Sob Olhos Sombrios, Pt. 03

Joy sovava a massa de pão naquela noite.

Algo que gostava de fazer, misturar seus grãos e toldar aquela maçaroca num fabuloso pão caseiro e integral.

Mark já havia prometido que os quitutes da esposa eram fabulosos.

E vendo a madrasta trabalhar com as mãos enérgicas, Ernest acreditara.

Seus passos, sempre silenciosos, desceram a escada angulosa de madeira, levando-a para as dimensões calorosas da cozinha. Foi onde encontrou a madrasta, cantarolando enquanto trabalhava.

Acanhada, mas não contendo a curiosidade, Ernest se aproximou e sentou numa das cadeiras, observando-a.

Joy sorriu.

– Quer me ajudar?

Ernest assentiu.

– Lave as mãos e despeje a aveia em círculos.

Ernest obedeceu, contente por ter algo que fazer.

Seus dedos trêmulos espalharam os flocos de aveia enquanto a mulher sovava a massa e misturava outro ingrediente misterioso.
Era reconfortante a presença dela. Como se uma tranquilidade harmoniosa exalasse de seu canto.

– Como se sente? – ela perguntou. – Acostumou-se à casa?

– Bem. Vocês fazem de tudo para eu tenha conforto.

– Famílias cuidam uns dos outros. Amanhã seu pai vai até o colégio Hall, fazer sua matrícula no Ensino Médio. É seu último ano. Pode começar a pensar no que tem vontade de fazer depois.

Joy a fitou com simpatia.

– Mark arcará com todos os custos, é claro. Como fez com Robin.

Ernest corou.

– Eu não pediria isso. Guardei um bom dinheiro na poupança para esses fins.

– Robin dizia a mesma coisa.

O sorriso dela foi afetuoso.

– Robin é muito bonita. – Ernest disse, cautelosamente. – Eu a vi nas fotos.

– Oh, sim. Sua beleza atraía muitos rapazes. Mark ficava doido.

– Ela estava triste? Quer dizer, antes de desaparecer.

– Robin era a personificação da felicidade. Jamais conheci alguém tão feliz.

– Talvez alguém lhe tenha partido o coração. – sugeriu Ernest, sondando.

– Se conhecesse Robin saberia que, apesar da felicidade e alegria constante, o coração era algo encouraçado. Incapaz de deixar alguém entrar.

Ernest franziu o cenho.

– Ela não se relacionava bem com as pessoas?

– Pelo contrário. As pessoas a adoravam. Tinha diversos amigos. E os rapazes deliravam com sua presença. Mas foram poucos que ela permitiu entrar. Desconfio que nunca deixou alguém perto o suficiente para machucá-la.

– Isso me parece triste.

– Houve um rapaz uma vez. Eles namoraram por algum tempo. Recentemente. Pareciam felizes. Robin o tratava de uma forma diferente da que tinha com outros namorados. Mas não durou muito tempo. Logo ela o rejeitou e abraçou novamente a solidão.

Ernest deixou o silencio preencher o ambiente durante alguns minutos.

– Racoon disse que ela foi destruída. – soltou com cautela.

Joy a fitou em silencio, hesitante.

– Robin teve certos problemas com a mãe.

– Que tipo de problemas?

– Judith se envolveu com rapaz mais novo e ele a incitou a se desfazer da filha. Por isso Robin veio morar conosco. A mãe, em detrimento aos desejos do marido, expulsou a filha de casa. Sabemos que Robin amava Judith. Talvez tenha sido o único amor da vida dela. Quando a mãe se desfez dela, o coração de Robin foi despedaçado. Racoon não deveria contar coisas que não lhe pertencem.

– Não acredito que ele tivesse a intenção de fofoca. – Ernest se apressou em dizer.

– Fico contente que estejam se entendendo.

Ernest mudou rapidamente de assunto.

– Talvez fossem as lembranças da mãe que a tenham amargurado. – sugeriu.

Joy balançou a cabeça.

