{Repost} Nas Sombras

nas-sombras-01

Começou com um ruído sutil. Algo discreto o suficiente para não me tirar da cama confortável depois de um dia cansativo. Era algo parecido com o tamborilar distante das unhas grossas e amareladas do meu avô no tampo de vidro da mesa de jantar. O velho encarquilhado costumava acordar no meio da noite e se dirigir à cozinha em busca de comida, obrigando minha mãe a se levantar para levá-lo de volta ao quarto. Senil do jeito que estava, era uma verdadeira luta.

Eu não tinha paciência com ele. Quase ninguém tinha, na verdade. Desde criança, sua presença sempre me causava arrepios; desde a forma como olhava para mim até os carinhos inoportunos me deixavam alerta. Mamãe não parecia notar esse lado sombrio do pai, mas eu sentia nos meus ossos. Cada vez que ela me obrigava a sentar no colo dele, queria sair correndo para bem longe. E foi o que comecei a fazer com o tempo.

O som foi ficando mais alto, até chegar ao ponto de eu acreditar que a mesa estava no meu quarto. Porém o que me impulsionou a levantar foi o tilintar de algo de vidro indo de encontro ao chão. Quase bufei de raiva ao levantar a coberta, pousando meus pés no chão frio antes de conseguir encontrar os chinelos. Entorpecida e com a visão turva, caminhei a passos lentos pelo corredor, passando em frente à porta fechada do quarto da minha mãe. Desci as escadas quase me escorando contra a parede e, sem me importar em acender as luzes, segui até a cozinha.

— Vô, isso não é hora de comer — disse, esfregando os olhos enquanto um bocejo deixava meus lábios.

Mas ao olhar ao redor, não vi nada além do ambiente mal iluminado e cadeiras vazias. Praguejei, procurando em volta por um copo ou prato de vidro quebrado, não encontrando nada. Para não perder a viagem, abro a geladeira e pego minha garrafa d’água, deixando que a luz interna clareie o cômodo. Enquanto molho a garganta seca, lembro-me de algo que me faz parar no mesmo instante. Um arrepio percorre as minhas costas ao recordar que estava sozinha em casa. Ao menos deveria estar.

Meu avô estava internado no hospital, devido a complicação de uma pneumonia, e minha mãe resolvera passar a noite com ele. No primeiro instante, a pele dos meus braços se arrepia, mas logo me faço acreditar que tudo não passa de um reflexo da rotina; uma peça pregada pela imaginação. Suspiro, um pouco mais conformada.

Quando estou prestes a fechar a geladeira, o conformismo de antes se apaga ao ver algo refletido na superfície abaulada da jarra de suco. Deixo a garrafa escapar por entre os dedos, inclinando-me para frente em um gesto automático, tentando decidir o que era aquilo. Minha garganta parece tão seca quanto antes e meu coração acelera ao sentir um hálito morno e fétido contra a nuca. Eu deveria correr, deveria gritar, tentar me defender, mas fico paralisada dos pés à cabeça até as despensas abrirem com violência, cuspindo tudo o que havia dentro.

Em meio ao caos, os instintos falam mais alto e corro em direção a porta de entrada, mas antes que eu possa chegar na metade da sala, a estante de livros cai a pouco centímetros de mim, atravancando meu caminho. Tento dar a volta e objetos voam na minha direção, obrigando-me a correr pelos degraus da escada em direção ao meu quarto. O grito fica preso na minha garganta, formando um bolo que chega a sufocar.

Entro no quarto e tranco a porta, afastando-me devagar para longe e temendo que ela se abra para mostrar algo que não desejo ver. Não consigo pensar direito, pois a única imagem que me vem à cabeça é a da figura insidiosa atrás de mim na cozinha; sombria demais para que eu pudesse reconhecê-la. O telefone, penso, sem saber exatamente para quem ligar sem acabar soando maluca.

Pego-o no criado-mudo e digito o número da minha mãe, mas antes que possa terminar, o nome dela aparece no visor. Atendo, sôfrega, e quase choro ao ouvir a voz do outro lado.

— Minha querida… — sua voz sai rouca e claramente abalada — não queria te acordar, mas achei melhor avisá-la. — Mamãe não ouve nada além da minha respiração entrecortada. — Seu avô acabou de falecer.

Continuo com o telefone junto à orelha, porém incapaz de dizer alguma coisa. Olho na direção da porta, surpresa com o silêncio que se abateu sobre a casa.

— Eu sei — murmuro pouco antes de sentir o toque gélido da morte me puxar para baixo da cama.

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s