La Llorona

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As roupas foram jogadas de qualquer maneira sobre o interior da mala escancarada. Uma “arrumação” muito diferente em comparação com a do dia em que saíra de viagem. Rosa havia se preparado com meses de antecedência, fizera listas e mais listas para não se esquecer de nada. Não estava disposta a aceitar menos que a perfeição para as suas tão sonhadas férias no México, com sua pequena família.

Filha de imigrantes ilegais nos EUA, ela vinha se prometendo há anos uma visita à terra de seus pais, mas o trabalho sempre fora um empecilho. Depois de casada, voltou a sonhar com Iucatã. O dinheiro guardado seria o suficiente para usufruir de duas semanas inteiras em uma bela hacienda. Então os gêmeos chegaram e a poupança escorreu pelo ralo.

Com Julia e Michael crescidos o suficiente para aproveitarem a viagem, não havia mais motivo para não ir. Nem mesmo o divórcio recente. Passar duas semanas, contudo, tinha se tornado um sonho distante. Uns quatro ou cinco dias, por outro lado, caberia na sua condição financeira.

— Mamãe, cadê a Sunshine? — A voz chorosa de Julia não interrompeu sua mãe nas idas e vindas do armário até a cama. — Mamãe? Mamãe, eu quero a Sunshine.

Merda de cachorrinho de pelúcia, pensou Rosa, empurrando as roupas com força para conseguir fechar a mala. O suor empapava sua nuca e a blusa. Eu só queria um cigarro agora.

— A mamãe ‘tá ocupada agora, meu amor. — Ela olhou para os filhos de soslaio; ambos encolhidos de medo próximos à janela. — A gente procura a Sunshine depois, ‘tá bem?

A menina enxugou as lágrimas ao assentir e Rosa voltou sua atenção à mala mais uma vez. Não podia se desconcentrar. O relógio não iria retardar o tempo para ela. Precisavam sair o quanto antes do hotel. O quanto antes do México. Sua vontade de assistir aos festejos do Dia dos Mortos estava cancelada por tempo indeterminado.

— Quando nós voltarmos para casa, irei compensar tudo isso. — Rosa finalmente fechou a última mala e pegou o celular no bolso das calças.

O relógio marcava poucos minutos depois das 23h do dia 1 de novembro. El Dia de los Angelitos; reservado às crianças falecidas. Recriminou-se em pensamento por ter demorado tanto para se dar conta do que estava acontecendo. Rosa não se considerava uma pessoa muito supersticiosa, ao contrário de seus pais, mas costumava ouvir as histórias quando era pequena.

O choro. O maldito choro.

E tudo começara por causa de uma visita inocente com as crianças a um cenote próximo à hacienda. Os lamentos começaram naquela mesma noite. A princípio baixos e distantes, depois altos e próximos. A choradeira não tinha fim e vinha de todos os lugares. Não havia explicações racionais para o que acontecia. Conversara com vizinhos de quartos e ninguém partilhara de sua experiência. Isso até uma das camareiras entreouvir sua conversa e lhe contar sobre la llorona.

No mesmo instante recordou das histórias de sua mãe. Uma mulher de origem humilde que, após ser abandonada pelo marido, afogou seus dois filhos graças a um arroubo de fúria. Ao se dar conta do que fizera, inconsolável, afogou-se também. Sua entrada no paraíso foi negada até reencontrá-los. Enquanto isso, ela vaga pranteando sua perda e raptando meninos e meninas que a lembrem das crianças que matara.

O celular de Rosa tocou de repente e, com o nervosismo, ela o deixou cair.

— Por que vocês não vão pegar uns biscoitos. Aquelas caveirinhas perto do frigobar. — Ela sorriu para os dois, tentando passar a calmaria que não tinha; Michael estava agarrado ao seu boneco do Hulk. — Tragam um pra mim, sim?

Os gêmeos se entreolharam antes de concordar. Rosa os observou se afastar e então se abaixou para pegar o celular, que exibia uma chamada perdida de sua mãe. A ponta de um rabo felpudo chamou sua atenção, sob a cama.

— Querida, achei a Sunshine!

Quando não ouviu a voz de Julia, nem os passos apressados em direção ao quarto, Rosa saiu correndo para encontrar os biscoitos e o boneco do Hulk caídos no chão.

— Julia! Michael!

