A Garota Má (Pt.18/Final): Doce Sabor da Vingança

Escrito por Natasha Morgan

Cherry abaixou a pistola com lentidão e o riso escapou de seus lábios sem que pudesse se conter.

– Vai atirar em mim? – ergueu as sobrancelhas.

– O que você acha? – Alline a encarou de forma séria.

Cherry revirou os olhos, voltando sua atenção ao búlgaro. De jeito nenhum iria deixar qualquer um atrapalhar seu momento tão sonhado. A vingança estava ali, a poucos segundos de distância. Quase podia sentir seu sabor tocar a ponta da língua… Tão próxima.

Alline puxou o gatilho e a bala disparou perigosamente perto de sua rival.

Cherry sentiu o vento zumbir em sua orelha quando foi cortado pela bala, há poucos centímetros de seu rosto. Seus olhos focaram a outra, fuzilando-a. Continuar lendo “A Garota Má (Pt.18/Final): Doce Sabor da Vingança”

A Garota Má (Pt.17): A caçada da Leoa Indomável – Gosto de Sangue.

Escrito por Natasha Morgan.

Bóris gargalhou, batendo palmas.

– Ah, minha doce, doce e amada Solina! – cantarolou ele, animado. – Aqui estamos nós dois novamente! Como esperei por esse momento!

Ele se aproximou alguns passos, com ansiedade.

– Desejei tanto nosso encontro que me recuso a te enfrentar armado. – ele jogou sua pistola no chão e a chutou para longe. Seus olhos encontraram-se novamente com o cinza tempestivo dos dela e então ele abriu os braços num gesto nobre. – Venha, minha amada! Mostre-me sua tão temida fúria. Eu estou pronto.

O sorrisinho infame dele serviu para desencadear a fúria em massa de Cherry, pois a garota soltou um rosnado do fundo da garganta e avançou contra o maldito magnata.

Ela se chocou contra ele, afundando as unhas nos ombros musculosos como uma leoa, sentindo-as afundar contra a camisa e penetrar a carne pútrida. Bóris soltou um pequeno gemido de dor e se permitiu deleitar com aquele confronto. Puxou os cabelos longos e macios com brusquidão, forçando-a encarar seu rosto.

Cherry lhe deu uma cabeçada e o chutou, afundando o salto da bota na ferida em sua coxa.

Bóris não pôde deixar de uivar de dor, tremendo o corpo todo e rangendo os dentes.

Cherry se aproximou com elegância, alisando os cabelos dele com suavidade antes de puxá-los com força da mesma forma que fizera com ela, forçando-o a encará-la.

– Bem vindo ao inferno, búlgaro. – ela disse e o socou no rosto, com força.

Bóris tombou, beijando o chão.

A garota gargalhou, certificando-se em pisar em seu corpo insolente enquanto andava pela sala, observando a decoração sofisticada. Caminhou até o bar destruído, esmagando o vidro das garrafas estilhaçadas com a sola da bota pesada. Seus dedos acompanharam o balcão de mezanino, encontrando um pequeno bastão de sinuca. Ela o apanhou nas mãos, analisando-o com atenção.

Um sorriso se formou em seus lábios.

Voltou a caminhar pela sala, esbanjando sensualidade em seus passos leoninos. Aquela Lingerie com que a vestiram quando havia chegado lhe caíra muito bem. Ela sempre gostara de vermelho. Parecia um demônio vingador.

Seu olhar endureceu quando fitou o búlgaro retorcendo-se no chão de mármore.

– Diga-me, seu porco, encostou em Willa?

Bóris riu, fazendo força para se virar de barriga para cima.

– Sim. –ele lambeu os lábios com malícia. – Fiz com ela tudo o que tinha direito! Queimei-a por dentro com minha luxúria desenfreada.

Cherry o encarou em silêncio, absorvendo o gosto amargo que se infiltrou em sua boca.

– Se isso for verdade, vou guardar a melhor parte para ela.

A assassina se aproximou do maldito, agarrando-o pelo colarinho da camisa e aproximando o rosto dele do seu, congelando-o com seu olhar sombrio.

– Eu esperei demais por esse momento, búlgaro. Tanto que quase posso vibrar de satisfação. Seria inconcebível dividir essa vingança com alguém. No entanto, se tocou num só fio do cabelo dela é meu dever dividir sua carcaça.

– Tome tudo o que quiser! Eu sou inteiramente seu, minha adorada.

– Você não está levando isso a sério, está? – Cherry se irritou. – Acha que de alguma forma vai escapar de minhas garras novamente. Mantém a doce ilusão de que me enganará de novo.

Ela o soltou.

– Ah, búlgaro. Isso está longe de ser verdade. Nunca mais cederei a você.

Ele voltou a rir, pousando a cabeça no mármore com tranquilidade.

Cherry voltou a andar, rodeando-o enquanto brincava com o taco de sinuca.

– O que acha de sentir na pele o que faz às mulheres? O que acha de experimentar um pouco de luxúria forçada e sadismo?

O sorriso morreu quase que imediatamente no rosto de Bóris. Ele se levantou de um pulo do chão.

– Vamos nos divertir um pouquinho.

Bóris tentou fugir, correndo, mas escorredor no piso molhado da sacada. Cherry o apanhou no ar, grudando sua garganta com a mão crispada e apertando-a. Ele se engasgou, forçando os pulmões a puxar o ar.

Cherry alisou seu rosto com a ponta do taco de madeira numa carícia ameaçadora. Os olhos dele se encheram de um terror mórbido. E ela se deleitou com aquela expressão.

Aterrorizado, Bóris tentou chutá-la, livrar-se de suas garras, mas estava fraco demais para isso.

Cherry o jogou sobre o sofá de cashmere, vendo-o se estatelar nas almofadas macias. Aproximou-se rodando o taco no ar, o sorriso impiedoso estampando o olhar.

– Isso não vai ser agradável. Não serei delicada. Mas prometo ficar para sempre em seus sonhos mais aterrorizantes. – ela repetiu as palavras que ele usara na primeira vez em que a violentou. E então avançou contra ele com o bastão em riste.

 *-* *-*

O grupo se uniu no segundo andar, voltando à ativa depois do susto no elevador. Fridda e King montaram guarda na frente, vasculhando o corredor comprido enquanto os outros davam cobertura passando pelas portas fechadas que rodeavam o hangar.

Sander arrebentava a trinca quando estavam trancadas, com a pistola em riste e vasculhava os aposentos. Em sua maioria eram quartos simples e vazios. Ele achou duas salas de recreação e um banheiro comunitário.

Klaus seguia junto, com Halle logo atrás, ajudando na limpeza.

Mas a coisa só ficou séria quando eles passaram pelo arco de uma elegante sala de estar. O recinto estava vazio e eles atravessaram numa boa, encontrando um outro corredor logo à frente. Desta vez os quartos estavam ocupados e a surpresa não foi nem um pouco agradável.

Quando Sander forçou a fechadura de uma das portas e constatou que estava trancada, arrombou a trinca com um chute e o que encontrou lá dentro fez a cólera que crescia dentro de si aumentar exponencialmente.

Havia uma mulher dentro do quarto. Uma menina de poucos anos, trajando uma Lingerie que nada condizia com seu olhar ingênuo. A menina se apressou em se encolher assustada no canto da cama quando o ruivo invadiu seu quarto, os olhos espantados espiando ao fundo do quarto.

Sander se aproximou com cuidado, tentando não assustar a garota.

– Qual é o seu nome? – perguntou.

A menina se encolheu mais ainda.

– Não precisa ter medo de mim. – ele pareceu se enfurecer com tal fato.

A menina o avaliou por longos minutos antes de ter coragem de responder.

– Melinda. – sussurrou baixinho.

Sander assentiu, fitando-a com uma expressão dura.

Remexeu em seu coldre, retirando uma faca de cabo negro.

A garota emitiu um pequeno gemido quando viu a lâmina ameaçadora.

Sander a ergueu pelos ombros com firmeza, encarando aqueles olhos assustados com intensidade. Colocou a faca nas mãos pequeninas.

– Segure isso! Você agora é uma mulher livre! Quero que pegue essa faca e se defenda caso precise. Há mais garotas nesse andar?

A menina assentiu em silêncio.

– Centenas.

– Nos quartos ao lado?

– Por todo o andar. É onde nos mandam ficar até que sejamos solicitadas. –ela franziu o cenho.

Sander assentiu.

– Liberte suas companheiras. Junte-se a elas e saia daqui! Entendeu? Quero que se junte às outras e vão embora daqui. São livres agora!

Sander a arrastou para fora do quarto.

Os outros fitaram a menina, confusos.

– Nos outros quartos. – Sander apontou para a porta ao lado e para as milhares de outras pelo corredor extenso. – Escravas de Bóris.

Fridda retorceu o lábio numa careta de ódio e deu um chute na porta mais próxima, libertando a menina confinada.

Juntos, eles foram arrombando as portas e libertando todas as escravas que encontraram.

A garota que Sander resgatara estancou no meio do caminho, olhando assombrada para o caos que se instalava no corredor. Milhares de meninas seminuas corriam pelo carpete bordô, amedrontadas e livres.

– N-Não. – Melinda sussurrou, alarmada. – O Senhor não vai gostar disso.

– Duvido que vá sobrar algo do seu senhor para que se importe de verdade. – Sander disse, antes de marchar pelo corredor novamente.

 *-* *-*

Alline corria pelos corredores do quinto andar, ansiando chegar à escadaria e dar o fora daquela maldita mansão antes que os Von Kern a achassem. Podia suportar a ideia de morrer pelas mãos de Cherry, mas nunca pelas mãos da Família. Aqueles miseráveis não tinham direito nenhum sob sua alma. Nenhum deles tinha! Ela era uma Borsahy… E Borsahys eram eternos.

Estava quase alcançando a escadaria e o alívio lhe preenchia os nervos. Seria fácil sair da mansão. Conhecia um caminho que a levariam diretamente para o térreo, uma saída pelos fundos, especial para momentos de emergência. Como os túneis da outra mansão.

Só esperava que Savedra tivesse feito como ordenara. Deixado os portões dos fundos destrancados para que ela pudesse passar. Seus planos foram meticulosamente orquestrados e até aquele momento tudo estava dando certo… Mesmo com a invasão inesperada.

Alline sempre tinha um Às na manga.

Ela riu novamente, deixando os traços presunçosos tomar seu rosto.

Podia avistar o início da escadaria, a torre que levava em curvas até os andares de baixo. Talvez fosse sábio entrar pela passagem secreta no terceiro andar e se deixar levar por um caminho pouco acessível. Duvidava muito que os Von Kern se atreveriam usar o elevador novamente… Ou o que quer que houvesse sobrado dele.

Alline ouviu tiros vindo ao longe e resolveu apressar sua corrida até a escadaria. Estava quase alcançando o corrimão aveludado quando a viu.

Imponente, a Mercenária subia a escadaria com tranquilidade.

Alline derrapou, obrigando-se a parar no meio do caminho para não se chocar com a assassina.

Seu coração deu um pulo dentro do peito e então começou a bater descompassadamente.

 *-* *-*

Meera terminava de subir a longa escadaria, na esperança de encontrar um exército lá em cima, pronto para exterminar os intrusos quando se deparou com a traidora. Viu-a frear no meio do caminho com aquele olhar de pânico assumindo seu rosto destruído.

A Mercenária estancou, no topo da escadaria, surpresa também pelo encontro.

Alline olhou no fundo de seus olhos, tentando buscar alguma coisa em que pudesse confiar. Qualquer indício de que quem estava ali era sua antiga amiga de combate. Mas tudo o que encontrou foi o frio congelante da alma Borsahy.

Ela recuou um passo.

Meera sorriu, um repuxar lento de lábios numa sensual expressão sarcástica.

– Aonde pensa que vai, fujona?

Alline recuou mais uma vez num passo estudado.

– Como vai Meera? – disse numa voz educada. – Já faz um tempo.

– Muito tempo. – a mercenária assentiu.

– Vejo que está em nova companhia. O que houve com seus votos de não se envolver com essa gente?

– Eu vou onde o dinheiro me leva. – deu de ombros, avançando lentamente.

Alline recuou mais uma vez, atenta aos movimentos da outra.

Elas se estudaram por alguns breves segundos.

– Eu ouvi falar sobre seus serviços. Mata por dinheiro agora. Nunca pensei que fosse abandonar a Ordem um dia.

– E eu nunca pensei que você fosse uma cadela mentirosa.

Alline se empertigou.

– Você sempre me subestimou, não é mesmo? – forçou um sorriso.

– Prometo não cometer esse erro novamente.

– Não faça isso, Meera! Não deixe o dinheiro dessa Família comprar o valor de uma amizade antiga. Posso te perdoar facilmente por ter se metido nos meus planos uma vez. É só esquecer que me viu aqui hoje.

– Está me implorando? – Meera pareceu achar graça.

– Estou te alertando a não fazer nada estúpido.

– Estupidez é uma especialidade sua. Foi sua burrice que te colocou nessa posição. Agora é hora de colher as sombras causadas pela ignorância.

– Não. Faça. Isso.

– Foi um prazer revê-la novamente, Vedrana.

Meera apontou sua espada para ela, num gesto de desafio, convidando-a à luta.

Mas ao invés da mulher aceitar seu desafio honroso, como era costume entre sua gente, Alline virou-se e saiu correndo.

A Mercenária riu.

– Isso! Corra Cadela!

Meera desatou a correr atrás da outra, os passos pesados das botas ecoando no corredor de mármore. A perseguição durou por apenas alguns segundos antes que suas mãos agarrassem com força os longos cabelos cor de mogno que dançavam no ar.

Alline foi puxada para trás com violência e caiu no chão aos pés da mercenária. Uma mão agarrou sua garganta num aperto de aço, sua cabeça virada bruscamente para encarar aqueles olhos impiedosos.

– Onde está a menina?

Alline riu com escárnio num claro deboche.

Meera lhe deu um tapa com as costas da mão, tirando sangue dos lábios da outra.

– Onde está a criança, sua cretina!

– Willa está em boas mãos. – riu a sérvia.

Meera a agarrou pelo pescoço novamente, trazendo-a para mais perto para encarar aquele rosto sombrio.

– Está achando tudo muito engraçado, não é mesmo? Ainda não se deparou com seu destino, kardeş[i]? Tem um monte de leões sedentos por seu sangue e sua carne lá fora, não tem ideia do que eles farão com você.

– Fodam-se! – Alline cuspiu, dando uma cotovelada no estômago da rival.

Conseguiu se livrar das garras letais e apanhou sua faca afiada no cano da bota, apontando-a para Meera ameaçadoramente e tomando o cuidado de ficar a uma distância segura de seus golpes eficientes.

A mercenária ergueu uma sobrancelha.

– Vai me enfrentar com essa faquinha?

– Não quero brigar com você, Meera!

– Você não quer brigar? – ela riu. – Achei que se orgulhasse de ser uma Borsahy. Não é isso o que vem espalhando por aí? Manchando nosso nome com suas imundices! Tem alguma ideia de como a Ordem está furiosa com você? À essa altura os Von Kern não são os únicos que estão te caçando!

– Foi por isso que veio? Mandaram você entregar minha cabeça?

– Você é o prêmio mais caro de todo o milênio. – Meera assumiu uma expressão sombria.

Alline sentiu o pânico se instalar dentro de si.

– É o fim da linha, Vedrana.

– Não!

Alline voltou a correr, desviando-se das obras de arte e conseguindo passar pela mercenária. Voltou aos corredores que a levariam diretamente à escadaria, apressando suas pernas a correrem o máximo que conseguiam. Precisava chegar à passagem! Precisava sair dali desesperadamente.

Podia lidar com uma Família poderosa. Mas não poderia, de forma alguma, enfrentar a Ordem.

Seus passos desenfreados a levaram até a torre da escadaria, ela conseguiu alcançar o primeiro degrau, tocando o corrimão aveludado com segurança. Dali podia ver a Passagem. Uma pequena fenda nas pedras da parede. Apenas um empurrão gentil e a entrada secreta se revelaria. Apenas mais alguns degraus e chegaria à sala de controle, onde passaria pelos corredores centrais até o portão dos fundos.

A liberdade estava a apenas alguns passos.

E lhe fora roubada bruscamente num piscar de olhos.

Meera a alcançou no segundo degrau, grudando seus ombros e a puxando para trás.

kardeş! – implorou.

Mas Meera a ignorou. Jogou-a no chão e a afastou da escadaria.

Alline rastejou pelo mármore, tentando fugir novamente. Mas a mercenária estava preparada logo atrás e num movimento único e preciso, encaixou algo em seu pescoço.

Alline deu um grito, surpresa. E levou as mãos à garganta, apalpando freneticamente.

A coleira de ferro tinha pontas afiadas apontadas para dentro e ostentava um estranho mecanismo que ela conhecia muito bem. Os Borsahys tinham costume de usar tal objeto para prender pessoas para interrogatório. O mecanismo de engrenagens meticulosas consistia em alongar aquelas pequenas pontas no interior da coleira, perfurando a garganta da vítima e silenciando-a para sempre.

Alline mesmo já havia utilizado aquele colar inúmera vezes quando trabalhava para a Ordem.

Seus olhos se voltaram para a mercenária, cheios de um terror vívido.

Meera sacudiu uma pequena caixinha preta por entre os dedos, dando um de seus sorrisinhos sombrios.

Alline se desesperou, soltando um guincho do fundo da garganta e tentando freneticamente abrir o fecho da coleira. Seus dedos se espetaram com as pontas afiadas.

– Eu não faria isso se fosse você. – Meera a alertou, encaixando uma guia de titânio na coleira. – Agora você está sob o meu poder. Não faça nada estúpido.

– Não! – Alline se sacudiu. – O que vai fazer?

– Entregar sua cabeça, é claro. Só não sei para qual dos lados. – a mercenária deu uma gargalhada.

Alline voltou a se sacudir, tentando se livrar do ferro em seu pescoço. O pânico se instalou dentro de seu peito, ameaçando jogá-la num abismo sombrio.

Meera puxou a guia e as engrenagens da coleira começaram a se mover com um barulho ameaçador.

Alline estancou.

– Não seja estúpida. Não perca a cabeça antes do tempo previsto!

– Meera…

– Cale-se! – a mercenária puxou a guia até que seus rostos estivessem próximos um do outro. – Você prendeu, torturou e vendeu uma criança ao mais maligno dos homens. Você sujou o nome da Ordem e matou milhares de inocentes sob o codinome Borsahy. Desonrou a todos nós! Não se atreva a dirigir a palavra a mim! Ou juro pelos demônios mais sombrios que corto sua língua e a ofereço numa bandeja.

Meera a puxou novamente, em direção aos corredores.

– Você vai pagar por seus crimes, Vedrana. Já está na hora.

 *-* *-*

Willa corria pelos corredores acarpetados como se a sanidade de sua alma dependesse disso. Contava com a chegada à escadaria, com certeza os outros estariam lá embaixo tentando adentrar a mansão. O som dos tiros deixava claro que Bóris tinha companhia.

Ainda estava presa nos primeiros corredores, mas em poucos segundo alcançaria a torre. Podia ouvir passos ecoando ao longe, mas não sabia se eram amigos ou inimigos, então se obrigou a continuar correndo. Cherry havia sido muito específica. Precisava sair dali!

Ao pensar em Cherry seu coração acelerou.

Era quase injusto que a assassina tivesse o sopro final do búlgaro em suas mãos, sem ninguém para compartilhar aquela morte. Mas por um lado, Willa já provara bastante daquela vingança. O gosto amargo ainda estava em sua boca.

Tudo o que precisava agora era encontrar os outros.

Sander.

Seu coração se acelerou com a possibilidade de encontrar Sander lá embaixo. Poder abraça-lo novamente, fechar os olhos e se esquecer dos horrores que passara. Talvez esquecer para sempre agora que a vingança estava sendo executada. Mas então fitou a si mesmo, o vestido rasgado que usava, a ausência da calcinha e o sexo quase profanado.

Seus olhos encheram-se de lágrimas.

Talvez não fosse uma boa ideia encontrar Sander novamente.

Talvez, o mais sábio fosse simplesmente passar pelas portas e nunca mais olhar para trás.

Uma nova vida, como sempre desejara.

Ela virou a curva do corredor que dava à torre, pronta para sair daquela mansão maldita e deu de cara com August.

 *-* *-*

Sander esvaziou o último quarto do andar, libertando a escrava que se encolhia embaixo da cama. Foi preciso quase meia hora conversando para conseguir fazê-la confiar na promessa de liberdade até que a menina aceitasse sua mão estendida e corresse para fora do quarto, juntando-se ás outras na escadaria.

Ela olhou por cima do ombro, fixando aqueles olhos azuis no rapaz antes de tomar a decisão de acompanhar o restante das meninas libertas.

Sander assentiu, incentivando-a.

A garota piscou duas vezes, confusa, e com um pequeno aceno de gratidão, correu escada abaixo para sua tão sonhada liberdade.

Sander suspirou, passando a mão pela barba ruiva que começava a apontar. Sua expressão era cansada e os olhos não escondiam o pesar. O olhar da menina tocou fundo seu coração, fazendo-o se lembrar de Willa.

Faltava pouco para encontra-la, assim ele esperava. Poder salvá-la das garras daquele búlgaro miserável era a missão mais honrada a qual ele já tinha participado. Sentia que agora tinha um propósito pelo qual lutar, um propósito para apontar sua arma e atirar até fazer seus inimigos cessarem o som do coração.

Foi naquele momento que ele agradeceu por toda influência que seu pai tinha e todo o treinamento bárbaro ao qual ele o sujeitou. Se era um homem capaz era graças à Klaus.

