Pavilhão Cinza Pt. 3- O Resgate de um Corpo

Por: Natasha Morgan

O negociador estava atrasado.

Em trinta anos de carreira acadêmica, chefiando os interesses da universidade sempre tratou da negociação dos espécimes na hora exata.

O comércio era simples e dentro da legalidade. Ao menos ninguém jamais cogitou inquirir a universidade acerca de onde conseguiam os corpos para os alunos estudarem. Ambos os lados lucravam. O conhecimento e o cofre do Colônia.

O dinheiro era entregue e os carniceiros – assim os chamava Palmer devido à aparência grotesca – descarregavam o caminhão nos fundos da instituição, longe dos olhos curiosos dos alunos. Não precisavam saber de onde vinha a matéria prima para seus estudos.

Palmer era um estoico. Sempre elegante em seu tweed cáqui. A ideia de corpos misteriosos vindos de um hospital psiquiátrico não lhe assombrava as noites desde que houvesse um meio para seus alunos aprenderem e se tornarem excelentes profissionais. A causa da morte não lhe era pertinente. Nem os meios pelos quais eram transportados ou a sepultura vazia que deixavam diante de mães chorosas.

Barbacena era conhecida por abrigar almas indesejadas. Os corpos que ficavam para trás poderiam ser úteis à sociedade.

Ao menos era o que desejava naquela madrugada brumosa, no aguardo dos caminhões.

O vento uivava, infiltrando-se pelas pilastras. Sombrios em sua magnitude. Jamais houve noite tão escura. As brumas encobriam a escuridão como braços protetores, escondendo sombras perigosas em sua imensidão.

Palmer se encolheu no paletó de tweed, apertando os óculos de aro tartaruga para enxergar melhor por entre as brumas. O pezinho impaciente, coberto por sapatos de couro de jacaré. Batiam impacientes na calçada.

Um ronco se aproximou, vindo da noite fria. Faróis iluminaram a faixada do prédio, anunciando a presença dos contribuidores. O caminhão estacionou na alameda. A porta se abriu num ranger sensual.
Mas o que saiu não foi um carniceiro, como o Dr. Palmer estava acostumado. Nada de homens grotescos vestidos em trajes sujos e exibindo dentes podres.

A contribuinte usava um vestido vermelho.

E exibia toda a sensualidade que sua espécie conhecia.
A pele era delgada, sustentava o vestido perfeitamente. Os cabelos eram longos, castanhos e sedosos. O rosto parecia uma perfeição saída das mãos habilidosas de Botchelli.
Palmer se aproximou, ansioso e confuso.

A mulher curvou os lábios vermelhos num sorriso indulgente.

– É o senhor que recebe os corpos?

Palmer assentiu, um tanto abobado.

A estranha o encarou com aqueles olhos castanhos imperceptíveis. A língua rosada roçou os lábios tingidos de vermelho. Seus passos elegantes a levaram até a traseira do caminhão. Ela abriu as portas e apontou para o interior.

– Espero que estejam ao seu gosto.

Palmer espiou lá dentro e recuou, horrorizado.

O aroma já denunciara o espetáculo grotesco.

Uma pilha de corpos ensanguentados preenchia o interior do caminhão.

– Suponho que tenha que limpá-los antes de poder usufruir deles.

– Isto é… – Palmer parecia não ter palavras para descrever o horror.

A mulher o fitou com curiosidade.

– Não entendo seu horror, Doutor. Não é sua instituição quem financia esta carnificina?

Palmer retirou um lenço do bolso do paletó e cobriu a boca, afastando-se.

– Jamais vieram em tão mal estado.

A estranha sorriu, perigosamente.

– Oh, devo desculpas. Uma fúria sem limites foi libertada dentro daquelas paredes.

Palmer a fitou com cautela.

– Quem é você? Onde está Rogério e Tomás?

A mulher sorriu e apontou para a pilha de cadáveres profanados.

Palmer recuou, assustado.

– Por favor, Doutor, não seja rude. Eu e você temos assuntos a tratar.

Ela aproximou as mãos do corto envelhecido do homem, as unhas roçando as rugas secas.

– Temos uma amiga em comum. – a voz dela era sedosa. – Lembra-se de um corpo bonito, jovem e alvo no qual o senhor tão profanamente se esbaldou?

Palmer balbuciou curtas palavras inteligíveis.

Os olhos dela cintilaram.

– Impossível não se lembrar. Ela me contou de sua obsessão pelo corpo.

Os pequeninos olhos dele se encheram de lágrimas, ampliados pela lente fundo de garrafa.

– Você se lembra.

– Eu não queria…

– Todos os homens dizem isso. Leve-me até ele.

Ela ajudou o homem abobalhado se levantar e ele a conduziu pelos corredores azulejados. O cheiro de formol lhes queimou o nariz.
O laboratório era límpido, assombroso com tantas gavetas metálicas fechadas, guardando infinidades de corpos traficados. Corpos vazios de tumbas vazias.

Palmer cambaleou pelo ladrilho, aproximando-se de uma gaveta especial. Puxou a fivela prateada que pendia do metal frio e exibiu o corpo conservado por tantos anos.

