A maldição do corvo

Por LB Oliveira

Jericho e seu bando prepararam seus cavalos sob o sol do meio-dia. Ele apertou a fivela sua égua com tanta força que um relincho e um olhar de dor ela mostrou. Cada uma delas carregava consigo uma bolsa que estava cheia de adagas ornamentadas, peles de gnolls-da-neve e carne de escorpião cinza. As mercadorias roubadas pesavam tanto na bolsa da égua que ele decidiu levá-la andando até o acampamento.

Mishey diminuiu o passo de seu cavalo para andar ao lado de Jericho.

“Por que não está cavalgando?”, ele perguntou.

“Um homem que é gentil com sua montaria recebe gentileza em troca”, respondeu Jericho.

“Talvez ela o recompense com uma boa negociação no mercado”, disse Mishey. “Ela está muito curvada para montar de qualquer maneira”.

“Não está, não. Essa senhora equina ainda tem muitos quilômetros para andar”, disse Jericho. Mishey passou por eles, balançando a cabeça e dando um pequeno sorriso sarcástico.

Quando os homens chegaram nos campos áridos que ficam antes de seu esconderijo, o sol derramava seu brilho rosado no horizonte. Uma brisa assobiante e fresca ecoou pelos caules das poucas folhas que ainda restavam por ali. Fardos mofados de feno estavam jogados como cadáveres em um campo de batalha. Vigiando essa terra abandonada estava um espantalho grosseiro, feito de palha, equilibrado em duas pernas de salgueiro fino e braços de madeira que pareciam podres. Suas vestes rasgadas balançavam ao vento, uma corda estava presa ao seu pescoço uma foice enferrujada presa em uma sãs mãos e um chapéu cobria quase seu rosto todo.

Os saqueadores passaram pelo campo e entraram no matagal em seus limiares, onde eles se aproximaram da boca de uma caverna com estalactites proeminentes como dentes à mostra.

Após amarrar sua égua com os outros cavalos próximo à entrada, Jericho se juntou aos companheiros que estavam acendendo uma fogueira sob o elevado teto de pedra. Alezia, uma mulher com uma cicatriz dividindo seu rosto, acenou para ele. Jericho levou a mão ao bolso para examinar seu tesouro mais precioso: um amuleto vermelho com um desenho de corvo preso a uma corrente delicada.

Ele lembrou-se do momento que viu o colar ao redor do pescoço da donzela nobre, emoldurado pelas cortinas luxuosamente bordadas da janela de sua carruagem. Ele e Alezia pararam os viajantes sob a pretensão de avisá-los sobre um bando de ladrões que se aproximava, quando na verdade seus homens já estavam esperando.

Bastou um momento para que os guardas percebessem a armadilha, mas foi o suficiente. Alezia silenciou o primeiro com um corte na garganta, enquanto Jericho apunhalou o segundo. Seus compatriotas mataram os outros com uma saraivada de flechas. Jericho entrou na carruagem, exigindo o colar, mas a mulher o segurou firme no peito. A teimosa miserável o golpeou com uma faca que estava escondida, fazendo-o puxar sua própria adaga e colocá-la no pescoço da mulher para arrancar o colar de suas mãos.

“Diga-me, qual o seu nome moça?” Perguntou Jericho a moça.

“Meu nome é Yri…”antes mesmo dela responder ele cortou sua garganta e deu um pequeno sussurro…

” Quem se importa ”

Jericho o segurava tão forte quanto o segurou daquela vez, limpando uma mancha de sangue do amuleto até ele refletir a luz da lua. Ele o devolveu ao bolso enquanto um relincho choroso chamou sua atenção para os cavalos próximos à entrada.

“Ratos na comida deles de novo?”, Jericho perguntou.

“Eles estão saltando por causa de sombras! Que cavalos corajosos, hein?!”, disse Mishey.

“Não são sombras”, disse Mishey. “Era um pássaro feroz, um grande e temível… corvo!”

Os homens gargalharam.

Logo em seguida, um pássaro de asas negras voou sobre os bandidos na caverna, mas quando seus gritos ecoaram, um temor lento permeou o estômago de Jericho. Ele assistiu ao pássaro enquanto ele circulava sobre sua cabeça – ele não estava procurando um lugar para se aninhar. O silêncio tomou conta da caverna.