Esse pensamento o levou a fitar seu pai, dando cobertura no final do corredor. O nórdico – como seus inimigos costumavam chamar -, estava com os olhos fixos na escadaria por onde as garotas fugiam. Parecia triste por elas, mas aquela era apenas uma suposição. Klaus nunca deixava transparecer seus verdadeiros sentimentos. Nem mesmo aos mais próximos. Era um homem misterioso e quieto. Duro, por assim dizer.

Sua arma em riste estava pronta para qualquer tipo de ameaça e ele não hesitaria em atirar.

King parecia um guarda-costas sofisticado ao seu lado, ostentando a bengala afiada.

E Fridda apontava a garrucha para o segundo lance de escadas, batendo o pé no degrau com impaciência. Ao que parecia estava louca para subir mais um lance de escadas até o próximo andar e fazer valer sua força e fama.

Sander não podia culpa-la. Ele mesmo mal podia esperar para acabar logo com aquilo. Aproximou-se dos outros a passos largos.

– Bestemor, faça as honras. – ele apontou para a escadaria logo acima.

Fridda deu um sorrisinho, apressando as botas pesadas a seguirem rumo a cima enquanto o restante do pessoal a seguia. A torre era um tanto fria, lembrando um castelo abandonado. Mas as sombras eram incapazes de assustar leões famintos. Com as pistolas e bengalas em riste, subiram em silêncio até o andar seguinte, encontrando um corredor vazio.

Fridda deu alguns passos à frente, desconfiada. Podia sentir o cheiro de tabaco turco e resquícios de um baseado. E, bem ao longe, o som inconfundível de blues. Ela estreitou os olhos, tentando ver o que havia ao final do corredor. Podia ser uma velha, mas sua visão funcionava perfeitamente.

Havia uma porta de metal entreaberta, por onde escapava fumaça e o som da música misturados ao ruído rouco de algumas vozes.

Não estavam sozinhos.

Fridda fez um aceno com a mão, apontando para a porta ao longo do corredor.

O grupo se empertigou, atentos ao mais sutil movimento perto daquela porta.

Klaus avançou, prostrando-se ao lado da mãe. Juntos, eles seguiram pelo corredor em silêncio absoluto, aproximando-se da porta. Halle, Sander e King foram logo atrás, dando cobertura.

O som de vozes foi ficando mais alta a medida que chegavam mais perto, assim como o cheiro do tabaco e whisky. Uma gargalhada se fez ouvir lá dentro e então mais vozes convergindo umas com as outras numa clara discussão. Alguém chutou uma garrafa, o vidro tilintando enquanto voava para fora da sala e escorregava pelo corredor.

Roth California.

Sander apanhou a garrafa em silêncio, observando o rótulo sofisticado e lamentando estar vazia. Ele sempre apreciara muito aquela Vodka.

Klaus fez um pequeno sinal, indicando que iria invadir o espaço.

Sander sacudiu a cabeça e, ignorando os protestos do restante, caminhou tranquilamente até a porta da sala. Deu um chute no metal que soltou um barulho alto em protesto.

Os homens reunidos dentro da sala congelaram, voltando suas cabeças para a entrada.

Sander parou na soleira da porta, erguendo a garrafa vazia.

– Quem foi que acabou com a vodka?

Num piscar de olhos, o caos se instalou.

Os homens se ergueram de um pulo, sacando suas pistolas e apontando-as para o intruso.

Sander ergueu as mãos como quem se rende, derrubando a garrafa que se espatifou no chão. Os cacos voaram para todos os lugares.

– Oooops!

Ele se curvou como quem fosse limpar a baderna, mas ao invés disso, suas mãos foram para o coldre preso ao peito, de onde retirou as duas pistolas que carregava e apontou na direção  aos homens furiosos lá dentro.

Sander puxou o gatilho, mandando bala para tudo quanto é canto.

Klaus, Fridda, Halle e King se juntaram à ele, invadindo a sala com elegância.

Quando a munição acabou, tudo o que restou foram corpos amontoados no tapete persa e um monte de obras de arte danificadas. A fumaça flutuava no ar, vindo do narguilé abandonado ao lado das almofadas.

Incomodada com o cheiro, Fridda o chutou, fazendo-o tombar no meio dos corpos.

Klaus respirou fundo, acalmando sua respiração ofegante. Limpou o suor e as manchas de sangue grudadas no rosto. Seus olhos se voltaram para a manga de sua camisa, observando o ombro baleado. O tecido fino estava encharcado de sangue.

Halle se aproximou dele, estendendo uma faca.

– Será melhor se cuidar disso agora.

Klaus voltou seus olhos para o caçador.

– Não temos tempo para isso.

– Temos sim. – Fridda concordou. – Faremos uma pequena parada.

Mor

– Klaus, não seja uma criança. Cuide de seu ferimento e então voltaremos à luta. Você está sentindo dor e isso atrapalha seus movimentos.

– Vocês ficam aqui, recuperem-se e voltam à ação. Eu vou continuar pelo andar e ver o que tem lá em cima. Preciso achar Willa. – Sander se apressou em dizer, voltando pelo corredor.

Fridda assentiu em concordância.

– Te damos cobertura.

– Obrigado, Bestemor.

– Vá procurar sua garota, menino. – Fridda lhe incentivou, voltando seus olhos para o filho carrancudo.

Sander não esperou que lhe atrasassem mais, correu em direção à escadaria novamente. Não parou nos outros andares, seguiu diretamente para a cobertura onde sua intuição lhe dizia que era onde ela estava.

De certo esperava encontrar um andar lotado de seguranças armados, mas o que realmente encontrou foi um corredor vazio cheirando a antiguidades. Nenhum capanga, nenhuma escrava e nenhum prisioneiro.

Ele relaxou a pistola, dando alguns passos a mais.

Havia algumas portas espalhadas pelo hall, todas abertas e revelando salas vazias com mobílias antigas e sofisticadas. Sander não se demorou naqueles aposentos, apenas se certificou que estivessem limpos.

Seguiu em frente, rumo à outras portas e corredores longos, procurando.

 *-* *-*

August foi incapaz de disfarçar sua surpresa ao topar com Willa nos corredores.

O que estaria a menina fazendo fora do quarto ele não sabia dizer, ainda mais com Bóris tão empenhado em fazê-la sofrer. Tudo o que ele sabia é que era estúpido ela estar correndo por ali, tentando fugir.

O pavor no rosto dela quando se deparou com ele bloqueando sua saída quase tocou seu coração. Mas ele soube se controlar muito bem e manter tais sentimentos bem longe da superfície gelada de sua alma. Há muito tempo se tornara um homem frio, isento de qualquer tipo de piedade. O açoite de Petrov extirpou sua humanidade, deixando marcas profundas para que nunca mais se esquecesse de onde era seu lugar.

Assim como as escravas, August levava na alma uma lição para nunca ser esquecida.

A diferença entre eles é que August abraçara a lição, já Willa brincava com a sorte.

Ele a fitou com dureza, os olhos sombrios como a noite mais escura e traiçoeira.

Willa ajeitou o que lhe sobrou das vestes e recuou um passo.

– O que está fazendo neste corredor? – August inquiriu.

– Saindo desta maldita casa.

Ele estreitou os olhos.

– E se eu fosse você, também sairia. Antes que as coisas fiquem realmente feias para o seu lado.

– Eu não vou sair do meu posto. Tampouco você abandonará a casa do seu senhor.

– Bóris Petrov não é o meu senhor! Ele não é senhor de ninguém.

– Willa, nesses longos anos em que passou sob as mãos dele, não aprendeu nada, não é mesmo? – August balançou a cabeça com pesar. – Ainda não entendeu quem é que manda? Você é uma tola, menina. Vai acabar se matando.

– O único tolo aqui é você. Saia da minha frente!

August cruzou os braços, bloqueando a passagem da garota.

– Você não vai sair. Vai voltar para o seu quarto agora mesmo e esperar que seu senhor tenha piedade de sua alma. Mais uma vez vai colher os frutos de sua própria teimosia. É uma pena. Não posso fazer mais nada por você.

Willa se empertigou, sentindo a raiva crescer dentro de si.

– August, não me obrigue a te machucar. Saia da minha frente agora mesmo!

O rapaz apanhou uma Beretta preta da cintura e a apontou para a menina, sua expressão ainda mais séria toldou o ar ao seu redor, carregando-o de sombras.

– Eu não quero atirar em você, Willa. Deus sabe das maldades que já lhe causei. Por favor, não manche mais minha alma do que eu mesmo já manchei.

– Deus não tem nada com isso! Vá se foder! Fica aí se lamentando das merdas que já fez, mas não move uma palha para concertá-las! Talvez você só seja como o restante dos seguranças de Bóris, um tarado louco para desfrutar das sobras do mestre. Vá se danar, August! Não vai desfrutar de nada além do chão sujo onde ele pisa. Sabe, eu estava mesmo querendo ir embora sem sujar minhas mãos com você, mas talvez você mereça uma lição pelas coisas horríveis que me fez passar. Pelas mentiras que me contou.

August destravou a arma.

– Não estou brincando, Willa. Afaste-se!

Willa lhe mostrou o dedo.

August suspirou, ignorando a criancice dela. Sua expressão séria não se alterou, nem mesmo quando ele estendeu a mão na tentativa de agarra-la pelo ombro e fazê-la retroceder até seu quarto.

Willa se esquivou num gesto simples e o atacou com uma rasteira. O rapaz cambaleou, oscilando perigosamente em direção ao chão, mas não chegou a cair. A garota torceu seu braço para trás, erguendo-o naquela onda nauseante de dor. Ela o forçou a ficar de pé naquela postura desagradável, ameaçando quebrar seu braço caso ele se mexesse apenas um centímetro em direção à ela.

Surpreso com o ataque, August se distraiu e acabou cedendo às ordens daquela menina.

Ela o prensou contra a parede, enfiando sua cara no meio dos quadros importados. Seu nariz foi esmagado e ele soltou um pequeno chiado em protesto – o que só deu à Willa mais ideias impiedosas do que fazer com ele.

Ela o revistou com uma mão, jogando no chão todas as armas que encontrou escondidas. Chutou-as para longe através do carpete. Aliviou um pouco a pressão e o virou para que pudesse encará-la.

Com um movimento rápido e preciso, lhe virou um soco bem no meio do rosto, acertando-lhe o olho.

August bateu a cabeça na parede com o impacto do golpe, praguejando.

– Dê-se por satisfeito que eu não tenha lhe aberto as tripas! Seu filho da puta!

Ela apontou a Beretta para ele.

August estancou, cauteloso.

– Vai atirar em mim agora?

– É menos do que merece.

Ela voltou o cano da pistola para o joelho dele e disparou.

August urrou de dor, curvando-se em direção ao ferimento.

– Isso garante que você não tente me impedir de sair. Como eu disse, é menos do que merece. Mas não vou perder meu tempo torturando você. Vou deixa-lo vivo para enfrentar a fúria dos outros. – ela se agachou para fita-lo nos olhos. – Um dia, num passado muito distante, você me disse que eu teria a oportunidade de uma vida nova, um recomeço onde ninguém nunca tivesse me visto. Estou abraçando essa oportunidade agora, como você deveria ter feito quando lhe era possível. Adeus, August. Espero que você sofra como eu sofri.

Willa lhe deu as costas e seguiu pelo corredor.

August deixou seu corpo pender até o chão, sentindo o torpor tomar conta de sua perna. Seus olhos avistaram a garota se afastando pelo corredor. Ele se esticou no carpete persa, estendendo a mão numa súplica desesperada até alcançar a arma jogada ali perto. Apanhou-a com sofreguidão e mirou na direção da menina.

O som do tiro ecoou pelo corredor, assustando Willa.

Ela se virou para trás, surpresa e encontrou o corpo caído de August. Sua cabeça raspada estava deitada numa poça de sangue. Ergueu os olhos um pouco mais, seguindo o par de botas paradas ao lado do corpo.

Sander a encarava do outro lado do corredor, a Glock em riste. Em seu rosto bonito, manchas de sangue fresco.

Willa sentiu seu coração dar um pulo dentro do peito e disparar. E, de repente, todas as regras que havia criado já não valiam mais.

– Ele ia atirar em você. – foi tudo o que Sander conseguiu dizer antes de se aproximar a passos largos.

Willa desatou a correr em sua direção e se atirou nos braços dele, ignorando o vestido rasgado, a alma profanada e os horrores que passara naquela mansão. Sander a segurou com cuidado, mas não houve delicadezas quando seus lábios se encontraram com a maciez dos dela. Ele a beijou com sofreguidão e foi correspondido com a mesma intensidade.

– Sinto muito. Sinto muito. – murmurou ele, entre beijos. – Sinto muito ter deixado que ela a levasse!

Willa balançou a cabeça, deixando as lágrimas despencarem.

– Eu sinto muito. – Sander repetiu.

Ela o beijou novamente, silenciando seus lamentos.

Sander a ergueu com delicadeza, deixando-a enlaçar suas pernas em sua cintura. Apertou-a com força, querendo se certificar de que estava segura ali em seus braços protetores. Willa enroscou os dedos em seus cabelos, puxando-o para mais perto. Seus lábios eram quentes e urgentes nos dele.

– Eu te amo. – ele deixou escapar em seu ouvido.

Willa gemeu uma vez, como se concordasse com a revelação.

– Você nunca mais vai me escapar. Nunca mais vou deixar levarem-na de mim. Eu prometo, Willa! – seus olhos a fitaram com intensidade. – Dentre todas as promessas que posso lhe fazer, essa é uma que assino com sangue. Vou proteger você! Vou ensiná-la a se proteger por si mesma. Eu prometo que nunca mais se encontrará numa situação como essas.

Willa alisou seu rosto com carinho, passando os dedos na barba ruiva.

– Não tenho a intensão de ir a lugar nenhum. Não mais. Onde quer que você vá, eu estarei ao seu lado se assim quiser. – ela disse e o beijou novamente.

Sander se entregou àqueles lábios devassos, rendendo-se ao calor que eles proporcionavam até se esquecer de quem era… Até que a única coisa que lhe restasse fosse o gosto doce da boca dela.

Willa obrigou-se a se afastar. Seus olhos tornaram-se sérios e cheios de terror.

– Cherry. – foi tudo o que disse.

Sander a abaixou, permitindo que ela se ajeitasse.

– Onde ela está?

– Na cobertura. Com Bóris.

O ruivo rosnou.

Willa deu um sorrisinho.

– À essa altura eu duvido que tenha sobrado algo do búlgaro para você desfrutar.

– Vamos nos certificar disso.

Sander conduziu Willa pelo corredor.

– Tem alguma arma aí? – ele a fitou com hesitação.

Ela apanhou a Beretta das mãos estáticas de August.

Sander balançou a cabeça em desaprovação. Fuçou no coldre peitoral e lhe entregou uma de suas pistolas.

– Essa é melhor. E combina com você.

Willa sorriu.

– Sabe atirar, não sabe? Meu pai lhe ensinou bem.

– Não tive problemas com o joelho desse aí.

Sander deu um sorrisinho.

– Essa é minha garota.

Eles saíram em direção à cobertura, de mãos dadas e pistolas em riste.

 *-* *-*

Foi preciso apenas a singela ameaça de mexer com sua masculinidade para fazer Bóris suspender aquela expressão arrogante do rosto.

Seu grito ecoou pelas vidraças da cobertura num lamento quase agressivo. Ele se virou bruscamente para sua agressora, dando-lhe um soco que a empurrou em direção ao chão. Bóris se ergueu com imponência, livrando-se do taco de sinuca. Jogou-o longe e se aproximou de Cherry.

A garota se levantava do chão quando o chute dele a acertou com força na cabeça, fazendo seu mundo rodar por incontáveis minutos. Ela piscou, atordoada e forçou seus olhos enxergarem.

Bóris já estava em cima dela, agarrando-a pela garganta num aperto de aço. Sua expressão não trazia nada daquela arrogância debochada. Ele estava furioso. Os olhos ardendo em chamas.

Cherry esboçou um sorriso.

– O que foi, Bóris. Não tem graça quando você é a vítima?

Ela gargalhou, a risada maligna ressoando pela sala à céu aberto.

Bóris se sentiu ainda mais insultado com a chacota dela e seu aperto se intensificou na garganta da assassina, ele a forçou encará-lo e esmagou os lábios contra os dela num beijo agressivo.

Cherry unhou o rosto dele com as garras afiadas e cuspiu seu nojo.

– Você quer se divertir, não? É para isso mesmo que estamos aqui. Vou lhe retribuir o favor, minha querida vadia! – ele jogou no sofá desarrumado, forçando o corpo sobre o dela e esfregando-se de modo asqueroso.

Cherry tentou levantar, mas o búlgaro era deveras pesado. Ele puxou seus longos cabelos para trás num apertão doloroso e a fitou com um olhar impiedoso e cheio de sombras maldosas.

– Se eu bem me lembro, você adora sexo bruto. – ele forçou a calcinha da Lingerie vermelha para baixo, dominando-a completamente.

Cherry deu uma cabeçada com força para trás, acertando o nariz dele antes que o maldito pudesse ter qualquer presunção ao seu respeito. Ela não estava blefando quando disse que jamais cederia a um homem novamente. Os demônios dentro dela não se rendiam facilmente.

Bóris cambaleou só por um pequeno instante, mas o suficiente para a assassina tomar conta da situação e o empurrar com força do sofá, vendo-o se estatelar no chão. Cherry se ergueu com elegância e arrumou a calcinha no lugar. Voltou seus olhos para o búlgaro, encarando-o com a mesma sombriedade que ele.

Bóris se ergueu de um pulo, enfrentando a adversária.

Eles se atracaram de novo, lutando pela cobertura, deslizando na chuva como verdadeiras feras selvagens. Escorregando no mármore molhado e recuperando a compostura em gestos elegantes.

Em dado momento, Bóris tentou apanhar sua arma para tentar dominar a garota novamente, mas foi interceptado com um golpe preciso que o derrubou no chão molhado. Ele virou-se de barriga para cima, encarando o céu turvado e a tempestade descendo sua fúria sobre eles.

Cherry se aproximou com aqueles passos felinos que a faziam uma caçadora tão bela e o agarrou pelo pescoço, forçando-o a se levantar.

– Vamos, Bóris. Está velho e gordo demais para me acompanhar nessa dança? – ela o chutou na perna machucada, avivando sua raiva.

Bóris foi para cima dela, ignorando os protestos do próprio corpo exausto e ferido. Ele tropeçou e caiu, estatelando-se no chão novamente.

– O que é? Só sente prazer em lutar com garotinhas? Só tem graça quando são mais fracas que você? Seu porco! – ela o chutou com força no queixo.

O búlgaro cuspiu sangue, junto com alguns dentes.

– Vadia!

– Ah, eu sou. Uma vadia livre! – ela o acertou novamente.

Aproximou-se com elegância.

– E sabe o que tenho vontade de fazer? – deu um sorriso maléfico. – Levá-lo lá para baixo, onde as outras estão, e dar àquelas coitadas a oportunidade de te ferir como fez com elas.

Bóris balançou a cabeça, como quem implora.

– Tem alguma ideia de que tipo de demônios criou?

– Todos somos atormentados por demônios, querida vadia. Nem todos cedem á eles. – ele se levantou com dificuldade, forçando-se a permanecer de pé e encarar sua tão amada vingadora.

Cherry permitiu que ele rondasse a sala, observando-o com os olhos de uma caçadora.

– Você foi a que eu mais amei. – disse Bóris ao acaso, fitando-a com adoração.

– Eu fui a que você mais feriu e atormentou. – ela o corrigiu.

– É verdade. – ele riu um pouco. – Exceto por Willa. Não sabe os horrores que fiz aquela garotinha passar.

Cherry estreitou os olhos, alertando-o.

– Adorada Solina, não tem ideia dos demônios dentro de sua amiga. Eu mesmo me esforcei muito em coloca-los lá.

Cherry avançou sobre ele, furiosa.

Bóris abriu os braços para recebe-la. Quando os corpos se chocaram com violência, ele sacou o objeto pontudo e o cravou com força no quadril da adversária.

Cherry gritou, cambaleando pela sala. Olhou para o quadril ferido, examinando-o, e puxou o furador de gelo cravado em sua carne. A ferida aberta verteu sangue, ainda não estava cem por cento curada do tiro que levara alguns dias antes.

Voltou seus olhos para o búlgaro, cheios de ódio.

Ele apontava uma pistola preta para ela agora, exibindo aquele sorriso imbecil.

 *-* *-*

Meera arrastava Alline pelos corredores enquanto cantava uma música antiga em turco. Alline a acompanhava a contragosto, a coleira machucava seu pescoço, os espinhos de metal afiado arranhando a pele delicada. Seus ossos doíam à beça, cada ferimento que tinha ecoando dolorosamente. E havia o medo também. O medo profundo que a sufocava a cada passo que dava.

Fitou as mãos arruinadas, as unhas em carne viva, alguns dedos quebrados. O joelho ainda ferido com o tiro que levara quando fora capturada por Fridda, o maxilar que fora socado inúmeras vezes. As lembranças de seu rosto no espelho eram o que mais a aterrorizava. Seu lindo rosto destruído por hematomas.

As lágrimas encheram seus olhos diante daquele horror.

Malditos Von Kern! Era graças àquela família amaldiçoada que sua vida virara de ponta cabeça. Já não bastava aquela vadia louca ter matado seu precioso Lucien. As lembranças do amante só serviram para aumentar a tristeza sombria dentro dela.

E agora estava sendo levada, como uma cadela, para os malditos nórdicos!

Ela fitou a antiga colega, lembrando da imponência que Meera sempre tivera. E a força bruta com a qual atacava. Um dia lutaram juntas, mataram juntas e até repartiram o vinho. Mas agora ela não passava de uma mercenária. A traição doeu em seu peito.

Ao longe, pode ouvir passos pesados e a voz inconfundível de Fridda. O restante da família vinha pelo corredor de encontro a Meera.

