Sob Olhos Sombrios Pt.2

Mas não era somente a gentileza que toldava os muros daquela casa.

Havia uma aura estranha. Sombria. Como se algo pegajoso e denso profanasse aquelas paredes.

Ernest se sentia acolhida, paparicada e aceita. Mas aquela aura estranha a intimidava. Como o roçar gélido do vento na madrugada, infiltrando-se pelo corredor escuro e tocando suas pernas num sedoso roçar.

Ela se estremecia toda e corria para o quarto, abrigando-se debaixo das cobertas. Pensando na mãe que a deixara, na solidão angustiante e no silêncio assustador que ecoava pelo hall.

Mark estava sempre calado, perdido em seus pensamentos. O charuto cubano pendendo em seus lábios enquanto degustava a dose de conhaque, sentado em sua poltrona.

Joy sustentava o silêncio do marido, alisando a aliança dourada pousada no dedo ossudo. Seus olhos eram inesgotáveis.

Somente Racoon parecia lidar, realmente, com a tristeza, extravasando a raiva e decepção com o heavy metal num som particularmente alto – o que parecia zombar e desafiar Mark.

Mas Mark permanecia naquela mesma postura rija na poltrona, impassível.

A tristeza por Robin era palpável e ameaçava condensar o ar.

Por este motivo a porta de seu quarto, imaculado, permanecia sempre fechada.

E embora todos os motivos plausíveis mandassem Ernest ficar respeitosamente longe daquela linha ao sopé da escada, um dia ela não resistiu aos sussurros que a instigavam entrar.

O quarto tinha o leve odor de rosas. O aroma adocicado a atingiu no instante em que entrou. As paredes eram num tom pálido de azul, repletas de frases escritas à caneta tinteiro numa caligrafia elegante.

Rousseau. Voltaire. Baudelaire. Bakhtin. Le Goff. Bourdieu.

Eram eruditas amostras do que havia escrito ali. Frases ilustres de pensadores eruditos que enfeitavam graciosamente as paredes.

O homem é bom por natureza. É a sociedade que o corrompe.

Rousseau.

Aquele que te faz crer em absurdos também pode te fazer praticar atrocidades.

Voltaire.

Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você fez com aquilo que fizeram com você.

Sartre

Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre.

Beauvoir

Ernest ficou impressionada. Seus dedos roçaram a escrita com reverência.

Sabia que Robin era formada em Antropologia. Recém-formada. Uma mente erudita parecia prestigiar a essência da irmã.

E a julgar pela quantidade de livros organizados numa longa estante ao lado da cama de solteiro, ela percebeu que Robin compartilhava de sua adoração pela leitura.

Aproximou-se da estante, explorando as bordas dos livros.

Franz Boas.

Malinowski.

Lévi-Strauss.

Ernest não conhecia muito sobre o estudo do homem. Mas sua curiosidade a empurrara várias vezes à leituras significativas.

Olhando os autores que Robin costumava ler e admirar podia ter uma vaga ideia de que tipo de pessoa ela seria.

Seus olhos voltaram-se para o resto do quarto.

O mesmo guarda roupa embutido guardava as calças jeans, vestidos e sobretudo que Robin costumava usar.

Seu estilo era alternativo embora os acessórios, pilha de cds e filmes na prateleira indicassem que o Indie tocasse fundo em sua alma.
Ernest leu os títulos.

Florence and the machinne. Helsey. Lorde. Aurora. Lana Del Rey.

Ela esboçou um sorriso.

Mas do outro lado, a parte mais sombria do quarto onde uma jaqueta de couro pendia nas costas de uma cadeira havia uma pilha de cds de Heavy Metal, um cinzeiro em forma de caveira e uma almofada do ACDC.

Ernest se perguntou de que mistura autêntica seria feita Robin.

O que quer que houvesse nutrido a alma daquela garota, sustentado sua essência, ela aprovava.

A escrivaninha no canto esquerdo lhe chamou a atenção.

Havia uma pilha desorganizada de livros acadêmicos, uma iPod conectado ao fone de ouvido e um porta retratos.

Ernest encarou a garota na foto.

Os cabelos escuros, curtos e sedosos. Os lábios rosados curvados num sorriso radiante. Os olhos claros e gentis encaravam a câmera num desafio.

Ernest acariciou o retrato.
Jamais vira uma pessoa tão radiante, aparentando tanta luz, tantas cores juntas.

Robin era linda de uma maneira totalmente diferente do que a beleza pregava naqueles dias modernos. Sua beleza era o reflexo da luz e cores que ela tinha por dentro.

Como uma pessoa tão feliz poderia simplesmente desaparecer, deixando tudo para trás?

Como uma alma feliz poderia deixar um rastro de tristeza que ameaçava acinzentar tudo ao seu redor?

– Ela passou a usar o cabelo curto depois que a destruíram por dentro.

A voz a surpreendeu, quebrando o encanto que a aura de Robin estabeleceu.
Racoon a assustava. Ao mesmo tempo em que a intrigava.

O que levava uma mãe a colocar no filho o nome Racoon? Ela se perguntava se seria uma piada interna. Mas jamais ousaria indagar Joy sobre isso.

Em partes entendia a revolta do garoto. Mas não tolerava seus olhares furtivos e as acusações com as quais a abordava.

– O que faz no quarto dela?

Os olhos dele a inquiriram com hostilidade.

– Sinto muito.

– Aposto como você sente.

Também deve sentir muito por aparecer assim tão repentinamente numa família atormentada, num momento extremamente oportuno.

Ernest o encarou.

– Não estava nos meus planos vir para cá.

– E o que a fez vir? O que, coniventemente, a fez sair de sua fazenda no interior para atormentar essa família?

– Eu não vim atormentar ninguém.

– De certo que não veio para recuperar o tempo perdido com o papai Mark. Ou será que sempre soube da existência dele e escolheu o momento perfeito para aparecer numa súplica de filha rejeitada?

Ernest sentiu as lágrimas empoçar seus olhos. Suas feições endureceram.

– Não se preocupe. – Racoon disse. – Sei exatamente a sensação amarga que é ser rejeitado.

– Você não sabe de nada.

– Sei mais do que essas paredes ousam transparecer.

Ernest fitou o quarto em silêncio, inspirando a presença reconfortante de Robin.

– Não quero atormentar você ou sua família. Eu só não tenho para onde ir. Ou é aqui, com um pai que eu não sabia da existência, ou num abrigo até atingir a maioridade.

– Uma pena para você, então. Está condenada.

Ele a encarou por alguns minutos, absorvendo os traços suaves de seu rosto. A hostilidade era palpável no olhar e queimava-lhe o rosto.

– Chega a ser cômico sua presença nessa casa. Robin previu que viria.

Ernest voltou os olhos para ele, confusa.

Mas Racoon já estava de saída.

– Não entre aqui novamente. – alertou ele antes de desaparecer nas sombras do corredor frio.

Continua!

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