A Irmandade Dos Bruxos Modernos (Pt. 18) – Flor Perdida

14051592_292503997776601_1497573208270728267_n

Capítulo 18 – Flor Perdida

Escrito Por: Alfredo Dobia

Era nítido a expressão de felicidade nos olhos de Lúcia Wayler, ao ver Valter, Sasha e seu tio, sãs e salvos… Esperando por eles na sombra de uma árvore perto da estrada. Sasha parecia cansada e com cede, enquanto seu tio parecia confuso e perdido.

Assim que eles desceram do carro, Lúcia correu para abraçar Sasha que estava com um ferimento no braço esquerdo. Chris fez o mesmo ao Valter, enquanto o Sr. que os conduziu até eles, aguardava dentro do carro.

— Quem é o Sr. aí? — Valter quis saber.

— Uma longa história — respondeu Chris, torcendo o nariz. — Mas me diz, como conseguiram se livrar dos corvos?

— Eles não estavam preocupados com a gente, estavam atrás dela. Estavam atrás da Lúcia. Assim que ela foi levada por um deles, todos os outros desapareceram. Olha, temos de chegar urgente nesse maldito deserto. A essa altura, Cyrius já está sabendo de tudo e ele vai fazer até o impossível pra não chegarmos até a planta.

— Pois é, temos de estar preparados. Acho que dessa vez, o irritamos de verdade — Chris fez uma pausa. — Bem, para nossa sorte, esse Sr. ai nos vai ajudar a chegar até o deserto e levar o Sr. Roger pra casa.

— Boa! — Valter soltou um suspiro de alívio, como se o tivessem tirado um fardo dos ombros. — Temos mesmo de deixa-lo fora disso o mais rápido possível. Ter de explicar como o seu carro ficou daquele jeito não foi uma tarefa muito fácil não. Tivemos de inventar um monte de coisas que eu confesso que não sei se funcionou na perfeição ou não. O que importa é que ele está bem e as imagens dos corvos gigantes, com asas maiores que seu próprio carro e bicos capas de furar ossos de gente, não irão aparecer na mente dele. Pelo menos até eu quiser.

— Dá última vez que ouvi isso, não deu muito certo não. Lembra? — Chris disse, olhando pra Sassha.

— Qual é Chris! Eu não vou beijar o tio dela. Aquilo com ela foi um erro que nunca mais voltará a acontecer.

— Ok, acredito.

Lúcia se aproximou deles.

— Como você está? — indagou.

— Estou bem. — respondeu Valter, notando um brilho diferente nos olhos dela.

— Obrigado por ter protegido Sasha e o Sr. Roger.

— Não se preocupe com isso. É meu dever como bruxo protector, cuidar das pessoas. E você? Como se sente?

— Muito melhor agora que estou com vocês.

Chris foi de encontro a Sasha para verificar a gravidade do ferimento no braço, e depois de constatar que não era nada grave ele disse:

— Já perdemos muito tempo aqui. Subam naquele carro. Temos de chegar ao deserto depressa.

Ele colocou a pasta da Sasha nos ombros e entregou-a uma garrafa de água que lhe foi oferecido pelo Sr. que os conduzira.

— Obrigada! — Sasha disse, depois de um gole longo. — Estava mesmo precisando.

Limpou os lábios com o braço direito e caminhou até o carro.

Finalmente eles chegaram até Namibe, muito próximo do deserto. Depois de duas horas de viagem. O Sr. que os ajudara a chegar até seus destinos, levou o Sr. Roger para casa. Felizmente seu carro tinha seguro, e ele acreditava que talvez em um mês estaria como novo.

Porém, passando mais algumas horas… Os Anderson, Lúcia e a Sasha, finalmente começaram a sentir o clima diferente. Uma leve tempestade de areia banhava seus rostos, andavam de forma ofegante, observando as pequenas montanhas de areia. Faltava-lhes só mais alguns passos. Os Anderson poderiam sentir a poderosa magia da planta a cada passo que davam, mas quase não conseguiam ver nada devido a tempestade que aumentava, tornando o clima ainda mais agreste.

A areia penetrava forte em suas peles secas.

— Estou cansada gente — disse Sasha, arfando. — Estou mesmo muito cansada.

Seus olhos esbranquiçados pareciam turvos pela quantidade de areia que batia em seu rosto.

— Não podemos parar agora, eu sinto que estamos perto — sentenciou Valter. — Você tem que resistir só mais um pouco.

— Sério, acho que isso é o meu limite.

