Pavilhão Cinza Pt. 3- O Resgate de um Corpo

Por: Natasha Morgan

O negociador estava atrasado.

Em trinta anos de carreira acadêmica, chefiando os interesses da universidade sempre tratou da negociação dos espécimes na hora exata.

O comércio era simples e dentro da legalidade. Ao menos ninguém jamais cogitou inquirir a universidade acerca de onde conseguiam os corpos para os alunos estudarem. Ambos os lados lucravam. O conhecimento e o cofre do Colônia.

O dinheiro era entregue e os carniceiros – assim os chamava Palmer devido à aparência grotesca – descarregavam o caminhão nos fundos da instituição, longe dos olhos curiosos dos alunos. Não precisavam saber de onde vinha a matéria prima para seus estudos.

Palmer era um estoico. Sempre elegante em seu tweed cáqui. A ideia de corpos misteriosos vindos de um hospital psiquiátrico não lhe assombrava as noites desde que houvesse um meio para seus alunos aprenderem e se tornarem excelentes profissionais. A causa da morte não lhe era pertinente. Nem os meios pelos quais eram transportados ou a sepultura vazia que deixavam diante de mães chorosas.

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Sob Olhos Sombrios, Pt. 03

Joy sovava a massa de pão naquela noite.

Algo que gostava de fazer, misturar seus grãos e toldar aquela maçaroca num fabuloso pão caseiro e integral.

Mark já havia prometido que os quitutes da esposa eram fabulosos.

E vendo a madrasta trabalhar com as mãos enérgicas, Ernest acreditara.

Seus passos, sempre silenciosos, desceram a escada angulosa de madeira, levando-a para as dimensões calorosas da cozinha. Foi onde encontrou a madrasta, cantarolando enquanto trabalhava.

Acanhada, mas não contendo a curiosidade, Ernest se aproximou e sentou numa das cadeiras, observando-a.

Joy sorriu.

– Quer me ajudar?

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Pavilhão Cinza – A Fuga

Por: Natasha Morgan

O primeiro a perecer sob as garras gélidas de Sofia fora o enfermeiro responsável pelo pavilhão A-10.

O Pavilhão A-10 era conhecido pelos gritos enlouquecidos do paciente que se mantinha amarrado à cama cinzenta. E a barbárie com que era tratado pelo enfermeiro Ronaldo.

Qualquer um que se aproximasse das portas chumbadas ouviria os gritos que povoavam os corredores numa súplica sôfrega. Um alerta perigoso.

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Sob Olhos Sombrios Pt.2

Mas não era somente a gentileza que toldava os muros daquela casa.

Havia uma aura estranha. Sombria. Como se algo pegajoso e denso profanasse aquelas paredes.

Ernest se sentia acolhida, paparicada e aceita. Mas aquela aura estranha a intimidava. Como o roçar gélido do vento na madrugada, infiltrando-se pelo corredor escuro e tocando suas pernas num sedoso roçar.

Ela se estremecia toda e corria para o quarto, abrigando-se debaixo das cobertas. Pensando na mãe que a deixara, na solidão angustiante e no silêncio assustador que ecoava pelo hall.

Mark estava sempre calado, perdido em seus pensamentos. O charuto cubano pendendo em seus lábios enquanto degustava a dose de conhaque, sentado em sua poltrona.

Joy sustentava o silêncio do marido, alisando a aliança dourada pousada no dedo ossudo. Seus olhos eram inesgotáveis.

Somente Racoon parecia lidar, realmente, com a tristeza, extravasando a raiva e decepção com o heavy metal num som particularmente alto – o que parecia zombar e desafiar Mark.

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