Teardrop

Escrito por Gabi Waleska.

Teardrop (Gabi)

As pancadas na madeira me despertaram. Não sei por quanto tempo dormi, mas aquele som intenso e persistente era alto e me arrancou de um sono tão profundo que fiquei desorientada por alguns instantes, tentando me situar. O ambiente sulfuroso e abafado me trouxe à realidade e comprimia-me. O eco da madeira apodrecida cedendo era desesperançoso.


Um feixe repentino de luz. Agora eu podia ver algo através da claridade cegante. Sombras se moveram. Mais claridade. A porta finalmente foi arrancada. O ar seco limpou um pouco minha face antes do ar pútrido do cubiculo abafado tomar o recinto.
Senti que meu coração explodiria de alegria, quando lembrei-me que não pulsava. Ele encarou meus olhos inexpressivos – jamais os fechara.
– Você está tão linda quanto antes – disse e puxou meu corpo rijo para seus braços, embalando-me carinhosamente. Percebi que meu pé esquerdo ficara no caixote.
Ele sim, estava mais lindo que nunca, uns 15 anos a mais o fez ficar tão maravilhoso. Tocou meus lábios secos com os dele, delicadamente. Senti a pele fina ceder.
Retribuiria se ainda tivesse língua.
– Suas roupas estão puídas, – disse, olhando-me – trouxe suas roupas. – Deitou-me na velha cama empoeirada, despindo-me com cuidado. – Ah, Danielle, sempre vou te desejar. – Falou e, como sempre, consumiu meu sexo inerte.
Eu queria reagir. Gemer como antes, gritar com prazer e mostrar que ainda estou aqui. Desta vez havia algo se desfazendo dentro de mim. Ele tremeu e parou, depois desabou no chão chorando, fora do meu campo de visão. Após algum tempo seus soluços passaram e senti sua mão pousar suavemente na minha perna direita.
– Perdão querida Dani, te machuquei. – A voz tremia. – Não farei novamente. – Prometeu solene e minha garganta seca não me permitiu consolá-lo.
Ele vestiu-me com um dos meus belos vestidos, senti a maciez da seda verde, quando ele cuidadosamente envolveu meu tronco no tecido. O frescor de roupa limpa.
Meus olhos marejariam, se tivesse me sobrado alguma lágrima.
Ele penteou-me, com cuidado, enquanto tufos de cabelos meus não resistiam à escova e desfaleciam embaraçados ao chão. Depois repôs meu camafeu, com nossa foto, e o anel de diamante que selara nosso amor.
Tentei sorrir em agradecimento, com todas as forças da minha alma, mas meus lábios eram papel, sem movimento.
Recolocou-me no caixão, ajustando meu pé à tíbia, e trocou meus sapatos, beijando meus dedos no processo. Novamente curvado sobre mim, roçou com mais cuidado meus lábios.
– Te vejo no próximo aniversário, minha amada – sussurrou e paralisou por alguns instantes, estupefato, olhando-me nos olhos. Então, trêmulo, secou a umidade condensada que surgira em minha pálpebra inferior.
Recolocou a tampa, porta do meu inferno e do meu paraíso. Que promete esperança e tortura. Mas, ao ver o escuro assomar-se novamente sobre mim, hoje eu sabia que era amada. E que ele voltaria, pois agora sabia, por causa da minha singela lágrima milagrosa, que por ele, eu estava aqui.

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