Um Conto de Thommas Bradley [Parte III]: Pesadelo

Escrito por Gabi Waleska.

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Tom despertou antes de Christian mais uma vez. Possivelmente pelo sonho vívido e bom que tivera. Estava claro e havia um pequeno monte de neve no peitoril da janela. O clima era de conforto e novidade e ele começava a se sentir eufórico.

Ia levantar sem acordar Christian, mas ao olhá-lo, a inquietude de seu sono chamou sua atenção. A expressão era torturada e ele movia-se bruscamente, como se estivesse tentando se libertar do sono. Isto o preocupou, já tivera sonhos horríveis e a sufocante sensação de estar preso no sonho, mas com Chris o que quer que fosse era pior,  parecia doloroso.

Christian arfou como se sufocasse e abriu os olhos de vez, parecia aliviado de ter acordado. Sua testa estava suada e o peito subia e descia ofegante, o coração audível de tão acelerado.

– Teve um sonho ruim? – Tom perguntou, ainda preocupado. Christian permaneceu calado alguns instantes e sentou-se.

– Só um… pesadelo recorrente – disse por fim, mas o olhar ainda era perturbado.

– Quer contar… o pesadelo? Às vezes ajuda… – Tom disse mas Christian negou com a cabeça. Ele passou as mãos do rosto aos cabelos, respirando profundamente. Tom sentou-se e pôs a mão em seu ombro.

– Eu só preciso de um banho quente. – Chris levantou-se de súbito e pegou uma toalha no caminho para o banheiro, e fechando a porta ao passar.

Tom achou seu comportamento estranho e ficou na cama alguns instantes refletindo. Quando Christian retornou, Tom já estava vestido e jogava um pouco. Chris permaneceu calado enquanto se arrumava, perdido em pensamentos.

– Tem comida nesta casa? – Tom tentou descontrair percebendo que ele estava distraído.

– Claro que tem, Thomm…Tom! – Ele revirou os olhos e o guiou para a cozinha.

Lá, pôs as torradas para assar e ligou a cafeteira. Tom serviu-se de deliciosos biscoitos natalinos que estavam sobre a mesa central, apinhada de utensílios. Observou Christian servir os capuccinos fumegantes e contornou a mesa para pegar o seu.

– Então, – começou, vendo Chris, apoiado na bancada, dar um gole na sua caneca, olhando para a janela ao lado. – Vai me contar o que te perturbou tanto ou está assim porque quer que eu me vá? – disse com a voz baixa. Chris voltou o olhar para Tom, os olhos azuis eram tristes, e suspirou baixando-os para sua bebida.

– Se espera que eu te ponha para fora, pode trazer suas malas, bobalhão. – Riu fracamente, mas vendo a curiosidade e a preocupação genuínas em Tom, suspirou pesaroso – É um pesadelo pavoroso que tenho de tempos em tempos… Havia muitos anos eu não sonhava com isso.  – Balançou a cabeça e olhou para Tom, a expressão séria – Estou dentro de algum lugar na penumbra, acho que é no final da tarde e há uma luz fraca ao canto, algo me atinge na cabeça e me derruba e depois sou preso a alguma coisa por trás… Sinto muita dor enquanto sou golpeado por alguém, parece que a pessoa usa marretas ou sei lá, sinto todo o meu corpo doendo… – Pausou, lembrando e Tom anuiu, compreensivo – Mas, isto não é o pior. É ela, a moça que está comigo… Ela está à minha frente, paralisada de pavor por algo que não posso ver. Me encara com os olhos esbugalhados de medo enquanto a dor me consome. Eu grito, tento me mover, mas é como se estivesse com as mãos presas.

– É compreensível… – Tom fala, quando Chis passa alguns segundos calado, olhando para o nada, e sua respiração acelera.

