não estava convulsionando e saia em todas às vezes recolhendo a refeição anterior intacta. Já era noite alta quando escutei a porta abrir novamente e sem acender a luz pude ver com os olhos ainda entreabertos o vulto de Dona Marisa que no mesmo instante acreditando que eu dormia fechou a porta novamente.

  No dia seguinte bem cedo Dona Cida entrou no quarto me acordou dizendo que tinha um recado de Dona Mariza para me entregar, estendeu uma bandeja de prata como meu desjejum e um envelope, me ajeitei na cama e segurei a bandeja, a comida não me interessava, ao contrário, revirava meu estomago, então empurrei a bandeja recolhendo apenas o envelope e o abri conferindo seu conteúdo que dizia:

Querida Lara,

Seu tio e eu tivemos que viajar a negócios e permaneceremos fora por três semanas, sentimos muito por toda esta situação, mas já havíamos firmado compromisso antes de todos estes desagradáveis acontecimentos ocorrerem.

Tudo o que precisar peça à Dona Cida e, aliás, em minha ausência espero que possa ajudá-la com os afazeres domésticos.

Nosso amado filho provavelmente chegará esta semana, creio que ele deseje descansar até que voltemos para preparar a ele uma belíssima festa de boas vindas.

Espero que não ocorra nenhum problema durante este tempo.

Atenciosamente, Marisa.

  Tive que ler e reler inúmeras vezes aquele bilhete que deixava bastante clara a minha posição e importância naquela casa, afundei novamente embaixo das cobertas apenas escutando o abrir e fechar da porta.

  No terceiro dia de estada na fazenda acordei vomitando e bem nesta hora Dona Cida entrava com o meu café, ela me ajudou ir até o banheiro, me deu banho, eu me sentia muito fraca até mesmo para ficar em pé sozinha, não tinha mais forças para chorar, apenas as lágrimas escorriam sem nenhum esforço. Dona Cida me vestiu, me arrastou até a copa e pediu para uma moça de uniforme azul e branco subir e dar um jeito no meu quarto, quando esta virou as costas Dona Cida falou:

  – Olha menina, não sei o que pode ser tão grave para te deixar assim, mas uma coisa é certa você está viva e seja lá o que for suas lágrimas não terão o poder de mudar, então levanta, se fortifica que as coisas por aqui também não são nada fáceis….

  Olhei aquela robusta senhora como que vendo minha própria avó falando comigo, sabia que ali ninguém se importaria comigo, mas aquela senhora se mostrou disposta a pelo menos me fazer reagir, ela praticamente me deu o café na boca e continuou me aconselhando em um perfeito monólogo. Deu-me um chá de ervas para o estomago e prometeu um caldo no almoço pra fortificar, recomendou que eu fosse tomar sol, disse que o contato com a natureza também me daria forças, mas assim que a moça desceu do meu quarto pedi licença e retornei a ele, ainda chorava, mas estava espiritualmente mais forte, sentia-me um pouco mais amparada. Na hora do almoço Dona Cida me levou o tal caldo “levanta defunto” e pediu para eu me recompor para após o almoço irmos conhecer toda a casa, como eu não tivesse demonstrado interesse ela simplesmente me saiu com essa:

  – Vamos menina, mente vazia é oficina do diabo!

  Comecei a rir espalhando caldo por toda a colcha, provavelmente ria por descontrole emocional, ou por nunca antes ter ouvido aquela expressão, o fato é que depois de sujar novamente o quarto fiquei encabulada de negar o passeio pela grande casa.

  A casa era muito grande, muito rica e decorada com muito bom gosto, haviam pelo menos seis quartos, sala disso, sala daquilo, a sala de estar era um lugar muito aconchegante, destes que você vê em filmes na época de Natal, havia uma lareira repleta de porta-retratos, me aproximei para vê-los melhor, eram fotografias alegres de meus tios com amigos e familiares que Dona Cida foi me explicando serem todos da parte de Dona Mariza, pois até ali Seu Roberto não havia levado ninguém de sua família àquela casa, de repente avistei algo que jamais podia imaginar, em meio a um mar de fotos apenas uma se destacava de maneira a fazer sumir todas as outras, senti o chão estremecer, o estomago embrulhar novamente, então não pude conter o vômito seguido de um desmaio.

  Quando recobrei a consciência a primeira coisa que vi foi o rosto de Dona Cida que logo desabou a falar:

  – Olha menina, ou você está muito doente ou eu não estou sabendo como te ajudar, estou quase pegando um dos remédios de dormir da Dona Marisa, pois a coitada da Ana não pode ficar limpando tudo que você suja. As outras empregadas foram viajar com os patrões e Dona Marisa disse que você ia ajudar, mas,

  – A foto, quem é o rapaz da foto?

  Ela virou a cabeça na direção da lareira e perguntou?

  -Que rapaz? Seu Glauco?

  Nunca tive um infarto e também não conheço ninguém que tenha tido, imaginei que a sensação fosse a que estava sentindo, um estouro de batidas no coração e uma súbita parada, minha expressão devia estar aterrorizante, pois Dona Cida começou a gritar:

  – Aninha, corre com o balde que ela vai passar mal outra vez!!!!!

  -Não Dona Cida, não vou não!

  – Aninha, suspende o balde! O que foi menina está mais branca que um fantasma!

  – Quem é Seu Glauco?

  – O filho dos patrões…

Continua