Contos de Elderland – Traição & Morte

Escrito por: A.J. Perez 

snow2-2.jpg

“Contos de Elderland – Traição & Morte”

Elderland 1788 da 5ª Era, Fronte de Batalha Sudeste – Divisa com o Reino de Sherydan, Território das alianças Bárbaras.

A neve do inverno cobria a solo no sudeste. A região montanhosa das Tribos Bárbaras era selvagem e em muitos pontos inexplorada.

Um corcel negro avançava pela floresta impetuosamente. O mensageiro se movia como o vento por entre as árvores. Na bolsa ao lado de seu animal pendia o símbolo do império. O garoto no cavalo não podia imaginar, mas ele era um arauto dos ventos da mudança, um agouro de que tudo mudaria. No seu alforje jazia uma mensagem para um homem que se encontrava alguns quilômetros à frente. Seu nome era Leor.

Há 3 anos, cerca de sete mil homens saíram de Diobahr para deter as revoltas bárbaras. Aquela era a trigésima quarta legião do império. Mas agora, meio ano depois, os sete mil soldados legionários haviam sido reduzidos a dois mil e quinhentos homens, cansados e com saudades de casa.

Leor era justo e honrado. Sempre fora adorado por todos os seus subordinados. Entretanto, seis meses de privação e terror haviam mudado a cena. Leor ainda era justo, ainda permanecia um homem honrado, mas já não era adorado por todos…

O mensageiro entrou no acampamento.

Dois quilômetros e meio de um completo vazio.

O acampamento era cercado por uma muralha de troncos com cerca de nove metros de altura. Um portão levadiço em condições precárias mantinha-se fechado todo o tempo. Casebres e tendas rudimentares se espalhavam pelo assentamento. Por todo o lado se encontrava vestígios de casas e tendas incendiadas. Galpões destruídos. Uma visão lamentável.

O mensageiro desceu de seu cavalo e se aproximou do maior casebre que viu.

Trago uma mensagem para o Capitão Leor, comandante da 34ª Legião de Infantaria de Diobahr.

Um jovem guerreiro surgiu na porta do casebre.

Procura pelo Lorde Leor?

Sim, onde posso encontrá-lo?

No “Monte”. Siga para o norte por dentro do acampamento e irá direto para ele. Não há como errar.

Agradeço sua ajuda. – o mensageiro se afastou e manteve o curso para o norte, por dentro do acampamento.

Após desviar de um moinho rudimentar pôde ver um morro de terra que se destacava logo à frente.

O Monte” era um pequeno e estranho morro formado de terra acumulada, que se erguia cerca de dez metros de altura. Sobre ele um homem ajoelhado parecia entoar preces.

Com licença! – gritou o mensageiro para o homem sobre o monte – procuro Lorde Leor.

Aqui não há lordes! – respondeu o homem com uma voz forte e calma – aqui todos somos iguais. Porque quando a vida que reside em nós se esvai só resta pó.

O Mensageiro escalava com certa de dificuldade o morro até que chegou às costas do homem.

Trago uma mensagem de Diobahr para Lorde Leor.

O Homem se levantou, respirou fundo, e se virou.

Tinha cerca de trinta e cinco anos. Os cabelos curtos negros como sua barba rala. Em seu rosto podiam se ver inúmeras marcas de combates. Usava uma armadura negra, e uma pesada capa com uma grossa gola de pelos de Arguntila.

Eu sou o capitão Leor.

Tenente Arioner, mensageiro da 34º Regimento de Diobahr.

Deve haver algum erro. Nós somos a 34ª Legião, não existe o 34º regimento.

É exatamente por isso que estou aqui meu senhor. Trago-lhe esta mensagem, e já posso lhe adiantar os fatos que encontrará nela.

A 34ª Legião de Infantaria de Diobahr está formalmente extinta. Em seu lugar agora está o 34º Regimento do Cavalaria de Diobahr. Seus subordinados, assim como o senhor, serão substituídos pelos cavaleiros nesta posição.

Quando seremos substituídos?

Imediatamente. O 34º Regimento já está a caminho. Chegarão amanhã pela manhã.