– Robin se esforçou para enclausurar as lembranças da mãe numa parte recôndita de seu coração. Ela abraçou a alegria como nenhuma outra alma foi capaz. Estava feliz no dia em que desapareceu.

– Desculpe. – Ernest pediu. – Só estou tentando conciliar a garota que vi nas fotos com uma alma despedaçada que a impulsionou a desaparecer.

– Eu compreendo. Já exauri meu cérebro pensando em que levaria Robin a uma fuga ou desaparecimento. É intrigante. Uma garota feliz, com amigos, uma família que amava. Não entendo.

– Acha possível que tenha fugido?

Joy permaneceu em silencio, incerta.

– Por quê? – questionou Ernest.

– É o que estamos tentando compreender.

– Alguém a levou. – a voz de Mark as surpreendeu.

Ele estava quieto, recostado no batente da porta. Ouvindo a conversa.

Ernest corou novamente, pronta para se desculpar.

– Não se preocupe. – o pai a tranquilizou. – Você faz parte desta família. Deve estar integrada aos assuntos. E, como nós, só quer compreender o que houve.

Ele enrijeceu o maxilar, como se prendesse o choro.

– Alguém a levou. Parece-me inconcebível que Robin tenha fugido de uma vida cheia de oportunidades. Uma vida feliz.

– A polícia não achou qualquer indício de sequestro. – Joy disse, baixinho.

Os olhos do marido se voltaram para ela, brilhando.

– Alguém a levou. – sua voz saiu um tanto ríspida.

Ernest baixou os olhos. Não queria trazer dissabores.

– Mark só está cansado. – Joy assegurou, encarando o marido com determinação. – Tudo isso o está consumindo.

– Sinto muito. – a menina sussurrou.

– Não deve sentir, querida. Há um bom motivo para estar aqui.

– Kornel está investigando. – foi tudo o que Mark disse antes de lançar um último olhar à filha e sair da cozinha.

Sua mente flutuava com lembranças.

Amargas, a maioria delas.

Mark

Ele se recordava do princípio daquela noite.

Robin saíra fazia tempo.

Já dera o horário combinado e não havia uma única ligação.

A fúria toldou seus olhos.

Apenas um telefonema e seus homens foram atrás da garota.

Nenhum rastro. Nenhum vestígio.

Telefonou para cada um dos amigos dela. Abordou-os dentro de suas residências. Até mesmo a intolerável Yollanda. Ninguém sabia de Robin. Havia fugido por entre seus dedos.

O desespero se infiltrou em sua alma.

Assim como a fúria.

Ele quebrou todos os porta-retratos. O tapete felpudo da sala fora polvilhado de cacos transparentes. Seus gritos assustaram os vizinhos. E por muito pouco não destruíra a sala inteira.

Foi o telefone vibrando que o impediu.

Mas as notícias não eram sobre Robin.

Theodors falava apressadamente, afirmando sobre uma filha.

Ele se lembrava de Serafine. De suas noites luxuriosas e das promessas vazias que fizera a ela. Mas jamais se permitiu sonhar com a existência de um fruto de seu relacionamento leviano.

E ali estava o advogado da família, dizendo a ele que tinha uma filha e ela necessitava de abrigo.

No exato momento em que ele perdera uma filha.

Mark soltou o telefone e gargalhou, pouco são.

A praga de Robin!

Lembrava-se da filha correndo pela casa, em prantos, os olhos furiosos e a boca espumando enquanto proferia palavras ríspidas em sua direção.

Você ainda descobrirá uma filha, Velho! Uma filha que você não sabe que existe! Uma filha que lhe causará tantos dissabores que vai se lembrar de mim com saudades.

A praga de Robin se consolidara.

Com exceção de que Ernest lhe parecia incapaz de causar qualquer dissabor.

Ele jogara o telefone na parede naquela noite.

E seu grito ecoou por toda a casa.

– Maldita Robin!

E jurou que a encontraria.

Continua!

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