Um Conto de Thommas Bradley [Parte IV]: Calafrio

Escrito por Gabi Waleska.

calafrios

Amy seguiu Christian de longe, a neve recente na calçada abafava o som de seus passos, mas mesmo sem isso, ele parecia afundado em pensamentos perturbadores demais para prestar atenção nos pedestres à sua volta. Quando ele chegou a uma bela casa, quase um palacete, paralisou, tomado por um súbito calafrio.

Amy tinha experiências demais em ver pessoas comuns dando conta da presença de espíritos, principalmente os que estavam ali por elas. Ele olhou em torno, sem ver que a moça de branco estava sentada singelamente na pequena escadaria nevada da entrada. Mas seu olhar captou a figura de Amy, um pouco suspeita, quase oculta pela pequena sequencia de arbustos congelados que seguiam por sua calçada.

– Hey, Amy! – Ele chamou, ao que ela não pôde ignorar – O que faz por aqui?

– Só estou dando um volta… Gosto do ar invernal – respondeu incerta, se aproximando. – Esta casa é sua?

– Dos meus pais, para ser mais exato – ele riu – quer entrar e tomar um chocolate quente? – disparou sem pensar direito, ele estava encantado e curioso pelos gêmeos mais bonitos que já vira – Minha mãe fez biscoitos natalinos.

– Ahh… acho que biscoitos são bem vindos – respondeu, encarando Annabeth que ruborizou e desapareceu novamente ao reconhecer Amy.

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A entrada da casa era feita de pedras brancas, que reluziam com a neve acumulada, a porta azul marinho era arqueada e suportava uma bela guirlanda e, ao adentrar o hall, a casa cheirava a madeira e enfeites natalinos, além de um odor quente de comida de festa vindo do interior da casa. Amy entregou o sobretudo a Christian e o seguiu para a bela sala, que continha três sofás aconchegantes, um belo tapete persa sob um centro de sala e uma lareira de tijolos crus em fogo baixo, com fotos na bancada e meias coloridas penduradas.

– Mãe, pai, esta é Amy, irmã do Tom, que estava aqui mais cedo… – Ele apresentou-a a um belo casal que vinha de um dos corredores.

– Prazer, Amy, me chamo Cynthia – a mulher de cabelos loiros com fios prateados se escondendo entre eles sorriu esticando a mão. – Você é muito bonita, a cara do seu irmão!

– Como pode! – O pai de Chis exclamou ao vê-la – Sou Ruppert. E você é idêntica ao seu irmão, só que menor…

– Eles são gêmeos, pai… – Chris ralhou – ela estava de passagem e a convidei para provar seus biscoitos.

– Tudo bem, querido, ainda sobrou alguns na cozinha. – Cynthia diz, se encaminhando para a porta – Vamos voltar para a casa dos seus avós e te esperamos lá para o jantar de hoje – diz vestindo um casaco chique, algo que Amy sabia que sua tia aprovaria.

– Tomem cuidado… e divirtam-se – seu pai falou dando uma piscadela, que fez Amy ruborizar e Chris revirar os olhos.

– Pode sentar, vou buscar os biscoitos e a bebida – Chris diz apressado e constrangido.

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Amy aguardou, pensando em como abordá-lo, já que ele era amigo do seu irmão e temia que estragasse seu segredo. Entretanto, as palavras de Annabeth e a expressão torturada de Christian, eram motivo suficiente para fazê-la agir da forma mais direta possível.

– Aqui estão – Chris disse ao retornar da cozinha, percebendo que ela estava imersa em pensamentos.

– Ah sim, obrigada… – Amy respondeu dando um sorriso fraco e pegando um biscoito. Após uma mordida, resolveu quebrar o silêncio – Desculpe-me ser grossa, ou intrometida… – começou, fazendo-o levantar uma sobrancelha – mas eu percebi que tem algo muito sério te perturbando e… Por favor, não conte ao meu irmão sobre isso, eu percebi que você paralisou na entrada de casa, como se estivesse com calafrios

– Ah, isto… – Ele falou abaixando a cabeça, a caneca de chocolate entre as duas mãos – Eu… – gaguejou, com medo dela pensar que ele era maluco, mas a expressão de Amy passava tanta seriedade que ele respirou fundo – eu pensei ter visto um movimento, alguém me observando… Alguém de branco… E esse calafrio… – ele se encolheu e tomou um gole para se aquecer.

