Entremeios

Escrito por Naiane Nara

Quinta-feira, calor intenso mesmo na sombra da estação. Ao entrar no trem, empurra-empurra, ar gelado, choque pela diferença de temperaturas. Aborrecimento ao perceber que está mais lotado que de costume, mais lento também.

Mas tudo bem, Lídia saíra trinta minutos mais cedo que o horário habitual. Seu chefe já lhe admoestara sobre os atrasos constantes, não podia se dar ao luxo de uma advertência ou mais descontos nos salário que já não era grande coisa.

Levantara cinco horas da manhã para engolir um sanduíche frio sem a menor fome para poder pegar o trem das cinco e meia. Com sorte, chegaria alguns minutos mais cedo e conseguiria ao menos tomar um café tranquilamente antes de começar o expediente.

O trem ficava mais cheio à medida em que passava pelas estações. Lídia tinha certeza que estava desenvolvendo claustrofobia devido aos lotamentos. O coração acelerado e a angústia no peito estavam apenas piorando ao longo do tempo. Precisava arranjar um emprego mais próximo de casa.

Nesse momento, mesmo sufocada pelos odores mais diversos dentro do vagão – nem todos agradáveis – ela se permitiu uma risadinha. Como se pudesse escolher emprego hoje em dia. Na verdade ela gostava bastante da empresa e da vaga em si. O salário era o maior que já havia ganho em toda a sua vida trabalhista, mesmo ainda não sendo suficiente para uma vida plena, ao menos cobria todos as despesas necessárias.

Só a distância mesmo que era um problema, vivia cansada, mais pelo trajeto de duas horas ida e duas horas volta do que pelas atividades do trabalho em si.

Duas horas e meia agora, na verdade, o chefe fora bem claro que precisava que ela se programasse pensando nos atrasos constantes das linhas, pois continuar chegando atrasada era impensável. Seus olhos se encheram de lágrimas mas Lídia se controlou. Como se não bastasse o tempo de vida que perdia no trajeto, tinha que sair mais cedo e perder mais tempo ainda por coisas que simplesmente não eram responsabilidade dela – mesmo sem culpa, tinha que arcar com as consequências.

Era insano, mas real. Como não havia outra escolha a não ser obedecer, calou-se. Sentia-se péssima, mas discutir de nada adiantaria.

Faltando três estações para a que precisava descer, veio a temida mensagem dos alto-falantes: “ Estamos parados aguardando liberação do trecho a frente. ” O coração se acelerou, mas Lídia se forçou a ficar calma. Daria tempo, ainda bem que viera mais cedo.

Depois de dez minutos parado com as portas abertas o trem saiu de forma bastante lenta. Quando achou que ia ficar aliviada, o fenômeno se repetiu na estação seguinte. Mais dez minutos.
“ Calma. Vai dar tudo certo. O dia não vai começar assim tão ruim, não nessa semana que tem sido tão promissora.” Pensou de si para si, tentando acalmar a respiração entrecortada.

Saindo na estação devida, por causa da ansiedade que já havia se instalado esqueceu-se das precauções habituais, tais como deixar os mais nervosos e apressados saírem primeiro. Ao invés, se foi entre eles. O resultado foi bem previsível, caiu. Com seus reflexos rápidos, se levantou rapidamente e não foi pisoteada, porém teve que andar mais lentamente por estar mancando. Sentia o joelho direito ardendo sob a calça jeans e não conseguia firmar aquela perna.

Fez o melhor que podia, mas naquele dia não foi suficiente; ao chegar no trabalho, Lídia foi imediatamente demitida.

*****

Assim que se dera conta de que o pai estava passando mal, Rafael o amparou, fazendo com que passasse o braço por seus ombros, colocando-o o mais cuidadosamente que conseguiu em seu velho carro. Muito lhe doeu a vulnerabilidade expressa de seu progenitor, que gemia de dor vez em quando, tentando não preocupar ainda mais o filho querido.

Rafael estava desesperado. Perdera a mãe no ano anterior e desde então o futuro se afigurava negro. O mundo só não desabou por que tinha que oferecer toda assistência possível ao seu pai. Não podia permitir que seu pai também se fosse, ainda não.

Chegou rapidamente ao posto de saúde. Odiava aquele ambiente. Nem cemitérios tinha energia tão densa, mas seu pai precisava de tratamento e rápido.

