Pavilhão Cinza – A Fuga

Por: Natasha Morgan

O primeiro a perecer sob as garras gélidas de Sofia fora o enfermeiro responsável pelo pavilhão A-10.

O Pavilhão A-10 era conhecido pelos gritos enlouquecidos do paciente que se mantinha amarrado à cama cinzenta. E a barbárie com que era tratado pelo enfermeiro Ronaldo.

Qualquer um que se aproximasse das portas chumbadas ouviria os gritos que povoavam os corredores numa súplica sôfrega. Um alerta perigoso.

Transferido do Hospital Psiquiátrico do Juquery em São Paulo, dependente químico, agressivo e pouco sociável, Carlos era conhecido por seu caso assombroso de se entupir de entorpecentes e espancar sua esposa, filha e mãe doente. Bem como a neura nefasta que toldava seus olhos toda vez que se aborrecia.

Seus olhos escuros estalavam, o pescoço ficava vermelho e ele berrava a plenos pulmões, preenchendo o silêncio frio dos corredores num lamento odioso.

Seu tio, um desembargador influente da cidade de Mairiporã, decidira interná-lo no hospital das proximidades quando a irmã apareceu com a bacia quebrada. A velha, doente de câncer era incapaz de se esquivar da violência do filho drogado.

Preso numa colônia que mais lembrava um campo de concentração, vendo dois internos brigando brutalmente na disputa por um monte de fezes, Carlos teve certeza de que enlouqueceria naquele lugar.

Tentou fugir duas vezes.

Da primeira fraturou um braço e uma perna.

Da segunda ganhou sua transferência para Barbacena.

O desembargador não toleraria mais nenhuma violência.

Agora, sua única companhia eram seus gritos.
Separado, isolado e torturado, Carlos estava no purgatório.

E Ronaldo era seu carcereiro.

E como se divertia no processo!

Vindo de uma família perturbada onde presenciara a mãe apanhar do pai até ser morta, o enfermeiro Ronaldo teve seu sofrimento consolidado e transformado em sadismo. Era como tratava os pacientes em Barbacena.

Quando fora designado para cuidar do paciente do A- 10, Ronaldo se divertiu perversamente.

Em termos de perversidade, os dois combinavam.

E naquela noite descobririam que o mal espreitava aquelas paredes cinzentas, mais amargo do que o que eles conheciam.

As sombras frias e brumosas adentraram as portas chumbadas do A-10.

Infiltraram-se pelas celas cinzentas, penetrando as cobertas e fazendo tremer os internos.

Ronaldo estava sentado na cadeira de madeira que sempre deixava no centro do pavilhão, permitindo-lhe um olhar amplo pelas celas vazias e o paciente A-10.

Ficava sempre atado à cama, com uma mordaça a lhe tapar a boca. Os olhos furiosos a fitar seu algoz.

Naquela noite Ronaldo devorava um sanduiche de presunto quando a névoa fria roçou seus joelhos.

Sofia havia sido vítima do sadismo de Ronaldo em vida.
Ele se divertia em trancá-la na solitária acolchoada e afoga-la com o jato de água fria. Eram sessões intermináveis de tortura e risos. Fora ele que a violentara pela segunda vez, colocando um filho em sua barriga. Fora ele que não se inibia com as fezes esfregadas por seu corpo e assim descobrira a gravidez. Fora ele o autor dos pontapés que a fizeram abortar.

Fora ele quem se lançara nesse trajeto durante dois anos consecutivos.

Até o momento em que a hemorragia roubara a vida de sua vítima.

Sofia morreu com vinte e seis anos.

Com um feto na barriga.

E naquela noite, ela abraçaria sua vingança.

Com o poder de seus ancestrais e a força que Ana lhe emprestara, o fantasma flutuou por entre os corredores do pavilhão A-10 numa névoa fria e assombrosa. Seus dedos roçaram o joelho do enfermeiro e ela se deliciou com seu estremecer.

Ronaldo se levantou num rompante, deixando cair seu sanduiche.

Os olhos assustados vagaram pelos corredores e celas vazias.

O paciente A-10 se encontrava calado. Muito estranho. Os olhos sempre maldosos observavam as sombras condensando o ar.

– Quem está aí? – gritou o enfermeiro. – Quem está aí?

O silencio era assombroso.

– A morte. – o sussurro chegou a ele num roçar suave.

Ronaldo se virou bruscamente e, da névoa fria, viu surgir um rosto demoníaco que achava estar morto há muito tempo.

Sofia sorriu assustadoramente, o rosto pálido com cabelos flutuantes.

Suas mãos crispadas em garras cortaram o ar num rugir selvagem e a garganta do enfermeiro foi aberta, jorrando o sangue vermelho e conspurcado.

O ladrilho cinzento abrigou o corpo que caiu e o sangue vivo que se espalhava numa poça grotesca. O fantasma se deliciou com a cena.

Carlos ria, a gargalhada preenchendo o silencio assombroso.

Comemorava a morte de seu algoz.

Comemorava um princípio de liberdade.

O fantasma voltou os olhos para ele e um sorriso frio surgiu em seus lábios pálidos.

– A morte anseia por sua alma também, Torturador de Mulheres.

O paciente calou seu riso senil. Os olhos toldando-se em raiva.

Seus gritos ecoaram novamente pelo pavilhão, histéricos.

Sofia flutuou até lá, os olhos teatralmente compreensivos.

– Dois corações esfrangalhados. Duas almas fragmentadas e corpos violados. Foi o que você deixou para trás.

Suas mãos fantasmagóricas grudaram as bochechas dele.

– Eu vim ceifar o mal que existe nesse lugar. Esta é minha missão final. Nenhuma alma conspurcada passará.

Seus dedos se afundaram na carne humana, arrancando nacos grotescos.

Os gritos de Carlos formavam notas musicais, às quais o fantasma bailava enquanto o despedaçava grotescamente.

Ana se lembra de ter acordado com os gritos.

A porta de sua cela se encontrava aberta.

Descalça, ela penetrou no corredor.

Sangue banhava o linóleo cinzento.

Corpos despedaçados serviam de argamassa para uma parede da morte.

E no centro do corredor sombrio, Sofia bailava, coberta de sangue e tecidos cerebrais.

O fantasma sorriu ao ver sua amada amiga.

Num convite assombroso, ergueu a mão.

– A liberdade lhe pertence, Bela amiga. Contanto que não se esqueça de nosso acordo.

Ana refreou o assombro.
E de seus lábios assustados brotou um sorriso.

Sofia não era a única alma com sede de vingança.

Continua!

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