Um Conto de Thommas Bradley [Parte II]: Inesperado

Escrito por Gabi Waleska.

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– Eyyy of th-thhigeeerrr – Tom e Christian clamavam alto, a pronúncia incerta e o timbre embriagado. Eles cambaleavam pela rua, um se apoiando no outro, cantando e rindo das próprias vozes. A neve voltara a cair, não era tão tarde, bem antes da meia noite, e eles queriam se divertir.

– Você é um cara muito legal – Christian disse de forma embolada, tentando não cambalear pela rua – Eu não sei porque éramos tão imbecis na escola! – Tropeça nas palavras, tentando falar com clareza.

– Você também é mano – Tom boceja – Eu lembro de você tentando roubar aquela menina de mim – fala com dificuldade – Qual era o nome dela?

– Ah, foram tantas – Christian ri – E você não deixou barato – apontou um dedo para Tom – Me deu uma bolada na barriga que me derrubou sem ar – ri mais ainda com a lembrança.

– E você me deu um soco no olho, cacete! – Tom tenta queixar-se, ma sua fala arrastada os faz rir.

– Porque você me jogou no chão, mano! Você era um magricela forte – Christian para grogue para lembrar e Tom olha em volta grogue.

– Ah, merda! – praguejou – está tudo fechado! Onde vamos beber! – Resmungou.

– Vamos para minha casa – Christian dá meia volta e sai cambaleando pela rua – Meus pais tem bebidas legais lá – Tom o acompanha.

O frio fez o efeito do álcool diminuir, então não demoram muito a encontrar a casa da família de Christian, bem a tempo da neve começar a cair. Entram apressados e tiram os casacos de neve, pegam algumas bebidas no freezer da cozinha e sobem para o quarto de Christian, onde começam a jogar o vídeo game, bebendo e falando do que tem feito da vida.

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Tom abriu os olhos para a escuridão, provavelmente era madrugada. Havia uma sensação de descanso, como se tivesse acordado de um sonho muito bom, do qual não se recordava, provavelmente por causa das bebidas.

Tentou aos poucos enxergar no escuro, percebendo que os contornos do quarto não lhe pertenciam, e que, de acordo com que a consciência chegava, não lembrava de ter ido para casa. Um leve movimento ao seu lado o sobressaltou. Olhou e percebeu com um frio na barriga que Christian dormia na mesma cama que ele, ressonando suavemente.

Tom tentou lembrar ansiosamente do que acontecera. Jogaram e beberam, mas a cabeça e o corpo estavam entorpecidos demais pela ressaca para lembrar do restante. Pensou em levantar-se, e percebeu exasperado que estava sem roupas.

“Preciso me situar. Urgente.” Engoliu em seco, e sentou-se na beirada da cama. Sentia um misto de ansiedade e enjoo, não tinha certeza do que acontecera, mas dados os fatos, já conjecturara o resultado. Virou-se e olhou Christian dormindo, com um frio na barriga, excitação e algo não identificado o tomando. Medo?

Não sabia como reagir ou o que pensar. Christian se mexeu, revirando-se e espreguiçou, o tronco se revelando sob os lençóis. Observando-o, Tom compreendia um pouco o motivo da velha rivalidade, que o fez malhar para ter um corpo equiparável ou melhor. Que nisto, por mais diferentes que fossem, havia muito de igual em ambos.

Christian era bonito de verdade e Tom sabia, que este foi um grande atributo que o fizera ganhar algumas de suas namoradas no passado, como uma delas se referiu a ele com a “aparência de um anjo guerreiro, forte e confiante”. Tom riu um pouco com a lembrança e de como ficara furioso no dia.

Neste momento quase estendeu a mão para tocar nos cabelos louros, quando lembrou-se subitamente de como os segurou em seu domínio, enquanto atingiam o clímax e caindo exaustos, quase inconscientes, sobre os lençóis confortáveis. Sua mão tremeu e ele corou no escuro. Christian conseguira deixá-lo confuso a tal ponto que Tom, pela primeira vez na vida não sabia como agir.

Expirou profundamente com as mãos na cabeça. Por um lado, queria compreender melhor o que ocorrera. Saber se fora a bebida ou algo inesperado e – engoliu em seco ao pensar, com relutância – extraordinário. Por outro lado temia, e sabia que era um lado de preconceitos, que isso mudasse quem ele era, e como a recepção do seu mundo seria.

Com os dedos unidos sobre a boca agora, olhou para a janela, com marcas de neve caindo. Estava tão aquecido lá dentro, verdadeiramente confortável, que a única vontade, – não fosse seu dilema -, era deitar e voltar a dormir. Mas tinha medo.

Levantou cuidadosamente, tentando apressado encontrar suas roupas, mas só achou a calça. Vestiu-a às pressas e procurou o banheiro da suíte. Percebeu ali, que Chris era quase tão, ou tão rico quanto ele, e nada lhe faltava na vida. Lavou o rosto para clarear a mente, e tentar lembrar de algo mais. Uma ideia começou a clarear.

Sempre vivera ao máximo, provando a vida, aventurando-se, fazendo amigos com facilidade, conseguindo facilmente namoradas. Isso sempre acompanhado de uma vibrante excitação e, sabia que esta experiência fizera parte disto nele. O que aconteceu foi que estava tão bêbado que não pensou em pudores, apenas se envolveu no momento e se realizou mais uma vez.

Agora estava lembrando de um momento em que o quarto estava escuro e confortável, e tinha um cheiro bom de canela, final de ano ou algo quente, como lenha na lareira. Christian fechou a porta e Tom o puxou para si, compartilhando algo que havia sido iniciado. Em outro flash, eles já estavam sem as roupas, Chris o sorvia lascivamente como garotas já o fizera, levando-o ao júbilo, tão intenso quanto suas melhores lembranças. Tornou a corar. Ali, agora, sentia-se entumecido ao lembrar.