A possibilidade de ser morta por um deles a aterrorizou e a chama fraca da mulher que um dia foi se acendeu dentro dela, dando à Alline a coragem da qual precisava. Uma Borsahy não se rende nunca!

Ela freou no meio do caminho, interrompendo sua caminhada.

Meera olhou por sobre o ombro, repreendendo-a, e puxou a guia uma vez. Os espinhos metálicos da coleira arranharam o pescoço de Alline, mas ela não prosseguiu. Os olhos fitando a outra com terror.

– Não seja estúpida, Vedrana! Falta pouco. Logo encontrará a paz da qual necessita… Ou as labaredas do inferno. Vejamos como Nosso Senhor será com você.

– Nosso senhor não existe. E eu não vou queimar no inferno! – com um puxão preciso e um pouco de pressão na área certa, Alline conseguiu soltar a guia das engrenagens da coleira e viu-se livre das rédeas de Meera.

Antes que a mercenária pudesse agarrá-la novamente, Alline lhe deu um chute com toda sua força, fazendo-a cair de joelhos. Aproveitando-se da pequena fraqueza, fechou o punho e desceu o braço no rosto belo da adversária.

Meera agarrou o punho bem a tempo de virar o braço de Alline para trás numa torcida dolorosa e acertar-lhe o rosto com o punho fechado.

Alline cambaleou e tentou revidar o golpe, mas foi empurrada com força para trás.

Meera se ergueu com a espada em punho.

– E então? Vai me enfrentar como uma Borsahy ou sair correndo como uma franguinha, como fez há pouco?

Alline pareceu refletir sobre aquilo, mas o som dos passos e vozes a alcançaram novamente, cada vez mais perto. O terror se apoderou de seu coração, lembrando-a porque escolheu arriscar sua vida e arrebentar aquela guia.

Num giro rápido, saiu correndo na direção oposta do corredor.

Meera riu, sem conseguir se conter. A vadia não tinha para onde fugir. Estava encurralada naquele andar, como uma porquinha prestes a ser abatida.

– Covarde! – gritou, a voz reverberando pelas paredes vazias.

 *-* *-*

Alline ouviu o insulto, mas não deixou seu orgulho a comandar.

Um dia se encontraria com Meera novamente e então lhe mostraria quem era a covarde.

Continuou correndo pelo corredor longo até encontrar-se sem saída.

Maldição!

Ela derrapou no meio do caminho, sem saber para onde correr. Do seu lado direito havia o caminho que a levaria diretamente para os quartos luxuosos de onde correra mais cedo. E à sua esquerda o corredor ornamentado que levava à cobertura.

Sabia que se corresse para o lado de Bóris estaria encurralada do mesmo jeito. Mas acabou cedendo à possibilidade de ter uma chance se ficasse ao lado do búlgaro. Correu pelo mármore até as portas fechadas da sala da cobertura aliviando-se ao se deparar com um pequeno grupo de homens armados.

Seguranças de Bóris.

Savedra estava entre eles, furioso, ditando ordens aos outros.

Alline se aproximou a passos largos, tentando esconder a expressão alarmada.

– Savedra! – gritou ela.

– Madame, Jovanović. – ele fez uma pequena mesura. – Não deveria estar andando por aí sem escolta. A mansão foi invadida. Estamos tentando lidar com o problema…

– Eu seu disso, seu idiota! – ela soou ríspida. – Como chegou até esse andar? Eles bloquearam a escadaria e o elevador já era.

– Pela escada interna da torre. Trouxe o restante dos guardas comigo para…

– Ótimo! – Alline correu até a porta, mas sua atenção foi capturada pelos dois corpos de guardas no chão. Ela fitou a porta, aterrorizada. – Onde está Bóris?

Savedra engoliu em seco.

– Achamos que esteja aí dentro… Com quem quer que tenha matado os guardas.

Alline amaldiçoou em voz baixa.

– Vamos invadir a sala…

– Não! – Alline arrancou a pistola que ele carregava. – Vocês fiquem do lado de fora. Defendam a porta! Ninguém entra nesta sala!

– Sim, senhora. – um dos guardas assentiu, entusiasmado em poder ajudar.

Alline destravou a arma.

– Eu mesmo lidarei com quem está lá dentro. – ela disse e entrou.

 *-* *-*

Cherry riu na cara de Bóris.

– Vai atirar em mim?

O búlgaro apertou os lábios furiosos.

– Não pense que sou incapaz de mata-la, Solina!

– Não tenho medo de morrer.

– Pois deveria. Considerando as milhares de almas que roubou, você não é bem vinda no paraíso.

– Nesse caso, tomarei um drink com o Diabo.

Bóris a fitou como se fosse uma louca.

– O que foi? Um homem com tantos pecados nas costas não aguenta uma pequena blasfêmia?

– Você é louca!

– Não é a primeira pessoa que me diz isso. Quando é que vai aprender, búlgaro, que não sou sua Solina? Meu nome é Cherry Vicious e eu vim atrás da minha vingança!

Num movimento ágil, ela chutou a arma das mãos dele. Apanhou a Beretta e a encostou na testa do búlgaro.

– Diga adeus, Petrov.

O som de uma arma sendo engatilhada cortou o silêncio tenso da sala.

– Solta ele, Vadia!

Cherry voltou os olhos para trás e deu de cara com Alline, apontando um revolver de cano longo diretamente para seu peito.

Continua!

[i] Irmã

A Garota Má (Pt.16): A caçada da Leoa Indomável

 

Escrito por Natasha Morgan

 

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O Bentley estacionou a alguns metros da propriedade privada, dando uma freada barulhenta. O ronco do motor silenciou com um pequeno rugido elegante, dando lugar ao silêncio sombrio.

Uksville estava deserto. Como um condomínio abandonado há séculos, exceto pela limpeza impecável dos arbustos e estradas. As mansões ficavam afastadas umas das outras por alguns quilômetros de distância, escondidas por entre os pinheiros, carvalhos e cerejeiras. Os moradores podiam usufruir tranquilamente sua privacidade dentro daqueles portões pesados de ferro antigo.

Um pequeno paraíso sofisticado.

Meera foi a primeira a sair do Bentley, a bota de combate esmagando o cascalho frágil sob seus pés. King a seguiu, como os demais. Sander e Halle travaram as portas do Mustang e se juntaram ao grupo em silêncio.

A mercenária parou no meio da estradinha vazia, apanhando um binóculo em seu coldre e fitou o alto do morro, ajustando a lente poderosa sobre seus olhos. Lá estava a mansão fortificada dos Petrov: Linda e Intocável. Bem no alto do morro, cercada de muros altos e fortes, rodeada de seguranças armados e impecavelmente vigiada pelas centenas de câmeras espalhadas em seu jardim adorável. Uma fortaleza impenetrável.

Meera deu um sorrisinho de canto de boca, maliciosa.

– Você parece otimista. – Halle disse, aproximando-se para checar o perímetro.

– Contei dezenove seguranças próximos ao portão. Devem ter mais escondidos e dentro da casa. – ela observou, focada nas informações que podia coletar.

– Estaremos preparados para eles. – disse Klaus, destravando a Desert Eagle.

– Assim é que eu gosto. – Meera sorriu.

Ela apanhou uma mala preta no porta-malas do carro e ajustou sua espada no coldre peitoral.

Um raio cruzou os domínios do céu e a fina garoa se intensificou, beirando a tempestade.

– Vamos acabar com isso. – Meera deu uma piscadinha. – É hora da diversão!

Fridda tirou o casaco de couro que usava, destravou a garrucha e seguiu a mercenária, juntamente como os outros. O condomínio deserto agora estava povoado, sendo invadido pelos leões selvagens e sua fome abrasadora.

O morro era um tanto inclinado, mas o grupo não encontrou qualquer dificuldade em subi-lo. O vento forte açoitava o rosto de quem ousava enfrenta-lo, fazendo voar os cabelos numa fúria sensual enquanto as gotas selvagens da chuva tocavam os rostos numa carícia provocante.

Eles pararam tão logo os portões de ferro surgiram à sua vista. Ocultos nas sombras dos pinheiros, estavam atentos aos sutis movimentos dos capangas lá dentro. Meera fez um sinal para que ficassem onde estavam, quietos, enquanto ela cuidava de um importante detalhe. Fuçou a mala que trouxera e retirou seis cargas de explosivos.

Imperceptível, a Mercenária deslizou pelas sombras até o muro alto e cinzento, e encaixou, um por um, os explosivos nas partes bifurcadas. Habilidosa, ela os armou em apenas alguns segundos e se afastou, voltando para junto do pessoal.

Todos se agacharam, protegendo-se do que estava por vir.

Meera girou o controle em sua mão, dando uma risadinha maléfica. E então apertou o botão.

O Muro ameaçador ruiu numa explosão violenta que fez voar escombros por todos os lados e acertar Sander na cabeça. O menino cambaleou em direção ao chão e praguejou em outra língua.

Podiam-se ouvir os ruídos preocupados dos seguranças lá dentro.

Meera levantou-se de um pulo, um sorriso brotando em seus lábios audazes.

– Hora do show!

Ela retirou uma Gatling Gun portátil e monstruosa de dentro da mala preta e a mirou em direção ao portão de ferro, aproximando-se a passos largos. E antes que os seguranças surgissem, começou a atirar.

O barulho foi estrondoso, quase ensurdecendo os outros. As balas voavam para todos os cantos, metralhando o que restou do muro, as árvores do jardim e os capangas que corriam naquela direção.

Antes que sua atenção fosse roubada para a ação, Fridda lançou um sorriso matreiro à mercenária, divertindo-se à beça com tudo aquilo.

Meera tremia com a potência da metralhadora e seus cabelos voavam ao vento, chicoteando seu rosto impiedoso. Ela riu, exibindo os dentes numa expressão aterrorizante. E quando a munição acabou, deixando para trás apenas o eco do silêncio, ela apanhou duas Hand Cannon de triplo cano e passou a atirar com elas. A mini metralhadora giratória era perfeita para seus fetiches sangrentos e moldavam-se em suas mãos com elegância, fazendo-a parecer uma vingadora fatal.

Por um momento, Fridda a invejou, observando-a pelo conto de olho enquanto lutava ao lado da rival, abatendo o que sobrara dos capangas. Eles vinham de monte, surgindo pelo jardim e dos fundos da casa. A Bestemor era ágil com sua garrucha, acertando-os com maestria e dando golpes naqueles que escapavam de sua mira.

Klaus divertia-se a seu modo, preferindo o corpo a corpo à suas pistolas elegantes.

King mantinha-se como um fidalgo sofisticado, lutando apenas com sua bengala em forma de lança. Seus golpes eram simples e eficientes, incapacitando os adversários em questão de segundos. E o Mouro ainda conseguiu manter sua roupa impecável.

Halle dispensou as preliminares, escapando pelas frestas em direção ao hall da mansão. Soube desviar dos capangas que abordavam seu caminho, abatendo cada um deles com um tiro direto na testa. Sua prioridade era encontrar Cherry e ele não tinha tempo a perder, tampouco para saborear aquele banquete.

Sander era o único descontrolado. Cego de ódio, batia e chutava desenfreadamente, espancando os capangas até que o sangue transbordasse de suas bocas e narizes. E a cada corpo que largava no chão ele perguntava de Willa. E quando não obtinha uma resposta, matava-os sem qualquer piedade. Sua fúria beirava à loucura, deixando-o vulnerável.

Klaus se distraiu, preocupado com o filho e acabou por levar um tiro no ombro.

Ao ouvir o grito do pai, Sander correu naquela direção e derrubou o capanga, silenciando-o com um tiro na testa. Seus olhos se voltaram para o pai e ele o ajudou a levantar.

– Eu estou bem, velho. Trate de cuidar de seu próprio traseiro! – disse e voltou ao combate.

Klaus disfarçou um pequeno sorriso, deu um tranco no ombro, ignorando a dor, e voltou à luta. Um guerreiro como ele não seria tão facilmente abatido.

Lado a lado eles lutaram, exterminando os homens de Bóris Petrov.

Fridda e Meera foram civilizadas e dividiram algumas presas, matando com elegância. Um dos capangas conseguiu fugir da mira da Hand Cannon e acertou um soco no rosto da mercenária. Fridda lançou-lhe um golpe com a ponta do pé e o fez ajoelhar, dando-lhe um tiro no meio da testa e finalizando o serviço. Em retribuição, a mercenária atirou nos dois soldados que se aproximavam sorrateiramente da velhinha.

Elas se entreolharam, sérias. E assentiram em agradecimento apenas uma vez, antes de voltarem à ação com as armas erguidas e a fúria solta.

Klaus, mesmo sangrando conseguiu chegar mais perto da entrada principal da mansão de cinco andares, dando cobertura para o filho e King se apossarem do jardim lateral. A manga de sua camisa refinada estava escarlate e o sangue pingava com lentidão. A ferida doía pouco, mas incomodava. Não que isso o impedisse de mover seu ombro contra os narizes dos estúpidos que ousavam impedi-lo de entrar na fortaleza.

Já havia derrubado uma fortaleza Petrov uma vez. E estava prestes a fazer ruir outra.

Sander se aproximou com a Glock, derrubando os capangas pelos joelhos e ouvindo seu lamento com satisfação. Fácil demais simplesmente matar, o bom é incapacitar! Uma lição que aprendera com a Bestemor. Socou mais dois no nariz com o cabo da pistola e conseguiu empurrar o último nos arbustos espinhentos do jardim.

King seguiu com seu balé assassino até que a ponta de sua bengala penetrasse a garganta do homem com quem lutava. Num giro rápido, livrou a lâmina da carne decrépita e limpou-a na manta de zibelina. Seus olhos focaram-se no soldado posicionado na varanda e ele fez um pequeno gesto com a mão, convidando-o a se aproximar.

O homem pareceu refletir por alguns segundos, segurando a carabina com nervosismo. Por fim decidiu que o oponente era poderoso demais para suas simples capacidades e resolveu fugir, largando a arma no chão e saltando por cima da cerca do jardim.

Meera observava a cena de perto e voltou suas duas pistolas Hand Cannon para a direção onde o homem corria, apertando o gatilho. As balas foram cuspidas pelos três canos da arma e voaram á longa distância, acertando o fugitivo bem no meio das costas.

Meera voltou seus olhos sorridentes para King e lhe deu uma piscadinha cúmplice.

O Mouro riu consigo mesmo e se voltou para junto de Sander na entrada principal, dando cobertura ao garoto.

Klaus abriu os braços, apontando suas pistolas para as duas direções enquanto dava cobertura aos parceiros.

Sander respirou fundo uma vez, ajustando a Glock, e chutou a porta. O cristal se espatifou com o impacto da bota grossa do rapaz, despencando em milhares de caquinhos preciosos. E foi então que a chuva de homens atingiu o grupo.

Saídos de dentro da casa, os soldados do búlgaro estavam igualmente armados e sem um pingo de medo de morrer.

Sander os encarou de frente, atirando no máximo de corpos que conseguiu mirar. King apanhou sua fiel escudeira bengala e juntou-se à luta enquanto Klaus abatia os homens direto da porta, impedindo-os de sair. Numa fila indiana da morte, os capangas eram mortos com tiros certeiros, manchando o chão com sangue.

Sem querer perder a diversão, Meera tomou a frente, empurrando o nórdico com pouca suavidade. Seu andar sensual era cômico em contraste com o massacre. Os soldados hesitaram, fitando a bela mulher de modo desconfiado, principalmente quando ela parou numa pose desafiadora diante deles.

Meera sorriu, lambendo os beiços e apontou as Hand Cannon em direção à eles, puxando o gatilho até o som das balas sendo expulsas pelos três canos soarem como música para seus ouvidos.

Não restou nenhum homem vivo. Nem elegância no hall destruído.

O silêncio imperou, enquanto a poeira flutuava no ar.

A mercenária guardou as pistolas no coldre.

– Esse andar está livre. Vamos nos certificar de limpar os outros até o térreo, é lá que Cherry e a garota estão.

– Como sabe? – Sander perguntou.

– Por que Bóris seria estúpido de deixa-las onde vocês pudessem pegá-las tão facilmente? – ela ergueu-lhe uma sobrancelha.

– Ótimo! Vou subir. – o garoto se apressou em direção ao elevador, erguendo sua arma.

Klaus o seguiu, junto com King conforme os outros iam adentrando a mansão.

– Mas que estrago! – a voz de Fridda ecoou. A velha olhava ao redor com um princípio de sorriso nos rosto.

A mercenária sorriu para ela.

– É o que essas belezinhas podem fazer. – acariciou a arma no coldre.

Fridda a ignorou, seguindo com os outros para o elevador.

Sander o checou antes de entrar. Tudo limpo.

Eles adentraram a caixa metálica, procurando qualquer tipo de armadilha. Halle apertou o botão para o segundo andar e olhou sugestivamente para Meera, que hesitou nas portas.

– Prefiro ir pelas escadas.

– Algum problema com elevadores? – Fridda alfinetou.

– Nenhum problema, velha. Além de serem ótimas armadilhas para pegar intrusos.

– Eu o chequei. – Sander olhou feio para ela.

– Mesmo assim, prefiro a escada e os desafios que posso encontrar por lá.

Halle suspirou.

– Ok. Vou com você.

– Relaxe, caçador. Prefiro trabalhar sozinha.

– Não é uma boa ideia se separar do grupo. – objetou Klaus.

– Está dizendo isso porque realmente se preocupa ou porque não quer ficar sem retaguarda?

Klaus suspirou.

– Ótimo. Então vá sozinha.

As portas metálicas se fecharam, deixando Meera sozinha com o silêncio empoeirado.

Ela observou os números na placa digital logo acima, franzindo os lábios. Perda de tempo. Acreditar que a mansão fora tomada era uma tremenda idiotice.

 

Alline assustou-se quando a porta se chocou contra a parede, ao fundo da sala. Ainda estava sentada nas almofadas sofisticadas do sofá, bebericando seu cálice de vinho caro enquanto observava a chuva aumentando de intensidade. O som brusco e os gritos de Willa quase a fizeram derrubar seu vinho na saia de seda. Seus olhos voltaram-se, preguiçosamente para o som desagradável.

Bóris mancava, arrastando a menina pelos cabelos com violência enquanto ela tentava se soltar aos chutes e gritos. Ele a jogou contra uma das mesinhas de vidro contendo vasos de porcelana e a antiguidade se espatifou no chão, a menina tombando em meio aos cacos.

Willa se levantou e avançou contra o búlgaro, ousada, mas foi silenciada com um tapa forte que lhe cortou o lábio.

Bóris a agarrou pelos ombros, forçando-a a encarar sua face furiosa.

– Você será minha! Nem que eu tenha de amarrá-la e amordaça-la! Eu me servirei do seu corpo hoje, cadela!

Deu-lhe mais um tapa com as costas da mão, jogando-a com violência no chão marmóreo.

Alline se levantou, deixando sua taça de vinho para trás. Seus passos entediados a levaram até a porta, sem olhar para trás.

– Honestamente? Nunca vou entender esses seus desejos nefastos.

Bóris gargalhou, avançando sobre a menina novamente.

Alline seguiu pelo corredor, pensando na tranquilidade de seu quarto e em como se distrairia nas últimas horas até que pudesse voltar à sua taça de vinho naquela sala agradável sem ser interrompida pelos fetiches desagradáveis daquele búlgaro idiota.

O salto fino tamborilava pelo piso de mármore, ecoando no silêncio com elegância. Estava quase chegando á porta do seu quarto quando ouviu o barulho de tiros. Ela estancou no mesmo momento. Aproximou-se com rapidez da torre que levava à escada curvada e espiou pela janelinha arredondada de vime.

Pouco se via do jardim, exceto os corpos dos homens abatidos na grama bem cuidada.

O barulho de tiros persistia, assim como o estrondoso disparo de uma metralhadora profissional.

Alline resfolegou. Não era possível que tivessem encontrado aquele lugar! Bóris era estúpido em diversos sentidos, mas não em se tratando de uma fortaleza como aquela. Ninguém sabia daquele lugar. Nenhum de seus sócios mais prestigiados. Absolutamente ninguém.

Ela se afastou da janela, tropegando de volta ao corredor. Seus olhos se voltaram para o elevador do outro lado, as portas estavam fechadas. Quando o medo se abateu em seu peito, ela decidiu dar voz à sua intuição e se apressou para seu quarto.

O aposento era o segundo melhor de toda a mansão e ela não dava a mínima por desperdiçar a cama por aquela noite. Correu em direção ao guarda roupa, unindo suas peças favoritas dentro de uma mala, apanhou os documentos que Bóris havia assinado a pouco e carregou sua pistola americana, guardando-a na bota de cano longo.

Saiu do quarto sem olhar para trás.

 

*-* *-*

Savedra era um homem frio e calculista que aceitou trabalhar para Bóris Petrov por poder, fama e dinheiro, entregando a própria filha adolescente para firmar a barganha. Naquela noite de tempestade, estava ansioso por cumprir às riscas a ordem de seu senhor e eliminar aqueles malditos intrusos.

Seus olhos azuis opaco fitaram a telinha do monitor da sala subterrânea, observando o setor do elevador principal.  A casa fora invadida alguns minutos atrás e no instante que o grupo intruso se apossou do elevador sem digitar a senha, um alarme foi disparado, alertando a segurança.

Savedra estava supervisionando dois novos recrutas, ensinando-os como monitorar as câmeras por aquelas centenas de telas naquela sala escondida quando ouviu o alarme disparar, acendendo uma luz vermelha irritante.

Entrou em modo de ação no mesmo instante, procurando nos computadores a imagem em HD do elevador. Sorriu ao ver o grupo distinto dentro da caixa metálica. Um homem negro vestido ricamente, um rapaz ruivo, um grandalhão viking, um metido à encrenqueiro e uma velhinha nada simpática.

