A Irmandade Dos Bruxos Modernos (Pt. 19) – A beira da morte

ALFREDO

Capítulo 19 – A beira da morte

Escrito Por: Alfredo Dobia

 

Esticando a corda até atingir a tensão desejada, Lúcia respirou fundo em busca de concentração e quando por fim uma das Criaturas se moveu em ataque — ela dispensou a flecha, que voou dos seus dedos. Um sorriso de vitória escapou dos seus lábios ao atingir certeiramente um dos olhos da criatura. A flecha adentrou com precisão e acabou saindo do outro lado — deixando o olho da abominável criatura presa nela. As outras criaturas não demonstraram expressão de medo em seus rostos assustadores, eles simplesmente posicionaram-se e logo depois atacaram em conjunto. Mas os Bruxos Modernos não se intimidaram ao ver os rostos dos seus oponentes cada vez mais próximo do embate.

Chris Anderson pousou sua mão direita na terra, com os olhos fechados. Pronunciou algumas palavras e as outras plantas do deserto ganharam vidas, crescendo monstruosamente e arrastando de forma rústica os corpos de três criaturas que se aproximavam em sua direcção.

Valter porém, ainda sem o uso de magia, decidiu partir por cima da criatura no combate corpo a corpo. Suas habilidades como bruxos protectores não se resumiam apenas na boa prática de feitiços, eles também eram muito bom de brigas — e brigas, era algo que ele adorava e nunca dispensava. A mão de uma das criaturas esticou de modo sobrenatural como borracha, até sua direcção, mas ele foi rápido e hábil, sacando suas facas de seguida após um rodopio na areia quente do deserto, acabando por ferir uma das pernas do seu oponente. A fera apenas guinchou e um leve susto nasceu dos olhos do Valter ao ver que seu adversário não gotejava sangue entre o ferimento feio que a lâmina de sua faca causara.

Ele não teve muito tempo para estar vislumbrando o corpo sobre humano da criatura e martelar a cabeça ao tentar descobrir como aquilo acontecia. Apenas pressionou as facas nas mãos, e com elas, desmembrava violentamente membro por membro de cada fera que o atacava.

Mas aquela batalha estava longe de terminar tão cedo, os monstros da morte não eram criaturas fáceis de se derrotar. A cada acto violento que eles eram expostos, mais rápidos eles se tornavam — adaptando-se aos movimentos de cada uma de suas presas. Eles estudavam o jeito dominante do Chris, de controlar as plantas e a pontaria certeira da Lúcia ao usar o arco, até virar o jogo.

Os ataques dos Anderson e da Lúcia agora eram muito bem respondidos. Os monstros da morte pareciam saber perfeitamente o que eles pensavam, e estavam prontos para atacar — só que dessa vez, ainda mais astuciosos. Valter tentou socar o rosto de uma das criaturas e acabou se arrependendo de ter o feito, sua mão adentrou misteriosamente no rosto da fera.

— Mas que merda é…? — murmurou, completamente pasmado.

Ele gritou ao perceber que não conseguiria se soltar tão fácil. Lúcia mirou uma flecha na direcção da fera que atacava Valter, e quando dispensou a flecha na tentativa de o ajudar, ela quase enfartou de raiva ao ver sua flecha se quebrando como um mero palito de dentes.

— Mas o quê? — ela disse, atónita.

Valter sentia sua energia sendo absorvida. O rosto da criatura transformava-se em pedra como se ganhasse mais força extraindo a magia do jovem bruxo. Ele teve de pensar rápido — e assim o fez. Ir a busca da magia era a única opção que lhe restava. Pronunciou algumas palavras até sua mão aquecer de modo sobrenatural, o que fez com que a cabeça da criatura explodisse, espalhando fragmentos de miolos e pedras muito pequenas para o chão. Novamente a ausência de sangue o incomodava. Do que poderia ser feito aquela criatura? Como era possível ter dentes, línguas, miolos e provavelmente outros órgãos de um corpo comum e não ter nenhuma gota de sangue?

Ele abaixou-se com os olhos fervendo de raiva — e com as duas mãos, pegou um dos ossos espalhados no solo arenoso, esmurrando de seguida o corpo do monstro da morte que o sugava.

Uma outra criatura saltou por cima dele e dessa vez com extrema brutalidade. Não dando se quer tempo para ele pensar, a criatura enfiou um dos seus dedos alucinantemente cumpridos nos ouvidos do Valter de forma arrepiante.

Seu grito de dor quase ensurdeceu a criatura. Mas por sua sorte, Chris havia acabado de se soltar das garras de uma outra fera que o atacava, e correu para ajudar o irmão. Ele saltou por cima da fera e rebolou com ela em outra direcção, enquanto seu irmão rebolava-se de um lado para o outro com uma dor angustiante penetrando-o os ouvidos.

— O que essa coisa fez comigo? — murmurou, gritando. — O que ela fez nos meus ouvidos?

Sasha correu na direcção dele, segurando-o em seu colo e Chris protege-os a todos com seu escudo mágico.