Gritos ensurdecedores quebraram o silêncio quando centenas de corvos surgiram na caverna em um turbilhão de bicos estalantes e garras cortantes. Os homens gritavam enquanto os pássaros bicavam e rasgaram suas peles. As garras de ébano penetraram o ombro de Jericho, derramando sangue antes que ele pudesse espantar o pássaro.

Jericho caiu ao chão, engatinhando até a saída da caverna. Lá fora, os corvos cobriam o céu sem nuvens e deixaram a lua cheia num eclipse de olhos vermelhos e suas asas batendo . A caverna amplificava em dez vezes cada som, criando uma cacofonia de urros estridentes e gritos desumanos.

Ele olhou para cima e viu Mishey cambaleando para frente com sangue saindo das crateras arruinadas de seus olhos. Jericho se espalhou pela mata fora da caverna. Ele não morreria para um bando de pássaros!

Após o matagal, um redemoinho de pássaros voou ao redor de um vulto no limiar do campo. O espantalho que estava ali parado, começou a se mexer e com a mão que segurava a foice levantou seu chapéu e começou a rir de uma maneira estrondosa que fez com que os corvos fossem em sua direção formando uma grande tempestade sobre ele, com os braços abertos, abraçando o violento caos da tempestade. Sua boca formava um sorriso dentado e rasgado. Tudo ao seu redor estava em caos: rostos eram abertos mostrando teias de tendões e dentes, enquanto os corvos destroçavam gargantas.

O espantalho virou abruptamente e encarou Jericho diretamente. Seus olhos queimavam em fogo esverdeado. Aterrorizado, Jericho ficou em pé, correndo desesperadamente do matagal ao campo. A criatura demorou para segui-lo, mas com suas grandes pernas de madeira em velocidade sobrenatural. O fedor de feno podre chegou à garganta de Jericho enquanto ele fugia.

Jericho olhou para trás e ficou apavorado ao ver que o espantalho já havia o alcançado. Ele começou cortando as suas pernas antes que ele chegasse no primeiro fardo de feno. Cego de medo, ele gritou enquanto caiu em um emaranhado de membros. Com o coração na boca, ele tentou se levantar, mas suas pernas destruídas caíram abaixo dele. Ele engatinhou com as mãos e joelhos, desesperado por escapar da criatura terrível atrás dele. Mas o espantalho pisou em suas costas destruindo sua coluna e prendendo-o ao chão.

O monstro se abaixou e puxou a cabeça de Jericho para cortar sua garganta, como se estivesse abatendo um porco para um banquete. O terror gélido tomou conta dele enquanto o espantalho emergia atrás dele, se curvando ao ponto de seus rostos quase se tocarem. “Você tem algo que pertence a minha amada, e agora vou pegá-lo de volta” O espantalho encheu sua boca e ele gaguejou com o fedor horrível de uma alma corrompida, e colocando sua mão de madeira podre no bolso de Jericho ele retira o medalhão e o segura até uma voz abafada surgi ao seu lado e pega o medalhão da mão do espantalho.

“Você cruzou meu caminho ladrão, não deveria ter feito isso, agora meu filho é seus animais de estimação vão brincar um pouco com sua carne, e eu não me apresentei antes, já que você me degolou antes de me apresentar” disse a moça ao chegar perto do seu rosto e aperta sua face a ponto de quebrar o maxilar, a sua voz sua abafada e rouca como se tivessem cortado suas cordas vocais.

Ela retirou o capuz preto que cobria seu rosto e ele viu o rosto da moça que ele tinha saqueado o colar.

“meu nome é Yrinia, e sou uma amaldiçoada, junto ao meu filho que você e seus capangas acabaram conhecendo da melhor maneira possível”

“Meu filho!” Olhou a moça para o espantalho e colocou sua mão sobre seu rosto, “Quando a nossa maldição acabar e você não ser mais essa aberração, eu poderei morrer em paz, mas enquanto isso, teremos que nos saciar com as brincadeiras do Deus corvo”

A revoada de corvos cercou os três e com uma gargalhada tenebrosa eles sumiram perante a tempestade de garras e olhos vermelhos.

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