Todos armados, é claro. E ostentando no rosto a arrogância de conseguir dominar a mansão tão fácil. Uns tolos! Ninguém entrava nos domínios de Bóris Petrov sem ser convidado… Principalmente destruindo sua propriedade tão amada.

Savedra riu, sarcasticamente, e apertou um botão violeta no painel de controle de segurança.

– Peguei vocês.

 

Sander foi o primeiro a perceber que havia alguma coisa errada quando ouviu o som esquisito de alguma engrenagem se movendo. E apenas poucos segundos depois o elevador deu um tranco, fazendo-os cambalear.

As luzes se apagaram repentinamente, acionando a lâmpada de emergência. A pequena caixa metálica foi preenchida por uma luz verde neon. A tela onde mostrava o número dos andares congelou, paralisada entre o 1º e o 2º andar. E por fim, o ar foi cortado dos tubos de ventilação, deixando-os num estado limitado de oxigênio.

Fridda segurou-se numa das barras de ferro, assustada.

Klaus apontou sua arma para as portas duplas e Halle para o teto.

O calor foi se apossando do quadrado fechado, impregnando-se no ar pesado e causando desconforto.

– Maldição. – o Mouro disse – Meera estava certa. – É uma armadilha.

– Não vamos cair nela.

Halle deu um salto, agarrando as grades finas do teto do elevador. Fez um pouco de força e conseguiu puxar a grade para baixo, expondo o buraco de acesso às engrenagens. O caçador se espremeu no pequeno espaço e conseguiu subir, sentando-se em cima da caixa e deixando os pés pendurados.

Fez-se um pequeno Bip e a tela dos números acendeu-se novamente, mostrando agora um relógio digital. 00.01:00. A contagem regressiva começou, rolando os números conforme o tempo passava.

– Mas que merda é essa? – Fridda encarou o monitor.

– Puta merda! – Sander resmungou. – Ande logo aí, Caçador, estamos com problemas.

Halle abaixou a cabeça para encará-lo.

– O que é?

– Parece que Bóris sabia que viríamos e desconfio que tenha instalado uma bomba no elevador.

O grupo se agitou ali dentro.

– Quanto tempo? – perguntou o caçador.

– Um minuto.

– Não vou conseguir destravar esta porcaria em um minuto. – ele olhou as pessoas lá embaixo. – Vamos ter que fazer de outro jeito.

Halle estendeu a mão pelo espaço apertado.

– Venham! Vamos sair um por um e escalar até o próximo andar.

– Em apenas um minuto? – Fridda o olhou com ceticismo.

– Não se preocupe, vovó, vou salvar seu traseiro.

Halle a segurou pelo braço e a içou pelo buraco, pousando-a em segurança junto às engrenagens. Fridda se equilibrou no espaço pequeno preso por apenas duas cordas grossas de metal, olhando para baixo com certo receio.

O caçador a olhou com seriedade.

– Suba pela escadaria. – ele apontou a escada enferrujada grudada à parede que levava até o próximo andar. – Consegue abrir a porta de metal?

Fridda puxou um canivete da bota, em resposta.

– Ótimo! – Halle assentiu, incentivando-a a continuar.

Voltou sua atenção aos outros e estendeu a mão pelo buraco novamente. Desta vez foi o Mouro quem foi içado. King se segurou no cabo de metal, equilibrando-se até a escada.

Dentro do elevador, Sander e Klaus discutiam quem iria primeiro.

– Velho, deixe de ser teimoso. – Sander argumentava com o pai enquanto os números rolavam no relógio digital. – Eu vou logo em seguida.

– Menino idiota! Estou lhe mandando subir neste maldito teto!

– E eu lhe disse que vou assim que você subir! – o garoto retribuiu o olhar, impassível.

Klaus rosnou.

– Podemos ficar discutindo e morrer os dois. Ou você pode mover sua bunda gorda até o buraco e sair! Vamos conseguir!

– Sander! – a voz de Klaus reverberou por todo o espaço metálico.

– Klaus! – o menino o enfrentou.

Halle perdeu a paciência, agarrando o nórdico pelos cabelos para chamar sua atenção e depois pelo braço, içando o corpo musculoso com certa dificuldade. Klaus se debateu, tentando se soltar, mas tudo o que conseguiu foi um tapa na cabeça.

O caçador não esperou por uma repreensão, abaixou novamente o tronco para estender a mão para o último que restava. Sander agarrou sua mão. Seus olhos se voltaram para o relógio digital.

00.00:45.

Maldição!

Halle içou o corpo do menino com rapidez e o empurrou em direção à escadaria.

Eles se agarraram ao metal enferrujado e forçaram os corpos a subirem.

Fridda tinha conseguido encaixar seu canivete entre as duas portas de metal e forçar a abertura. A porta abriu com um chiado e a velhinha empurrou seu corpo para dentro, apanhando a garrucha no mesmo momento e montando guarda no andar desconhecido enquanto sua equipe terminava de subir.

King a alcançou logo em seguida, acobertando-a.

Klaus olhou para baixo apenas uma vez, para se certificar de que o filho havia saído do elevador. Seus olhos se voltaram para cima e ele continuou subindo até que seus dedos tocaram o mármore do segundo andar. Ele debruçou-se sobre a cratera lá embaixo e estendeu a mão para o filho.

Sander aceitou a ajuda e foi içado para dentro. Ao mesmo tempo em que Halle alcançava o topo da escadaria.

Um segundo Bip fez-se ouvir.

E então o elevador explodiu com um estrondo ensurdecedor.

As chamas invadiram o poço sem fundo, subindo a uma velocidade sobre humana e espalhando sua fúria por onde passava.

Sander conseguiu puxar o corpo do Caçador antes que fosse atingido pela explosão. E o Mouro fechou as portas metálicas bem no instante em que as chamas tentaram invadir o andar.

O prédio todo estremeceu, derrubando-os no chão.

As lamparinas balançaram no teto, derrubando poeira.

Halle virou-se de barriga para cima, tossindo.

– Eu te devo essa, ruivo.

Sander riu, ofegando um pouco.

 

Lá embaixo, na sala de controle, Savedra amaldiçoou.

 

*-* *-*

Meera sentiu o impacto da escada. Os lustres tilintaram no teto abobadado, as janelas tremeram e o corrimão vibrou em protesto.

– Porra! – amaldiçoou.

Apreensiva, começou a correr escadaria à cima.

 

*-* *-*

Bóris ordenou que seus dois capangas pessoais de plantão fechassem as portas, assegurando que ninguém entrasse. Então voltou seus olhos de um desejo perverso para Willa.

A menina terminava de ser erguer sobre os cacos de porcelana no chão, o joelho esfolado. Sua expressão em nada se assemelhava à garota ingênua e medrosa que ele dominava num estalar de dedos. Aqueles olhos claros eram impetuosos e cheio de uma raiva ardente. Os cabelos cor de rosa ostentavam agora um tom desbotado, bagunçados no rosto selvagem de menina. E o vestido que usava tinha uma alça arrebentada.

Bem do jeito que Bóris gostava.

Ele deu um sorriso sacana antes de se aproximar mancando a passos largos.

Willa se esquivou com um empurrão que o fez cambalear. Ela andou pela sala com cautela, observando seu captor segui-la com os olhos. Um baile silencioso se iniciou, onde presa e predador se encaravam com imponência.

Mal sabia Bóris que ele é quem era a presa.

Willa avançou contra ele usando uma das táticas que aprendera com os Von Kern, e o acertou bem no meio da perna ferida. O búlgaro soltou um grito do fundo da garganta, sentindo seu corpo ceder àquele golpe. Ele apoiou o joelho no chão momentaneamente, tomando fôlego.

A garota estabilizou-se, cruzando os braços e encarando a dor de seu oponente. Poderia ter se dado ao trabalho de correr até a porta e forçar a fechadura, mas sabia que estaria muito bem trancada. Além do mais, jamais desperdiçaria um momento como aquele. Antes de sair daquela casa maldita, teria o prazer de dar uma surra naquele ordinário e talvez vingar-se de todo o mal que ele lhe fizera no passado.

Bóris se ergueu do chão com certa dificuldade, mas o desejo insano dentro dele era forte o suficiente para fazê-lo ignorar a dor de seu osso semi-partido e a carne lacerada. Aproximou-se da menina novamente e viu-a se esquivar com a elegância de uma felina – o que ocasionou um sorriso em seus lábios.

– Quanto tempo passou na companhia daqueles malditos Von Kern? Move-se como Solina.

Willa o olhou com desprezo.

– Tempo o suficiente para aprender a não ceder à homens como você. E o nome dela é Cherry!

A menina o acertou novamente, desta vez com um soco no queixo.

O búlgaro apenas bambeou, mantendo-se firme naquela postura de caçador fajuto. Ele tentou agarrá-la novamente, mas tudo o que conseguiu foi tropeçar numa de suas obras de arte e cair com a cara no chão de mármore.

Willa avançou contra seu corpo estendido, dando-lhe uma saraivada de chutes que acertou suas costelas, ombros e o saco.

Bóris uivou, curvando-se sobre o corpo ferido. Mas lá estava aquele sorriso medíocre, indicando que tudo não passava de uma brincadeira para ele. Mas é claro. Willa havia se esquecido que o magnata adorava a dor como preliminar. Ele se esforçava o bastante para infringi-la às suas escravas. Ao se recordar disso, deu mais um chute no infeliz.

Bóris se encolheu novamente.

E foi então que eles ouviram o estrondo.

De repente o chão tremeu sob seus pés, fazendo ruir alguns quadros das paredes e o lustre tilintar seus cristais. O barulho fez os vidros tremerem em protesto, quase se estilhaçando.

Willa recuou, assustada, e desviou os olhos para as janelas de vidro que cercavam o interior da sala. Aquele foi seu erro fatal.

Bóris aproveitou-se daquele momento para dominar a menina. Com a perna boa, passou-lhe uma rasteira, dominando-a em poucos segundos. Ignorando o ferimento em sua coxa, o búlgaro forçou seu corpo pesado sobre Willa, enquanto ela tentava desesperadamente esmurrar seu rosto.

Ele segurou-lhe as mãos com firmeza, imobilizando-a com as coxas.

Seus lábios se abriram num sorriso cruel.

– Eu a peguei agora. Não tem para onde fugir, pequenina.

Willa se debateu sob suas garras, afastando o rosto do hálito fétido. Seus joelhos estavam muito bem imobilizados, impedindo-a de acertar seu agressor no meio das pernas, assim como as mãos, os pés e os braços. Não podia aplicar nenhum golpe que aprendera com Klaus, estava paralisada à mercê de um animal doentio.

Bóris pareceu decifrar as maquinações dentro de sua cabeça, pois a fitou com escárnio.

– E agora, Willa, o que vai fazer? – ele riu. – Não tem como fugir. Você está sob o meu poder agora. E a tenho todinha só para mim.

Como se quisesse provar o que dizia, afundou o rosto no ninho macio dos seios da garota, apreciando o aroma sedutor que o tentava. Ela se encolheu, tentando fugir de seu toque. Em represália, ele lhe deu uma pequena mordida.

– Então… Não serei idiota novamente. Vamos ver se esconde mais alguma faquinha… – uma mão áspera deslizou pelo corpo lânguido, apalpando-o com malícia.

Willa se mexeu, cheia de repulsa.

– Tire as mãos de mim, seu porco!

Bóris gargalhou.

– Ah, querida Willa, eu lhe tocarei com muito mais além de minhas mãos.

Ele pressionou seu corpo contra o dela, numa tentativa impiedosa de lhe provar seu desejo por ela. Louco de desejo, apoderou-se de sua boca macia, exigindo uma resposta daqueles lábios frios e petrificados.

Willa moveu-se debaixo dele, acomodando-se numa posição mais favorável, roçando-se nele para facilitar seus objetivos. Bóris ronronou, quase se permitindo cair na sedução selvagem daquela menina dissimulada, mas teve o bom senso de finalizar aquele beijo antes que tivesse os lábios presos por entre os dentes maciços.

Ele se ergueu do chão, puxando-a pelos cabelos num aperto cruel. Arrastou-a sob sua vontade, usando sua garra monstruosa para ameaçá-la. Apanhou o emaranhado de metal em algum lugar daquela sala e o encaixou na mão, aproximando-a do rosto amedrontado da menina. Roçou o metal frio na pele rosada e macia, fazendo a garota estremecer.

Bóris agarrou-lhe a garganta, obrigando-a a se sentar no sofá sofisticado que ostentava em sua saleta luxuosa. Willa o obedeceu, os olhos sempre fixos nos dele numa vigilância sombria. Ele se aproximou com cautela, agigantando o corpo sobre ela. Num movimento rápido, rasgou o vestido que ordenara August vesti-la, exibindo os seios rosados.

Willa reprimiu o pânico que a invadiu quando seus seios ficaram expostos aos olhos cobiçosos de seu captor. Principalmente quando os lábios nefastos profanaram sua pele, beijando-a com agressividade.

Bóris respirava com sofreguidão enquanto se esbaldava com o aroma adocicado dos seios dela, devorava-os com uma paixão quase fervente. Lembra-se da perfeição de suas meninas e o vício ao qual elas o submetiam, quase o levando à mais agoniante das loucuras. Malditas mulheres, elas o tinham na palma da mão e nem sequer sabiam!

Furioso por ser escravo àqueles desejos, ele deslizou a garra pelas coxas da garota, afundando-as perigosamente perto de suas partes mais secretas, ameaçando destruí-la num piscar de olhos e cessar todo aquele desejo.

Willa se retesou, esperando por qualquer movimento brusco. Mas o búlgaro se limitou a tortura-la com ameaças vãs. Bem sabia que ele amava ser refém daqueles desejos insanos. Vivia por isso.

Ele a agarrou pelos cabelos novamente, beijando-a a força. Raivoso por não corresponder,  mordeu-lhe os lábios, arrancando uma pequena gota de sangue. Cada vez mais ensandecido de desejo, enfiou a mão embaixo da saia do vestido que ela usava, enrolou os dedos na calcinha fina e a puxou, arrebentando os fios de seda.

Willa continuou paralisada, observando-o por trás das pálpebras fechadas.

Bóris agarrou-lhe as pernas e a posicionou de uma forma favorável, como um banquete fino ao qual estava prestes a se servir. Ansioso, desabotoou as calças e voou para cima dela, preocupando-se em beijá-la inúmeras vezes no pescoço, rosto e lábios como um fiel fervoroso.

– Finalmente a terei de volta, pequena Willa. – sussurrou ele em seu ouvido, antes de roçar seu membro duro no corpo da menina.

– Eu nunca fui sua, Bóris Petrov. – os lábios rubros sussurraram de volta. E ela abriu os olhos.

O brilho sombrio de suas íris congelou a alma de Bóris por apenas alguns instantes, antes dela conseguir acertar um chute em seu estômago e se livrar de suas garras maléficas. Willa o agarrou pelos cabelos sebosos e acertou o joelho em seu nariz num golpe violento que fez jorrar sangue. Bóris caiu aos pés do sofá que tanto amava, tonto com o golpe. A menina o rondou com elegância e quando ele voltou os olhos assustados para cima, ela fechou o punho e o desceu sobre o rosto espantado, espancando-o três vezes enquanto o segurava pelo colarinho da camisa importada.

Bóris engasgou com o próprio sangue, caindo para trás. Estático, ficou ali deitado, respirando com dificuldade, o rosto parcialmente destruído pelos socos que levara. Os olhos rolaram nas órbitas, procurando pela menina.

Ela estava logo ali, prostrada ao seu lado, observando sua agonia com certa satisfação. Com horror, ele se deu conta de que os lábios dela se curvavam num quase sorriso, como Cherry costumava fazer quando matava.

Ele conseguiu dar risada. Um ruído fraco, um esgar rouco. Rolando no chão de mármore, o búlgaro fez força para se erguer, equilibrando-se com dificuldades. A perna ardia como o inferno, assim como o nariz quebrado, a mandíbula e todos os ossos que a maldita havia acertado.

– Sua puta! Não vou deixar que se transforme naquela vadia desalmada!

– Não sou puta. Não sou sua. E eu me transformei há muito tempo!

Willa lhe deu um chute no meio do peito, fazendo-o voar em direção ao barzinho de mezanino.

Bóris se chocou contra as bebidas ao fundo, estilhaçando as garrafas e caindo em meio ao caos de vidros quebrados. Os cacos impiedosos se cravaram em sua carne. Ele gritou, mais furioso do que ferido, arrancando o vidro do corpo.

Willa caminhou tranquilamente até ele, com a elegância de um felino.

– Sabe o que é mais engraçado nisso tudo? – ela perguntou, enquanto rondava o espaço entre o bar destruído e ele. – Desta vez é você quem é a puta.

Ela lhe aplicou um chute na coluna com a ponta do pé e quando ele se curvou, deu um murro em suas costelas, tendo certeza de sentir uma delas se partir.

Bóris urrou, curvando-se mais ainda, e seus olhos encheram-se de lágrimas.

– Está chorando? – ela parecia lívida de raiva. – Não há lágrimas o suficiente para o que fez comigo!

Willa forçou a cabeça dele contra o tampão do bar, deixando-o cair, fraco, no chão.

Bóris vomitou, respirando com sofreguidão logo em seguida. Seus olhos voltaram-se para a menina, horrorizados com o que viam. Ele se arrastou pelo chão, manchando o mármore com seu sangue na tentativa patética de se afastar do demônio que havia criado.

A menina sorriu, pescando seus pensamentos.

– Estou longe de ser o único demônio que você criou.

Bóris a ignorou, concentrado em chegar novamente ao sofá, onde poderia apanhar sua pistola escondida e terminar de vez com aquela palhaçada. Ele a forçaria a ser sua! Domaria aquela cadela e expurgaria seus demônios.

Willa seguiu seu olhar.

Ela deu um sorrisinho e balançou o dedo duas vezes.

Foi o que bastou para o búlgaro reunir o que lhe restava de forças, erguer-se do chão e atirar-se em direção ao sofá, enfiando a mão entre suas almofadas confortáveis e puxar uma beretta preta. Ele apontou na direção da menina.

Willa estancou, fitando a arma.

Bóris recuperou a compostura, limpando o rosto na manga da camisa. Deu alguns passos à frente, cambaleando um pouco, mas totalmente no controle da situação.

– Agora, Cadela, tire as roupas e deite-se no sofá. – ordenou.

– Vá para o inferno. – Willa cuspiu.

Bóris desviou o foco da arma apenas alguns centímetros e puxou o gatilho, cravando uma bala na lamparina ao lado da garota. Willa deu um pulo, assustada, e não pode deixar de dar um grito surpreso.

Ele voltou a mira da arma novamente para ela.

– Eu mandei tirar a roupa e se deitar!

– E eu o mandei ir para o inferno! – ela o enfrentou com coragem.

Bóris se aproximou cambaleando, a expressão beirando a fúria. Encostou o cano da pistola na testa dela.

– Faça o que eu lhe mandei, puta. Ou juro que vou lhe estourar os miolos sem pensar duas vezes!

Willa não se abalou, permaneceu imóvel fitando aqueles olhos sem piedade.

– Puxe o gatilho. Faça o que quiser. Nada no mundo será capaz de me fazer deitar com você.

Bóris deu um sorrisinho, destravando a arma com um click.

– Última chance, Vadia.

– Vá se foder!

O barulho de tiros os interrompeu, vindo do lado de fora da sala.

Bóris voltou seus olhos cuidadosamente para a porta fechada do outro lado da sala, ansioso.

Houve um breve momento de silêncio e então algo foi arremessado contra a porta pesada num baque estrondoso. Outro momento de silêncio se estendeu. E então outro baque se ouviu contra o metal antigo. A porta foi aberta com um chute que arrebentou a trinca.

Cherry entrou, desvencilhando-se dos corpos mortos dos capangas que guardavam a saída. Ela vestia apenas calcinha e sutiã, e tinha uma adaga de cabo vermelho presa à cintura numa pose ameaçadora. Seus olhos de leoa eram tempestivos, trazendo a promessa ardente de um vulcão em erupção.

Primeiro ela fitou Willa, permitindo-se um breve momento de alívio. E então seu olhar recaiu sobre o búlgaro e tudo o que restou foi a cólera lasciva.

– Solte-a. – foi tudo o que disse.

Rapidamente, Bóris dispersou sua atenção da menina, voltando-se completamente para sua amada vingadora.

Willa correu para junto de Cherry.

– Quero que saia daqui. – disse Cherry. – Siga pelo corredor até a escadaria. Acredito que os outros estejam lá embaixo nos procurando. Há mais guardas chegando, quero que saia daqui o mais rápido que puder!

– E quanto a você?

Cherry deu um sorrisinho.

– Eu vou me contentar com o resto que você me deixou e extirpar esse câncer da sociedade.

Willa olhou uma vez para o búlgaro, saboreando a satisfação de vê-lo finalmente nas garras da leoa, e então lhe deu as costas. Antes de sair, a menina se certificou em encostar a porta. Quando se viu sozinha naquele corredor vazio e silencioso, o pânico a dominou, impelindo-a a correr.

Cherry desviou os olhos da porta por onde Willa saiu e os voltou para o búlgaro.

Seu sorriso toldou o ar ali dentro da sala.

– Aqui estamos eu e você, sozinhos. Finalmente.

 

   Continua!

A Garota Má (Pt.15): Sussurros Sombrios

Escrito por Natasha Morgan

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Willa acordou com lentidão.

Sua cabeça doía miseravelmente, pendendo para trás.

Ela franziu o cenho, sentindo seu corpo suspenso balançar.

Espere. Suspenso?

