A Lua do Caçador {Parte 3}

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         O quarto já não parecia tão sombrio quando Una retornou. A luz matutina o aquecia e espantava as sombras para longe da cama, onde um Theodore menos pálido verificava seu relógio astronômico de bolso; um presente do alquimista responsável por alavancar a companhia de seu pai. Ele ergueu o olhar ao ouvi-la se aproximar, aprumando-se sob as colchas grossas.

         — Sinto que tem estado muito preocupado com os planetas nos últimos dias.

         — Não é bem com os planetas que me preocupo. — Apesar de transparecer sua curiosidade, Una precisou se contentar com o silêncio como resposta.

         — E como se sente? — O pequeno pote de cerâmica, contendo o cataplasma, foi colocado sobre o criado-mudo.

         — Melhor. Obrigado por não chamar o médico.

         — Não foi por falta de vontade. — Una se sentou ao lado dele, erguendo a manta para verificar as feridas. — Agora deixe-me ver a quantas andam…

         — Não será preciso. Eu estou… — Theodore tentou se afastar, mas ela foi mais rápida.

         Os lábios de Una se entreabriram sem se dar conta, ao ver os machucados quase sarados do marido. Ela examinou cada um com cuidado, chegando o rosto bem perto para ter certeza do que via. Ao encará-lo, enxergou vergonha nas faces marcadas por cicatrizes.

         — O que aconteceu ontem à noite? — Embora quisesse saber sobre as feridas, a pergunta saiu primeiro.

         — Como já deve imaginar, não foi uma viagem de trabalho. — Ele puxou a manta para cima, cobrindo o peito. — Alguém se aproveitou do meu desespero para me envolver em uma patifaria. Felizmente consegui fugir antes de o pior acontecer. —Suspirou, cansado. — Agora continuo sem uma… cura para o meu problema. Na verdade, começo a duvidar de que exista uma.

         — Não há nada que eu possa fazer para ajudá-lo? — De repente ele pegou a mão de Una nas suas, sorrindo-lhe apesar da tristeza no olhar.

         — Já fez muito por mim. Talvez haja algo mais em breve. Uma possibilidade um tanto quanto utópica, sim, onde poderá ser minha salvadora de novo. — Ela engoliu em seco, levantando-se da cama.

        — Bem, enquanto esse momento não chega, pedirei a Lucinda para que lhe faça uma canja de galinha e traga aqui.

        — E isso? — Ele apontou para o potinho com o cataplasma.

        — Acredito que não será mais necessário. Mesmo assim seria bom que passasse em seus cortes, para evitar complicações no futuro. — Theodore concordou e os dois se encaram por alguns segundos. — Ótimo. Com a sua licença.

        Una evitou pensar na conversa assim que colocou os pés fora do quarto ou em como a mão segurada por Theodore queimava. Aquele havia sido o momento de maior intimidade entre ambos desde o casamento e ela ainda não sabia como reagir. Para evitar a confusão interna, foi atrás de Lucinda. No caminho até a cozinha, algo incomum saltou ao seu olhar no corredor. A porta para o porão estava entreaberta. As pontas dos dedos ficaram próximas da maçaneta, mas recolheu a mão ao mudar de ideia.

         — Sr. Graves se levantou enquanto estive fora? — perguntou ao encontrar Lucinda conversando com outra empregada.

         — Não, senhora.

         — Tem certeza?

         — Só me afastei do quarto por dez minutos. Pouco depois a senhora chegou. — Una olhou para a outra mulher, que concordou. — O senhor está bem?

         — Sim, sim, porém está com o estômago vazio. Um prato da sua canja de galinha o fará bem. Quando terminar, leve até o quarto dele. Caso pergunte por mim, diga-lhe que esqueci minha sombrinha na casa de mamãe e voltei para buscá-la.

         — Ah, posso chamar o Sr. Amaro para a…

         — Não será necessário.