Sasha estava exausta, mas não era só o chão arenito que seus pés pisoteavam que a deixava daquele jeito, ela sentia algo forte a sugando as energias à cada respiração, e não sabia como explicar. O que ela sabia com a plena certeza, era que deveria parar. Sua voz interior a dizia para parar. E quando ela obedeceu, todos os outros a acompanharam, parando com ela de seguida.

Olharam a volta e a tempestade amenizava-se lentamente. As imagens do panorama em sua frente tornavam-se mais límpida.

— O que é isso? O que está acontecendo? — Lúcia disse, quando a tempestade por fim desapareceu, e lá estava ela, aquilo que pareciam o tanto procuravam. Mas ao seu redor havia ossos, milhares de ossos espalhados na terra.

As nuvens de areia desapareceram.

— Será que é esta? — Indagou Chris.

Valter retirou sua pasta das costas, e pousou-a no solo arenoso. Procurou pelo livro de geração e quando o encontrou, folhou-o apressadamente até as páginas que ilustravam as fotos da planta. Comparou-as com as que seus olhos vislumbravam.

— Parece que sim — Valter confirmou. — É igualzinha com a da foto.

A planta era rasteira, formada por um caule lenhoso que provavelmente era a causa do seu fraco crescimento. Tinha uma enorme raiz aprumada e duas folhas apenas, em forma de fita larga. Apesar do clima inóspito do seu habitat, elas conseguiam absorver a água do orvalho através das suas grandiosas folhas carnudas e suculentas.

— É exactamente essa — confirmou Sasha. — Nossa, como ela é feia de perto. Eu costumava ver ela nos livros de ciências quando era mais pequena.

Chris aproximou-se do irmão e pegou o livro de gerações para conferir a imagem. Valter entregou-o e caminhou lentamente até a planta.

— Com que então essa é a famosa Welwitchia Mirabiles. — ele disse, encostando a mão na planta.

— Não Valter, espera — gritou Chris em alerta, mas era tarde de mais.

Valter já havia tocado na planta, o que fez com que seu largo e forte corpo fosse arremessado para trás, como se um campo magnético o repelisse dela. Ele sentiu uma onda de choque penetrando sua carne. A queda foi forte e ele acabou caindo perto de dois crânios quase enterrados. Sua mão tocava em duros ossos de costelas.

Lúcia e a Sasha pularam de sustos.

— Que merda foi essa? — murmurou Valter, irritado e com as vestes cobertas de areia.

— Parece que ela não afasta só magia negra. Ela afasta todo tipo de poder que se aproxima dela. — Chris explicou. Essa planta é bem mais forte que a gente pensava. Ela destrói todo tipo de ser que possui forças sobrenaturais. Apenas humanos comuns podem tocar nela.

Dessa forma, Sasha se aproximou da planta e assim que encostou sua mão nela, um círculo de areia formou-se a sua volta e começou a girar, a terra tremia assustadoramente — e o clima inóspito do deserto era invadido por algo mais frio. Como é possível um deserto se tornar tão frio quase como o gelo? Suas íris estavam pretas e as pupilas ganhavam um tom mais violeta.

— O que está acontecendo com ela? — Lúcia perguntou, preocupadamente.

Chris correu para libertar os braços dela da planta, mas foi lançado para trás, ainda mais distante que o Valter pelo corpo da Sasha que acabou se soltando por si só. Chris caiu em cima de vários ossos quebrados, servindo como almofada para Sasha, amortecendo sua queda. Valter se levantou e correu para junto deles, assim como a Lúcia.

— O que está acontecendo aqui Chris? Você tem certeza do que acabaste de ler é verdade — ele ajudou Sasha a se levantar e depois estendeu a mão para o irmão.

— O livro de gerações nunca nos deu informações erradas em momento algum — Chris sacudiu-se da areia.

— Então como você explica isso? A Sasha é uma humana comum e ainda assim não foi capaz de tirar a droga da folha dessa planta.

Chris torceu o nariz.

Arregalou os olhos em busca do livro de gerações, assim que o encontrou, folhou ele novamente. Sua mente estava confusa sem saber o que fazer para sair daquele desconfortável impasse — e isso ficava ainda mais stressante a medida que seus olhos reparavam que não havia mais nenhuma informação a respeito do que estava acontecendo naquele momento.

— Não entendo — Chris disse confuso —, o livro é bem claro ao dizer que só humanos comuns podem tocar na planta.

— Talvez ela não seja tão comum assim como aparenta ser.

