Nicolau II

Escrito por Naiane Nara

Neve e mais neve. A tempestade não mostra sinais de amainar. Costumava gostar da sensação do vento frio na pele, porém percebo que não é tão bom quanto me lembrava.

É claro que antes eu morava em outro lugar e costumava vestir roupas mais quentes.

O fato de estar livre de minhas antigas obrigações trouxe um imenso alívio. Eu sonhei com uma vida simples de nobre rural; sempre gostei de exercícios ao ar livre, de participar de manobras militares. Era o que eu considerava estar ativo.

A vida porém, tinha outros planos para mim. Czar, imperador, comandante em chefe do maior país da Terra.

Meu pai era a encarnação de um verdadeiro soberano russo: muito alto, mais forte e feroz do que as pessoas comuns, quase sagrado, exalando força simplesmente ao andar.

Jamais me esquecerei do atentado à nossa família naquela viagem de trem. Depois que a bomba explodiu e ficamos presos nos destroços, meu pai se levantou como um gigante das histórias antigas e desamassou as ferragens com as próprias mãos o suficiente para que pudéssemos sair, praticamente ilesos.

Nesse dia eu soube que jamais me igualaria a ele.

Minha juventude foi despreocupada. Czarevich, grão-duque herdeiro do Titã Alexandre III, parecia que meu reinado era algo quase tão distante como as nuvens do céu. Negligenciado em meus deveres de aprendizagem do governo, viajei, frequentei diversos bailes, conheci muita gente.

Houve minha história com a graciosa bailarina Matilde, que alegrias! Joguei em alguns elegantes cassinos, fui a festas com oficiais, como se fosse um deles. Foi divertido e parecia que poderia durar para sempre.

Mesmo quando me mostrei irredutível a decisão de meus pais de me casarem com aquela moça francesa, por desejar com toda a minha alma a princesa germânica Alice de Hesse que conheci ainda adolescente, não pensava em nos tornar monarcas.

Pensava em passar mais tempo com ela, trocar poemas, viajar, fazer um santuário só nosso onde as pessoas jamais teriam acesso.

A recusa de meus pais causada pela resistência de Alice em se converter à Ortodoxia só foi vencida pela iminente e destrutiva doença de meu pai, quando então pude mandar trazer a princesa para nos tornarmos noivos; eles finamente deram sua permissão. Alice se converteu à Igreja Ortodoxa como a lei ordenava que o fizesse a fim de estar apta para se tornar minha esposa. Ao fazê-lo, adotou o nome russo de Alexandra, em homenagem ao Czar, embora muitas pessoas sussurrassem que esse nome na família Romanov só trouxe tristeza e infelicidade.

A Morte finalmente troçou de nós e Alexandre III deixou esse mundo graças à uma doença renal que o debilitou tão rapidamente que ninguém esperava; tinha apenas 49 anos quando se foi.

Eu subi ao trono muito jovem e despreparado. Apesar de ser contra todas as convenções, não permiti que Alexandra voltasse para Hesse a fim de postergar o casamento para o final do luto. Nos casamos muito rapidamente, no dia do aniversário de minha mãe, a Imperatriz viúva; eu não poderia ficar sozinho, não naquele momento. Ela era a única em quem confiava, minha mãe estava perdida em sua própria dor para me ajudar.

Houveram sussurros novamente, que Alexandra chegava à Rússia atrás de uma mortalha e aquilo não poderia significar boa sorte. Os sussurros foram ignorados, não éramos um bando de ignorantes supersticiosos.

Casei com a mulher que amava, mesmo sendo agora um Imperador, que sorte me havia sido reservada! Todos os nossos se casavam apenas por convenções e alianças. Como poderia dar errado?

Mas então, Khodynka.

