O Lamento da alma de Sarah Alles

Seus passos chapinavam nas poças de água acumuladas no cimento.

Os pés descalços, pálidos e gelados. Dançavam na chuva num desespero palpável enquanto a menina corria por entre os carros.

O vestido de seda clara esvoaçava com o açoite do vento.

Os cabelos encharcados pendiam com tristeza pelas costas.

A chuva fina era fria como a morte.

O ofego que saía pelos lábios rosados chamou a atenção do policial que repousava ao lado da viatura, devorando um donnuts do tamanho do mundo. Ele fitou a garota, a tristeza no semblante jovial e os pés descalços chafurdando na água empoçada.

Ele largou o donnuts, seguindo a jovem pela ponte.

Ela se aproximou das grades cinzentas, ofegando, chorando.

A tristeza ameaçava sufocá-la, afundá-la numa imensidão fria e escura.

Suas mãos esqueléticas se grudaram na borda fria da grade, sentindo a extremidade lisa. Ela subiu, os pezinhos torpes bambaleando.

– Minha Senhora! – o policial gritou, ameaçando se aproximar.

Seus olhos gentis esboçavam assombro.

A garota voltou os olhos para ele e esboçou o sorriso mais triste que um dia ele viu.

– Houve um dia uma garota que transbordava alegria. Mas eles a mataram. De sua alma estilhaçada só sobrou ruínas.

De seus olhos rolou uma lágrima sentida.

E então ela pulou.

O policial avançou, mas era tarde demais. Rápido demais para seus braços ágeis pensarem salvá-la.

Seu corpo despencou graciosamente no ar e foi abraçado pelas águas turvas do Tâmisa.

Houve uma vez uma garota que transbordava alegria.

De sua essência vertia cores.

Com o sorriso, ela cativava.

Com a alma, ela inspirava.

E com os olhos, ela pedia ajuda.

O que a matou por dentro?

O que ceifou suas cores?

O que afogou suas alegrias?

E o que roubou sua luz?

O que deixam para trás as almas fragmentadas?

Eu não sei.

Tudo o que posso contar é que aqueles olhos tristes moldaram a vida do policial para sempre.

A vida dela lhes escapou por entre os dedos.

Deixando para trás apenas o sereno frio.

A quem pede ajuda, que seja gentilmente ouvido.

Apenas um leve roçar na memória de vocês, suscitando a importância da Prevenção ao Suicídio.

2 comentários em “O Lamento da alma de Sarah Alles

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