A voz que pronunciara essas palavras era assombrosa, pejado de um poder obscuro e altamente acutilante.

Lúcia fés marcha ré sentindo os pés sonâmbulos, seguindo a voz célebre que acabara de ouvir. A mesma voz que a pusera naquela situação. Os Anderson fizeram o mesmo e juntos falaram em coro:

— Cyrius!!!

— O quê? — disse Sasha atónita, num tom quase inaudível.

— Olá crianças! — Cyrius disse, solenemente como um imperador altamente poderoso encima do pódio.

Sasha ficou de boquiaberta encarando-o. Ela via um belo jovem moreno de corpo esguio e absolutamente tentador. Já Lúcia, parecia não entender nada. A voz era irreconhecível, mas o roto não tinha nada a ver com o mesmo que ela vira indesejadamente em sua casa. O mesmo que matara seu avô a sangue frio como um animal.

— Como assim malta? — ela disse. — Esse homem não tem nada a ver com o homem que encontramos em minha casa. Será que alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui?

Os Anderson formaram-se em posição de ataque.

— Confiem em me crianças, vocês não vão querer fazer isso de novo. Lembram o que aconteceu da última vez?

— Alguém por favor responda a droga da minha pergunta.

— Esse homem moreno que você vê é apenas uma marionete explicou Valter. — Um corpo cuja alma foi possuída.

O homem tinha um físico bem nutrido, mas seu sorriso era de quem estava habituado a práticas maliciosas.

— Infelizmente a minha hospedagem nesse corpo é temporária — Cyrius disse. — Vocês não fazem ideia como foi difícil chegar até aqui. As almas que tive de possuir para me fortalecer. Por vossa culpa, muitas pessoas morreram durante esse percurso. Estava começando a ficar irritado e eu não me dou muito bem com irritação, até que encontrei um belo jovem nerd saindo da universidade, meio deprimido, triste, e morrendo de saudades dos amigos. Como era mesmo o seu nome, deixa ver, deixa ver… — Cyrius coçou a cabeça. — Ah, lembrei, Deny Vicent.

Lúcia e Sasha trocaram olharam-se, já com lágrimas escorrendo pelo rosto.

— Não, me fala que você não matou ele por favor — implorou Sasha.

Cyrius ficou apenas observando-as, divertindo-se com a dor angustiante das jovens.

— O que você fez com ele seu desgraçado? — gritou Valter. —

Lúcia levou as mãos na cabeça, passando os dedos entre os seus cabelos loiros escuros e disse:

— Não, isso não pode estar acontecendo. Isso tudo é culpa minha.

Cyrius sorriu, acenando a cabeça em concordância.

— Exactamente menina — ele disse. — Me diz Lúcia, quantos mais eu tenho de matar para você me entregar sua alma? A sua querida amiga? — Lúcia olhou para Sasha. — O valentão aí? — Cyrius apontou para o Valter. — Ou o seu amado Chris? E a propósito… Já contou pra eles que vocês dormiram juntos?

Valter lançou um olhar fogueado para o Chris.

— Cometendo os mesmos erros que a mãe — Cyrius continuou —, apaixonando-se pelo proibido. Tal mãe tal filha.

— Droga Chris! — xingou Valter. — Você dormiu com ela? Quando foi isso? — antes mesmo do Chris responder, Valter pensou rápido, lembrando que eles desapareceram por quase um dia. — Onde você estava com a cabeça? — continuou. — Logo você, tão recto e firme com os regulamentos do conselho. Você se esqueceu do que acontece com um bruxo que viola essa regra?

Chris Anderson, simplesmente baixou os olhos, sem coragem suficiente para encarar o olhar fulminante do irmão, e logo depois disse para Cyrius:

— Como você ficou sabendo disso?

— Apesar de ainda não estar no auge do meu poder devido a insolência dela — Cyrius olhou de relance pra Lúcia —, ainda tenho alguns truques na maga. Enquanto vocês trocavam palavras de amor nojentas, um dos meus corvos que eu acredito que vocês já devem ter conhecido, estava vigiando-vos, e os seus olhos também são os meus. Mas como diz o velho ditado, ‘’Para quê falar quando se pode mostrar?’’.

Cyrius estalou os dedos, e uma luz de cor azul em forma quadriculada, formou-se em sua frente exibindo as falas do Chris mandando se danar as regras por minutos de prazer.

Valter ficou perpassado de raiva e decepção a cada palavra que saia da boca do irmão.

Cyrius voltou a estalar os dedos e luz azulada se apagou.