Os primeiros dois anos de reinado foram tumultuados e apressados. Eu tinha muito que me inteirar sobre os assuntos do governo, e também tivemos nossa primeira filha, Olga. Devido a isso, nossa coroação só foi realizada após esse período de adaptação, em 1896. Um banquete comemorativo foi organizado no Campo de Khodynka, que infelizmente acabou degenerando em uma tragédia devido a um triste e infundado rumor de que não haveriam cerveja e presentes para todos. Eu e Alexandra fomos informados somente muito tempo depois, e tivemos que comparecer ao banquete da noite na embaixada francesa a contragosto, por insistência dos ministros e de meus tios, os grão-duques. Isso se mostrou uma péssima idéia, como vimos depois. O povo russo viu nossa atitude como indiferença pelas mortes ocorridas na confusão, alguns até amaldiçoaram nosso casamento.

Com alguma dificuldade, seguimos na direção de superar esse episódio e fazer um bom reinado. Alexandra, minha amada esposa e Czarina, me deu um bebê a cada dois anos, totalizando quatro lindas grã-duquesas na família: Olga, Tatiana, Maria e Anastasia. A lei russa não mais permitia que mulheres subissem ao trono como governantes, e apesar de estar imensamente preocupado nesse sentido, adorei minhas filhas como a ícones de santos no altar.

Eu as amei, me dediquei a elas. Senti muito não ter mais tempo disponível para vê-las crescer. Trocaria de bom grado o trono e a riqueza russa por uma propriedade rural com minha família, por dias com minha mulher e minhas filhas.

Alexandra criou para nós um mundo particular. Sua saúde começou a dar mostras de desgaste, mas ela fazia o possível para manter a atmosfera familiar única de tal maneira que nos isolamos das pesadas regras da corte, os fingimentos, as mentiras. Queríamos nossas meninas longe disso e assim foi.

Então veio nosso presente, quando menos esperávamos: um filho, nosso adorado Alexei, aquele que reinaria depois de mim.

Porém a Vida me castigaria por tamanha felicidade. Nosso filho era hemofílico, como os demais descendentes da Rainha Vitória da Inglaterra, avó de Alexandra. Qualquer corte, qualquer arranhão, um espirro mais forte poderia resultar em crises horrendas de dor e hemorragia à nosso menino.

Alexandra, as meninas e eu vivemos em função dele. Ninguém deveria saber da fraqueza do herdeiro russo. Jurei a Alexei que lhe entregaria a coroa como autocrata que a recebi, nada de parlamentos, nada de conceder favores a revolucionários. A Rússia não se governaria sozinha. Não envergonharia meu pai nem minha casa sendo o elo fraco da corrente.

Alexandra se mostrava ainda mais inflexível que eu nesse sentido. Não poderíamos conceder liberdade e danificar a herança de nosso filho, ela sempre me dizia. Era reconfortante ver que pensávamos de acordo.

A guerra contra o Japão veio e se foi, me envergonhando. Jurei que a Rússia não passaria por outra derrota humilhante.

Rebeldes se insurgiram contra o governo. Fui severo, como meu pai. O povo entenderia, como entendeu antes. Era preciso a monarquia para ter a paz num país tão grande como esse. Era preciso força… E unidade.

Ao menos era nisso que eu acreditava.

Então, o Domingo Sangrento: resultado de uma falta de comunicação terrível que matou várias pessoas.