A primeira consulta demorou, apesar do pai de Rafael ter sido classificado como paciente de urgência ao preencher a ficha. O médico que o atendeu encaminhou imediatamente ao pronto-socorro. O velho homem, já inconsciente, estava com um infarto em andamento e um aneurisma também evoluindo.

Ou seja, tratamentos paliativos não adiantariam, o que ajudaria seria somente uma cirurgia e vaga em UTI, se ficasse no posto de saúde morreria em algumas horas.

Rafael ligou em todos os hospitais particulares da cidade enquanto estavam na ambulância. Todos exigiam um depósito de vinte mil reais, em dinheiro ou cheque, para uma situação tão delicada. Como não tinha como oferecer nenhuma das garantias, deixou que a ambulância completasse o trajeto até o pronto-socorro.

Assim que chegaram, foram encaminhados direto para a sala vermelha. A moça que fez a ficha após a avaliação do médico tranquilizou Rafael no sentido de que a vaga da UTI havia sido solicitada desde o primeiro momento; estavam aguardando apenas a higienização do leito pois havia um paciente anterior que o havia ocupado.

– Não é um processo rápido, mas assim que a higienização terminar a vaga é do seu pai.

Ao dizer isso ela deu um sorriso que pretendia ser encorajador, mas Rafael sentiu um calafrio de advertência.

– Tudo bem – tornou ele. – De toda forma imagino que tivemos sorte. Obrigado.

Rafael tentou se sentar na sala de espera, mas não conseguiu. Estava agitado demais. Retornou para a sala vermelha. O médico responsável estava sentado, mexendo no celular. Ria obscenamente.

Rafael pigarreou.

– Tudo certo?

O médico nem se dignou a olhar para ele. Apenas acenou a cabeça secamente, como a dizer que não o atrapalhasse.

Uma e hora e meia se passou, e nada de maqueiros vindo buscar seu pai. Cada vez mais inseguro e preocupado, Rafael voltou para a recepção. Afinal, a moça havia dito que não era rápido, porém não deveria demorar tanto assim, certo?

A recepcionista o recebeu com olhar devastado. Claro, tudo havia sido fácil demais. Sabia que tinha que ter uma complicação. Ele ficou parado, como se a voz dela viesse de um lugar muito distante.

Ela explicou que a vaga que deveria ser do seu pai teve que ser redirecionada para uma pessoa que a conquistou através de liminar judicial. A força policial foi acionada para garantir o cumprimento da liminar; não havia nada que pudesse ser feito, a não ser priorizar a próxima vaga…

Rafael se afastou dela, ouvindo ainda sua voz de um lugar muito distante. Murmurava desculpas, ou algo do tipo. Só sabia que sentiu o corpo entrar em um torpor estranho, ao mesmo tempo em que puxou o celular e começou a ligar.

Passou metade da noite implorando a todos conhecidos que possuíam cartão ou cheque para que pudesse fazer a internação particular de seu pai. Não importava que oferecesse toda a sua casa como garantia ou seu trabalho de graça por tempo indeterminado; tudo que ouvia era uma série de nãos repetidos que lhe embrulhavam o estômago.

Quando percebeu que não conseguiria, correu para passar com seu pai as últimas horas. O rosto dele tinha adquirido uma tonalidade arroxeada. O médico continuava no celular. As pessoas lá fora estavam trocando seus plantões; a vida seguia impiedosa, mesmo com seu mundo ruindo.

“Por favor Deus. POR FAVOR!”

Era tudo que Rafael conseguia balbuciar no fim daquela noite terrível. Seu pai veio a óbito ao amanhecer.

*****

No jantar de gala da mansão maravilhosa, políticos atuais e sucessores riam e brindavam com champagne caríssimo. Carne argentina ao molho de chimichurri, camarões e caviar, tudo apenas do melhor. Lagostas recém saídas do forno, exalando vapor. O melhor whisky sendo desperdiçado naquelas bocas…

Acordos sendo feitos, maneiras mais modernas de se ocultar o roubo de dinheiro público. Ternos e vestidos que custaram o que serviria para que uma geração inteira se alimentasse.

– Um brinde! – bradou um deles. – Um brinde a esta reunião frutífera!

Todos brindaram, sem perceber o quanto de sangue e lágrimas tinham nas mãos.

******

Baseado em fatos reais. Só cabe a nós decidir quando vai ter fim.

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