         Una as deixou para trás e voltou ao corredor, sem se deter dessa vez ao empurrar a porta do porão. Um brilho fraco e amarelado iluminava o primeiro degrau. Não havia sinal de que ela encontraria alguém a bisbilhotar, mesmo assim desceu com cautela. Se fosse no dia anterior, teria fechado a porta e seguido com sua vida, mas o ataque a Theodore aguçou seu lado mais curioso.

         A luz saía de um lampião pendurado próximo à mesa coberta com livros, garrafas de absinto e um revólver. Seu nariz começou a coçar graças ao ar bolorento. As sombras ocultavam boa parte do cômodo, mas isso não foi um problema para Una. Ela foi até as estantes, lendo as lombadas dos livros; alguns estavam em línguas desconhecidas, outros nem o título tinham.

         Ela se aproximou da mesa e vasculhou as páginas amareladas em busca de uma explicação para o que acontecera com Theodore. Encontrou desde livros sobre plantas até sobre canídeos das Américas. Entre um e outro, identificou a caligrafia cuidadosa do marido. O diário, como pôde identificar, possuía várias passagens datadas a partir da chegada do marido ao Brasil. Correndo as folhas até o final, encontrou o desenho de uma criatura humanoide e a palavra “lobisomem” logo abaixo. Que tipo de brincadeira é essa?, pensou, lembrando das lendas contadas por sua mãe.

         Algumas páginas depois, uma figura feminina. Una resfolegou ao ler o nome e a definição da mulher antes de se largar na cadeira atrás de si. A lenda do lobisomem não era incomum, mas a da peeira sim; um ser capaz de controlar toda uma alcateia. Uma fada, ela riu de nervoso. Nas últimas folhas, uma entrada feita no dia anterior, onde Theodore comentava sobre uma possível cura para a “maldição tenebrosa”.

         Una descansou as costas no espaldar e respirou fundo, digerindo a revelação das informações lidas. Da posição em que estava, um brilho fraco chamou sua atenção para algo que lhe passara despercebido. Ela se levantou e foi até o outro lado do porão, identificando os objetos sem dificuldade. A mão foi de encontro às correntes presas à parede, tão grossas quanto o seu braço e, de alguma forma, quebradas. As algemas eram grandes o suficiente para prender seus dois punhos juntos.

         Quando a realidade começou a cair sobre Una, deixou o porão para trás e subiu as escadas até o quarto de Theodore. Do lado de fora da janela, o céu alaranjado indicava o fim de mais um dia. Ela ignorou o fato de ter passado horas investigando a vida do marido ao entrar no cômodo e encontrar Lucinda arrumando a cama vazia.

         — Onde ele está? — Una se aproximou do criado-mudo ao ver o relógio astronômico aberto. O ponteiro da Lua indicava sua fase cheia.

         — Não sei, não, senhora. — Lucinda também parecia preocupada com o sumiço repentino. — Quando cheguei no quarto, o Sr. Graves já tinha saído. Pedi para Susana verificar no escritório, mas não tinha ninguém. Talvez esteja no porão.

        Una ignorou a última parte, aproximando-se da janela aberta.

        — Preciso que separe as roupas e a moto da Imperatriz.

         Una viu a noite cair enquanto cruzava Santa Teresa até o Aqueduto. No fundo sabia que o marido não iria muito longe. A Lua subiu no horizonte um pouco mais cedo naquela noite; maior e alaranjada. Havia uma explicação para isso no diário, mas não conseguia se lembrar. A apreensão da Sra. Graves se voltava aos outros segredos de seu marido.

         Quando a escuridão caiu, Una estava terminando a primeira volta ao redor do Passeio Público. Ela parou a poucos metros dos portões e olhou em volta. Ir além daquele território seria um risco muito grande. Embora o raciocínio de Theodore fosse afetado pela transformação, não acreditava que ele colocaria uma grande quantidade de pessoas em risco.

         Quase cedeu à vontade de buscar auxílio em sua mãe, mas não se perdoaria por colocá-la em risco. Quão forte ele pode ser?, pensou, ouvindo o som de passos pesados sobre folhas secas. Una pegou a arma que surrupiara do porão e a engatilhou. A explicação para as balas de prata no tambor do revólver estava fresca na sua mente, embora esperasse não as usar.

