Fome [+18]

Escrito por Gabi Waleska.

Capa Fome.png

“A toast to lonely souls
Who never could take control of life
Burning pain, hell frozen rain falls down
Down

Life is cold here
Empty hallowed ground
In my head blood-colored rain falls down
Falls down.”

O outono daquele ano era implacável, a chuva caía, não como uma bênção vindoura ou como anunciadora de boa colheita, mas como um prenúncio de alagamento e perdas. Estava mais frio que de costume, como se o inverno e o outono ousaram se fundir em uma nova estação tão alagada, quanto gelada, escura e agourenta.
Quando a noite chegava, todos trancavam-se para se aquecer no interior de suas casas. Ninguém poria o corpo nas ruas encharcadas pela chuva gélida outrora abençoada, agora maldita como que vinda do inferno.
Na velha igreja, até os sacerdotes não mais oravam para agradecer as semanas chuvosas, levando em consideração que todo o plantio e, portanto, o sustento da Vila do Campo estava perdido, afogado sob aquelas águas escuras e lamacentas.

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Só tinha um homem naquele ambiente que não tinha os pensamentos voltados para a colheita. Pensava sim, na chuva, porém mais nas lembranças trazidas de poucos anos atrás, quando a batina era apenas um disfarce para suas caçadas.
E por lembrar disto é que levanta-se no meio da noite, com o auxílio de apenas uma pequena lamparina à óleo, e dirigia-se para a saleta de trás da capela, vazia neste dia, pois estava frio demais para a vigília. Tão frio que os sinos só tocavam agora na hora do toque de recolher, junto ao pôr do sol precipitado.
Ao final da sala, havia uma porta no chão que confundia-se com a madeira do piso e não era usada por mais ninguém. A escadaria circular antiga, abaixo daquela porta, levava por caminhos sob a paupérrima capela, o odor intenso de madeira, mogno de boa qualidade, dos tempos prósperos, entalhado era inebriante. Naquela noite fria, passar as mãos sobre aquela madeira trazia calor ao seu corpo, de uma forma perversa.
Ele pisava degrau por degrau do modo mais silencioso possível, não queria que ela o escutasse, embora devesse estar muito fraca para que fizesse algo. Todo o cuidado ainda poderia ser pouco. Havia dois anos, a encontrara ferida e a levara para lá. Curou-a com um pouco de sua essência de vida e, desde então, ele a alimentava em troca de um favor sem, contudo, libertá-la.

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Ao final da escadaria o que restava da fraca luz da luminária suja não clareava mais do que um palmo à sua frente, era subsolo. O porão era seco, empoeirado e entulhado de velharias da igreja, de outros padres, de outras épocas. Nada daquilo servia, não haviam tesouros.
Ele caminhou apressado pelo corredor, até chegar ao fundo da sala, onde a porta de ferro, pequena demais para um homem adulto passar sem se curvar, estava trancada e guardava o verdadeiro motivo para que os homens temessem o escuro.
Primeiro puxou a pequena janela gradeada, o ar úmido da velha cela veio ao seu rosto. Tudo era breu, mas sabia que havia algo vivo naquela sala – se não vivo, algo que respirava, fracamente, ofegante e com um chiado horrendo.
Espiou à sua frente, buscando, a encontrou quando a visão se acostumou com o escuro, os cabelos pendurados, a cabeça acima, virada para baixo. O corpo acinzentado esguio e, contudo, voluptuoso estava encolhido acima da cabeça. Aquela desgraçada conseguira fazer um poleiro no teto. Ele largou a pequena bolsa de lado. Primeiro ela lhe pagaria, sua gratidão por estar viva, depois ele a alimentaria. Retirou a máscara de ferro de sua bolsa e sacou a pesada chave para destrancar a fechadura enferrujada.
Ela abriu os olhos ao som do estalo metálico. Aguardou. Estava fraca demais para mover-se rapidamente, mas o odor da promessa estava adentrando em sua prisão. Via-o perfeitamente, ouvia-o, o coração não mais acelerava, mas embalava um som molhado e pulsante inebriante demais para resistir, mas ela aguardava.
– Então finalmente fez o seu… ninho – falou secamente, vendo que ela pendurava-se nos antigos arcos de ferro, de onde outrora penderam correntes, o medo já não tomava sua voz, e ela indignou-se com a insolência.
– Você gostará deste ninho, estou convicta – foi a resposta e abriu-lhe os braços.
Ele a alcançou, a expressão trancada. Pôs-lhe a mordaça metálica, uma precaução de sobrevivência, lembranças dos tempos passados. Ela deixou-se cair no chão de pedras frias, a putridão de décadas daquele piso não mais o causava repulsa, pois havia algo além ali, algo que apenas o desejo sombrio de sua concupiscência o levava a ela.
Tomando-a como outrora, encontrou sua fonte nos seios fartos, sorvendo-os, acariciando-lhes e fazendo-a emitir sons na garganta que nenhuma mulher humana emitiria. O toque frio não o estranhava mais, apenas o fazia desejar aquecê-la ao atrito de suas mãos na pele. Ela rasgou sua batina branca com as longas unhas, ato que o ferveu de fúria e desejo, tocando-a e penetrando-a lascivamente.

