Bloody Mary

Escrito por Naiane Nara

É uma dor estrondosa a que sinto; torna o simples ato de respirar me fazer ter vontade de morrer. Houve uma época em que senti amor e vi a vida como luminosa e bela… Mas isso foi quando eu era muito jovem. Agora sinto apenas o vazio e a dor. Física, dessa doença maldita que está me consumindo, e a dor na alma, a dor do abandono, o vazio puro e simples.

Minha voz rouca ensaia uma saída frágil:

– Alguma carta do Rei Felipe, meu marido?

As aias se olham, pressurosas, e compreendo que não há mensagem nenhuma antes que elas me respondam. Tanto tempo sem nos ver, e irei partir desse mundo sem que ele me diga adeus.

Completamente sozinha, como minha mãe, que foi para o exílio sem uma palavra do meu pai, fosse de consolo ou acusação.

Qual é a maldição das Rainhas da Inglaterra?

Nem sempre foi assim. Quando meu avô venceu a guerra civil e se tornou Rei, seu casamento com a princesa York, da casa rival, lhe garantiu os filhos que precisava para dar continuidade ao seu legado. Mesmo quando meu tio Arthur morreu tão jovem, eles tinham meu pai e suas preciosas irmãs. Deus não os desamparara.

Meu pai casou-se com minha mãe e tudo parecia lindo, promissor: dois jovens com amor, fortuna e a vida toda pela frente. Mas os anos se tornaram amargos quando somente eu sobrevivi aos filhos que minha mãe gerou.

Minha infância foi bonita, apesar disso. Meu pai me adorava; chamava-me sua Pérola do Mundo. Ah, como eu me sentia amada!

Então aquela meretriz, Ana Bolena, virou a cabeça dele do avesso: fez com que nos abandonasse aos poucos, a mim e a minha mãe. Fomos gradualmente esquecidas, substituídas, deixadas de lado como algo incômodo.

Apesar da situação horrorosa, minha mãe não desistiu. Lutou com ferocidade por sua honra e minha herança. De cabeça erguida manteve sua palavra de que se casara virgem e portanto seu casamento com meu pai o Rei não poderia ser dissolvido como a bruxa Bolena desejava. Quando foi finalmente forçada a partir em exílio, disse-me algo que jamais esqueceria:

– Não se esqueça de quem és, minha filha. És a neta de Isabel de Castela e Fernando de Aragão, princesa legítima da Inglaterra, educada primorosamente. Um dia serás Rainha. Promete que se comportará a altura, minha filha.

– Prometo, mãe.

Minha voz saíra esganiçada e assustada, de medo e preocupação. Era como se sentisse que aquela seria a última vez que veria minha mãe viva.

Nos anos que se seguiram, a bruxa Bolena chegou ao auge do poder e finalmente caiu, pois também só conseguiu dar ao Rei uma filha; mas ela forçou meu pai a me fazer assinar aquele maldito documento antes de morrer decapitada. A única pequena possibilidade que havia de perdão assim se desvaneceu. Após várias ameaças perigosas, assinei o pergaminho que trazia o reconhecimento de que o casamento de meus pais era inválido e eu era uma bastarda. Que dizia que o Rei – blasfêmia das blasfêmias! – era o novo Chefe da Igreja e o Papa não tinha mais autoridade na Inglaterra.

Ainda hoje, anos depois, isso me corrói profundamente. Nunca me perdoarei por ter cedido. Mas o fato é que isso melhorou consideravelmente minha situação diante do Rei. Ele voltou a me dispensar uma miséria de atenção pela qual fiquei muito grata.

Convivendo com Elizabeth, a filha da prostituta, quase esqueci de toda essa dor. Não queria, mas me apeguei àquela criança, assim como me apeguei ao filho que meu pai tanto esperava: Eduardo, príncipe de Gales. Formamos um trio improvável que apavorava as aias com nossas brincadeiras; assistimos juntos às Rainhas de nosso pai irem e virem, até a última, Catarina Parr. Ela fez questão de convencê-lo a restaurar minha posição e de Elizabeth na linha de sucessão, mesmo com o peso de nossa bastardia contra nós.