– Então um vulto vai para a frente dela, impedindo-me de vê-la alguns instantes… – Continua como se não tivesse parado – Ouço-a gritar apavorada, ele a violenta, eu posso… posso ouvir os urros e sons, fechando os olhos, tentando não ver. A escuto choramingar, sem voz, escuto o som da surra que ela leva enquanto é abusada… – Chris para novamente, o coração acelerado e o estômago embrulhado. Tom se aproxima, sentindo sua agonia. – Ela continua chorando e aquele homem desprezível sai de cima dela. Eu a vejo espancada, violada, largada no chão. Seu vestido de renda branca rasgado e sujo… Eu gostava daquele vestido, ela o usava porque sabia – agora Christian parecia devanear – Me senti tão furioso, algo que jamais senti na vida real, e não consigo me soltar, juro que vou matá-lo, encontrando minha voz, mas ele se vira para mim sério, parecia tratar de negócios, e então uma dor lancinante  tomou meu peito. Então acordo.

Ficaram em silêncio, Tom via a dor viva no rosto dele. Chris falara ser recorrente, e pensou o quanto ele sofre toda vez que tem o sonho.

– Já passou – Tom disse, passando uma mão por seu rosto. – Você está bem, está vivo. – Os olhos de Christian ficaram marejados.

– O olhar dela, eu vejo quando fecho os olhos. Tão reais, como se eu tivesse passado por isso de verdade… – sua voz tremeu – Eu não consigo protegê-la! Cada vez que sonho, penso que posso mudar algo, mas é sempre o mesmo sonho, nada muda… – Tom o abraça, vendo sua dor latente. Chris afunda a cabeça em seu peito e após algum tempo fala com a voz abafada – Porque você é tão perfeito? Vai se ferrar cara! – exclama decidido a quebrar o clima.

Tom o beija docemente, diferente da noite fulgurosa anterior, e terminam seu café da manhã. Os pais de Christian chegam pouco depois. Um casal animado, efusivo e sorridente. Chris fica meio nervoso, temendo rejeição de Tom, que fala com eles normalmente, mas rapidamente Chris diz que vai acompanhar Tom até em casa.

– Seus pais sabem…? – Tom pergunta. Eles caminham lado a lado, as mãos no bolso.

– Eu tenho quase certeza que sim – Chris resmunga – Eles não falam nada, mas sempre que levo alguém em casa, mesmo que só amigos, eles agem como se eu estivesse apresentando uma namorada ou namorado. É constrangedor.

– São adoráveis – Tom discordou – Meu pai não aparece nunca, nem deve saber a idade que tenho, quem dirá que tenho vida sexual ativa? – diz e riem juntos.

– Meus pais já me encontraram em situações íntimas com algumas garotas e um rapaz – Chris conta, ainda rindo – depois disso, só ficaram “encorajadores demais”, mas jamais perguntaram.

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Há apenas duas quadras da casa dos parentes de Tom, avistaram uma figura conhecida. A moça de cabelos pretos longos, sobretudo vermelho, cachecol e botas pretas andava de cabeça baixa, mas era possível ver sua expressão apática.

– Se eu não estivesse com você – Chris falou, – apostaria todas as minhas fichas nela. – Tom revirou os olhos – Que garota linda! Que estilo! Parece uma vampira…

– Pode esquecer! – Tom bufou – Amy está muito acima do patamar de qualquer humano vivo… Acredito que de qualquer ser que exista – falou bruscamente.

– Espera, Amy? – Chris para de andar – esta musa aí é a sua irmã?

–  Óbvio que é! – Tom revira os olhos novamente – E ela não namora.

– Está com ciúmes, Thommas? – Chris olha para ele debochando – Relaxa, – diz aproximando o rosto do dele, falando mais baixo – vi você primeiro… – Tom o empurra.

Amy os vê ao atravessar para a calçada em que ambos se encontram. Analisando a cara do irmão, a noite deve ter sido boa. Então vê Christian e o reconhece de Nova York, ele está olhando para ela e faz uma mesura, quando ela se aproxima, fazendo Tom revirar os olhos.