Leor olhou em volta, observou as montanhas e a floresta e se pôs a rir. Lágrimas rolaram por sua face, dividindo espaço com seu sorriso. Ele desceu correndo “O Monte” e se aproximou do cavalo do mensageiro.

Me empreste seu cavalo.

Claro, meu senhor. – disse o mensageiro estranhando a atitude do homem.

O corcel partiu em direção ao casebre principal, onde Leor saltou de sua montaria.

Talemero! Telemero!

O jovem guerreiro surgiu rapidamente.

Sim, Capitão. O que deseja?

Chame todos os homens imediatamente!

Claro meu senhor.

Após algum tempo cerca de quinhentos homens estavam na frente da casa. Leor e o Arioner estavam um ao lado do outro quando Telemero se aproximou.

Estão todos aqui, meu senhor.

Obrigado Telemero.

Esperem. – interpelou Arioner – meus relatórios diziam que você comandava atualmente cerca de dois mil e quinhentos homens, mas aqui só estão cerca de quinhentos. Onde estão os outros?

Éramos dois mil e quinhentos há duas noites, antes de sermos atacados. Agora estes quinhentos homens foi tudo o que restou para defender essa parte do império. Mas isso já não é mais problema nosso.

Leor se aproximou de seus homens. Sua face era exultante.

Irmãos, amigos e compatriotas lhes trago a melhor notícia que um homem poderia querer receber. A 34ª Legião foi dissolvida. E substituída, pelo 34º Regimento de Cavalaria. Essas terras já não estão mais aos nossos encargos. Nós vamos para casa.

O silêncio dominou o assentamento por um instante, antes de um grito de euforia e alegria intensa encher o ar.

Os guerreiros se abraçavam e se rejubilavam entre si.

Haviam visto o inferno e sobrevivido para contar. E agora iriam para casa. Pelo menos assim eles pensavam.

Juntem suas coisas e se preparem! – gritou Leor para a tropa – Partimos amanhã.

Todos se dispersaram rapidamente.

Leor se virou para Arioner.

Então, tenente, aceita um pouco de vinho?

Claro, meu senhor.

Venha, vamos entrar.

Ambos entraram na cabana principal. A porta se fechou logo atrás deles.

A noite caiu sobre o assentamento. Os sentinelas faziam a verificação do perímetro enquanto os outros dormiam em suas tendas e casebres. No prédio central Leor e seu escudeiro, Telemero, conversavam com Arioner sobre as novidades do império.

A guerra no norte terminou?

Ainda não Lorde Leor. Mas estamos a um passo de alcançar nossos objetivos.

E quanto a Diobahr? Como vai a cidade?

Acredite em mim, meu senhor, não irá reconhecê-la. Muita coisa mudou durante tempo que o senhor esteve fora.

Só quero ir para minha fazenda, terminar meus dias ao lado de uma boa mulher, cercado de filhos e com netos correndo por toda a casa.

Arionor sorriu.

É um fim nobre.

E tranquilo. – completou Leor.

Amanhã, a essa hora, estaremos rumo a Diobahr. – disse Telemero observando o fogo.

Com certeza. – respondeu Arioner.

Diga-me – rompeu Leor – como é o novo comandante?

Não é uma pessoa tão agradável quanto o senhor.

Não seria novidade, a maioria dos comandantes são uns cretinos pomposos. – completou Arioner tomando uma taça de vinho.

Um forte estrondo estremeceu a casa.

O que foi isso?

É um ataque! – gritou Leor sacando sua espada.

Todos saíram da cabana principal instantes antes de ela explodir, liberando estacas flamejantes de madeira e atingindo todos nas proximidades incluindo Leor, Arioner, e Telemero.

Todos à seus postos!

Os homens de Leor corriam pelo acampamento tentando entender o que acontecia.

Saraivadas de flechas caiam sobre o acampamento. Em instantes o portão caiu diante de uma horda de bárbaros. Machados e flechas cruzaram o ar em direção aos soldados. Arioner teve o crânio partido ao meio por um machado antes de poder ter qualquer reação.