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A escuridão não muito revelava dos corpos unidos, nutrindo a heresia em segredo, enquanto ele saciava seus mais profanos desejos. Ela não mais gorgolejava, gemia o que a mordaça permitia, estimulando-o em seu fulgor. Poderiam ter passado minutos ou horas. Ele consumiu-a como se consumisse sua comida favorita, em tentação e gula. Sentia-se poderoso, dominando a criatura amordaçada e enfraquecida. Mas depois de várias violações e realizações, ele cansara-se e já sentia a conhecida repulsa de tocá-la.
Ela ofegava, cansada demais para mover-se, sem alimentar-se há meses. Ele vestiu os trapos da batina e pegou em sua bolsa, fora da sala, um pequeno odre de couro, que levou até ela, retirando-lhe a mordaça. Tinha que ser rápido, sabia, mas ela estaria tão entretida com o sangue animal que não olharia para ele.
– Está chovendo lá fora – ele disse, passando-lhe a bolsa que ela tomou sem olhá-lo e virou-sw para a saída, apressado para penitenciar.
Havia dado dois passos quando sentiu, sabia de onde vinha, mas não conseguia acreditar. O riso dourado e gracioso dela atrás de si, ao pé da sua orelha direita. Ela o alcançara, o segurava pelo pescoço e tórax. Sem mordaça.
– Mas que notícia maravilhosa – ela riu, e aspirou sua nuca, passando lentamente o nariz longo e arrebitado de cima abaixo de sua mandíbula. Ele sentiu as longas unhas brincarem com sua clavícula. Estava paralisado – Há coisas interessantes quando se passa tanto tempo sozinha, servindo de brinquedo para alguém que me alimenta com algo tão frio e nojento… – Sua mão que estava no tórax alcançou seu baixo ventre. – Ora, ora, onde está seu desejo agora, padre?
Sem esperar resposta, virou-o para si lentamente e o beijou, algo que ele sempre evitava, amordaçando-a. Agora ela sorvia sua língua, convencendo-o de sua ânsia, massageando seu corpo com volúpia. Quando percebeu-o entumecido, o tomou, como ele fizera tantas vezes antes. Sobre ele, dominou-o. Sua imensa língua passeava pelo corpo dele, divertindo-se com o medo e a tensão crescentes.
Ela gorgolejava, como um felino gigante, violava-o como ele fizera com ela. Poderiam ter passado minutos ou horas. Sentia-se poderosa novamente, dominando a criatura amedrontada e emudecida. E depois de várias violações e realizações, cansada de brincar, finalmente pendurou-se no poleiro, virando-o de ponta cabeça.

– Eu falei que você iria gostar do meu poleiro – disse com diversão e perversidade na voz. Depois rachou os lábios, quase toda a extensão do maxilar e cravou os dentes afiados no pescoço pulsante. Ela consumiu-o como se consumisse sua comida favorita, em tentação e gula.

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O gorgolejar tornou-se algo mais grotesco, um sugar constante e intenso, saboreando o néctar da vida. Inebriada com o odor rubro do sangue, perdeu os modos, partiu-o em pedaços com suas unhas e dentes, consumiu sua carne, seu cerne, suas vísceras.
Nada sobrou, exceto alguns pedaços de órgãos, de ossos e um crânio vazio.
Tanto tempo alimentando-se do sangue frio e fraco de animais que ele trazia, agora sim, sentia a força de um bom aperitivo para se libertar.
Levantou, limpando-se nos farrapos das roupas daquele homem miserável, quando viu sua pequena cruz metálica que outrora ornara seu pescoço e abaixou-se novamente, diante dela, em joelhos. Juntou as mãos ao peito e elevou os olhos ao teto.
– Que Satanás receba esta alma miserável no mais ardente inferno. – elevou a prece como um desejo profundo e suspirou.
Seu corpo regenerara-se o suficiente para a tonalidade de pele humana tornar a cobrir seu corpo esquálido pela privação de alimento, agora aparentava-se mais uma mulher muito pálida, que um monstro. Encolheu as garras das mãos e dos pés. Seus cabelos opacos e quebradiços agora estavam espessos e emolduravam o rosto tão belo quanto demoníaco.
A porta estava aberta. Sorrindo, caminhou para fora da prisão, ansiando a libertadora chuva congelante, a premissa do inferno.

Música Hell Frozen Rain versão Mary Elizabeth McGlynn

(Tradução)

Um brinde às almas solitárias
Que nunca puderam ter o controle da vida[…]
Dor ardente, chuva gélida infernal cai
Cai
.

A vida é fria aqui
Terreno sagrado e vazio
Dentro de minha cabeça, chuva cor de sangue cai
Cai.

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