– Isso acontece com frequência? – Ela indagou.

– Toda vez que venho a esta cidade, desde os meus 13 anos. – Ele disse fechando os olhos e expirando – Mas por que está perguntando isto? – percebeu que ela ficou tensa, virando o olhar para a lareira.

– Christian, você acredita que quando morremos, vamos a algum lugar? – sua voz era baixa, e seus olhos fitavam o fogo findando.

– Não sei dizer – ele respondeu – quando alguém da família morre, fazemos funeral, enterramos com a benção de um padre, vamos a missa de sétimo dia e depois não penso mais nisso. Talvez porque nunca perdi ninguém próximo… Por quê?

– Por que… – Amy inspirou e o encarou, aqueles olhos verdes perturbadores – Se eu te disser que a alma tem vários… caminhos, você acreditaria? – Ela indagou, mas Chris ficou mudo, encarando e pensando no teor da pergunta – Há relatos, coisas que acontecem… Sensação de ser observado… Um ponto frio aqui ou ali, sensação de ter visto alguém ou um movimento que desaparece, um calafrio persistente mesmo que esteja aquecido, talvez até uma angústia inexplicável. – Ela enumerou sensações conhecidas por ele, vendo que ele se perdeu na resposta.

– Está dizendo que esta cidade é assombrada? – a voz dele saiu esganiçada.

– A cidade não… você. – Ela concluiu e, percebendo a palidez súbita em seu rosto, levantou as mãos tentando acalmá-lo. – Não em todo lugar, mas um espírito que viva aqui, ou que desperte quando você vem aqui… Por alguma ligação que pode ser investigada. – Ela tentou explicar, vendo a cor aos poucos voltar ao rosto dele – nem todos os espíritos são maus ou querem… te prejudicar. Eles muitas vezes querem dar um recado, proteger ou querem nossa ajuda… Mas nem todo mundo pode ver ou ouvir. E algumas pessoas mais sensíveis tem tanto medo que sequer tentam compreender sua presença.

– Como sabe destas coisas? – Ele perguntou, compreendendo que ela realmente sabia daquilo, não como suposição, não como fanática ou louca, mas sim como fatos.

– Porque sou uma das pessoas que pode vê-los, ouvi-los e ajudá-los, quando necessário. E posso ajudar você e este espírito que o acompanha em alguns momentos… – Chris anuiu compreendendo e acalmando-se, em parte.

– Você me ajudaria? – Disse, sabendo pelo tom de voz dela que tudo que o que falara era verdade.

– Sim. Ajudarei. Mas você jamais pode contar para o Tom. – Ela ficou mais séria que nunca – Ele é uma daquelas pessoas que não vê, não sente e faz piada, como se não existisse. É sério, prometa. – Exigiu.

– Tudo bem, eu prometo – Chris respondeu e a campainha tocou.

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Amy tentou pensar por onde começar, para descobrir quem é aquela moça misteriosa para poder obliterá-la. Quando percebeu que outra pessoa chegou à sala, acompanhado de Chris.

– Nunca na vida pensei que a veria na casa de um cara que acabou de conhecer – a voz de Tom era estranhamente seca para Amy.

– Ela me viu passando mal e me ajudou – Chris falou apressado, cortando-o – eu a convidei para entrar e ia contar o sonho a ela…

– O sonho? – Ele o interrompeu – Estava passando mal por causa do pesadelo? – E pela expressão torturada de Chris, Tom soube que era muito grave.

– Pensei tê-la visto… de relance – Chris contou e Tom arregalou os olhos, Amy os observava – Paralisei…

– Perdão? – Amy diz – Pode contar logo este… sonho? – Pediu, e assim Chris o fez.