– Nunca fui alguém de sentir medos – falou para seu reflexo no espelho – ou de me arrepender. Então porque eu estou assim agora? – sentia que suas mãos tremiam.

Após esses minutos pensando, sabia que o que ocorrera foi apenas dois seres humanos, desfrutando de seus corpos de modo prazeroso. Lembrava das garotas com que ficara no começo da noite, ainda sentia-se atraído por elas. Isto não o tornava menos homem ou diminuíra sua vontade por mulheres. Então, talvez, seja apenas uma outra forma de pensar, nova e inexplorada por ele.

– Porque não? – Falou novamente em voz alta. Permanecia excitado e ansioso.

Voltou silencioso para o quarto. Christian acordara, estava de braços cruzados atrás da cabeça. A expressão séria, fitando o teto. Virou os olhos para Tom quando este se aproximou na penumbra. Observou-o, semi vestido, a expressão apática.

– Você parece um vampiro – disse e Tom teve que rir, quebrando a tensão – Qual é? Você é tão pálido e com essa cabeleira preta, além de só usar preto… Tipo sua irmã… Fica das trevas! –

Mas Tom sabia que ele estava apenas tagarelando, talvez tão nervoso quando ele. Por isso apenas riu da provocação e sentou na beirada da cama, fazendo-o se calar.

– Eu não tenho certeza do que… de como aconteceu… – Tom falou com a voz calma. Chris desviou o olhar para suas mãos, agora sobre seu colo e deu um pequeno sorriso, Tom podia jurar que ele corava. – Estava um tanto bêbado, sabe? – deu um sorriso, fazendo Chris o olhar – Só quero entender a ordem… dos acontecimentos – Concluiu com a voz calma.

– Eu não lembro de tudo – Christian falou com um sorriso de desculpas, a voz baixa e abafada. Inclina-se para Tom, apoiando-se em um braço, se aproximando como se fosse confidenciar algo. O coração de Tom acelerou, como se tivesse feito algo errado e fora pego – Depois de você me dar uma verdadeira surra no game, descemos para procurar algo para beber, e você… você perguntou porque comecei a implicar desde o seu primeiro dia em Nova York, e acho que… – sua voz fraquejou, a consciência que não estava mais embriagado pesando – acho que acabei admitindo que te achava melhor em quase tudo e era difícil aceitar que havia outro… cara capaz de me superar na escola, namoro e aparência…

Tom levantou a sobrancelha direita, com um meio sorriso, as lembranças voltando mas permaneceu imóvel e calado.

– Lembro que você riu, – deu um risinho também, sentando-se na cama – Não lembro o que perguntou, mas falei que nossa competição… digo, minha competição, era apenas uma forma de de negar que te achava perfeito demais e não admitir que te queria. – Pausou desviando o olhar, e Tom percebeu que ele estava escarlate, mesmo no escuro. – Afinal, nunca tinha acontecido comigo… Quando você saiu de Nova York, senti-me aliviado e segui minha vida. – Riu de forma irônica – Em seguida tive outras pessoas – Tom percebeu que ele não usou a palavra “garotas” – e estava bem. Até te ver hoje, mais… – pigarreou e gesticulou para Tom – mais perfeito do que nunca. Eu não queria as velhas tensões – apressou-se em dizer – Só queria provar para mim que havia superado, que podia ser um velho amigo, mas estávamos tão bêbados que…

– Chegamos aqui? – Tom o interrompeu, a voz insondável.

– Não lembro o que você respondeu ou o que fez, sei que estava perto da bancada do microondas e eu ia pegar uma cerveja ao seu lado e… te beijei – parou para observar sua reação, o coração disparado por repetir isto em voz alta, e sóbrio. O olhar de Tom não tinha raiva nem pena, mas era indecifrável. – Olha, eu fiz isso esperando uma rejeição, uma reação violenta, mas… – ele não conseguiu concluir.

– Eu não lhe rejeitei – concluiu a frase. Tom lembrou-se que não houve resistência de sua parte, talvez até porque sempre houvera um sentimento parecido, mas não tinha certeza. Apenas sabia que ele se permitiu, sem amarras.

– Você foi… Perfeito. – Christian disse baixando o olhar. Era estranho para Tom, ver como aquele rapaz alto e forte parecia frágil e sensível. Como se tentasse ocultar os sentimentos que acabara de revelar.

Tom olhou para as próprias mãos, ainda trêmulas. Poderia viver com isto. Poderia? O que jamais sentira, hoje parecia aflorar, sabia que não aconteceria de novo, não com outro cara. Sabia que gostava de mulheres, então isto não seria uma questão de gênero, apenas de sentimento humano. Poderia viver com isto.

Estava atraído por Christian da mesma forma que já estivera por mulheres. Sentira prazer com ele, muito prazer, como jamais imaginou. Então porque não admitir e aproveitar o que de repente se tornou um tempo limitado?

– Agora minhas lembranças têm sentido. – falou com um riso de canto de boca. Christian levantou os olhos azuis arregalado para Tom, aliviado pela reação receptiva. Estendeu a mão para tocar a nuca dele.

– Você não precisa ficar aqui – falou, baixando os olhos, mas Tom captou sua melancolia.

– Eu quero ficar aqui hoje. Além do mais está nevando, quer que eu vire um boneco de neve? – revirou os olhos, arrancando uma risada de Chris.

– Claro Thommas, o que eu pareço? Um psicopata que te seduziu e enviou para a morte no gelo? – Tom bagunçou seu cabelo.

– Não me chame assim, cacete! – disse rindo e, desta vez sem medo, beijou Chris.

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Continua

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