A estranha emitiu palavras mudas.

Sofia.

Como se invocado, o espírito se manifestou.

As brumas se turvaram e a garota apareceu, sua sombra fantasmagórica abraçando o corpo com carinho. De seus lábios crispados saiu um guincho de alívio.

Palmer se esquivou, trombando com uma mesa metálica atrás de seus pés cambaleantes. O estrondo atraiu o olhar feroz do fantasma. Aquelas pupilas avermelhadas se fixaram no rosto do velho, cintilando em raiva.

– Eu não queria… – balbuciou o acadêmico, empesteado de culpa.

– Não queria permitir que seus alunos se divertissem com um corpo tão belo?

A voz fantasmagórica era sedosa, cálida. Muito diferente da ferocidade de seus olhos assombrosos.

Palmer balançou a cabeça em negativa, as lágrimas transbordando dos olhos enrugados.

O fantasma sorriu, cruelmente.

– Não há lágrimas o bastante para o que fez comigo.

– Era só um corpo. – Palmer tentou justificar.

– O corpo com uma alma que chora. – a mulher elegante se fez ouvir.

Ali estava ela, apoiada sutilmente no armário contendo as gavetas metálicas. Muito confortável com a situação. Como se o fantasma não assombrasse suas convicções de realidade.

Para Palmer aquilo soava horripilante.

Sua postura estoica se foi no instante em que sentiu a aura do ser fantasmagórico.

A culpa o sufocava. E a ausência da razão lhe impelia para precipícios ferozes.

– Eu sinto muito, Doutor. – disse a bela mulher de vestido vermelho. – Receio ter que roubar o corpo que o senhor tão nefastamente contemplou e explorou.

Ela se aproximou da gaveta metálica e puxou o corpo.

– Sua universidade pode usufruir do que há no caminhão. Como uma recompensa justa. – seus lábios se curvaram em desgosto.

Palmer a observou, embasbacado, arrastar o corpo com dificuldade até a porta.

Ele poderia se permitir respirar com alívio não fosse o olhar diabólico do fantasma fixado em seu rosto.

A mulher se interrompeu, na porta.

– Oh, sim. – ela sorriu beatificamente. – Minha amiga ainda tem fome.

Os olhos vermelhos cintilaram.

– Um último banquete antes de finalmente repousar junto ao meu corpo. – Sofia prometeu a si mesma.

Palmer sugou o ar com desespero. Antes que as garras fantasmagóricas fincassem em sua garganta.

Sofia refestelou-se, bailando uma sinfonia de Bethoven enquanto a vítima agonizava nos ladrilhos profanados. Os pezinhos descalços e pálidos flutuavam por cima do sangue, roçando uma pintura diabólica.

Pelos corredores frios surgiu o ímpeto de risadas.

Vozes animadas.

Corações pulsantes.

O fantasma interrompeu seu bailar, inspirando o ar languidamente.

Seus olhos se turvaram e os lábios formaram um sorriso cruel.

– Sofia. – a mulher de vermelho a chamou. – Chega de corpos.

– Meu desejo é forrar essa universidade corpos. – confessou o fantasma.

– E o meu é lhe oferecer a paz.

A mulher lhe ofereceu a mão num gesto gentil.
Resignada, a névoa a acompanhou.

A chuva fria amaciava a terra do Cemitério do Desterro naquela manhã tão nebulosa. Ana cavara a sepultura sozinha, seu vestido encontrava-se arruinado, os cabelos despenteados e as unhas sujas de terra.

Mas o corpo fora depositado cuidadosamente em seios macios.

Coberto por camadas gentilmente despejadas.
Uma prece amável fora recitada enquanto o lamento de um fantasma ecoava por entre o uivar do vento.

Sofia se balançou na beira de sua sepultura, abraçando a si mesmo enquanto cantava uma suave canção de ninar que aprendera com a mãe.

– Você pode ir agora.

A voz de Ana era doce, gentil.

Os olhos tristes se voltaram para ela.

– Para onde vou depois de tantas atrocidades?

– Descansar. Depois de tantas atrocidades cometidas contra você, é o mínimo que merece.

O fantasma flutuou.

– Acredita que as almas são punidas por seus feitos?

– Acredito que já foi punida o suficiente. Sem ter cometido tantas atrocidades para um crime tão vil.

Sofia sorriu.

– Aonde quer que eu esteja, estarei olhando por você, breve e fiel amiga.

– Descanse.

O fantasma roçou suas brumas no rosto da amiga uma vez, despedindo-se. E então mergulhou na sepultura fria, soltando um suspiro aliviado. A terra a acolheu, compreensiva em seu seio maternal. E, de repente, a manhã se tornou mais bela.

Ana deixou para trás uma rosa.

E toda a doçura que havia em seu coração.

Era hora de fazer sua própria jornada.

Pagar suas dívidas de sangue.

Um dia ela repousaria bela e plena numa sepultura fria. Mas não antes de colher o mal que profanou sua alma.

Continua!

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