Ela procurou por todos os cômodos, percorreu o corredor do lado de fora, mas não havia sinal deles. Rosa respirou fundo, tentando se acalmar para evitar agir por impulso. Orou para Nossa Senhora de Guadalupe, em busca de auxílio, abraçada a Sunshine. Só então se deu conta, talvez por Divina Providência, da data.

Rosa afastou o cachorrinho de pelúcia e o encarou como se a resposta para os seus problemas refletisse nos olhos vítreos dele. Sem esperar nem mais um segundo, pegou o brinquedo de seu filho, os biscoitos e saiu em direção ao estacionamento. Os pneus do carro alugado cantaram, chamando a atenção de outros hóspedes.

As ruas estavam apinhadas de gente, e quase atropelou algumas em seu desespero para chegar ao cenote. Não tinha tempo para pedir desculpa, enquanto as pessoas a olhavam de cara feia ou a xingavam. Estava quase deixando a multidão para trás, quando afundou o pé no freio para não colidir com uma criança parada no meio da rua, segurando um alebrije de papel machê.

Uma Rosa ofegante acompanhou o menininho de vestes humildes com o olhar, à medida que ele seguia seu caminho, sem deixar de encará-la. Ao virar o rosto um pouco mais para a esquerda, deparou-se com uma mulher parada do seu lado; o rosto redondo pintado tal qual uma caveira, envolto por um manto azul vivo e iluminado pela vela grossa em uma das mãos. Ela bateu na janela com os nós dos dedos longos e finos.

Rosa permaneceu em silêncio enquanto abaixava o vidro, sem quebrar o contato visual com a desconhecida, que, com um movimento calmo, ofertou-lhe a vela. Suas mãos se tocaram por um instante, causando um choque entre a pele morna e a gelada. No silêncio de seu gesto, ela sorriu, meneou a cabeça em um cumprimento compassivo, e partiu.

Com um sopro, Rosa apagou a chama da vela e a colocou no banco do carona antes de continuar seu caminho, agora muito menos tumultuado. Ela dirigiu até a maior distância possível, mas uma parte do caminho precisaria ser a pé. O casaco no banco de trás serviu para comportar as velas, os biscoitos e os brinquedos. No bolso interno, seu maço de cigarros acompanhado do bom e velho isqueiro.

A lanterna do celular e o choro distante a guiaram até o cenote. Local onde tantas crianças foram sacrificadas ao longo dos séculos como presentes aos deuses. No limiar da grande abertura, Julia e Michael seguravam a mão um do outro. Logo atrás, pairando a poucos centímetros do chão, uma figura pálida, cujo rosto estava tapado por um véu branco semelhante ao próprio vestido.

As crianças tentaram correr na sua direção, mas seus pés não saíram do lugar. O lamento de la llorona ficou mais alto ao pousar as mãos ossudas nos ombros delas.

— Não vai levar meus filhos! — Rosa se abaixou, depositando as offrendas no chão enquanto chamava pelos espíritos das crianças inocentes.

Pouco antes de acender a vela, seus filhos tombaram para frente e, com os dedos pequeninos, tentaram se segurar na terra úmida enquanto eram puxados para trás, rumo ao vazio. Rosa gritou pelas crianças no mesmo instante em que la llorona decidiu se aproximar dela; seu choro era quase ensurdecedor.

Quando o pavio finalmente foi aceso, a luz se espalhou pelo lugar, envolvendo-as. Rosa aproveitou o momento de confusão de la llorona para correr em direção ao precipício. Julia e Michael gritavam, com metade do corpo balançando no nada.

— Calma, eu ‘tô aqui. Eu ‘tô aqui — repetiu Rosa entre soluços.

Ela os puxou para si, afastando-se o máximo que pôde da cavidade, e então se virou, posicionando-os às suas costas. Próxima às offrendas, la llorona se viu cercada por crianças, e não importava o quanto ela desejasse sair, os meninos e meninas não permitiam.

Seu choro diminuiu aos poucos, assim como sua figura — e a das crianças — se tornou cada vez mais diáfana. Em poucos segundos não havia nada além da vela acesa e do mesmo menininho que quase atropelara vinte minutos antes. No lugar do alebrije, ele segurava Sunshine.

— Obrigada — murmurou Rosa, puxando os filhos para perto.

Ele observou seu gesto com curiosidade e, com um sorriso triste, desapareceu.

* * *

Alebrijes: são esculturas coloridas da arte popular mexicana de criaturas fantásticas (fantasia / míticas).

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