Sob Olhos Sombrios Pt.2

Mas não era somente a gentileza que toldava os muros daquela casa.

Havia uma aura estranha. Sombria. Como se algo pegajoso e denso profanasse aquelas paredes.

Ernest se sentia acolhida, paparicada e aceita. Mas aquela aura estranha a intimidava. Como o roçar gélido do vento na madrugada, infiltrando-se pelo corredor escuro e tocando suas pernas num sedoso roçar.

Ela se estremecia toda e corria para o quarto, abrigando-se debaixo das cobertas. Pensando na mãe que a deixara, na solidão angustiante e no silêncio assustador que ecoava pelo hall.

Mark estava sempre calado, perdido em seus pensamentos. O charuto cubano pendendo em seus lábios enquanto degustava a dose de conhaque, sentado em sua poltrona.

Joy sustentava o silêncio do marido, alisando a aliança dourada pousada no dedo ossudo. Seus olhos eram inesgotáveis.

Somente Racoon parecia lidar, realmente, com a tristeza, extravasando a raiva e decepção com o heavy metal num som particularmente alto – o que parecia zombar e desafiar Mark.

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Sob Olhos Sombrios Pt. 1

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Por: Natasha Morgan

Num suave roçar do vento, ela desapareceu.

Ernest

Ela desceu do avião um tanto assustada. Não esperava uma viagem repentina como aquela. Não esperava ter que deixar os campos verdejantes do interior e se arriscar até New York debaixo de uma chuva cinzenta. Não logo após a morte de sua amada mãe.

Mas ela também não esperava ser confrontada com uma notícia como aquela.

Seu pai. Continuar lendo “Sob Olhos Sombrios Pt. 1”

Pavilhão Cinza

*Conto inspirado nos relatos acerca do hospital psiquiátrico de Barbacena.

Por: Natasha Morgan

Aquela não era uma boa época para se usar saias.

Quando coronéis trajando uniformes cáqus e fumando charutos importados assombravam a seca do sertão, manipulando, intimidando e dirigindo o povo carente era um fardo ser a jovem bela e promissora de uma família em ascensão.

Foi o que descobriu Ana naquela tarde fatídica em que estendia as roupas no varal puído de seu quintal. Quando os olhos cinzentos do Coronel Alfredo pousaram sobre seu corpo juvenil e cintilaram em malícia selvagem.

Quando as mãos grossas daquele homem grotescamente perfumado passearam por seu corpo, invasivas. Quando seus lábios secos experimentaram o sabor de sua pele e seus músculos a sufocaram no celeiro, ameaçando afundá-la na palha áspera conforme ele violava sua inocência e fragmentava sua alma.

Ana não pode dizer nada.

O que o Coronel queria, ele pegava.

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The Bite – O que se Esconde por trás das Àrvores

Por: Natasha Morgan

Alguma coisa a mordeu na floresta.

Ela não o viu.

Lembrava-se de estar bebendo com Karen, sua melhor amiga. Saíram do trabalho tarde da noite, passaram numa lojinha 24 horas e comparam uma garrafa de rum. Ideia de Karen ,é claro.

A amiga de longa data se tornara bem diferente depois de se relacionar com aquele motoqueiro estranho do Kansas. Vestia-se de forma mais ousada, estava mais bonita, falava de forma provocante e adotara uma ideias estranhas.

Como estacionar o carro na beira da estrada e sair correndo pela floresta com uma garrafa de rum e uma canção estranha nos lábios rosados.

Lorah sabia que não era uma ideia das mais comuns, mas se deixou levar, seguindo a amiga pelo meio das árvores, dividindo o rum e cantarolando aquela estranha canção. Continuar lendo “The Bite – O que se Esconde por trás das Àrvores”

A Maldição da Cherokee

Por: Natasha Morgan

As vozes estavam sempre sussurrando, roçando seus ouvidos com acidez.

Murmúrios bruscos que lhe arrepiavam a espinha.

Incitavam a sua ira. Fria, cruel, miserável.

Aquelas vozes perturbavam seu sono, tumultuavam sua paz.

Se é que, algum dia, aquela alma conheceu alguma paz.

Dia e noite, aquele zumbido perturbador roçando seus ouvidos, provocando-o.

Aquele murmúrio infernal o fazia bater nela.

Sarah.

A mulher mais bonita que já tinha visto. Mas de pele escura.

Ele não sabia dizer onde seu racismo se formou. Talvez na família em que foi educado, sem nenhuma referencia negra e recheada de comentários maldosos. Talvez em sua própria formação de caráter que não dera muito certo. Sua adolescência fora conturbada, cheia de drogas e com uma boa dose de violência e raiva.

E era assim que ele justificava suas atitudes cruéis. Minguava a expressão, tempesteava os olhos escuros e dizia que era fruto de sequelas de seu tempo nas drogas. Eximia-se de qualquer culpa por seu comportamento. Continuar lendo “A Maldição da Cherokee”