— Essas imagens já foram vistas pelo conselho através das águas sagradas — ele disse. — Portanto, eu vou dizer só uma mais vez. Ou você me entrega sua alma por bem, ou eu vou começar a matar todos que você ama. Começando pela sua mãe. O Sr. Wayler foi só um incentivo, mais pelos vistos terei de ser mais radical com o seu amigo Deny, caso você não desistir dessa ideia ridícula de pegar a planta para me mata.

Lúcia sentia-se destruída, sem saber o que fazer.

— Já disse Lúcia, não dê ouvidos pra ele — avisou Chris de modo escamoteio. — Ele sabe que pode ser morto pela planta, por isso está com medo. Por isso pegou o Deny. Para te ameaçar. Para ver se você volta atrás. Mas se ainda existe alguma confiança na gente, eu te imploro para não fazeres isso. Ele não machucou o Deny e nem o fará. Ele precisa dele para chegar até você de forma emocional.

Chris virou Lúcia para ele e continuou:

— Olha pra mim Lúcia Wayler, eu e o Valter vamos proteger você e todos que seu coração ama até as últimas consequências. Até a morte se for preciso. A gente tá junto nessa, lembra?

Valter entrou no meio deles e disse:

— É verdade o que meu irmão acaba de dizer. Escute bem moça. Nós ainda podemos fazer isso. Já passamos por muita coisa para chegarmos até aqui, não vamos desistir agora. A gente vai acabar com a raça desse desgraçado.

Ela mirou Cyrius ainda com lágrimas percorrendo seu rosto.

— Porque você está fazendo isso? — perguntou, com a voz fraca.

— Porque eu quero poder. Poder este que só você pode me dar.

— Mas se eu fizer isso você vai escravizar a humanidade.

—A humanidade precisa de uma reciclagem… E eu farei dela um lugar melhor. Um lugar onde os bruxos têm o controlo de tudo, e não se curvam a seres inferiores.

Lúcia abanou a cabeça em discordância, esfregando as lágrimas dos olhos acastanhados.

— Não, não posso permitir que você faça isso com a terra.

Cyrius franziu a testa.

— Você tem certeza criança? — indagou, irritado.

— Tenho sim. Eu confio nos Anderson — ela olhou de relance pra eles. — Várias vezes eles já mostraram sua audácia. Sei que juntos vamos acabar com você e os seus planos macabros.

Os Anderson soltaram um suspiro de alívio.

— Tudo bem! — Cyrius disse entre dentes. — Você fez sua escolha, depois não diz que não avisei — ele sentia que sua hospedagem no corpo jovem já estava esgotando, sentia-se cada vez mais fraco. — Infelizmente eu tenho de ir. Não precisam ficar triste com isso, por enquanto deixarei meus filhos se divertirem um pouco com vocês. Mas cuidado, eles podem estar faminto e serem um bocado agressivos.

— Do que você está falando? — Sasha quis saber, avistando o deserto com expressão de medo nos olhos.

Cyrius levantou os braços e com um aceno dos dedos, seguidos de palavras esquisitas… Surgiam criaturas cadavéricas horrendamente abomináveis, com bocas em lugares incomuns, como no pescoço e barriga. Sua pele era de cor chumbo, extremamente pálido. Seus olhos negros emprestavam a sensação de dor e aflição a quem os olhasse. Seus braços pretos como carvão mudavam de forma, ondulando e remexendo-se continuamente como borrachas vivas.

Cyrius abriu um sorriso com a malícia de um homem do mal, deixando no ar a expressão de satisfação entre seus lábios, de que coisa boa não iria acontecer com seus oponentes.

— Senhoras e senhores! Apresento-vos os monstros da morte — ele disse, apontando para uma das criaturas que parecia ser a ponte de ligação com todas as outras. — Eles mostraram a vocês o verdadeiro sentido da dor. Vamos ver como se saem com elas.

Suas últimas palavras ecoaram fantasmagoricamente pelo vasto deserto, quando ele desapareceu entre as pequenas montanhas arenosas. Os Anderson retomaram as suas posições de ataque e Lúcia buscou seu arco. Afrouxou cautelosamente uma de suas flechas na corda resistiva, como uma arqueira determinada e pronta para um poderoso combate.

— Seja lá o que isso for — ela disse, solenemente. — Vamos acabar com eles.

Valter riu maliciosamente, com prazer de luta entre os lábios.

— Estávamos a espera que dissesses isso.

 

 

CONTINUA…

Obs: Pt. Português de Portugal.

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s