Ela forçou seus olhos a se abrirem devagar, a imagem meio embaçada. Grogue, deu-se conta de que estava sendo carregada, o corpo frágil jogado nos braços fortes de alguém. Forçou os olhos a clarearem, tentando enxergar e entender o que estava acontecendo… Porque tudo o que se lembrava era daquela maldita sérvia jogando sua cabeça contra a parede. Depois disso tudo ficou preto e ela mergulhou naquele mar de inconsciência.

Willa piscou uma vez, varrendo os olhos primeiro pelo lugar onde estava. Um corredor acarpetado de paredes floridas. O cheiro ali era doce demais, o que irritou um pouco seu nariz. Ela olhou para cima, para quem a carregava tão delicadamente. E o rosto que viu lhe trouxe uma onda de choque.

Impossível.

Seu coração começou a bater desenfreado, o medo se apossando de sua alma pequena. Lembranças amargas de um passado não tão distante a assombraram. Aquele rosto… Aquele maldito rosto!

Willa congelou, perdida em seus próprios temores enquanto era carregada para sabe-se-lá onde. Ela tentou se mexer, dizer alguma coisa, mas seu corpo e boca não lhe obedeciam. Estava paralisada naquele estado terrível de lentidão.

As paredes floridas passavam lentamente conforme o homem andava, causando enjoos na jovem. Ele parou diante de uma porta de ferro ameaçadora e a abriu. O quarto em que entrou era sofisticadamente rico em detalhes e luxo, obras de arte cercavam as paredes, vasos com flores repousavam nas escrivaninhas e uma cama vitoriana ocupava o centro, com um dossel elegante de madeira rústica.

O cheiro ali também era desagradavelmente adocicado, devido ao perfume das flores.

Willa foi delicadamente depositada sobre a cama. A colcha macia acolhendo seu corpo numa carícia suave. O homem deixou-a imóvel e soltou um suspiro, preparando-se para sair.

Ela abriu os olhos num rompante, assustada demais. O torpor finalmente deixara seu corpo, libertando-o daquela paralisia. Quando encontrou o olhar dele, o rapaz aparentou surpresa. Ah, não fazia parte dos planos ela estar acordada então.

– Você… – disse a menina, encolhendo o corpo na cama.

O homem fechou a cara, comprimindo os lábios numa careta severa. Seus olhos escuros em nada lembravam o homem gentil que costumava ser. Ele nada disse.

– Você me salvou? – ela perguntou, cautelosamente. Os olhos ainda bastante assustados.

Mas o sujeito nada respondeu.

Virou as costas e repousou a mão na maçaneta ornamentada da porta.

– Por quê? – Willa se ouviu sussurrando.

– Porque Bóris ordenou. – a voz do estranho lhe causou arrepios.

Willa pulou da cama, aterrorizada. Avançou sobre a porta, mas o homem a fechou antes que pudesse sequer tocá-lo, trancando-a ali dentro daquele quarto opressor e matando qualquer fagulha de esperança ainda viva dentro dela.

Willa deu de cara no metal gravado da porta, chorando copiosamente. Seus punhos esmurraram a pintura antiga enquanto ela gritava.

– August! Não me deixe aqui! – ela implorou.

Mas não ouve resposta a não ser o lamento de sua respiração ofegante.

E o medo profundo que habitava sua alma.

 

*-* *-*

Halle quase sorriu ao ver a pose desafiadora da mercenária. Há muito ouvira falar daquela mulher misteriosa, mas nunca pensou estar frente a frente com ela. Bom, ele também não imaginava que ela fosse tão bonita assim. Ao fitar aqueles lábios corados num sorriso repuxado de escárnio, soube imediatamente por que Cherry gostara daquela mulher.

Observou, pacientemente, enquanto King a recebia. Era notável a intimidade que ambos tinham um com o outro. O Mouro se aproximou com passos elegantes e lhe deu um beijo no rosto, sutilmente, mas quem observasse bem notaria os segundos demorados que aqueles lábios se demoraram na pele bronzeada.

Meera deixou-se sorrir, mais educada. E então olhou com curiosidade para a família Von Kern, que a observava igualmente.

– Temos uma situação… – King começou.

– Sim. Imaginei isso quando você estragou minhas férias. – a mercenária disse, um tanto distraída enquanto estudava Fridda.

A Bestemor da família mantinha uma postura firme, o pescoço lânguido erguido em algum tipo de desafio. Seus olhos azuis cinzentos fitaram a outra mulher fixamente, sem medo de ser desnudada por aquela observação metódica.

Meera pareceu gostar, pois seus lábios mais uma vez se repuxaram naquele sorriso presunçoso.

Sulten Løvinne – ela sussurrou, acariciando as palavras com um sotaque perfeito.

Fridda a acompanhou no riso.

– Borsahy.

King deixou escapar um pequeno palavrão ao mesmo tempo em que Klaus dava um passo à frente e Halle deslizava a mão para sua pistola, só por segurança. Apenas Sander parecia alheio ao que acontecia, concentrado no decote ousado da mercenária.

No entanto, não havia motivo para preocupações.

Meera limitou-se em ser educada.

– Quem diria que nos cruzaríamos de novo, velha.

– De novo? – Klaus parecia confuso.

Fridda sorriu, fazendo um pequeno gesto antigo ao qual a mercenária retribuiu.

– Nunca pensei que fosse um dia recorrer a sua ajuda, mas aqui estou. – Fridda se lamentou.

– O que quer de mim? – os olhos de Meera voltaram-se para King. – E o que você tem a ver com isso? Prometeu me deixar de fora de seus negócios com esta família.

– Eu só a chamei porque não temos mais ninguém a recorrer. – King disse.

– Cherry está em perigo. – Halle foi logo dizendo e cortando todo aquele papo furado. – Sei que vocês trabalharam juntas. Talvez isso signifique algo para você.

– Talvez. – a mercenária meneou a cabeça. – O que Cherry aprontou desta vez?

– O Búlgaro a levou. – Fridda disse, com uma voz incisiva demais.

Meera voltou seus olhos para ela.

– Então parece que você tem um problema, velha.

– E sua gente vai me virar as costas outra vez?

O restante se entreolhou.

– Depende. O que exatamente querem de mim?

– Não se faça de idiota, Borsahy! – Fridda avançou, com cara de poucos amigos. – Sabemos muito bem que você tem informações especiais do Búlgaro!

– Você é influente. – King concordou. – Uma viajante como você deve ter alguma pista.

– E se tem, Cherry nunca vai perdoá-la por não ter mencionado.

– Cherry não estava procurando pelo Magnata. – Meera disse. – E sim, eu tenho informações valiosas sobre ele. Talvez possa até ter uma vaga ideia de para onde ele a levou. A pergunta verdadeiramente interessante é: Quanto vão me pagar por elas?

Fridda rosnou.

– Achei que sua parceria com Cherry significasse alguma coisa para você. – Halle disse, um tanto sentido.

– Eu disse talvez.

– Maldita mercenária! – Sander resmungou.

– Eu não disse que sou santa, não é mesmo? Se querem caridade, procurem uma freira.

– Três milhões. – a voz de King retumbou, cheia de poder.

A mercenária voltou seus olhos para ele, com as sobrancelhas erguidas.

– Três milhões. – o Mouro repetiu. – Para nos levar até o Búlgaro e nos ajudar a resgatar Cherry.

– Agora está falando minha língua. – ela sorriu, lambendo os lábios de deleite. – Mas se quer que eu ajude a resgatá-la, vai custar mais caro.

– Eu não vou pagar para essa vadia me dar informações que eu posso arrancar! – Fridda fez menção de avançar no pescoço da mulher.

– Cuidado, Velha.

– Velha é a puta que te pariu! Vou lhe ensinar boas maneiras, sua menina abusada.

– Você já tentou, lembra-se?

Fridda rosnou.

– Chega, meninas. – King tentou intervir, mas tudo o que conseguiu foi ser fuzilado pelos olhos de ambas as partes.

– Eles pegaram Willa. – a voz de Sander preencheu o silêncio tenso. – E enquanto as duas estão sofrendo horrores nas mãos daquele porco búlgaro, vocês ficam aqui discutindo.

– A menina foi levada? – Meera olhou para o ruivo.

– Junto com Cherry. Estávamos tentando resgatá-la quando Cherry caiu nas mãos do miserável.

Meera amaldiçoou em sua língua materna.

– Sei que tinha certo apreço por ela. – disse King. – Você sempre tem.

– O quê? Pena das garotinhas? – o olhar dela, de repente, encheu-se de cólera. – Garotinhas sofrem todos os dias! Não é meu problema salvá-las!

– E o peso do passado retorna. – Fridda disse, misteriosamente, provocando a mercenária.

– Você bem sabe disso, não é mesmo? Teve uma neta sequestrada por duas vezes e nada fez para impedir isso!

Fridda avançou com rapidez e lhe virou um tapa na cara, com força.

Meera revidou, fazendo o tabefe ecoar no aeroporto cheio. As pessoas ao redor olharam indignadas, alguns curiosos se aproximando para ver o que estava acontecendo. Mas foram ignorados.

– Saiba, velha, que tudo o que me fizer lhe será devolvido. É um debito justo, você bem sabe.

– Maldita! Vai ou não ajudar? Se quer dinheiro eu lhe pago! Mas diga logo onde aquele miserável se encontra! Ou descontarei minha fúria em você.

– Eu vou levar seu dinheiro sim. Como pagamento pela afronta e abertura de antigas feridas. Mas não precisa pagar pelo resgate. Se a pequena Miss Sunshine foi levada, eu vou ajudar a resgatá-la. Engula seu orgulho, velha. Pois hoje seremos parceiras.

– Então você sabe onde ele está? – Halle interferiu.

– Não é assim tão difícil de achar. Pelo menos não para mim.

– Não percamos mais tempo então. – Klaus se apressou. – Já estamos chamando atenção demais. – seus olhos passaram pelos curiosos.

Meera aprumou-se, olhando feio para as pessoas que os observavam.

– Acertamos o pagamento mais tarde. –disse o mafioso.

– Não é assim que ela trabalha… – King respondeu pela mercenária, com um longo suspiro.

– Hoje podemos modificar algumas regras. – disse Meera. – Mas nunca se esqueça, Nórdico, eu ainda posso roubar o dinheiro que me deve.

– Prometo me lembrar disso.

A mercenária deu um sorrisinho.

– king, preciso de seu escritório emprestado por alguns minutos.

O Mouro assentiu, dirigindo-se com os outros para o estacionamento do aeroporto. A tensão era visível no ar e ele foi inteligente em manter a colega afastada da família Von Kern.

Fridda foi marchando até o Bentley e fechou a porta com força, evitando olhar para os outros. Quando a mercenária se apossou do acento do passageiro, a Bestemor fez uma pequena careta. King assumiu o volante em silêncio enquanto o silêncio imperou, constrangedor e cheio de demônios.

Klaus olhava para a mãe com a confusão e desconfiança espreitando os olhos, mas optou por ficar calado até chegarem à Hex.

A boate estava vazia naquela noite e eles seguiram direto para o escritório apertado do Mouro. Meera correu para o notebook de última geração, ocupando-se em batucar os dedos hábeis pelas teclas e buscar suas informações mais preciosas. Halle se pôs ao seu lado, como um fiel escudeiro.

Klaus se aproveitou daquele momento para interrogar a mãe, puxou-a para um canto mais reservado enquanto Sander se embebedava no bar vazio.

– Que história era aquela de que já conhecia a mercenária?

Fridda fez cara de poucos amigos.

– Isso não é assunto para debatermos agora.

– Esse é o exato momento para falarmos sobre isso!

– Foi há muito tempo. Quase não me lembro mais.

– Mentira. Ao que parecia lá no aeroporto, as lembranças estão bastante frescas em sua mente. Eu a conheço, Mor. O ressentimento é visível em seus olhos quando olha para ela. O que aconteceu? O que deu em você para se envolver com os Borsahy num passado tão remoto.

– Cherry. Se algum dia fui até a casa Borsahy foi por Cherry. Foi logo depois que ela foi levada. Enquanto todos se ocupavam em procura-la usando os recursos que tínhamos, eu vaguei pelos confins do mundo usando a minha influência para achar informações. Ou pessoas influentes nesse meio macabro. Os Borsahys sempre foram inteligentes, uma Ordem cheia de segredos. Fui em busca de respostas, um meio de encontrar minha neta. E o que encontrei foram portas fechadas na minha cara!

Os olhos dela arderam.

– Meera era apenas uma garota naquela época, mas uma assassina treinada. Uma caçadora de relíquias quase tão bem estimada quanto nós. Quando a conheci, ofereci uma boa quantia em dinheiro para que fosse caçar os rastros de minha Mona. Mas ela, assim como seus superiores, negou-se a ajudar. Disse que a oferta era pequena diante de tamanho risco. Nenhum deles queria se meter no império Búlgaro atrás de um Magnata tão bem protegido.

– E então você passou a odiá-la. – Klaus deduziu.

– Não podia ser diferente.

– Não sabia que você foi tão longe para encontra-la.

– Minha família sempre foi tudo para mim. Sempre foi assim. Somos uma corrente unida. Se um se solta da rede, a rede se quebra e tudo rui.

Fridda baixou a cabeça, a tristeza assombrando-lhe os olhos.

– Vamos encontra-la! – Klaus reconfortou a mãe.

– Nós vamos. – Fridda assentiu, com determinação. – Não vou deixa-la desamparada mais uma vez. Nem que eu tenha que arrancar as informações da garganta daquela mercenária!

– Acho que não será preciso. – Klaus deu um sorrisinho. – Pelo que ouvi, ela não tem mais medo de se intrometer no Império Búlgaro.

– Não. Não é mais uma franguinha medrosa. – Fridda deu um sorrisinho presunçoso.

– E vamos pagá-la.

– É ela quem está em débito comigo. Então, ao fim dessa jornada, talvez o pagamento dela seja sair disso tudo ilesa à minha lâmina.

Klaus deixou escapar um sorriso de satisfação.

– Você é imutável, Mor. Sempre com essa sede de sangue.

– Nós, os Von Kern, nascemos com essa fome.

– Entendo o que quer dizer. – ele a puxou de volta, olhando para o filho do outro lado pelo canto de olho. A respiração funda que soltou foi uma forma de lamento.

Fridda seguiu seus olhos e compreendeu.

– Deixe-o. Um pouco de álcool lhe fará bem.

– Não é assim que soldados se portam.

– Ele não é um soldado nesse momento. É um Berserker atrás de sua mulher.

– Eu nem quero ver o estrago que ele fará se não a encontrar viva…

– Vamos encontra-la viva! – Fridda disse com determinação, como se estivesse obrigando suas palavras a se tornarem reais. – Vamos encontrar as duas vivas!

– Cherry é forte.

– Willa também. Você a treinou.

– Mor, a alma daquela criança é pura. Talvez os demônios não tenham tido tempo de tomá-la e moldá-la mais forte.

– Willa é forte. Tenho certeza disso. E que os Deuses mais antigos tenham piedade de Sander se ela não for!

Klaus fitou o filho com preocupação.

– Ele pode se autodestruir em um piscar de olhos.

– Por aquela menina? Sim, é possível. Está completamente apaixonado.

– Não é só isso. Eu vejo a forma como ele se envolveu com ela. Mor, a criança pode ser a perdição do meu filho.

– Então devemos nos empenhar em tirá-la de lá viva.

Fridda mal terminou de falar quando King apareceu, vindo dos corredores. Sua expressão era indecifrável, parecia cansado e um pouco triste. Sentou-se ao lado do ruivo, no bar, e serviu-se de uma boa dose de whisky.

Eles se aproximaram.

– Alguma novidade? – Klaus perguntou.

– Meera está terminando de checar seus contatos. E está otimista.

– Bom.

Poucos minutos depois, Meera apareceu junto a Halle, carregando um pequeno mapa e um sorriso de satisfação.

E como aquela expressão de dona do mundo aborrecia Fridda!

Ela dispôs o mapa em cima de uma das mesinhas vazias do bar e todos se aproximaram, observando-a batucar o dedo num ponto pequenino desenhado na ilustração.

– É aqui que ele está.

Fridda deu uma olhada para onde ela apontava.

– Em Uksville?

– É um condomínio de luxo, privado. Perfeito para um maníaco se esconder.

– Eu conheço o lugar… – disse Fridda. – Íamos comprar para fazer a sede da Família.

Meera torceu o nariz.

– Que ironia bizarra.

– Como sabe se ele está aí? – Halle perguntou.

– Eu sou boa no que faço, Caçador. Como você. Seu faro não diz nada sobre esse lugar?

– É um bom lugar para se esconder. – ele admitiu. – Mas existem milhões de outros. Não quero perder tempo procurando no lugar errado. Cherry não pode continuar nas mãos…

– Relaxe, relaxe. Vamos encontra-la em poucos segundos. Meu faro diz claramente que estou no lugar certo. – a mercenária ajeitou sua espada sob o coldre nas costas. – E quando tudo isso acabar, prometo lhe dar parte do corpo dele para se vingar.

– Essa é uma presa que teremos que repartir. – Fridda disse num aparte, a expressão bastante severa.

– Não me importo de partilhar com você, Velha. Desde que a diversão seja garantida.

Sander se levantou do balcão de bebidas, finalizando sua dose.

– Podemos ir? Ou será que ficaremos mais alguns minutos embargados em detalhes técnicos? – sua voz sarcástica saiu um tanto letárgica e ele deu uma leve cambaleada ao dar alguns passos.

Klaus avançou contra ele e arrancou-lhe o copo das mãos, espatifando o vidro contra uma das paredes. Sua expressão beirava a fúria e o desgosto.

– O que pretende com isso, garoto estúpido! Embebedar-se quando está prestes a enfrentar inimigos? Que espécie de idiota você é?

– Eu estou bem. – o rapaz enfrentou o pai, altivo. – Perfeitamente capaz de enfiar a porrada em qualquer idiota.

– Não é o que parece. A bebida entorpece os sentidos. E quando os sentidos se perdem, você não é nada. Essa foi uma lição que lhe ensinei!

– E ela não me serve de nada.

Klaus lhe virou um tabefe com as costas das mãos.

– Moleque insolente, recomponha-se!

– Não nos voltemos uns contra os outros. – Fridda interveio, mas foi interrompida pelo olhar furioso do neto.

– Fique fora disso, Bestemor.

– Para o inferno que vou! – a velha lhe deu outra bofetada. – Recomponha-se! Ou quer que eu lhe dê uma surra como bem merece? O que aquela menina fez com você, roubou seu juízo?!

– De certo o coração. – Meera sussurrou, baixinho, prestando atenção na discussão que se desenrolava.

– Estou perfeitamente bem. – o garoto insistiu. – E se quer saber, Bestemor, eu iria até o inferno por ela.

– Admiro essa sua compaixão. Mas não é se enchendo de Vodka que vai conseguir alguma coisa. Vamos clarear a mente e buscar aquelas duas! Para a sanidade de nossa alma e a delas, vamos tirá-las das mãos daquele porco búlgaro. Largue essa merda e segure suas pistolas, porque é hora de agir!

– Já estou preparado, Bestemor. E desta vez, não vou decepcioná-las!

– Tente não decepcionar a Família também. – disse Klaus, afastando-se a passos largos.

Sander observou o pai se afastar com os olhos duros.

Fridda lançou um último olhar para o neto e seguiu o filho, deixando para trás o resto do grupo.

Halle se aproximou e deu um leve apertão no ombro do garoto.

– Vamos, garoto. Vamos buscar sua garota.

Meera respirou fundo e acompanhou o resto do grupo, obrigando-os a se unirem novamente para que pudesse apresentar um plano de invasão, resgate e fuga. O que seria mais difícil era entrar na fortaleza, como eles sairiam de lá não era problema. Qualquer aço, ferro ou concreto não era páreo para a quantidade de explosivos que a mercenária levava na bolsa.

E ela duvidava muito que os Von Kern ficariam para trás. Além disso, depois que Cherry fosse libertada de suas correntes, ela duvidava muito que sobrevivesse alguém para tentar impedi-los de saírem de lá. Só Deus sabia o estrago que aquela mulher faria!

Não se aprisiona uma leoa faminta. Nunca.

 

*-* *-*

Acorde…

Acorde…

O sussurro era doce.

Cherry acordou com um tapa na cara.

Abriu os olhos assustada e, num rompante, as lembranças a dominaram, fazendo-a arfar. Mas não teve muito tempo para pensar em mais alguma coisa, pois seu corpo foi novamente prensado contra a cama macia.

Alline a olhava de cima, deitada sobre ela e com uma faca afiada direcionada contra a carne do pescoço da outra. Seus olhos estavam inchados e vermelhos, o rosto ainda mais assombroso do que se lembrava. A expressão sombria espreitava por seu olhar destemido.

– Boa noite, vadia.

Cherry forçou seu corpo para cima a fim de derrubá-la. Mas a lâmina serrilhada ameaçou romper a pele fina do pescoço.

– Eu não faria isso se fosse você.

– Não tenho medo de morrer.

Alline riu.

– Não vou matar você. Embora eu devesse muito. – seu riso transformou-se num lamento e as lágrimas surgiram nos olhos, derramando-se. – Você matou meu Lucien!

– Ele mereceu.

Alline lhe virou um tapa.

– Maldita! – ela gritou, rompendo o choro.

Ela chorou copiosamente por longos minutos. As gotas amargas das lágrimas tingindo o rosto surpreso da outra, seus soluços eram agoniantes.

– Eu deveria aproveitar esse momento e silenciar seu coração!

– E o que te impede? –Cherry a enfrentou.

– Ah, você não sabe os horrores que Bóris planeja fazer com você. – a sérvia sorriu, entre soluços. – Vê-lo se servir de você será muito mais prazeroso do que infligir sua morte. Eu quero vê-la sofrer, Cherry Von Kern. Quero vê-la lamentar a audácia de sair da barriga da sua mãe!