Notando que não conseguiria atravessar o escudo, as criaturas não se renderam nem um pouco, muito pelo contrário. Aquilo só aumentava ainda mais o seu desejo ávido de destruir suas presas. Elas buscaram por um outro atalho, entrando debaixo da terra — e saíndo do outro lado do escudo. Lúcia chutava-os com bravura, até que uma das criaturas apareceu a sua trás prestes a ataca-la.

— Cuidado! — avisou Chris, e logo a seguir ela deu uma cotovelada no rosto da criatura e uma das plantas controladas pelo Chris arrastou-o para longe.

Valter Anderson gotejava sangue pelos ouvidos e continuava queixoso minutos após minutos. Chris Anderson estava cansado. Controlar o escudo e as plantas dava cabo das suas forças. Aquilo era de mais para ele, e esse cansaço o trouxe graves consequências, quando duas criaturas que entraram na terra, apareceram de seguida na sua frente e derrubaram-no ao chão, permitindo os dentes pontudos de suas barrigas mordiscar seu peito agressivamente como um banquete perfeito.

— Chris! — Lúcia gritou, enquanto lutava com duas outras criaturas.

Era de cortar o coração ver os Bruxos Modernos naquela situação. Ver Valter devastado, escoando sangue pelos ouvidos — e ver a barriga do Chris sendo dilacerado como a carne de um animal. Parecia finalmente ser o fim dos irmãos Anderson. A dor que eles sentiam era inexplicável e podiam sentir que não a suportariam por muito tempo. Sentiam-se a beira da morte.

Depois de Lúcia ter conseguido se livras das duas criaturas que a atacavam, ela dispensou três flechas, uma seguida da outra. Duas das flechas acertaram as duas criaturas que atacavam Chris — e a outra acertou o pescoço de uma que se dirigia a Sasha e o Valter. Para sua sorte, as flechas não se quebraram como aconteceu a poucos minutos atrás. Aquilo só havia acontecido porque a criatura que atacara Chris, sugava sua energia e isso dava-lhe mais força. Ela soltou um suspiro de alívio ao ver que aquelas três criaturas pareciam finalmente ter sido as últimas que restavam.

Lúcia avistou o deserto e viu várias delas completamente desmembradas. Umas sem os olhos, outras sem as pernas, outras sem cabeças e outras esmagadas pelas plantas.

— Vocês vão ficar bem — disse Lúcia, deitando-se ao chão no lado dos Anderson, enquanto um mar de lágrimas escorria de seus olhos entristecidos. — Vocês têm de ficar bem, vocês têm de reagir. Não têm o direito de nos abandonar agora.

Assim como Lúcia, Sasha também chorava, segurando a cabeça do Valter pelo colo. Ela sentia que deveria fazer alguma coisa. Algo em sua mente a conduzia a fazer alguma coisa, mas nada era claro. Sasha não sabia o que estava acontecendo em sua mente nublada, não sabia droga nenhuma do que estava acontecendo com os seus neurónios. Quando tudo parecia impossível de piorar, os membros separados do corpo de cada criatura, uniam-se novamente, e em cada corpo, uma outra era projectada.

Aquilo deixava Lúcia e Sasha completamente espavoridas.

Os monstros da morte eram criaturas de um nível extremamente elevados, não caíam facilmente com facas, flechas e plantas vivas. Era preciso muito mais do que isso pra lhes por um fim.

Mais havia algo que eles não notavam até ver suas vidas a beira da morte. Os monstros centuplicavam-se, protegendo aquele que Cyrius apontara primeiro logo no princípio do combate, aquele que provavelmente era a fonte do poder deles, a principal ponte de ligação com as demais criaturas que as assombrava.

— Olha, você consegue ver isso? — Sasha disse, atentamente.

— O quê? Que a gente está prestes a sucumbir? — respondeu Lúcia.

— Não, repare bem como eles se movem — ela apontou para a possível chance de vitória. — Parece que eles se multiplicam através daquele ali.

Lucia arregalou os olhos com mais atenção e clareza logo depois um brilho de esperança surgiu dos seus olhos.

— Já disse que você é a melhor amiga do mundo? — ela disse, notando e entendo o plano da amiga.

Sasha esforçou um sorriso. Os Anderson estavam morrendo e isso ainda as deixava muito abaladas.

— Parece que a gente vai ter de acabar com ela se quisermos que as outras não mais voltem — Sasha explicou.

— É, mais primeiro temos que descobrir como chegarmos até ela. Um passo em falso e já era. Eu estou sem flechas, e mesmo que tentasse lutar, não sei se aguentarei por muito tempo. Eles são muitos.

— Você tem razão… enfrentar todos eles seria suicídio.

— E ficarmos aqui paradas sem fazer nada, também não ajuda muito.

As criaturas não lhes deram se quer tempo para elaborar um plano de defesa. Elas começar a correr prontas para atacar novamente. Mas, Sasha entrou na frente da Lúcia e mirou a tão suposta criatura principal, fitando-a severamente. Lúcia tentou impedi-la, mas não teve muito sucesso. Sasha a sentenciou para ficar no mesmo lugar. Seu tom de voz acabou saindo asperamente assustador, deixando Lúcia quase imóvel.

