Sussurros de Sangue…

capa daia

Por L. Orleander

Ela olhava o breu engolindo os montes e os carros que passavam na rodovia…

Pensou na cerca de arame farpado que protegia o coreto de um barranco que ameaçava descer a qualquer momento e sentia como se nada adiantaria se alguém caísse.  Quão estúpido era aquilo.

Os grilos cantavam, a brisa soprava leve trazendo consigo o cheiro de terra molhada, a cadeira de balanço rangia e o cabelo grisalho  escondia a face já enrugada pelo tempo.

– Mãe ? – chamou o rapaz alto de pele pálida e sorriso gélido – Estamos prontos.

Parecia tão estranho ver tudo pela última vez, se despedir da terra amada, do sangue de seu sangue, de tudo que lhe foi recompensa pelos dias tristes… Era tão injusto.

– Não quero ir… – respondeu a senhora idosa tentando conter uma lágrima.

– Mamãe,  você me prometeu! – respondeu ele com raiva, com os dentes rangendo. – você disse que iria.

Marjorie sabia o que aquilo significava, tinha medo e receio das coisas que ele poderia fazer se ela se recusasse,  mas estava tão cansada. Depois de tantos anos, como ela poderia mudar as coisas.

– Ian… A mamãe não quer, eu não suporto quando eles gritam…

Marjorie olhou novamente o desfiladeiro a sua frente e viu sua família reunida.

O marido a beira da churrasqueira cercado pelos gêmeos mais velhos, Ian tinha os cabelos negros e Marcel tinha os cabelos enrolados, ela se lembrava. Sua pequena bailarina, Kate, rodopiava com o cachorro da família em volta da piscina, fazia tanto Sol.

Ela sorria, estava finalmente feliz por ver todos reunidos…  

Estranheza…

Tudo era perfeito demais, sorrisos demais, ela sofrerá tanto pra chegar até ali. Mentiras, traições,  a falta de respeito, o marido violento, uma filha “feita” a força, quando ela não queria aquele bêbado cheirando álcool sobre seu corpo.

Apenas Ian entendia a mãe,  ele a perdoaria… Seu pequeno e eterno príncipe,  era como ela.

Marcel, não!  Marcel era um erro.

Voltou para cozinha e preparou a limonada sem interesse pela cena que se desenrolava janela afora.

Pingou as gotas de soníferos que o terapeuta lhe indicará e levou para aqueles que amava.

A noite caiu e o silencio fez morada na residência.

Um corvo piou ao longe quando o corpo de Patrick, o marido bêbado, era arrastado com uma faca cravada no peito, para dentro do barranco.

Uma cova o esperava, funda o suficiente pra mais de um corpo.

Em seguida Kate saia com as pequenas mãozinhas sobre o corpo, como quem dorme, enrola em uma manta lilás e uma coroa de brinquedo na cabeça.

O próximo foi Marcel, que balançando cabeça de um lado a outro, ainda olhava entristecido para a mulher como quem pede perdão

– Por que mamãe?  – sussurrou ele com os olhos chorosos e a boca rubra, por causa do liquido viscoso que dela saia.

Marjorie voltou para casa e abraçou Ian, que agora dobrava as mangas da camisa manchadas de vermelho.

– Meu pequeno príncipe, eu sabia que você entenderia. – ela o abraçou ternamente, acariciando – lhe a cabeleira negra. – Você me lembra seu pai…

A sentença morreu no ar e ela o soltou alcançando a pá, que Ian usara pra cavar a cova, virou as costas para o rapaz e deu dois passos em direção ao buraco.

– Mamãe,  eu posso fechá-la.  – disse o rapaz dando um passo atrás de sua mãe, já esticando a mão para pegar o objeto.

– Ian?

– Sim, mamãe!

– Você sempre será o meu favorito, meu pequeno príncipe. Eu te amo!

O rapaz não teve tempo de reagir, apenas olhou súplice para aquela que sempre devotou sua adoração e desfaleceu à porta de casa.

Pancada em cima de pancada sobre a cabeça, desfiguravam o que um dia foi o maior amor na vida de Marjorie.

Ela ainda se lembrava quando o pequeno par de olhos azuis lhe sorriram pela primeira vez…

“Eu era tão jovem…” – pensou enquanto arrastava o corpo sem cabeça para a cova ainda aberta.

O caminho que o sangue deixou foi lavado com alvejante  e ardia na garganta de Marjorie, que em sua paciência apenas esfregava a mancha escura.

Não havia pessoas para reclamar os corpos…

Foram os pais, os irmãos, o marido, os filhos… Seu jardim guardava corpos e mais corpos que alimentavam as rosas vermelhas… Vermelhas como o sangue que a fizera sofrer… Todos eles pagaram.

– Mamãe , precisamos ir. – reclamou Ian .

– Suas roupas… Estão sujas de terra, meu pequeno príncipe.

– Você as sujou, mamãe. Agora venha, precisamos ir.

– Mas eles gritam, Ian.

– Vai passar mamãe.  Vai passar. – respondeu o espectro com a mão fantasmagórica estendida.

Marjorie pegou a mão do filho e caminhou até o jardim de sua casa, as roseiras estavam secas, mas os espinhos mostravam-  se viçosos à luz da Lua.

– As vozes, Ian. São eles, eu não posso ficar aqui. – Marjorie tinha os olhos vidrados.

A névoa subia sutilmente, exalando odores misturados… Perfumes antigos, flores mistas e putrefação.

– Ian!

– Venha, mamãe. Você prometeu que dessa vez iria.

No murmúrio da névoa gemidos de dor e desespero ganhavam forma, fantasmas deformados a olhavam com rancor, ódio e sede.

– É pelo sangue, mamãe.  Sempre foi pelo sangue.

Mãos agarraram Marjorie e em respostas ela suplicava perdão e misericórdia. Seus algozes agora, devoravam a carne velha e enrugada afogando sua ira e alimentando novamente a famigerada terra.

A amada terra de Marjorie…

Ian sorriu malicioso, olhou o velho coreto, passou os dedos sobre a churrasqueira, observou a ferrugem do arame farpado e o barranco mal formado.

– Minha dívida está paga. Adeus velha casa…

O espectro esmaeceu feito fumaça, as vozes se calaram e a cadeira de balanço apenas rangia ao sabor da brisa.

FIM…

 

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