O tal padre Gapon encabeçou uma marcha de pessoas que se dirigiam a mim para expor seus problemas, apresentar uma petição. Eu estava em outro palácio, Tsarskoe Selo, com Alexandra e as crianças, onde passávamos a maior parte do tempo em doce reclusão familiar. Ninguém tencionava me avisar. Tentaram negociar que outro membro da família imperial recebesse a petição no Palácio de Inverno, que era para onde se dirigiam, o que foi negado por Gapon. Os ministros decidiram chamar reforços do Exército e me informaram na noite anterior à tragédia apenas que haviam pessoas se dirigindo à cidade e que medidas de emergência haviam sido tomadas; um relatório falho e incompleto. Os reforços de cossacos e hussardos chegaram e se colocaram a postos para que as coisas não saíssem do controle, e é claro que elas saíram. Quase cem pessoas foram mortas e muito mais foram feridas. Desnecessário o confronto, já que a marcha era pacífica; as pessoas não estavam armadas e portavam ícones dos santos e retratos meus enquanto cantavam: “Deus salve o Czar”. Mas bastou o primeiro susto, o primeiro tiro, para esta tragédia nascer e manchar para sempre minha imagem perante os súditos. Nesse dia, foi como se a aliança mística entre o povo e eu, seu Czar, tivesse se quebrado. Foi como se eu houvesse premeditado essa crueldade desnecessária e a confiança de que o Czar sempre ajudaria seu povo deixou de existir. Não castiguei o Exército, para não ofender nossos soldados sem motivo, já que eles apenas cumpriram ordens dos ministros responsáveis. Mais uma vez os rebeldes usaram minha atitude contra mim: espalharam que os mortos e feridos foram milhares e não centenas; e ajudaram a propagar a minha imagem como assassino deliberado.

Após isso e mais uma revolta a estourar, precisei concordar com a criação da Duma, um arremedo de parlamento.

Então, Rasputin.

Rasputin se colocou entre nós insidiosamente. A princípio fui reticente, mas Alexandra o recebeu com fervor, acreditando em milagres e sempre me dizendo como nosso filho melhorava de suas crises com as orações dele.

Fui forçado a acreditar. Com Rasputin em nosso círculo, Alexei tinha chances de sobreviver a essa doença e reinar um dia. Porém o tempo nos trouxe a maledicência; as pessoas começaram toda sorte de boatos sobre ele, que abusava do poder que sabia que tinha por nossa causa, que infringiu dor as pessoas e vergonha às mulheres, sendo um devasso e aproveitador.

Já afastados que estávamos da corte, ficamos isolados quase que completamente. Mas eu não podia deixar tirar essa esperança de Alexandra. Ela envelheceu anos em pouco tempo de sofrimento velando Alexei. Eu não poderia tirar essa esperança dela, sua saúde já estava péssima, ela se locomovia através de cadeiras de rodas na maior parte do tempo. Ciática, dor no peito, depressão, dor nas pernas. Afastando Rasputin, muito provavelmente eu mataria minha esposa e destruiria meu filho. Não podia.

Seguimos protegendo aquele homem, afastando boas pessoas só por que nos alertavam sobre ele.

A situação se tornou ainda mais difícil com a entrada da Rússia na Primeira Guerra. Era uma questão de honra, não podia simplesmente recusar. Mas as coisas se complicam, não é mesmo?

Ainda mais revoltados com o racionamento e as derrotas da Rússia por atitudes precipitadas de generais, o povo se aliava aos rebeldes, engrossando suas fileiras.

Então tomei o comando do Exército eu mesmo, para inspirar os soldados, o povo. Para demonstrar minha lealdade, refazer os laços quebrados de união e confiança. Fui com Alexei ao quartel general, ocasionalmente tendo que permitir que voltasse ao palácio por suas crises hemofílicas.

Alexandra e as meninas trabalharam como enfermeiras durante todo o resto de tempo que durou a guerra. Minha esposa também trabalhou como regente em meu lugar, suscitando a ira de muitos ministros e aliados por ser germânica e ouvir os conselhos de Rasputin.

Eu fiz o que considerei ser o melhor para os soldados e a nação. Pensando ser inatingível, mesmo em minhas falhas, achei que veriam o quanto eu e minha família estávamos nos dedicando, tentando.

Mas estava enganado.

As revoltas estouraram. As pessoas tinham fome, frio, impaciência. Já não mais queriam a glória da vitória, queriam apenas seguir suas vidas em paz.

Fomos aos poucos sendo cercados.