– Meu nome é Cherry Vicious. E eu não estou disposta a te dar esse gostinho!

Cherry deu uma cabeçada na adversária e conseguiu se livrar, saiu correndo pelo quarto e deu de cara com a porta enorme de ferro. Ela testou a tranca, descobrindo que não funcionava. Desesperada e furiosa, ela a esmurrou.

Alline começou a rir.

– Você não entende, não é? Não vai sair daqui. Está presa novamente sob as garras do predador.

Ela se aproximou, girando a faca.

– E só vai sair quando eu quiser!

Elas se atracaram, dando murros e chutes. Alline a empurrou para longe, fazendo-a se chocar contra a penteadeira. Os perfumes finos voaram, espatifando-se no chão e contaminando o lugar com uma mistura de aromas doces.

Cherry se ergueu, os pés descalços esmagando o vidro dos frascos quebrados, e voou na direção da outra, grudando as unhas na carne do rosto já ferido. Alline gritou de dor, mas o sorriso alucinado continuava presente em sua expressão, o que a tornava ainda mais horripilante. Ela puxou os cabelos da inimiga e lhe aplicou um chute certeiro, fazendo-a cambalear.

– Podemos ficar nisso a noite toda. – disse, recuperando o fôlego. – Podemos destruir o quarto inteiro. Ainda assim, não vai mudar nada. Você ainda vai morrer aqui.

Cherry a ignorou, lançando-se sobre a maldita novamente. Sua raiva a deixava quase cega.

Alline se divertia perversamente com tudo aquilo, embora as lágrimas ainda fossem cultivadas em seus olhos sombrios. Mas em dado momento toda a diversão perdeu o foco.

Deu um chute no estômago de Cherry, derrubando-a na cama novamente e avançou sobre ela, encaixando a faca serrilhada na curva do pescoço delgado. Cherry paralisou, sentindo a lâmina pressionar sua pele numa promessa perigosa. Seus olhos se encontraram com os da rival num ódio fervente.

Alline sorriu, satisfeita em se sair vitoriosa.

– Sabe, eu sempre a achei bonita…

Ela deslizou a lâmina pelo corpo desnudo. Seus olhos eram cobiçosos.

– Sempre lamentei o fato de você ser uma Von Kern.

Cherry riu, sarcástica.

– Nem em um milhão de anos eu olharia para você. Você está horrível!

– Você e sua família maldita contribuíram para isso.

– Você sempre foi horrível.

– Eu sempre fui linda. – ela sorriu com arrogância. – Não foi por isso que centenas de homens poderosos se curvaram aos meus pés? Incluindo seu tio tolo.

– Klaus vai arrancar sua língua por tal impertinência!

– Aposto que vai. – Alline riu.

Seus olhos recaíram sobre o corpo da rival novamente e a lâmina voltou a deslizar naquela carícia insolente.

Cherry se mexeu de modo brusco, evitando o contato com o frio da lâmina.

– O que quer, maldita?

Alline sorriu e inclinou-se sobre a outra novamente, beijando-lhe os lábios melancolicamente.

Surpresa demais para ter qualquer outro tipo de reação, Cherry estancou.

– Quero fazer um pacto. – a megera sussurrou, os lábios de veludo roçando os da outra. – Bóris não fez nada para salvar Lucien, como eu ordenei que fizesse. Seu tio puxou o gatilho, mas o verdadeiro responsável foi Bóris Petrov. Graças à ele meu amado está morto. Eu quero vingança. Olho por olho, dente por dente. Acho que no fundo sou tão vingativa quanto você, Mona. – ela acariciou o rosto da outra. – Mate-o! Mate o Búlgaro e conseguirá o que mais deseja: a minha morte.

Cherry a empurrou.

– O que eu mais desejo. – ela riu presunçosamente. – Você se julga muito importante para achar que meus desejos mais sombrios tem alguma coisa a ver com a sua morte. Está enganada. A sua morte é algo prometido a somente uma pessoa.

– Estou te dando a sua grande chance. Pode finalmente abraçar sua tão preciosa vingança. Se firmar esse pacto comigo, eu a libertarei e levarei diretamente até Bóris.

– E depois vai fugir como uma cadela covarde! Essa é a sua chance de escapar! Sabe que quando eu sair daqui vou destroçar o Império dele e tudo o que tem dentro! Você sabe que vai morrer miseravelmente pelas mãos da Família.

Alline esboçou um sorriso.

– Pelas mãos da Família, não. Pelas suas. Acho que te devo isso, não é mesmo, menina? Uma revanche. Afinal de contas, eu estraçalhei sua vida. E no final das contas nunca foi uma coisa pessoal. Você era apenas uma criança atrapalhando meu caminho.

– Para o inferno com o seu sentimentalismo! O que é isso? Um pedido de perdão?

– Não me arrependo das coisas que fiz.

– Pois deveria. Se não tivesse sido uma puta ambiciosa, talvez seu francês ainda estivesse vivo!

– Cretina! – Alline lhe deu uma bofetada.

À qual Cherry retribuiu.

– Enfie esse pedido de desculpas bem no meio…

Alline a calou com a lâmina da faca, pressionando-a contra os lábios da rival.

– Você é uma cadela mal criada. Pense na minha oferta. É tudo o que tem em mãos.

Ela se levantou num giro rápido.

– E enquanto você pensa, vou me divertir com seu bichinho.

Cherry se levantou de um pulo e se jogou contra a mulher, pouco se importando com a existência de uma faca. No entanto, tudo o que conseguiu foi atingir a porta de metal que se fechava bem na sua cara.

Ela a esmurrou com força, gritando.

– Tire-me daqui! Sua Vadia, se você a machucar…

Mas seus gritos se perderam no eco daquela escuridão.

 

*-* *-*

Alline rodou a tranca da porta e soltou um suspiro cansado. Era engraçado não sentir mais satisfação com o que antes lhe faria flutuar pelas nuvens. Naquelas últimas horas nada lhe trazia alegria, sequer a ideia macabra de concluir seu plano.

Em toda sua vida jamais pensou existir homem que lhe trouxesse a ruína. Mas ali estava ela, decadente pela morte de Lucien. Lamentando o fato de ainda continuar num mundo onde ele não vivia mais. Aquela era uma traição sem limites! Uma solidão insuportável.

As lágrimas se acumularam em seus olhos novamente e, paciente, ela deixou que caíssem.

Os gritos de Cherry preencheram o corredor silencioso com elegância, permitindo-lhe um raro momento de prazer.

Ela fechou os olhos e se permitiu ouvir o som com clareza, deleitando-se naquela melodia sombria que começava ecoar em seus ouvidos. Em outros tempos, teria dado as mãos à seu amado e, juntos, teriam dançado.

– Ah, aí está você. – a voz de Bóris a fez pular.

Alline voltou seus olhos para ele, sem nenhuma expressão.

– Ah, continua nessa melancolia? – Bóris pareceu aborrecido.

– E você tem alguma esperança que isso mude?

– Sinto muito por seu amante. Realmente sinto muito.

Alline focou seus olhos no rosto do búlgaro. Não disse mais nada, voltando seus olhos em outra direção.

Bóris se mexeu, desconfortável.

– E então, como está nossa leoa?

– Furiosa.

– Do jeito que eu gosto. Cuidarei dela mais tarde.

– Para mim você adia demais. Já não esperou por ela longos anos?

– Você é por demais impaciente, querida Vedrana.

Alline rosnou, furiosa, e lhe deu um tapa.

– Jamais ouse me chamar assim de novo! Lucien me chamava assim. Vedrana morreu há muito tempo. E quando o coração dele parou de bater, ela se foi definitivamente.

Bóris engoliu seu orgulho com certa dificuldade, como se houvesse mastigado algo amargo.

– Está bem, querida. Vou respeitar seu momento de dor. Ser tolerante.

– Eu é quem estou sendo tolerante! Por sua causa Lucien está morto! Sua incompetência em cuidar da segurança dele foi impressionante.

– Cuidado, Alline. Não esqueça qual é o seu lugar.

– Sei muito bem qual é o meu lugar. –ela o enfrentou, engolindo o medo.

– Lucien morreu porque era um idiota. Eu já disse a você. Não sirvo para ser babá.

– Lucien estava cego! Aquela maldita que você tanto gosta arrancou os olhos dele! Ele precisava de alguém para sua segurança.

– E por que você mesmo não ficou tomando conta dele? A culpa não é minha se aquele idiota se meteu com o Von Kern! E se está tão insatisfeita, pegue suas tralhas e se mande daqui. Não fique me afrontando ou talvez eu mude de ideia e decida fazer de você uma de minhas putas. Sem o francês, você não passa de mais uma mulher estúpida!

Alline estremeceu.

– Viu? É maravilhoso quando as pessoas se colocam em seu devido lugar. Você é a única mulher com quem tive o prazer de fazer negócios não baseados em sexo. Considere-se sortuda por eu a respeitar. Agora vamos, pare de me aborrecer. Tenho uma coisa que talvez mude esse seu ar de melancolia.

Ele seguiu pelo corredor moderno, ignorando a porta de onde ecoava os gritos. Posou a mão na maçaneta da porta vizinha. Alline se aproximou com uma expressão melhorada, a sombra da alegria reavivando-se em seu rosto destruído.

Quando Bóris abriu a porta, os sussurros sombrios do outro lado cessaram. Somente para dar lugar ao pavor.

 

Willa se ergueu do chão ao ouvir a tranca da maçaneta se abrir. Instintivamente, afastou-se em direção à cama, encolhendo-se.

Bóris entrou primeiro, a postura rígida como a de um general.

Assim que o viu, Willa tentou fugir, encolhendo-se na parede ao fundo do quarto. Seu coração dava pulos dentro do peito, ameaçando esmagar seu ser. O pânico já presente, se intensificou a ponto de fazê-la arfar.

De trás dele, Alline surgiu, carregando uma expressão sombria. A sérvia trancou a porta atrás de si, esfregando as mãos como uma criança que espera pelo presente de Natal. Seus olhos traziam uma ardência incomum. E, ao fitar a garota encurralada como uma ratinho de laboratório, sorriu.

– Da última vez que nos vimos, você me chamou de cadela e disse que eu ia me ferrar. Olha só quem está ferrada agora. Quase sinto pena.

Willa desviou os olhos da mulher, fixando-os em Bóris. O Búlgaro parecia furioso.

Ele avançou alguns passos, fitando a menina. Tranquilo, como era a maior parte de seus gestos, tirou o cinto que prendia sua calça impecável, estalando-o duas vezes nas mãos.

– Vejamos o que eu faço com as cadelas desobedientes que fogem de mim.

Ele avançou.

Willa correu, desviando-se de seu captor com a agilidade de alguém desesperado. Derrubou uma mesinha de canto quando passou apressada por ela e quase tropeçou em meio sua fuga alucinada até a porta. Alline a agarrou pelos cabelos antes que sentisse o cheiro de liberdade, segurando-a com força pelas madeixas.

– Onde pensa que vai, cadelinha?

A megera a jogou sem a mínima consideração e Willa caiu no chão aos pés de Bóris.

Ele a puxou pela nuca, como se fosse um animalzinho e fixou os olhos nela por longos segundos. Cheirou-a uma vez, para se certificar de que não fora tocada por nenhum outro macho e então a jogou na cama, de bruços.

Willa agarrou-se à colcha florida que cobria o colchão, soluçando.

O cinto estalou mais uma vez, ameaçador. E então sua fúria recaiu sobre a pele delicada da garota, arrancando-lhe um grito a cada chicotada. E a cada lamento, mais o búlgaro se satisfazia.

Alline sentou-se na poltrona vitoriana, assistindo em silêncio. Mais uma vez fechou os olhos para permitir seus ouvidos apreciarem a sinfonia alegre para sua alma distorcida.

 

Bóris desceu o cinto pela última vez com um urro de deleite, como se tivesse acabado de chegar ao clímax e agora flutuasse sobres as nuvens. Seus olhos vidrados fixaram-se na carne lacerada e ele tomou fôlego, respirando com sofreguidão. O suor pingava da ponta de seu nariz.

Encolhida na cama, Willa soluçava baixinho. Seu coração estava em frangalhos, estraçalhado como suas costas delicadas, agora marcadas por mais violência. Ela fechou os olhos apertados, engoliu o que lhe sobrou de dignidade e obrigou a guerreira dentro de si a se calar, adormecer por um tempo indeterminado porque, no momento, tudo o que podia fazer era se perder em meio as sombras.

Tudo o que Klaus lhe ensinou naqueles dias agradáveis no porão de nada lhe valia naquele momento. Não quando as sombras do passado a sufocavam com tanta podridão. Ela mal se lembrava da guerreira que lhe ensinaram a ser.

Aquele monstro havia matado sua alma sorridente e colorida.

Bóris a agarrou pelos cabelos, forçando-a a encará-lo.

– Espero que tenha aprendido desta vez, Puta! Ninguém foge de mim. Muito menos toma chazinho com o inimigo! – ele a jogou com violência na cama novamente. – Se ousar me desobedecer de novo, eu lhe darei um destino pior que a morte: Entregarei você a meus homens para que se satisfaçam, todos de uma vez!

Ele marchou até a porta e a abriu, mandando o jovem estranho entrar.

– Cuide das feridas dela!

O rapaz se aproximou como o mandado, os olhos distantes como sua própria alma. Como um soldado que obedece, sentou-se ao lado da cama e tocou as costas dilaceradas da garota. Willa fixou os olhos no rosto do rapaz e a única alteração em sua expressão foram as lágrimas que se empoçaram em seus olhos e derramaram-se com amargura.

Bóris observou a cena com um sorriso cheio de escárnio e sua risada saiu num rompante alegre, assustando Alline e o estranho.

– Ah, Willa! Sua tristeza seria trágica se não me divertisse tanto! Vejo que reconhece seu antigo amante. Aquele que lhe jurou amor eterno. – ele se engasgou com a risada. – Amor eterno! – riu. – Por favor! Quanta babaquice.

O búlgaro aproximou-se da cama.

– Acreditou mesmo que ele te amava? Realmente chegou a acreditar que um dos meus homens me trairia por uma cadela?

Willa encarou aqueles olhos sarcásticos, enfrentando-o em silêncio.

O estranho continuou em sua expressão séria, indecifrável. Um soldado leal sem sentimentos ou expressão.

– Você é mais tola do que eu pensei. – Bóris desatou a rir.

Alline se levantou, entediada. Seus olhos mal passaram pela menina ou o soldado.

– Já se divertiu o suficiente? Temos assuntos a resolver. Ou já se esqueceu do nosso acordo?

Bóris desviou os olhos a contragosto.

– Sim. Sim. Os contratos.

– Sinto muito se lhe aborreço, querido. Mas eu mesma me encontro num estado lastimável de tristeza onde nem mesmo a dor de uma garotinha pode me alegrar. Então vamos discutir assuntos mais importantes e quem sabe depois eu sinta alguma satisfação em vê-lo surrá-la novamente.

O búlgaro sorriu.

– Sua perversidade não tem limites, minha pequena impiedosa.

Alline correspondeu o sorriso, mostrando-se satisfeita com o elogio, e deu-lhe as costas, seguindo pelo corredor florido.

Bóris olhou mais uma vez para aquela cena deprimente de Willa e seu amante traidor, e então os deixou mergulhados naquelas sombras geladas da amargura.

Sozinho, o soldado fez o que lhe foi ordenado, ouvindo o som das trancas preenchendo a porta de metal. Puxou um kit de primeiros socorros, separando as gazes com cuidado, os medicamentos e esparadrapos. Seus olhos estavam cautelosamente longes da menina. Estava ciente da força dos olhos dela sobre seu rosto, a respiração estremecida e as marcas roxas em carne viva nas costas delicadas.

Silencioso como um túmulo, ele tocou as feridas com uma gaze umedecida em antibióticos e a sentiu se contorcer sob seus dedos. A menina mordeu os lábios, mas permaneceu quieta até que ele terminasse de limpar todos os ferimentos.

August passou uma pomada cicatrizante e fez um curativo com a bandagem que achou. Quando estava terminando de prender os esparadrapos, ela falou.

– Por quê? – sua voz ecoou baixinha.

O soldado permaneceu impassível. Os dedos hábeis com as bandagens.

– Por quê? – Willa repetiu, um pouco mais firme.

August levantou-se, guardando o que restou das gazes e afins.

Willa se ergueu da cama, ignorando as repuxadas em suas costas. Dor não era um problema àquela altura do campeonato. Ela o agarrou pelo braço, firme.

– Eu perguntei por quê! Por que mentiu para mim, fez todo aquele teatro e foi embora? Por que decidiu voltar?

August respirou fundo e finalmente permitiu-se encará-la.

– Eu não devo falar com você.

– Eu também não. Mas quero respostas. Se vai me trair, pelo menos mereço uma explicação plausível. Nem que seja para ouvir de sua boca que é apenas um miserável mentiroso. Ainda assim eu quero ouvir!

– Não menti para você. – foi tudo o que disse.

Willa continuou o encarando.

– Como está suas costas?

– Doendo como o inferno.

– Eu te daria um analgésico, mas Bóris quer que você sinta dor.

– É claro que ele quer. Caso contrário não teria descido a porrada!

August franziu o cenho.

– Desde quando você fala assim? – um princípio de riso beirou seus lábios.

– Desde o momento em que eu acordei. Despertei dessa vida.

– Você nunca saiu desta vida, Willa.

– Tem razão. Foi um erro acreditar que eu tinha mesmo escapado dele. Mas por cada segundo de ilusão, valeu a pena. Pelo menos eu soube apreciar minha liberdade teatral, não fui idiota como você que voltou por livre e espontânea vontade.

August desviou os olhos.

– Acho que prefiro a velha Willa.

– Mas é claro que prefere! A velha Willa te deixava pisar nela, seu filho da puta!

– Eu nunca quis pisar em você.

– E o que o fez mudar de ideia?

– Você não faz ideia das coisas que sacrifiquei. Não faz ideia.

– Espero que o sacrifício tenha valido a pena. – disse ela com amargura.

August voltou os olhos para ela.

– Sinto muito.

– Sente porra nenhuma!

Fez-se um silêncio doloroso onde as sombras aproveitaram para deixar seus sussurros sombrios.

– Bóris matou toda a minha família. Por todos os confins da Europa. Foi como voltei para cá. – August disse, no mesmo tom frio que usou antes.

Willa permaneceu em silêncio, esperando para ver se ele terminaria a história ou se só ficaria ali paradão, olhando-a de forma impassível.

Mas August optou por lhe dar as costas. À princípio, Willa achou que ele iria embora, mas o soldado apenas iniciou uma caminhada reflexiva pelo quarto, os olhos perdidos na imensidão. Era difícil saber o que se passava pela mente dele, em seu coração. O que era cômico porque Willa sempre o decifrou muito bem… Em tempos passados.

Era quase chocante como as pessoas poderiam mudar drasticamente num piscar de olhos, as sombras assombrosas que elas abrigavam secretamente dentro de si.

– Não voltei por escolha própria como você julga. – disse ele. – Eu voltei porque fui ameaçado, como nós dois sabíamos que aconteceria cedo ou tarde. Afinal de contas, não se pode escapar do búlgaro. Não me orgulho da escolha que fiz, mas depois de presenciar minha família inteira, sem exceção de ninguém, ser torturada e morta, só posso dizer que jamais voltarei a traí-lo! Sou um pobre miserável e morrerei um pobre miserável fiel à Bóris Petrov, doa a quem doer.

August olhou para ela.

– Sinto muito, Willa. Essa é a verdade.

– É bom ouvir a verdade. Pelo menos uma vez na vida. Obrigada. – ela disse. E o socou.

August chegou a cambalear, mas não caiu. Atônito, fitou a garota enquanto segurava o nariz quebrado.

– Você estava certo ao supor que eu mudei. – disse ela, marchando e se sentando na cama.

– Eu estava errado. Acho que prefiro a nova Willa. – o soldado disse, sem sorrir. – Uma pena que eu não possa ajuda-la.

Ele seguiu em direção à porta, cauteloso com os movimentos dela.

Antes de sair, parou com a mão na maçaneta de metal.

– Seja prudente e não tente nenhuma gracinha. Ficará melhor se não fugir outra vez.

– Não se preocupe, August. Não vou fugir agora. Tampouco atacar você. Ficarei quietinha aqui no quarto… Esperando Bóris.

August não soube dizer por que, mas aquela expressão da menina lhe congelou os ossos.

 

 

Alline serviu-se de uma taça de vinho, o aroma preenchendo a sala a céu aberto. Sentou-se no sofá elegante de cashmere e cruzou as pernas, admirando a paisagem. O teto aberto conferia uma visão incrível do céu estrelado e a pequena lagoa artificial com uma queda invejável contribuía para a sofisticação do espaço. O búlgaro era exímio na arte de decoração.

Assim como Lucien.

O pensamento a deprimiu, aumentando a melancolia em seu olhar.

Ela bebericou a bebida tinta em sua taça, fechando os olhos de prazer. O sabor adocicado foi capaz de diminuir sua amargura e ela se lembrou de como seu Francês amava o sabor do vinho.

A porta pesada ao fundo da sala se abriu, trazendo Bóris em seu estado alterado.

– Essas cadelas nunca conseguem me agradar! Nem arrumar um escritório são capazes!

Ele se aproximou aos resmungos, folheando alguns documentos.

– Você se preocupa demais. – Alline se mexeu, indiferente.

– Ah, sim. E você continua nessa melancolia.

Alline deu um sorriso falso.

– É preciso mais que um cálice de vinho para melhorar meu humor.

– Pegue o que quiser. – Bóris fez um gesto abrangente, oferecendo seu império para o desfrute dela.

– Ah, você pode ter certeza.

Alline se levantou do sofá e apanhou os documentos das mãos dele. Seus olhos correram pelas folhas pardas, ambiciosos.