– Você ficou muito mais bonita que seu irmão – Chris fala, piscando, fazendo-a ruborizar, não acostumada a elogios. – Parecem vampiros, que genética!

– Somos gêmeos, – Tom frisa – a beleza está no sangue! – Fala dando um soco de brincadeira no ombro de Chris. É a vez de Amy revirar os olhos.

– Ah sim, aposto que vocês aproveitaram bastante suas belezas noite passada, –  ela diz – quantas garotas tiveram os corações devastados? – indaga, enquanto os rapazes trocam um olhar e explodem em uma gargalhada, que Amy não compreende e dá de ombros – Sério? Vão dizer que não pescaram ninguém depois de passar a noite fora?

– Amy, Amy, querida – Chris enxuga uma lágrima da risada – Não há meio de convencê-la que apenas passamos a noite bebendo e jogando, na minha casa e ficou frio e tarde demais para voltar? – Disse, ousadamente se apoiando no ombro dela, percebendo que ela se retraiu.

Amy, entretanto, encolheu-se pelo calafrio que sentiu ao seu toque e o encarou, os olhos verdes como os de Tom, porém mais intensos e perturbadores o fizeram paralisar. Amy olhou em volta e percebeu a moça loira, de expressão angustiada, do outro lado da rua, as roupas atípicas a entregando.

– Amy? – Tom perguntou e ela olhou novamente para os rapazes.

– Hey, você está bem? – Chris pergunta, vendo a súbita palidez no rosto dela. Olhou para Tom, buscando orientação, mas ele também a olhava exasperado.

– Estou bem, não é nada. – Ela reagiu, apressada – Vejo você no jantar – Fala para Tom – Eh, adeus…

– Christian – Ele completa, sem entender nada.

– Christian. – Ela fala e sai apressada. Eles a observam atravessar a rua e se olham. Tom deu de ombros.

– Às vezes ela faz isso. – fala – Não tente entender, eu mesmo desisti.

– Ela é antissocial? Tem medo de contato? – Chris indaga, mas sabia que a expressão dela era de assombro, não de repulsa.

– Não tenho como saber, ela sempre foi esquiva. Na infância brincávamos juntos até os 6 ou 7 anos… Depois disso ela sempre estava sozinha, escondida ou lendo. – Tom recordou.

Dando de ombros, seguem em frente, combinando se ver á noite, sem saber que Amy deu apenas a volta no quarteirão e chega na rua antes que a moça comece a segui-los.

– Posso ajudar? – Amy diz com sua voz mais tranquila e a moça a encara sobressaltada. O olhar era sofrido.

– Jesus amado! Você está falando comigo? – Ela diz, sua voz é delicada.

– Sim, meu nome é Amy. E você?

– Annabeth Evans… – A moça responde, fazendo uma reverência em seu vestido branco. Parecia uma noiva. – Como pode me ver? – Ela estava assustada.

– É o que faço, – diz Amy – ajudo vocês a seguir adiante, reencarnar, ver o pós vida, etc… – ao que a moça arregalou os olhos e recuou, para um espírito, estava bem pálida.

– Meu Deus! Não! Não agora – murmurou tropeçando nas palavras e Amy percebeu que Christian voltava ao longe. Pegou Annabeth pelo braço e a puxou para dentro do parque coberto de neve – Como consegue me tocar? – Ela estava horrorizada.

– Calma, eu sei que está aqui por algum motivo ligado a ele não é? – Amy disse baixo, fazendo a outra moça ficar triste novamente.

– Ele está… lembrando. Eu sei que está! Não me leve embora! – Exclamou, desaparecendo em seguida.

Amy ficou abaixada atrás dos arbustos esperando Christian passar, pela expressão do rapaz, ela tinha um novo trabalho a ser feito, e com a proximidade do seu irmão seria complicado.

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Continua.

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