Foi o único momento em que senti raiva genuína em ser comparada à Elizabeth. Nossas posições eram completamente diferentes: eu era a princesa legítima; minha mãe não fora uma traidora.

A Lei da Sucessão foi passada ao Conselho Privado e aceita. Logo, se meu irmão Eduardo morresse sem herdeiros, eu assumiria. Se o mesmo acontecesse à mim, Elizabeth teria o trono. Meu pai morreu em paz com essa decisão e nós… Jamais poderíamos imaginar que os anos seguintes veriam 3 monarcas diferentes e uma golpista que tentaria usurpar o poder.

Meu irmão se tornou Eduardo VI, e promoveu a causa protestante, na qual foi criado, tornando-a a religião oficial do Reino. Os católicos restantes como eu, os fiéis, fomos perseguidos e assediados, e muitos foram condenados à morte simplesmente por seguirem a única religião verdadeira.

Era como viver a dois passos do cadafalso, como fora no reinado de meu pai enquanto a prostituta era viva. Jamais imaginei que o querido irmão que embalei e ensinei diversas coisas permitiria – e encorajaria- que eu fosse tratada dessa forma tão angustiante. O que os antigos dizem é verdade: só se conhece alguém verdadeiramente quando este detém o poder.

Foi a vontade de Deus que meu irmão morresse jovem. O Senhor deseja a Inglaterra unida e novamente católica. Mas meu irmão escolheu ignorar a vontade divina e desafiar o destino, levando nossa discordância religiosa para o túmulo. Nos dias finais de sua agonia, o Rei nomeou como sucessora nossa prima, lady Jane Grey, coincidentemente nora de seu Chanceler.

Ele ousou me excluir da sucessão, desrespeitando a vontade de Deus e de nosso pai falecido… Como pôde?

Senti a ira nascer em mim como nunca antes vista. Todas as provações e anos em que fui deixada para trás em favor de outra pessoa… Sempre tive que esperar. Quando era a minha vez algo acontecia e eu era relegada à espera.

Por Deus, isso eu não permitiria novamente.

Reuni um pequeno exército de pessoas que ainda se lembravam do significado de fidelidade na Inglaterra, e me dirigi à capital, que não opôs resistência. Claro que não oporiam, não a mim. Eu sou a Rainha legítima e pelo bondoso Deus, eu reinaria.

Encontrei minha prima na Torre, aguardando sua coroação que jamais aconteceria; poupou-me o trabalho de aprisioná-la. Mandei para lá seu marido e odioso sogro, prisioneiros em condições muito inferiores às de minha prima, já que ela foi apenas usada por eles como um instrumento para chegar ao poder.

Finalmente, minha coroação teve lugar. A primeira Rainha reinante da Inglaterra, não uma mera consorte. O país estava em situação financeira precária, dividido pelas guerras religiosas. Arregacei as mangas e comecei a trabalhar.

A punição dos infiéis teve lugar: executei os traidores protestantes que causavam agitações por causa de sua religião; o maior dos traidores, antigo arcebispo de Canterbury que declarou o casamento de meus pais nulo diante da lei inglesa, também pereceu nas chamas.

Enquanto traçava os planos para recuperar a Marinha e as finanças, o Conselho Privado me pressionava para que me casasse; o país precisava de estabilidade. Foi uma decisão difícil, pois como a primeira Rainha reinante, escolher um Rei consorte era uma tarefa perigosa e vista com desconfiança. Era preciso mostrar que eu não perderia minha autoridade, que eles podiam confiar em mim para isso.

Terminei decidindo por meu primo espanhol, Felipe, filho de Carlos V – o homem mais poderoso de nosso tempo. Mandei redigir o contrato de casamento de modo que garantisse minha segurança e autoridade, ele aceitou e demos início aos preparativos.