– Está tudo aí, todos assinados. – garantiu o búlgaro.

– Todos em meu nome?

Bóris suspirou, como um pai impaciente.

– Todos em seu nome. As minhas mais belas propriedades no Caribe em oferta à morte de Lucien. Acrescentei também uma parte generosa de minhas ações numa empresa suíça, como cortesia. Considere-se uma mulher um pouco mais rica.

– Você é muito gentil, Petrov.

– É claro que sou. – ele deu um sorriso forçado. – O francês era um bom sujeito.

– Poupe-me de suas mentiras. – o sorriso no rosto dela amargou.

– Sinto muito por sua dor. Não imaginei que o amasse tanto.

– Você não imaginou que eu o amasse de verdade. – ela o corrigiu.

– Sim. Lamento. Você sempre foi uma mulher difícil de decifrar.

– Esse é um dos motivos pelos quais amei Lucien. Ele sabia me decifrar perfeitamente.

Uma única lágrima escorreu por seu rosto de pedra.

Bóris pigarreou, fugindo daquele sentimentalismo.

– Bom, espero que você me perdoe pela morte dele. Eu realmente sinto muito.

– Não se preocupe, Bóris. – ela sorriu. – Esses documentos quitam suas dívidas comigo. Não estou zangada.

Ela se aproximou do búlgaro, o sorriso doce nos lábios. Ficou na ponta dos pés e lhe deu um beijo no rosto.

– No entanto, ainda tenho um favor a lhe pedir. – sussurrou. – Quero o Von Kern morto.

Bóris deu uma ligeira gargalhada.

– Qual deles, minha pequena impiedosa.

– Klaus. – ela o fitou no fundo dos olhos. – Mate-o da pior forma que encontrar.

– Não quer você mesma fazer isso? Posso lhe proporcionar toda a diversão.

– Ah, eu adoraria esse presente, querido. Mas devo declinar e lamentar tal fato. Tenho assuntos mais importantes a tratar. – ela deu um sorriso gélido, seguindo novamente para o sofá sofisticado e apanhando sua taça de vinho.

Bóris a observou em silêncio.

– Em outras vidas eu a tomaria como esposa.

Alline ergueu o olhar.

– Não servimos um para o outro, querido. Seus gostos me causam repulsa.

– Esse é o motivo de eu nunca ter me casado. – ele riu.

– Quem quer estivesse destinada a ser sua esposa, agradece.

O búlgaro ignorou a malícia afiada, servindo-se de uma dose de conhaque.

– Lamento deixa-la sozinha, principalmente o momento sendo tão delicado, mas preciso cuidar de meus afazeres.

– Ah, sim. Vá perturbar seus bichinhos. Ficarei aqui na companhia de um bom vinho e música.

– Aprecie a vista. – Bóris a deixou.

Alline tomou mais um gole do tinto enquanto assoviava alguma música desconhecida, balançando os pés. Abraçava a tristeza com a alma e aquela união lhe era por demais apreciada. Tudo estava num estado lastimável de torpor e negação e, a seu ver, isso parecia aceitável.

Foi quando começou a chover.

Ela ergueu os olhos para o céu, sentindo os pingos frios como um presságio em seu rosto. O veludo da noite se turvou, apagando as estrelas e o brilho da lua e trouxe consigo não só a tempestade, mas também o aviso de uma morte tranquila.

 

 

Bóris caminhou pelo corredor de forma pomposa, usando um manto vermelho pesado. Sentia-se o próprio rei de seu império de horror. Suas submissas ajoelhavam-se ao vê-lo passar, abaixando a cabeça em sinal de respeito. Era notável o medo que espreitava em seus olhos baixos, assim como a alma despedaçada que se refletia neles.

Todas servas, todos bichinhos que ele podia usar sem qualquer consideração. Seu império era constituído de dor, aflição e poder. Ele era o senhor naquela casa, o soberano sombrio ao qual todos respeitavam e temiam.

Desde pequeno, estava destinado a ser um rei. Já dizia seu pai quando matou sua mãe. Desde pequeno sem nenhum respeito pelas mulheres. Desde pequeno sádico e maldoso. Era um pobre miserável sem uma alma para iluminar os dias frios em que passou naquela casa com o pai lunático. Os Petrov eram uma família amaldiçoada e assombrada por demônios impiedosos.

Bóris obrigou sua mente a deixar para trás as lembranças que o atormentavam e focou-se na lição que seu pai lhe ensinou aos doze anos de idade, quando o obrigou a violentar uma jovem desconhecida: As mulheres foram feitas para servir.

Ele sorriu, lambendo os lábios famintos. E então abriu a porta de um dos quartos.

Willa encontrava-se sentada na beira da cama, como a haviam deixado. As roupas em frangalhos pendia dos ombros, os pés descalços balançavam-se no ar. A cabeça baixa escondia seu olhar. E o silêncio, a alma.

Bóris apreciou a cena, deliciando-se com aquela oferta. Ali estava seu animalzinho, exposto para seu desfrute, destruído e sem esperanças. Do jeitinho que gostava. Ele se aproximou, trancando a porta atrás de si.

O som de suas botas alertou a presa da presença de seu caçador. Willa ergueu os olhos para ele e sua expressão sem vida o confundiu. Elas sempre demonstravam algum tipo de emoção, mesmo que apenas uma sombra. Mas sempre havia algo ali, espreitando o olhar delas. No entanto, dentro daqueles olhos claros não havia nada.

Isso assustou Bóris.

Ele se sentou ao lado dela com cautela, experimentando a aura sombria que circulava o quarto. A respiração da menina tremeu, fragilizada, mas ela não tentou fugir novamente. Ele sorriu uma vez, aprovando o comportamento.

– Vejo que aprendeu a se comportar diante do seu senhor.

Willa o fitou nos olhos demoradamente. Numa postura completamente submissa, ela desviou os olhos obedientemente e se curvou uma vez, imitando as outras servas dele.

O sorriso de Bóris foi deslumbrante. Ele mesmo a ergueu, permitindo-a relaxar.

– Ah, doce Willa. É tão mais fácil quando vocês cedem. Vê como me orgulha? – ele guiou suas mãos pequeninas até a braguilha de sua calça, mostrando o quanto estava contente.

Willa apenas o fitou em silêncio e aquele olhar inocente o fez ferver de desejo. Bóris a beijou com força nos lábios, agarrando-a com brusquidão. Sua língua forçou os lábios dela a cederem e ele a explorou profundamente.

Willa emitiu um gemido baixo, apossando-se da boca dele com vontade, seus dedos envolveram os cabelos dele e ela o trouxe para mais perto, deixando-o a vontade para desfrutar de seu corpo.

Bóris suspirou, deslizando os lábios pelo pescoço da menina e beijando a pele macia.

– Amada Willa, finalmente vai se entregar por livre e espontânea vontade? – ele sorriu. – Acho que minhas cintadas obtiveram um resultado muito melhor do que eu planejei.

Willa fechou os olhos, entregue, e de seus lábios surgiu um sorriso tenebroso.

Ela deslizou a mão sutilmente por baixo das cobertas, puxando a adaga do meio do emaranhado de veludo e, num movimento rápido e preciso, cravou a lâmina afiada na coxa de seu captor até ouvi-la partir o osso num estalo.

Bóris urrou de dor.

– Vadia! – gritou, surrando a menina.

Com um grito doloroso, puxou a faca de sua carne.

Ele respirou com sofreguidão, a saliva acumulando-se ao redor da boca contorcida de agonia. Seus olhos recaíram em Willa novamente e ele a agarrou pela nuca, forçando-a a encarar sua fúria.

– De onde tirou isso, hã? – ele apontou a adaga para o rosto dela, a lâmina muito próxima dos olhos.

– Roubei-a de August – Willa respondeu com petulância. – Apenas um dos truques que aprendi.

Com mais um movimento imperceptível, ela o acertou no rosto com um grampo de cabelo.

Bóris rugiu, furioso, arrancando o objeto de sua sobrancelha.

Willa gargalhou, como uma louca.

Cego de ódio, agarrou a menina com força pelos cabelos.

– Eu lhe mostrarei como se doma uma égua!

E saiu arrastando-a pelos corredores enquanto a ouvia gritar e chutar.

 

Ao lado, Cherry ouviu os gritos e o desespero apoderou-se de sua alma, despertando a fera adormecida dentro de si.

Ela rugiu, faminta. E começou a chutar a porta.

– Willa, eu vou te tirar daqui! – gritou numa promessa selada com sangue.

A cada chute, o metal tremia, cedendo um pouco.

E quando o risco do raio imponente cruzou o céu, iluminando o quarto pelas grades da janela, a porta cedeu com um baque violento, libertando a fera.

A leoa espreitou pelo corredor, grunhindo, e finalmente deu um salto, iniciando sua caçada feroz.

A Garota Má (Pt.14): A Besta de Bergen

Escrito por Natasha Morgan

A Besta de Bergen

A poeira flutuava no ar do túnel, densa. Na parca iluminação só se via a pilha alta de pedras e pó lá dentro, o portão velho de ferro quase completamente soterrado. Uma trágica cena para aqueles que amavam construções antigas como aquela mansão.

Uma antiguidade destruída. Reduzida a pó… Assim como os ossos que repousavam sob as pedras.

Podia-se ouvir o lamento doce de um violino, entoando seu último suspiro e deixando para trás uma onda de tristeza e cheiro de morte.

O vento frio zumbiu pela fresta do corredor, uivando alto, e as rochas estremeceram devagar, fazendo surgir do meio delas uma mão crispada. As unhas bem feitas estavam sujas de poeira e não demorou muito para empurrarem o restante de pedras.

O corpo empoeirado ressurgiu com a elegância selvagem de um felino, sacudindo-se do pó que se acumulava no vestido florido. Fridda abriu os olhos com impetuosidade e olhou ao seu redor. Sua boca se crispou numa ameaça fria e ela rosnou.

– Grandessíssima cadela!

A velha resmungou seu ódio e chutou com a ponta do sapato o que restou de pedras partidas, saindo debaixo dos escombros do túnel. Chacoalhou a cabeça uma vez e apanhou sua garrucha perdida no meio da poeira.

O corredor por onde marchara antes estava interditado, mas ela foi esperta e paciente em retirar o que impedia a passagem, enfiou-se pela fresta dos escombros e conseguiu passar.

O outro lado estava igualmente congestionado, pedaços de concreto e canos estourados profanavam a beleza daquele antigo lugar. O chão rochoso estava alagado e era difícil o acesso ao restante do caminho. Uma sorte felinos serem tão ágeis.

Fridda caminhou pela água suja, tomando o cuidado de desviar dos pequenos fios soltos que pendiam do teto, seus olhos sempre atentos a qualquer tipo de ameaça, embora ela duvidasse muito que mais alguém tivesse sobrevivido àquela explosão.

Maldito Búlgaro! Ele pagaria com a vida por tê-la emboscado daquela maneira.

E por ter pego Cherry novamente.

Cherry…

Ela apertou os olhos com pesar, permitindo-se apenas aquele momento de distração. Sua amada Cherry mais uma vez nas garras daquele miserável. Ela precisava sair logo dali e convocar a família. De jeito nenhum deixaria sua preciosa Barnebarn mitt enfrentar mais uma parcela daquele inferno. Era hora de dar um fim nisso! De uma vez por todas. Cessar o tormento daquelas pobres almas que o demônio roubava.

Era hora de destroçar o coração do búlgaro.

Fridda apertou a garrucha em suas mãos, furiosa.

Ela marchou pelos escombros espalhados pelos corredores sob a parca iluminação, o cheiro de mofo irritando seu nariz. Os olhos atentos e impetuosos avistaram um coturno assim que virou a esquina.

A Von Kern se aproximou desconfiada, a garrucha muito bem firme em suas mãos pequenas. O que se revelou foi um corpo caído em meio à poeira do cofre imundo e violado.

Fridda abaixou a arma no exato instante em que viu o rosto do sujeito.

O caçador.

Ela soltou um suspiro misterioso e guardou a garrucha no coldre dos ombros, abaixando-se para poder observá-lo. Analisou o rosto machucado por alguns instantes antes de lhe acertar um tapa na cara.

Halle despertou assustado, olhando para os lados. Tão logo pressentiu companhia, fechou o punho com força e tentou acertar um golpe em seu inimigo.

Fridda soube desviar com agilidade e puxou a garrucha novamente, apontando-a para o peito do adversário quase ao mesmo tempo em que o caçador apanhava sua própria pistola e a engatilhava para disparar contra a velha.

– Vá com calma, grandão! – ela alertou, respirando um pouco mais rápido.

– Fridda. – ele pareceu surpreso.

– Esperava que fosse o Búlgaro? – ergueu as sobrancelhas.

Halle olhou ao seu redor, checando o território.

– Ele se foi. Há muito tempo.

– Miserável! – o caçador explodiu, pondo-se de pé.

– Raiva não vai trazer minha neta de volta.

– Ele a levou! – Halle fitou a velha com os olhos arregalados, o medo espreitando por trás das íris negras como o limbo.

– Vamos pegá-la de volta. – Fridda prometeu.

O caçador avançou em direção à saída, marchando com a força de um tigre.

– Alto lá! – Fridda o interrompeu. – Onde pensa que vai?

– Tirar Cherry das patas daquele porco! – praticamente cuspiu as palavras.

– Sozinho?

– Sou o suficiente para tirá-la dessa enrascada!

– Menos pompa, super herói. Você não é o Hulk! Sequer sabe onde ela está.

Halle rosnou.

– E o que sugere? Que eu fique parado aqui, conversando com você enquanto aquele miserável faz sabe-se-lá o que com ela?

Fridda guardou a garrucha, suspirando com cansaço.

– Vamos nos reunir com os outros. Reagrupar em nossa casa. Lá montaremos um plano de resgate, com todas as armas que possuímos, e então vamos atrás da nossa Cherry.

– Porra nenhuma! Eu vou busca-la agora mesmo! Essa merda já durou tempo demais. Sempre me virei muito bem sozinho, ficarei bem.

– Não seja teimoso, menino.

Halle continuou andando, deixando a mulher falar sozinha.

Fridda suspirou novamente.

– Ok. Que esteja claro que foi você quem me obrigou a fazer isso.

Ela tocou no ombro dele uma vez e no instante em que ele se virou para ela, Fridda lhe deu um soco capaz de fazer seu cérebro explodir numa dor miserável. O caçador cambaleou e acabou caindo no chão, desmaiado.

– Teimoso. – ela repetiu num resmungo e levantou o corpo pesado, arrastando-o pelo corredor.

*-* *-*

Os outros estavam no que costumava ser a sala de estar da antiga mansão. Klaus ajoelhado diante de um cadáver, apreciando a morte em sua mais bela forma. Sander apoiado contra a estante de mogno, a expressão vazia. Os olhos vermelhos do menino indicavam que ele chorava e a postura rígida denunciava o ódio queimando-o vivo.

Fridda surgiu pelo corredor arrastando Halle e pareceu despertar a atenção dos dois. Klaus ergueu os olhos sem empolgação e Sander levantou sua pistola.

– Sou eu. – Fridda parecia aflita.

– O que aconteceu lá embaixo? Sentimos o chão tremer e logo a casa começou a se deteriorar. – Klaus avançou em direção á mãe. – Eu me preocupei com você e Cherry…

– Eles a levaram. – Fridda soltou. – Levaram nossa Cherry!

– Quem?!

– O Búlgaro e aquela maldita cadela amante do diabo!

Sander rosnou.

– Você a deixou viva?!

– Bóris a ajudou escapar.

– Ninguém nunca escapa de você! – o rapaz mirou a Bestemor beirando a fúria, suas palavras foram mastigadas com violência e cuspidas.

Klaus lhe deu um empurrão.

– Sander!

– Acha que estou contente com isso? – Fridda fitou o neto com a mesma agressividade.

– A cadela maldita terá o que merece. – Klaus prometeu, mais para si mesmo.

– Com toda a maldita certeza. – Fridda saboreou suas palavras. – Assim que eu puser as mãos nela não sobrará nada. A vadia não me escapará novamente. Esta será a última vez que mancho as mãos com sangue Borsahy. E eu vou me lambuzar.

– O que aconteceu com ele? – Klaus pareceu notar Halle.

– Desta vez ou na primeira vez que o encontrei desmaiado?

O mafioso ergueu as sobrancelhas.

– Tive que desmaia-lo. – Fridda suspirou com pesar. – O idiota queria ir atrás de Cherry sozinho.

– E por que não o deixou? – Sander disse. – É o que eu teria feito por Willa se meu pai não estivesse me prendendo!

– Tolos! – Fridda resmungou, dando um tabefe de leve no rosto do neto. – Quando é que vão aprender a pensar? Jovens tolos! – ela saiu resmungando.

Klaus apanhou o corpo desmaiado do caçador.

– Vamos para casa. – disse. – Juntar armas e contatos.

Sander apanhou um malote pardo do chão, encaixou o óculos de sol no rosto e seguiu o pai.

– Vamos caçar, Far?

– Não, meu filho. Nós vamos despedaçar.

*-* *-*

Halle acordou com uma dor de cabeça filha da puta e a primeira coisa que pensou foi em esganar aquela velha. Maldita família de loucos aquela à qual Cherry pertencia! Ele abriu os olhos num rompante e se levantou de onde quer que estivesse.

A sola de uma bota pesada o jogou de volta ao sofá creme.

Fridda o encarou com seriedade. Estava vestida de negro, como o restante dos integrantes da família, que o observava de longe.

– Vai bancar o teimoso novamente ou se juntar a nós? – ela perguntou.

– Velha… – ele soltou um resmungo.

– Acho melhor não terminar a frase insolente. As coisas nunca acabam bem para quem me chama de velha.

– Você me deu um soco. – ele a lembrou.

– Verdade. Mas você mereceu. Ia fazer uma idiotice.

– Eu sempre faço idiotices.

– É, mas agora terá a chance de fazer idiotices com a gente. – Sander disse, estendendo a mão para o caçador e o ajudando a se sentar.

Halle o olhou desconfiado. Gostava do garoto ruivo, mas estava longe de confiar naquela família mafiosa e assassina.

– Pode se juntar a nós nessa noite de caça. – Klaus disse, encarando-o do outro lado da sala. Estava igualmente elegante a seu filho, vestido em couro negro e portando aquelas duas pistolas ornamentais escandinavas.

– No entanto – disse o chefe da família. – Sugiro que repense caso tiver algum problema com o odor ou sabor do sangue. Porque hoje vamos nos deliciar nesse banquete infernal, meu amigo caçador. Hoje vamos devorar sangue, carne e almas.

Halle esboçou um sorriso.

– Sangue não é meu problema.

– Ótimo.

– É uma oferta de paz?

– Considere um convite amistoso. – Fridda disse. – Até agora eu não o matei, não é mesmo? – a velha deu um sorrisinho. – Você quer sua Cherry de volta, assim como nós. Que trabalhemos juntos nisso.

– Parece um bom acordo para mim. Contanto que você divida os traseiros a serem chutados.

– Não dividiremos traseiros esta noite, meu jovem. Dividiremos carne e sangue.

Halle não soube dizer por que, mas sua alma se arrepiou com as palavras daquela mulher. Há muito ouvira sobre a matriarca Von Kern, histórias terríveis a respeito daquela senhora. Mas nunca sentiu verdadeiro medo como agora, encarando-a banhada em ódio.

   Devoradora Escarlate, eles a chamavam.

   Sulten Løvinne.

Despedaçadora de almas.

Não interessava os nomes, Halle sempre soube que aquela mulher era um demônio.

E ela chamava Alline de amante do diabo? Ele quis rir internamente.

– Você exala escuridão e odor de sangue. – ouviu-se seu sussurro.

Fridda voltou seus olhos para ele.

A gargalhada sádica que ela soltou foi de estremecer a alma.

                                               Alguns anos atrás, Sul da Albânia

O Gjuetar[1] inclinou a cabeça em direção à mesinha de vidro ornamentada, inspirando com força a fileira perfeitinha de heroína. Uma cheiradinha não faria mal, não quando a ansiedade o estava deixando louco. Raul já devia ter chegado com novas informações! Aquele lugar não era totalmente seguro afinal, nenhum lugar era seguro quando se ousava investigar aquela maldita família!

Desta vez tinha ultrapassado todos os limites naquele trabalho.

Ele sacudiu a cabeça, sentindo a química da droga domar cada pedacinho de seu ser. Suas pupilas dilataram e o sangue correu mais forte em suas veias, deixando um sorriso insano se esboçar em seus lábios finos e trincados pelo frio.

Naquela noite ele seria conhecido no mundo todo, desde a Interpol,  DEA até o FBI. O cara que conseguiu pegar os Von Kern.

Ele gargalhou, inclinando-se sobre a mesinha mais uma vez e dando um fim naquelas fileiras branquinhas e preciosas.

O relógio soou a meia noite, atraindo seu olhar ansioso.

E foi nesse instante que ele ouviu o som suave… Suave como um aviso sórdido.

A porta de titânio do galpão explodiu numa chuva de metais pontiagudos, atingindo-o no rosto algumas vezes. O Gjuetar se jogou ao chão, gemendo de dor e tocando o rosto cravado de pequenos pedacinhos de titânio.

Mas que porra!

O medo invadiu seu ser no mesmo instante, fazendo-o lamentar não ter ido se aliviar no banheiro. Tinha a ligeira impressão de que o macho dentro de si o abandonaria e liberaria a versão mais covarde de si mesmo.

Usando a mesa como uma espécie de proteção, ele deu uma pequena espiada na direção da porta. Só para constatar a beldade mortífera que vinha em sua direção.

Para o inferno com o orgulho! Fez xixi nas calças ali mesmo.

A Besta de Bergen.

A maldita que aterrorizava a Escandinava há tantos anos, espalhando um rastro de sangue fresco e corações dilacerados.