         Una desceu da moto e caminhou com cuidado até a entrada fechada do Passeio. Com a arma em riste, virou-se na direção da área arborizada. A princípio, não viu nada além das árvores, até uma das lâmpadas próximas explodir. Na chuva de cacos de vidro, ela viu a figura corpulenta próxima ao poste, coberta por pelos pretos. Enquanto Theodore tinha 1,90m, a criatura passava com folga dos 2m.

         Os olhos amarelos brilhavam na penumbra, dividindo sua atenção entre Una e a arma. Ela pensou em atirar no mecanismo de tranca dos portões, mas o possível eco a impediu. Não queria a polícia em seu encalço antes do tempo. Atire nele. Antes de tomar uma decisão, os músculos do lobisomem se retesaram e um uivo ensurdecedor invadiu seus ouvidos. Ondas de calor se espalharam pelo seu corpo e um sentimento esmagador de confusão a desnorteou. Entorpecida, deixou a arma cair ao se curvar à frente, abraçando-se.

         Quando se viu mais uma vez no controle de seu próprio corpo, Theodore não estava mais a vista. Una respirou fundo, surpresa em ver como tudo havia se tornado mais nítido. O mundo pulsava ao seu redor e, apesar da desordem anterior, sabia exatamente o que fazer. Ela recolheu a arma e a desengatilhou. Não seria mais necessária. Flexionando os joelhos, deu um salto que a levou ao outro lado do muro.

         Una correu pelo Passeio Público como se o fizesse com frequência. Mal ouvia as próprias passadas na grama. Sua audição captava a respiração ofegante de Theodore metros à frente. Mais rápido, pensou, aumentando o ritmo até vê-lo por entre as árvores. Com a distância cada vez menor, ela saltou nas costas do marido e os dois caíram. As unhas afiadas dele a cortaram na altura da coxa, mas não fundo o suficiente para incapacitá-la.

         Os dois se levantaram e se encararam, assim como fizeram naquele mesmo dia. Qualquer um seria incapaz de ligar a criatura ao seu marido, mas ela sabia. Não tem como não saber. Apesar de ele se avultar sobre Una, a jovem nunca se sentiu tão no controle de algo.

         — Pare! — gritou quando ele ameaçou partir na sua direção. — Theodore, preciso que se controle e volte à sua forma humana. Agora.

         Ela estendeu a mão na sua direção e permaneceu assim até ele a segurar com gentileza. Quando o pelo começou a cair, permitiu-se respirar aliviada. Theodore desabou de joelhos, enfraquecido, e tentou se cobrir como pôde. Ignorando a nudez do marido, Una o puxou para perto de uma árvore a tempo de se esconder do facho de luz do dirigível da polícia.

         — Muito obrigado — murmurou, envergonhado.

         — A porta do porão… — ele assentiu, limpando o suor da testa. — Por que não me falou antes?

         — Não sabia como. Não sou muito bom com palavras.

         — Por isso se casou comigo? Como soube que eu era uma peeira? — Quando nem eu sabia, pensou.

         — Eu não sabia, mas a minha… intuição, por assim dizer, serviu de alerta. Acreditar em lobisomens não foi fácil. Acreditar em uma fada dos lobos foi ainda mais difícil. — Theodore sorriu para Una, embora ela evitasse encará-lo. — Mesmo assim, aqui estamos.

         — Então isso significa que posso controlá-lo? — Ela sorriu, notando sua tensão. — Interessante. Sempre quis um cachorro. — Una o olhou de esguelha e riu ao ver a expressão mortificada do marido. — Ah, não seja tão sério. A situação exige um pouco de bom-humor, pois estou às margens de um surto histérico. Logo precisaremos enfrentar um problema muito sério.

         — E o que seria?

         — Como conseguirei transportar um homem nu, em uma moto, sem chamar atenção.

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