Os olhos da Sasha voltaram a ganhar aquela misteriosa luz de cor violeta muito intensa, e de alguma forma sobre-humana a criatura principal acabou paralisada, expressamente fascinado com o olhar fulminante da Sasha. Do seu corpo saia uma outra, mas dessa vez a multiplicação foi esforçadamente interrompida, ficando dois corpos em um só.

Não demorou muito para as outras também seguirem o ruma da ponte de ligação. Elas também tremiam, aparecia e desaparecia como espectros fantasmas. O olhar da Sasha tornava-se cada vez mais intenso e aquilo fez com que a criatura principal explodisse junto com a outra que ela multiplicava. Rapidamente as outras também caíram em ruína total, decepando-se uma por uma, assim como Sasha previa.

Milhares de membros espalhavam-se pelo deserto e logo depois o fogo os consumiu diante do sol ardente, transformando cada membro decepada em cinzas — e misturava-se a areia pesada do deserto. Sasha voltou a fechar os olhos e em menos de três segundos abriu-os novamente, voltando a sua cor natural.

Ela quase que não sentia seus pés, seus braços. Tudo girava a sua volta e uma forte dor de cabeça a deixava com nódoas na mente. Ela quase caiu ao procurar loucamente algo para se sentar, mas Lúcia a segurou, impedindo a amiga de se machucar.

— Peguei você, está tudo bem Sasha — Lúcia disse de forma subtil, ainda perplexa com o que a amiga acabara de fazer.

— Obrigado! — respondeu Sasha.

Ela encarou o rosto da Lúcia e as imagens em sua volta já começaram a fazer mais sentido. As nódoas desapareciam de sua mente como o efeito de lixívia potente em roupas sujas.

— Uau Sasha isso foi espectacularmente assustador. Como você fez isso?

— Eu não faço a mínima ideia.

A morena africana estava tão assustada com ela mesma que só lhe apetecia escapulir daquele deserto.

‘’ O que está acontecendo comigo’’ — pensou Sasha.

Elas se viraram para os Anderson, observando o sangue na orelha do Valter parar de escorrer. Ele parou de se virar de um lado para o outro como se sua dor estivesse o abandonando. O mesmo acontecia com Chris, suas feridas no peito se regeneravam e tudo parecia voltar ao normal novamente.

— Graças a Deus vocês estão bem — Sasha disse, com um largo sorriso entre os lábios.

Lúcia soltou um suspiro que lhe pesava a alma, abraçou Chris e logo depois o Valter.

— Eu sabia que vocês não iam nos abandonar — ela disse.

Valter avistou o deserto, procurando os monstros da morte vivos e os corpos que ele havia desmembrado.

— O que aconteceu com aquela coisa? — ele quis saber. — A gente arrasou não foi?

Lúcia e a Sasha riram

— É, a gente arrasou — respondeu Lúcia. — Mas os créditos todos vão para a Sasha. Foi ela quem derrubou cem deles de uma só vez.

Os Anderson olharam um no outro, surpreso.

— Como você fez uma coisa dessa? — indagou Chris.

— Na verdade eu não faço a mínima ideia. Ver-vos naquela situação, foi algo que minha mente simplesmente não conseguia aceitar. Eu sentia que tinha de fazer alguma coisa. Daí levantei e tudo começou acontecendo repentinamente. Uma onda de energia percorreu meu corpo como se estivesse exposta a uma corrente de vinte a cem miliamperes.

Valter franziu a testa.

— Nunca vimos nada parecido com o que você acaba de dizer — ele disse.

— Talvez o que Cyrius insinuou sobre você não ser uma humana tão comum como a gente pensa, não seja algo que a gente tenha de desconsiderar. Ma seja lá o que você é, a gente vai descobrir quando voltarmos pra  Nova York e pegarmos a folha da planta e acabarmos com tudo isso.

— Você está falando dessa aqui? — Seu sorriso nasceu agradavelmente, como o desabrochar de uma planta, acompanhado de um brilho perfeito nos olhos.

Todos, miraram-na perplexamente.

— Como foi qu… nós estávamos — baralhou-se Chris, confuso.

— Acontece que quando eu me aproximei dela ao ser empurrada por uma dessas coisas horrorosas que a gente acaba de enfrentar, eu meio que senti uma poderosa ligação com a planta. Parecia que ela queria que eu a tocasse, então assim o fiz, tirando dela essa folhinha preciosa.

— Parece que os mistérios não param de nos perseguir — disse Valter. — Mas agora temos de voltar pra América. África é um continente maravilhoso, habitado por pessoas simples e super carismáticas e ainda fazem pratos super deliciosos… só que o dever nos chama. Agora que temos a folha vem a parte mais divertido, que é acabar com o idiota do Cyrius.

— Com certeza! — confirmou Lúcia — depois que tudo isso acabar, quem sabe a gente volta um dia desses.

— É, quem sabe! — acrescentou Chris.

 

Continua…

 

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s