A matriarca Von Kern o havia achado, afinal de contas. Mas o que o fazia pensar que ela não o acharia?

Ele riu de sua própria imbecilidade. Seus amigos estavam certos a final, ele deveria ter permanecido em suas aventuras simples, caçando criminosos menores. Mas sua ambição o colocou naquela situação… E agora era a hora de enfrentar a leoa enfurecida.

Tomado de uma coragem surpreendente e guiado pela heroína, o Gjuetar se ergueu do chão e encarou a Besta. Sua mão repousada em sua pequena pistola atada á cintura. Os olhos cruzaram-se com os da mulher e sua alma estremeceu. Há quem dizia que ela fora extremamente linda no passado… Uma beleza predadora.

A velha trajava vermelho, uma cor ousada e ultrajante naquele frio. A bota negra e pesada trazia neve acumulada, assim como a capa longa que usava. Seus olhos azuis eram mortais, e traziam uma promessa maléfica, os lábios comprimidos em deboche.

Ela mirava uma pistola antiga para seu oponente e na outra mão trazia uma corrente grossa e cheia de ganchos – uma visão perturbadora.

O Gjuetar desistiu de tentar lutar, olhando bem para aquela imagem saída de seus piores pesadelos, e decidiu correr. Virando-se na direção da saída, ele iniciou sua fuga para a estrada da salvação.

No entanto, a Besta era sempre muito mais ligeira. No movimento gracioso, ela lançou seu laço sobre o fugitivo e o enganchou com a corrente pesada. Os ganchos de metal se prenderam à carne do Gjuetar num doloroso abraço e ela o puxou.

Ele gritou ao ser arrastado pelo chão imundo, sentindo sua carne se rasgar com a velocidade. Quando abriu os olhos, deparou-se com o olhar enfurecido da velha.

– Sulten Løvinne – ele balbuciou.

A Besta deu um sorriso imperturbável.

– É como vocês, caçadores, me chamam? – perguntou ela em sua língua materna.

– É como o mundo a conhece. – respondeu o homem, cauteloso. – A Besta de Bergen.

A velha gargalhou.

– Besta é? – riu de novo. – Vejamos por que eu tenho esse nome… – ela puxou a corrente, levantando-o do chão em meio a lamentos.

Os olhos turbulentos da mulher se fixaram nos dele.

– Diga-me, caçador, o que lhe fez me atrair a um país de merda como esse só para lhe caçar?

O homem a encarou com firmeza, mantendo aquele pequeno disfarce. E então sorriu.

– Estávamos esperando por você.

Com um pequeno assovio, ele fez surgir oito homens das extremidades do galpão.

Como soldados bem treinados, os sujeitos se aprumaram com suas metralhadoras profissionais.

A velha deu um pequeno sorriso.

– Todos caçadores, como você?

– Acontece que estamos cansados de nos esconder nas sombras, temendo a Besta de Bargen. – o rapaz começou, livrando-se das correntes pegajosas e assumindo um lugar ofensivo ao lado da mulher. – Resolvemos nos unir e pegar você.

Ela avaliou os outros.

– Um plano inteligente. – concluiu. – Uma pena que não tenham te ensinado a não cutucar uma Besta!

Num movimento rápido, ela lhe deu um golpe na garganta, cortando a carne com a lâmina afiada de uma adaga. O sangue jorrou espesso, engasgando o rapaz que caiu, fixando os olhos surpresos na velha poucos segundos antes de ser levado pela morte.

Ela se virou para os outros homens, erguendo uma sobrancelha.

– Quem será o próximo a se curvar à minha fome?

Corajosos, os caçadores decidiram enfrentar a fera. E acabaram despedaçados.

A Besta usou de suas habilidades para se esquivar dos golpes dos oito adversários, chutando, atirando e enlaçando-os com sua corrente horripilante. E quando a fome grunhiu, ela finalmente os despedaçou, manchando os muros daquele galpão de vermelho.

Em oitenta anos, nunca houve um massacre tão brutal.

E foi exatamente nessa noite que o nome de Fridda Von Kern aterrorizou as demais gerações de caçadores de recompensas.

Fridda voltou seus olhos para o presente.

Aquelas lembranças eram por demais saborosas. Olhando para Halle agora quase não podia culpa-lo pelo olhar aterrorizado com que a fitava. Já havia visto esse olhar em milhões de rostos ao longo de sua vida…

Mor – Klaus a chamou.

Fridda desviou os olhos para o filho.

– Por onde devemos começar?

– Vamos rastreá-lo.

Em poucos minutos a Matriarca da Família estava em movimento, conduzindo todos ao sofisticado escritório da mansão onde se ocuparam em checar seus melhores contatos e programas internacionais em busca de qualquer propriedade no nome do búlgaro. Tarefa árdua encontrar um Magnata tão exímio na estratégia de se esconder.

Halle ficou em silêncio, sentado numa cadeira de veludo ao fundo do aposento. A cara de poucos amigos era notável. Sua camisa escura ainda estava manchada de sangue, onde a ferida seguia aberta. Ele olhou desconfortável para o ombro.

A maldita bala ainda se encontrava cravada em sua carne.

– Quer ajuda com isso? – Sander perguntou, aproximando-se dele.

– Não. Preciso apenas de uma faca.

O garoto deu uma risadinha sem humor e retirou uma pequena adaga ornamental de seu coldre.

– Isso deve funcionar.

Halle agradeceu silenciosamente e apanhou a adaga pelo cabo de couro. Com um puxão rasgou a camisa preta e expôs o ombro ferido. Respirando fundo, ele usou a ponta da lâmina como pinça, enfiando-a na carne dilacerada e cutucando-a até que a bala saísse.

Uma pequena pontinha metálica caiu no chão num surdo baque, aliviando seu sofrimento.

Halle respirou aliviado.

– Acho que vai precisar de pontos. – Sander disse, avaliando o ferimento que vertia um pouco de sangue.

– Não se preocupe com isso.

– Vai precisar, sim. – Fridda disse, sem desviar os olhos do computador ao longe. – Tem um kit de primeiros socorros no banheiro do corredor. Sander, cuide disso.

Halle resmungou alguma coisa.

A velha voltou seus olhos, impaciente, para ele.

– Se quer se juntar a nós, precisa estar em perfeitas condições. Por favor, colabore. Seria uma pena vê-lo morto.

– Acha que um tiro como esse vai me matar?

– Não. Mas eu posso perder minha paciência e lhe meter uma bala nos testículos caso você não colabore. – ela ergueu as sobrancelhas.

Halle deixou escapar um sorrisinho, contra sua vontade.

Paciente, permitiu que o garoto ruivo o costurasse enquanto ouvia as centenas de ligações que o restante da família fazia. Sua paciência estava se esgotando com toda aquela demora. Será que não viam que isso só os atrasava? Havia jeitos melhores de encontrar Cherry!

Sander franziu os lábios e o fitou com compreensão.

– Sei o que sente.

Halle voltou seus olhos para ele.

– Eles a pegaram também. Sua Willa.

– É. Pegaram sim.

– Homens como Bóris Petrov pegaram minha irmã também.

– Eu ouvi alguma coisa a respeito.

– É claro que ouviu. – Halle fez uma breve pausa. – Minha irmã não teve um final feliz. Vamos nos certificar que Cherry e Willa tenham.

Ele se levantou, ignorando as fisgadas no ombro.

Aproximou-se da mesa enorme em que Fridda e Klaus estavam amontoados, analisando documentos e históricos.

– Isso é perda de tempo. – disse o caçador, interrompendo-os.

Fridda desviou os olhos da tela do notebook, mais uma vez com impaciência.

– Não vão achar Bóris desse jeito! Acha que ele não se preveniu para um caso como esses? Não é idiota! – Halle disse numa enxurrada de palavras.

– Você sugere outra abordagem? Porque somos todo ouvidos. – foi a vez de Klaus falar.

– Precisa falar com alguém que saiba das coisas. Alguém que tenha todo tipo de contato. Passe-me o telefone.

– Para quem vai ligar? – o nórdico olhou feio para ele.

– Passe a porra do telefone!

– Menino mal educado. – Fridda repreendeu.

– Não sou mais um menino, senhora. E minha mãe me educou muito bem. – Halle a olhou com paciência. – Estou tentando ajudar. Dê-me o telefone.

– Dê a ele. – a velha ordenou.

Klaus apanhou o aparelho sem fio e o entregou.

– Se querem encontrar Bóris precisam de alguém que comande as coisas aqui em New York, alguém que seja neutro dentro do território. E precisam de uma ajuda extra.

Halle discou um número pouco acessado por ele.

Quando a linha deu sinal, sua voz soou rouca.

– King, preciso encontrar Meera.

Ouviu-se um chiado agudo.

Fridda, Klaus e Sander encaravam o caçador como se ele tivesse acabado de chutar o gato da família.

Halle continuou falando ao telefone.

– Não, eu preciso encontra-la agora mesmo! Sem joguinhos.

      – O que está acontecendo, Halle? – A voz de King mudou imediatamente e ele se empertigou em sua poltrona de camurça.

– O Búlgaro levou Cherry. – a voz do caçador veio como um chute no saco.

– O quê?!

      – Se você tem qualquer pista sobre onde ele possa estar, essa é sua chance de dizer.

      – Eu não tenho a menor ideia de onde encontrar aquele miserável. Já disse isso a Cherry milhões de vezes. Como isso aconteceu?

      – Não tenho tempo de explicar. Preciso de Meera.

      – Onde você está?

       – Isso não interessa.

      – Bennett, sem joguinhos comigo! Diga-me onde você está.

      – Digamos que com uma companhia interessante. Não tenho tempo para demorar nos detalhes, honestamente, sequer deveria estar enrolando com você ao telefone. Basta me dizer onde encontrar Meera e tudo se resolverá. E não me venha com piadinhas que ela me encontrará assim que seu nome for sussurrado ao vento!

      – É assim que ela ouve o chamado.

      – Deixe de besteiras, Mouro!

     – Ótimo! Onde está, maldito caçador?! Se quer Meera terá que me dizer. Se acha que ficarei de fora está muito enganado. Cherry é minha amiga.

 

Halle pareceu refletir.

O Mouro seria de muito ajuda.

– Von Kern. – disse ele. – Estou na mansão Von Kern.

Ouviu-se um palavrão do outro lado da linha.

      – Estarei aí em quinze minutos. – King prometeu e desligou.

Halle voltou o telefone no lugar e finalmente encarou os outros.

Fridda balançava o pezinho com impaciência.

– Quer me dizer por que infernos convocou uma mercenária à minha casa?

– Porque se tem alguém capaz de encontrar Bóris Petrov, esse alguém é Meera.

O olhar do caçador fora tão franco que calou a mulher.

– Temos que usar qualquer recurso possível. – Sander concordou.

– Não me agrada trabalhar com mercenários.

– Também não me agrada trabalhar com a Besta de Bergen, mas aqui estamos. – Halle disse, encarando a mulher.

– Mas que mal agradecido! – Fridda lhe deu um safanão. – Eu lhe salvo a vida e é isso o que recebo em troca?

– Sinto muito se feri seus sentimentos, vovó.

A velha rosnou.

Sander riu.

E Klaus revirou os olhos.

King levou o equivalente a catorze minutos para chegar até a Mansão. Como um bom homem de negócios, ele tinha total acesso àquela casa a hora que quisesse. Estacionou seu Bentley ao lado do canteiro de flores silvestres e acenou para os seguranças antes de sair do carro.

Suas vestes eram igualmente simples à dos demais, uma calça folgada, camisa social preta e botas pesadas de couro italiano. Mas a elegância natural do Mouro acabava ali mesmo. Em seu peito largo e musculoso pendia um coldre ultra moderno, preenchido com duas pistolas calibre 9mm e um canivete suíço.

Sua expressão fechada contribuía para a fama de severo que ele tinha. E naquele dia não era diferente. Esta muito puto da vida!

Halle o recebeu no hall, junto aos outros.

– Onde ela está? – inquiriu logo o caçador.

– Calminha aí, Amigo. Primeiro vai me contar o que diabos está acontecendo! Cherry nas mãos do búlgaro de novo?!

Seus olhos negros se voltaram para Klaus.

O mafioso se aproximou com formalidade, oferecendo a mão num cumprimento honroso.

– King.

O Mouro aceitou o cumprimento, respeitosamente.

– O que houve, Klaus?

– Uma fatalidade. Já estamos cuidando para resolver tudo. Não precisa se preocupar. Os Von Kern sempre cuidam de quitar as dívidas, não é mesmo?

– Uma dívida como essa é valiosa demais para se cobrar sozinho, querido amigo.

– Sabemos disso.

– Ora, parem com essa conversinha! – Halle perdeu a paciência novamente. – Estamos aqui nos esbaldando em elegância, discutindo sobre nada e fazendo planos a esmo enquanto Cherry está com aquele miserável! Vamos, King! Diga onde está Meera!

– Acalme-se, Caçador. Ou eu farei isso por você. – Klaus o olhou feio, deixando claro sua desaprovação diante de tamanha falta de elegância.

– Estamos fazendo o que podemos. Procurando devagar para não deixar nada despercebido. Não podemos enlouquecer ou essa será a nossa queda. – Fridda concordou.

Halle lançou um olhar enfurecido ao nórdico.

– Talvez, se você não tivesse perdido tanto tempo em esbanjar sua elegância fina, Cherry houvesse saído ilesa da primeira vez.

Klaus soltou um rosnado do fundo da garganta e seu punho afundou-se no rosto do caçador insolente.

Halle cambaleou em direção à parede, surpreso. Seus olhos furiosos miraram o agressor. Ele respirou fundo, esfregando o queixo.

– Atreva-se a dizer mais uma besteira dessas e eu juro que estouro seus miolos e os dou aos meus cães! – Klaus cuspiu as palavras, furioso. – Acha que não fui atrás da minha sobrinha?! Acha que não esgotei todos os meus recursos procurando-a em todos os cantos deste maldito mundo!

– Parece que seus recursos não foram o suficiente.

– Maldito! – Klaus avançou novamente contra o rapaz, mas Sander se interpôs entre os dois.

O garoto olhou o pai de forma séria.

– Isso não vai nos ajudar agora, Pai. – disse, sensatamente.

– Ele tem razão. – Fridda concordou, colocando uma mão confortadora no ombro do filho.

– Esse miserável merece uma boa surra! Como se atreve entrar em minha casa e dizer tais coisas?

– Eu não queria estar em sua casa! – Halle o enfrentou. – Por mim estava lá fora, fazendo alguma coisa de útil! Caçando o búlgaro!

– Acha que vai encontra-lo, garoto? Acha mesmo que tem mais recursos que nós?

– Eu vou até o inferno por ela!

– E é exatamente disso que precisamos. – Fridda fitou o filho e depois caçador. – Estamos todos desesperados para encontra-las.

– Não é o que parece…

Klaus avançou novamente contra Halle, arrastando o corpo pesado do filho junto.

Sander fez força e empurrou o pai de volta.

Fridda berrou algo em outro idioma, silenciando todos. Seu olhar severo foi o suficiente para acabar com aquela discussão idiota.

– Já chega com essa merda! Vamos nos comportar como pessoas civilizadas e não dar lugar à besta selvagem! Isso não vai ajudar Cherry e Willa.

King pareceu despertar.

– A jovem garota está desaparecida também?

– Desaparecida não. Ela foi levada. – Sander disse por entre os dentes cerrados.

Halle se soltou da restrição do ruivo, dando alguns passos à frente.

– Precisa nos levar até Meera.

– Não vou leva-los a lugar nenhum. Meera virá até vocês.

– Onde ela está?

King deu de ombros.

– Eu não faço ideia. O que? Acha que somos casados ou coisa parecida? Como é que vou saber de todos os passos daquela louca?

– Achei que sabia onde encontrar a mercenária. – disse Klaus, um pouco decepcionado.

– Temos um contato um tanto íntimo. Eu chamo e ela vem.

Fridda revirou os olhos.

– Sussurre aos ventos e ela virá… Essa é a lenda mais estúpida a respeito dos Borsahys que eu já ouvi!

King estreitou os olhos.

– Para uma Von Kern, sabe muito a respeito de Meera.

– Pouco sei sobre essa mercenária, meu rapaz. Exceto que ela pertence a uma organização muito antiga. Eu conheço uma puta que se diz Borsahy, espero que essa característica não faça parte de todos eles. Não quero ter problema com essa mulher.

– Basta manter a boca fechada e não encontrará problemas, minha senhora. – King disse, da forma mais respeitosa que conseguiu.

Fridda aprumou-se.

– Ninguém diz às mulheres desta família para manterem suas bocas fechadas!

– Sinto muito, milady.

A velha estreitou os olhos numa expressão agressiva.

– Não sou nenhuma Lady!

King deu um sorriso malicioso.

– Qual de seus outros apelidos prefere que eu use?

– Acho que entendo por que você é o mais requintado e renomado distribuidor que temos.

– Sou apenas um homem de negócios, senhora. Um homem que teve o prazer de fazer alianças com sua família. Cherry é uma amiga por demais amada. Se ela está com problemas, conte comigo.

– Tal aliança não será esquecida. – Klaus disse, fitando o Mouro com respeito.

– Não vim atrás de benefícios, Nórdico.

– Eu sei que não. – Klaus ofereceu o braço em cumprimento novamente.

Halle revirou os olhos, impaciente.

– Já acabaram, mocinhas? – seus olhos se voltaram para King. – Então, onde encontramos ela? Não temos o dia todo para espera-la dar o ar da graça.

– Pode apostar que vou contar isso à ela. – King girou a chave de seu Bentley nas mãos, o chaveiro de caveira balançando. – Vamos, eu tenho um contato sobre onde ela pode estar.

Os Von Kern conduziram o convidado a uma sala de paredes escuras e portas de madeira pesada ao fim do corredor principal. Quando as portas se abriram num suave rangido, o arsenal se revelou, enchendo os olhos dos convidados de brilho.

As paredes eram forradas de vidraças de cristal, abrigando uma quantidade fenomenal de armas, pistolas, espadas, adagas e qualquer tipo de objeto ofensivo. Havia até mesmo uma Besta de 1521 presa à uma elegante estante de mogno.

King caminhou lentamente pelo piso refinado, apreciando a obra de arte. Ao seu lado, Halle parecia igualmente hipnotizado, observando a coleção interminável dos Von Kern. O que parecia ser uma simples sala se revelou um esconderijo intimidador.

Fridda, Klaus e Sander se apressaram em apanhar tudo aquilo o que precisariam, ignorando o encanto dos convidados. Encheram os coldres de pistolas, granadas e alguns explosivos. Klaus parou em frente um computador de alta tecnologia e começou a batucar os dedos no teclado transparente.

Halle se aproximou das paredes de cristal, observando as pistolas antigas e poderosas. Seus olhos varreram o local com interesse e repousaram num compartimento diferente em meio a tantas outras. O pequeno revolver se encontrava isolado dos outros, majestoso em toda sua elegância.

O caçador pousou os dedos no vidro fino, admirando.

– É dela. – Fridda disse baixinho, ao seu lado. – É a preferida de Cherry, embora ela não a use tanto. Diz que é A Vingança da Caçadora.

Um sorriso quase imperceptível surgiu no canto dos lábios do caçador.

Ele abriu a trava do vidro e retirou a Magnum. A arma encaixou-se com elegância em sua mão.

– Que ela faça valer sua vingança esta noite então.

Fridda assentiu uma vez, aprovando.

– Vamos, Caçador. Vamos buscar sua garota.

– Ela não é minha garota. Cherry não é a garota de ninguém.

– E mesmo assim você quer resgatá-la. – Klaus disse, fitando o rapaz.

– Não teria como ser diferente.

O Nórdico pareceu aprovar, embora seu ar severo nada revelasse. Com apenas um balançar de cabeça, ele se afastou, terminando de se armar.

King os esperou pacientemente. Felizmente não precisava de nada daquela sala. Suas pistolas especiais estavam em seu devido lugar, então tudo estava certo. Olhou em seu relógio uma vez, constatando os poucos minutos que ainda tinha e então conduziu seus companheiros para o Bentley sofisticado.

Sander ignorou a ordem, apanhou o Mustang vermelho e sentou-se em sua poltrona personalizada. Quando suas mãos apertaram o volante de couro e o motor roncou, soube que estava pronto para pegar a estrada para o inferno… Ah, sim… Naquela noite o banquete seria em veludo vermelho!

Halle não esperou por um convite formal, ocupou o lugar ao lado do ruivo e se apressou em ligar o som.

Quando as batidas demoníacas de uma banda antiga começaram a soar pelos alto falantes, eles partiram estrada à fora.

                                                                Aeroporto Central

Meera levantou-se de sua confortável poltrona, ciente de que todos a estavam encarando. Já estava acostumada aos olhares que atraía com aquele seu estilo e aura excêntricos, o que podia fazer? Suas botas fizeram um pequeno e elegante barulho no carpete grosso do avião à medida que ela se dirigia à longa escada e descia os degraus certinhos.

Em sua mente ecoavam milhões de perguntas. Dentre elas, por que King havia se incomodado em ligar e estragar completamente suas férias improvisadas no Caribe. Maldição! Mal havia terminado sua última missão e lá estava ela, abandonando as areias quentes mais uma vez em apenas algumas semanas.

No entanto, recusar um pedido de um velho amigo não era uma opção.

Não quando quem implorava era o Mouro.

Quando passou pelo arco bem elaborado de Bem-Vindo à New York, avistou o amigo parado ao lado de uma pequena lojinha de doces. Ao seu lado estava a corja Von Kern.

A mercenária ergueu as sobrancelhas, surpresa e deu um sorrisinho, finalmente parando numa pose impertinente.

Seu ar sedutor era inconfundível.

– Então… O que é tão importante?

[1] Caçador