Rasputin foi assassinado. Ele havia feito uma profecia no ano anterior: ” Se morrer pela mão de qualquer homem, sua dinastia seguirá segura em seu trono, mas se eu morrer pelas mãos de sua família, pelas mãos de qualquer um dos Romanov, não seguirás no trono seis meses.”

E foram meus primos que o haviam assassinado.

Alexandra tentou se manter ocupada nos esforços com os feridos, mas também não esqueceu. Sei disso, sempre fomos unidos de corpo e alma.

Na última rebelião, recebi um telegrama comunicando a situação como se fosse algo pequeno. Ordenei as tropas em comando na capital que finalizasse a rebelião com rispidez. Estávamos em guerra, não poderíamos perder tempo com mesquinharias.

Mas o pior aconteceu: cansados e se julgando abandonados, o restante das tropas se juntou aos rebeldes, restando pouca guarda à Alexandra e as crianças.

Retornei então, e com suas vidas em risco, fui forçado à abdicar.

Renunciei ao trono em favor de meu filho, mas ao pensar melhor, no correr de algumas horas, renunciei também por Alexei, ainda menor de idade. Eu me tornara personna non grata em minha própria pátria, jamais me permitiriam ficar com ele. Alexandra muito menos, odiada por sua associação à Rasputin e também por sua origem germânica. Eu não deixaria meu filho doente nas mãos de estranhos, de revolucionários tão sedentos por sangue e poder que sangraram um país já ferido em meio a guerra.

Renunciei então em favor de meu irmão mais novo, que em poucos dias renunciou também e tudo veio a ruir para a monarquia russa.

Me reuni à Alexandra e a nossos filhos que estiveram doentes nesse ínterim, permanecendo em prisão domiciliar. Iludiram-nos que poderíamos sair do país em asilo, enquanto fomos transferidos de prisão em prisão, até estarmos aqui, em Ecaterimburgo.

Sob toda essa neve.

No início era libertador. Podia trabalhar na horta, caminhar. Tínhamos espaço e uma certa privacidade. Mas a medida em que fomos transferidos de lugar, os soldados se tornaram mais rudes, os espaços menores, engordamos por falta de exercícios.

Alexandra e as meninas remendam nossas roupas e temos pouco para nos aquecer. A casa é gelada por não haver nenhum isolamento térmico, os soldados não permitem que portas sejam fechadas nem para dormir, nem para se banhar.

Eles escrevem coisas ordinárias nas paredes, para envergonhar minha mulher e minhas filhas.

Chegou até nós a notícia de que o Governo Provisório foi vencido pelos bolcheviques, e os mesmos fizeram um acordo com o governo alemão, retirando a Rússia da guerra para mergulhá-la no sangue e no caos.

Mais uma humilhação além das pequenas humilhações diárias. Renunciei para que houvesse o melhor para a Rússia, não o contrário. Queria evitar dor e assassinato sem sentido, e fiz meu país caminhar direto para eles.

Se arrependimentos matassem, eu não veria a luz do dia.

Recebi algumas cartas de forma oculta, dizendo que estava sendo preparado um resgate, que estivéssemos atentos próximas noites. Quero acreditar, mas como saber se é real? É possível escapar a esse cativeiro que se tornou ignominioso?

Não devo me iludir, porém não quero perder a esperança. Devo tentar dormir, descansado pensarei com mais calma. Estou na cama me revirando a algum tempo.

Mas espere… Prestes a dormir, os soldados entram no aposento dizendo que precisamos ir ao porão tirar algumas fotos, como as que tiramos recentemente, para provar que estamos vivos. Nos arrumamos rapidamente, Alexandra e as meninas com as jóias da coroa por dentro do vestido, prontas para qualquer chance de fugir. Eu acompanho Alexei, que ainda está se recuperando de uma forte crise.

Descemos os degraus que levam ao porão da casa de Ecaterimburgo, apreensivos, cansados, mas juntos.

Ouço um caminhão com o motor ligado lá fora.

Fim

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