Dia de los Muertos

Escrito por Naiane Nara

Uma semana estressante, um mês horrendo, o ano que tem sido pior ainda. Preciso de paz, uma bebida coroada de silêncio, passar o dia entre o cochilo e a meia luz. Tanto tempo se passou desde que pude ter dois dias de descanso na semana, o domingo sozinho não consegue repor as energias.

Mas ela não para de me chamar na voz estridente que tanto detesto. Estou cansada, esgotada, e sua insistência apenas me irrita ao invés de convencer.

– Querida, é realmente preciso.

Suspiro, me sentindo ridícula por ter que justificar minhas escolhas nessa idade.

– Eu não vou. Sei que existe a tradição de família, mas nem o pai nem o mano existem naquele lugar.

Ela não se deixou convencer.

– Os portais ficam abertos no dia de Finados. O mortos visitam os vivos em suas tumbas, sabe disso desde que aprendeu a ler! Pense na tristeza deles, como se não bastasse partir desse plano naquele assalto horrendo…

Fiquei deitada de lado na poltrona da sala, de modo que me coloquei de costas para ela. Ouvi o choro irromper quando ela bateu a porta do quarto violentamente. Pisquei, com os olhos ardendo, me recusando a cair no choro também.

Chega, depois de dez anos de tortura, quero esquecer. Quero esquecer a maneira violenta como a vida do pai e do mano foram ceifadas naquela noite. Quero esquecer as caminhadas entre os montes tumulares que tanto me exauria, a poeira que parecia entrar nos poros, grudar na epiderme, nos cabelos, na alma.

Se eu conseguir esquecer isso, esquecerei junto a saudade e a dor… Conseguirei deixar no passado o peito ardendo, a garganta dolorida e os olhos secos… Esquecerei tudo que perdemos, as datas comemorativas, os momentos em família, tudo.

Cedo ainda, fui para a cama, desejando que o sono me apagasse e ao menos temporariamente eu estivesse livre. Fechei os olhos e desejei que o Deus dos Sonhos me visitasse rapidamente e eu visse apenas flores e pessoas sorrindo.

Dormi tanto e tão profundamente, que quando despertei minha mãe tinha ido fazer a visita dos Finados e eu estava sozinha. Me senti triste e ao mesmo tempo aliviada. Eu realmente precisava desse descanso.

Me levantei devagar, com sede. Abri a geladeira e a garrafa de leite me inspirou gula. Me servi de um copo grande imediatamente. Minha boca estalou de prazer ao sentir o gelado, inspirei deliciosamente então pela última vez.

O leite não desceu e não consegui expirar. A temperatura fria antes tão agradável se tornou angustiante. Tentei inspirar, sem conseguir. Quebrei o copo em minhas mãos; derrubei panelas e enfeites na bancada da cozinha. Tonta, fui ao chão onde engatinhava com o peito chiando pela necessidade do tão precioso ar.

Desesperada e ainda mais tonta , senti minhas mãos arranhando minha garganta sem um comando conciente da minha parte. Ouvi o chiado aumentar de um lugar muito distante; minha visão ficou turva e senti o sangue escorrendo pela garganta e mãos… Estava tão quente…

Quando pensei que era o fim, veio o barulho tenebroso do banheiro. A casa ficou escura e um cheiro de podridão se espalhou. Dois vultos, um muito alto e o outro mediano se arrastavam entre as sombras. Pude entrever os corpos em decomposição, os vermes saindo dos orifícios, a carne morta produzindo um som pesado e molhado no taco do piso.

Tentei engatinhar novamente para fugir, mas apenas consegui ficar mais tonta: os membros não mais me obedeciam. O vulto mais alto me alcançou primeiro, sua mão gelada na minha garganta ensanguentada, a voz inumana se tornando minha última lembrança:

– Já que não foi nos ver, minha filha, viemos até você…

Fim…

                               Será?

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