Ah, mas nada é tão fácil… Houve uma revolta contra o meu casamento, e a família de minha prima Jane, presa na Torre, participara. Como o Conselho Privado me advertira, mesmo que ela não quisesse participar, já estava envolvida e seria sempre usada como símbolo de inssureição. Fui pressionada a assinar sua execução, junto com a dos outros fomentadores da rebelião que desafiou a minha autoridade. Assinei, após chorar um dia inteiro. Será que foi assim que se sentiu, pai, quando teve que mandar executar sua prostituta adorada?

Casei-me, mas meu marido passava pouco tempo comigo e só se entretinha na presença de minha irmã. Me apaixonei, apesar de não desejar esse casamento de início; para mim era o cumprimento do dever, mas logo passou disso. Felipe era belo, jovial e adorável… Fiquei encantada, para meu infortúnio.

Depois de cinco anos de reinado e duas gestações que não se concretizaram, encontro-me horrivelmente doente e sozinha. Meus planos para melhorar o país estão em meus papéis na escrivaninha: não haverá tempo para implantar e ver frutificar minhas idéias. Como isso me deixa triste.

– Sua Graça, – disse uma aia em voz alta, para me tirar de meu devaneio – vossa irmã chegou, respondendo a vosso chamado.

– Mande-a entrar. – Minha voz continuava rouca. Pigarreei. Não podia demonstrar fraqueza no momento final.

Elizabeth entrou, com sua postura confiante de sempre e os bastos cabelos vermelhos. Curvou-se respeitosamente e fingiu não notar minha palidez e olhos fundos pela dor, sob toda a roupa bonita e as jóias. Seus olhos eram puro fogo, diziam: “Você me acusou injustamente.” Ela tinha razão. Em meio às rebelião e descontentamento pelas colheitas ruins, a espera massacrante de um herdeiro que não veio, mandei aprisioná-la na Torre por algum tempo, por suspeita de traição. Com Jane morta, muitos rebeldes a viam como o símbolo da nova era. Porém nenhuma prova foi encontrada e Elizabeth foi libertada, estando em prisão domiciliar até hoje. Seus olhos sempre apresentam esse tom ferido desde então.

– Princesa Elizabeth… Irmã. Sabes que estou morrendo, não?

Ela se encolheu, com receio de responder. Com toda razão, eu a assediei quase tanto quanto Eduardo fez comigo pela diferença de religião, fora a acusação infundada.

– Entendo sua postura, – tornei- mas estamos ficando sem tempo. Estou morrendo, irmã. Depois de todos os meus erros contigo, quero que saiba que irei respeitar a vontade de nosso pai. Não farei como Eduardo, irei ter com o Criador sem essa culpa.

Os olhos dela se arregalaram de surpresa. Continuei:

– Eu tinha planos para recuperar as finanças, expandir a Marinha, mas não os verei se tornarem realidade. Torne-os reais por mim, irmã. Reine, sua inteligência vai salvar a Inglaterra.

– Tens certeza, vossa Majestade? Não me deveis nada…

Elizabeth respirou profundamente e correu até minha poltrona, me abraçando e chorando convulsivamente. Chorei também, por tudo que tivemos e poderíamos ter tido.

Não trocamos mais nenhuma palavra. Assim que a calma se instalou após esse desabafo mudo, ela se curvou e saiu, de volta à sua prisão domiciliar, de onde só sairia para se tornar Rainha.

Odiarei sua mãe para sempre, mas tu, minha irmã… É parte de mim, e te amo. Que seu reinado seja mais longo e próspero que os de seus irmãos. Eu me tornarei conhecida como a Bloody Mary, mas que tu sejas conhecida como a boa Rainha Bess.

Sei que é a última vez que te vejo, adeus, seja uma boa Rainha.

Fim

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