Heidi…

heidi1

Por L. Orleander

“Quando na noite escura o lobo uivar,
e nem se quer o vento ousar cantar…
Corra por sua vida sem jamais perder o olhar.
Pois na noite escura, ela vem te procurar..”

– Denni… – ela sussurrou ao chão antes de sentir as próprias pernas cederem ao peso e o buraco no peito se fechar sobre a cavidade oca.

A roupa rasgada cobria-lhe apenas parte de seus seios e suas pernas, os braços estavam arranhados e as unhas manchadas de sangue enterravam-se profundas na terra escura e fétida. Chamou uma vez mais e, do nada, em meio a fumaça, surgiu o rapaz.

O par de olhos vermelhos feito sangue cortou a escuridão que a cercava e os lábios carnudos sorriram deixando a mostra presas que mais pareciam marfim, extremamente alvas.

– Chamou – me, senhora? – sibilou ele com sarcasmo e altivez.

– Quero voltar para casa. – disse ela em tom de súplica.

– Mas senhora, tudo que me pedistes, eu lhe dei. Querias ouro, eu lhe dei. Querias admiradores, eu lhe dei. Querias poder… – Disse ele em tom de deboche – Eu lhe dei. – Respondeu fazendo muxoxo e demonstrando que se ofendia com a massa disforme que agora jazia diante de si. Um projeto de mulher ou algo parecido.

Em passadas largas ele a alcançou e segurou-lhe o rosto entre os dedos com as unhas imundas e cheirando a morte, olhou-a nos olhos, lambeu-lhe as feridas e a boca suja de algo viscoso, fechando os olhos em êxtase.

– Eras tão bela, jovem Heidi… Querias vingança e me dissestes que jamais teria do que se arrepender. Tudo que lhe pedi, foi que os trouxesse para mim. Meus preciosos corações partidos. Eu lhe favoreci em meio a tantas e agora queres me abandonar? Não sejas ingrata, és parte de meu reinado, meu bichinho de estimação, não podes vir até mim e quebrar nosso acordo, não. Eu ainda tenho desejos e vontade de brincar, não estou saciado…

Denni inspirava ódio e irritação, andou de um lado a outro enquanto murmurava algo para si, uivos longos começaram a invadir a escuridão que os cercavam e atingiam Heidi como navalhas, os cortes tornavam-se profundos e o sangue vertia sobre a lama que se formava abaixo dela, transformando-se em pequenos vermes que voltavam para seu lugar de origem, a fim de comerem a carne que se tornava podre.

– Denni, por favor… – o grito atravessou a escuridão e Heidi sentiu-se sufocar, mãos arrancavam-lhe nacos de pele e abriam com voracidade as feridas recém feitas, criaturas sem rosto e sem corpo devoravam-na como se estivessem em um banquete.

Heidi urrava de dor e na tentativa desesperada de fugir arrastava-se lentamente.

– Minha senhora, não podes fugir de teu destino… Já és minha! Você se entregou a mim… – disse o rapaz com um coração pulsante na palma das mãos…

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Heidi gritou e caiu da cama, arfando nervosa e secando com as costas da mão o suor que lhe escorria pela face. Seu quarto ainda estava sobre a penumbra do velho abajur e as velas ainda crepitavam próximas ao livro velho que encontrara na praça, na semana anterior. Não havia um nome ou qualquer coisa que indicasse um dono.

Mas algo estava errado, lera alguns dos textos e coisas aconteceram, realizou sonhos, vingou-se, conhecera até um belo rapaz de cabelos negros e pele rosada que a chamou para um café, estava tudo perfeito, finalmente era feliz, mas o que significava aquele pesadelo?

Apoiou-se no chão para levantar e sentiu a umidade molhar-lhe a mão, o cheiro de ferrugem a deixou nauseada. Parou por um instante com medo e sentiu uma leve corrente de ar próximo ao seu pescoço. No sussurro da brisa alguém chamou seu nome, colocou a mão no peito e não sentiu o coração bater, apavorou-se.

Algo estava muito errado, levantou-se correndo e viu o corpo ensanguentado ao lado de sua cama, a cabeça completamente virada para trás e os olhos assustados pareciam saltar das órbitas.

O grito ecoou na noite e uma risada sinistra o acompanhou.

– Heidi, hora de ir para casa, minha querida. – Denni sorriu triunfante e em um piscar de olhos, a alma de Heidi entre gritos desesperados era arrastada para baixo de sua cama, pelas mesmas garras que a feriram.

Ele caminhou até o livro, apagou as velas e deu dois tapinhas em sua capa.

– Vá, velho companheiro… Nossa fome por corações fortes está apenas começando. – disse ele.

– E quanto a Heidi, meu senhor? – perguntou a voz macabra que vinha das páginas amareladas, escritas com um tinta mal cheirosa

– Heidi? Heidi é uma caçadora, velho amigo. E bons caçadores, encontram sempre as melhores presas. – disse Denni sumindo em uma nuvem negra, que cheirava a enxofre.

O som de ossos se partindo embaixo da cama não paravam, os gritos davam lugar á um rugido faminto e vil, a besta saia à claridade do abajur, ajeitando-se e sacudindo o pelo espesso. Abocanhou o corpo exangue de quem fora um dia e o dilacerou…

Heidi nunca mais seria a mesma…

FIM?

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