Leor partiu a frente de seus homens combatendo ferozmente. Um grande bárbaro o atacou pelas costas lhe causando um grande ferimento. Antes do golpe final ele pôde se desviar e acertar a garganta do atacante.

Seus homens tentavam manter a horda invasora em um único local, mas eles eram muitos e em poucos minutos todo o local estava completamente tomado. A luta se seguia e, no fundo de suas mentes, todos os guerreiros de Diobahr sabiam: eles não passariam daquela noite.

A neve que caia do céu refletia vermelha. O firmamento nebuloso deixava a noite obscura. A única fonte de luz vinha do acampamento completamente em chamas.

Todos estavam mortos, menos Leor. Ele se encontrava de joelhos, de frente para o líder da tribo que os havia massacrado.

O Grande e poderoso Garjá-Tarran carregava um grande martelo de guerra. Ele olhava atentamente para Leor, estudando-o como um leão da montanha antes do ataque final.

Então, você é o comandante desses pobres coitados.

O silêncio de Leor foi a única resposta que Garjá-Terran obteve.

Que seja. Crucifiquem-no.

Quatro bárbaros agarram Leor, ele se de debateu tentando lutar contra seu destino, mas já era tarde de mais. Eles o amararam a uma grande cruz feita dos destroços de uma das casas. A madeira ainda estava quente lhe queimou completamente as costas. Em vez de pregos, os bárbaros usaram espadas e adagas para fixá-lo na cruz.

Eles o ergueram e partiram em seguida.

Leor permaneceu ali, sangrando, as suas costas ardidas sendo queimadas tortuosamente. O forte frio começou a congelar as extremidades de seu corpo lentamente. Seu sangue escorria por seu corpo levando o único calor de vida que ainda residia por ali embora.

As horas se arrastavam até que finalmente o dia nasceu por detrás das nuvens.

O silêncio era absoluto.

Milagrosamente, Leor permanecia com uma centelha de vida após a noite. Havia acordado há poucos instantes e observava agora uma grande tropa se aproximando.

Louvado seja o Deus Eterno” foi a única coisa que passou pela sua mente. O 34º regimento se aproximava. Eles iriam resgatá-lo.

Em minutos as tropas estavam ao redor da cruz.

Um homem alto se aproximou dele, montando em um cavalo negro.

Qual seu nome?

Sou Leor, – respondeu ele com extrema dificuldade, e com sua voz quase que como um simples chiado – Comandante da 34ª Legião de Infantaria de Diobahr.

Onde estão seus homens?

Mortos.

E o mensageiro?

Morto.

Tropa morta, mensageiro morto, acampamento destruído, o comandante a beira da morte e humilhado. Tinham razão. A 34ª Legião não existe mais… Vamos seguir em frente.

Um tenente se aproximou do comandante.

Lorde Taru, e quanto a ele? – perguntou o tenente olhando para Leor.

Deixem-no apodrecer aí.

A tropa começou a se retirar.

Com a voz fraca e quase sem forças, Leor implorava em vão para que o tirassem dali. A tropa passou e desapareceu no horizonte em meio as árvores.

Leor estava entregue ao destino.

***

Uma caravana de bárbaros se deslocava rumo ao norte, fugindo das invasões imperiais ao sul. Eram cerca de trezentos fazendeiros protegidos por quinhentos bárbaros guerreiros, fora mulheres e crianças. Eles se aproximaram de uma estrada ao longe de onde puderam avistar um acampamento deserto.

Com cautela se aproximaram.

No centro do acampamento jazia um homem crucificado.

Muito ferido.

Os bárbaros se compadeceram da cena, e ao perceberem que o homem ainda vivia, retiraram-no da cruz.

Uma jovem aproximou-se e se ofereceu para cuidar dele. Eles o levaram para um vagão puxado por pesados cavalos onde moça fez compressas de tratou seus ferimentos.

Obrigado, proferiu o homem com dificuldade.

Não agradeça – respondeu a jovem – vou cuidar de você. Está em boas mãos agora.

O homem sorriu.

Meu nome é Arya D’Aner. Qual o seu nome?

Meu nome… é Leor…

Um comentário em “Contos de Elderland – Traição & Morte

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s