Tom observava atentamente a irmã, suas expressões mudavam sutilmente no decorrer da história, evoluindo de apática para concentrada, depois horrorizada e por fim preocupada. Tudo era lido em seus olhos intensos, mas não na face, e percebeu que jamais tinha prestado atenção de verdade nela.

– Muito bem, – ela disse ao final da história, levantando-se – agora que Tom chegou, posso ir… Distraia seu amigo – ela falou apressada, deixando o biscoito pela metade e o chocolate quente intocado na mesa de centro.

– Err, obrigado… Pela ajuda – Chris balbuciou, mais uma vez sem compreender a atitude de Amy, enquanto ela caminhava para o hall.

– Já vai? – Tom ergueu a sobrancelha.

– Tenho coisas… a fazer. – Ela respondeu vestindo o sobretudo – Vão jogar, caçar garotas na cidade ou sei lá… Apenas distraia a mente dele. – Concluiu saindo.

– Cara, sua irmã é legal, você devia aproveitar que a tem! – Chris disse alguns instantes depois.

– Do que está falando? – Tom voltou-se para Chris, atônito.

– Apenas que sou filho único, seria legal ter um irmão ou irmã…

– Velho, você está sentimental pra cacete – Tom revirou os olhos balançando a cabeça, mas afundou no sofá ao seu lado, envolvendo o braço nos seus ombros. – Perdão – falou, e Chris o encarou com o peso da voz – Já fui muito idiota com uma garota que tinha pesadelos… Eu… Desculpe, não quero ser idiota novamente.

– Você não é idiota – Chris respondeu com a voz insondável – só não é bom em lidar com sentimentos… E está absurdamente com ciúmes da sua irmã! – concluiu baixinho e Tom riu – Não é culpa dela que vocês dois sejam tão bonitos, tão iguais e 100% o meu tipo – agora o tom de voz era debochado.

– Foi mal… Não sou muito fã de compartilhar, e Menàge apenas com não consanguíneos – respondeu monótono.

– Ah Thommas – Chris falou aproximando o rosto – Eu não falei em compartilhar… – o sorriso cínico, que Tom agora sabia, proposital para provocar.

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Após aproveitarem os biscoitos e chocolate quente, aproveitaram também a casa vazia e se distraíram o máximo que puderam, assistiram a um filme depois. Apesar de não terem conversado nada sobre, Tom entendeu que Chris preferia manter segredo, e percebeu também que não se importava se alguém soubesse. Juntos, pareciam melhores amigos, com as brincadeiras banais de jovens, apenas curtindo seu momento.

– Então, quando você for semana que vem, vamos jogar uma pá de cal? – Chris falou de repente com um muxoxo e Tom o encarou, sabia que ele estava triste.

– Eu não preciso enterrar nada- Tom respondeu, virando o olhar para a janela, vendo a neve fina cair. – Esta é um experiência única da qual jamais quero esquecer. Então se fosse jogar uma pá de qualquer coisa, seria uma pá de neve. – Concluiu voltando o olhar sorridente para Chris, que o encarou com curiosidade.

– Neve? – Levantou as sobrancelhas louras.

– Sim. Não tem um defunto para enterrar. E a neve sempre derrete, como nós quando nos encontramos. O que temos é um sol… e somos como a neve, que derretemos e podemos nos moldar. – Concluiu, olhando novamente para a janela.

– Thommas Bradley, você soa tão gay quando quer! – Chris riu.

– E isto não é nada gay, não é? – Tom respondeu, apontando para o abraço íntimo dos dois e riram juntos.

– Vou sentir falta disto – Chris declarou e Tom anuiu. Beijaram-se e depois voltaram ao filme. – Bom, vamos nos arrumar, temos jantares a comparecer. – Disse por fim, levantando-se.

E Tom queria mesmo ir para casa desta vez, tendo a intenção de ter uma conversa de verdade com sua irmã.

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Continua

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