O Preço

Uma Space Opera de A.J. Perez

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A nave Banshee pré-guerra estremeceu ao entrar na atmosfera. O alarme seco ecoava pelos corredores da nave Relicário, enquanto as luzes alaranjadas dançavam nos painéis.

sistemas de refreamento ativados” – sentenciou uma voz feminina metálica.

A estrutura rangia, gritando como um animal abatido enquanto os flaps reduziam drasticamente a descida.

propulsores inversos ativados”

Um impacto violento acertou a carcaça na espaçonave quando as turbinas na parte inferior dela se ativaram.

Yeahhhh! Isso que é uma reentrada! – gritou um homem com chapéu de cowboy.

Vá se ferrar, Jhácony! – resfolegou a garota de longos cabelos cobreados em um tom laranja, presos em um rabo-de-cavalo, olhando com raiva para ele por sobre o ombro enquanto manobrava a nave.

Concentre-se na reentrada, Sarah. – sentenciou firmemente o humano mais velho na cabine. Possuía barba cerrada e branca assim como seus cabelos bem cortados, e uma cicatriz gigantesca na face direita do rosto.

Sim, capitão… Dianna, nivele a nave.

nivelando nave…”

Desabilitando blindagem frontal de reentrada. – a jovem mexeu rapidamente em algumas chaves no painel.

Placas metálicas deslizaram a frente da cabine revelando o espesso vidro frontal blindado, e, através dele, só se podiam ver nuvens âmbar e eventuais descargas elétricas entre elas.

espaçonave nivelada”

Senhores, – a garota fez uma pausa conforme a neve estabilizou no ar – bem-vindos a Velha Terra.

O Capitão soltou seu cinto, e se aproximou da jovem. As botas com reforço metálico martelavam o chão conforme ele se diria a ela.

Muito bem, Sarah. – a mão dele pousou no ombro nu dela – Mais algumas reentradas e estará perfeita.

A jovem sorriu.

Obrigada Capitão. – ela olhou com sarcasmo para Jhácony.

Parabéns Cabeça de Ferrugem. – disse o Cowboy saindo da cabine com as esporas tilintando.

Homem insuportável… – ela respirou fundo e ativou o canal de comunicação externo – Aqui é o Relicário Banshee Código; Alfa-Delta-Romeu-Primeiro-Sexto-Nono-Segundo para torre de controle da Corporação Illumina, solicitando permissão para pousar em sua jurisdição, câmbio.

Som chiado e repleto de ruído veio como resposta e segundos depois uma voz se ouviu surgindo da estática.

Torre de controle da Corporação Illumina na escuta. Bem-vindo ao Consórdio Humano, Relicário Banshee. Pouso garantido. Dirija-se a zona 5-7-8-2, Setor Echo, doca GA-235. A temperatura é de 87°C, a direção do vento é NNE, com velocidade de 75km/h e estamos com instabilidade constante. Se prepare pra chuvas tóxicas nessa área, câmbio.

Agradecidos pelo aviso, Torre. Em direção a doca GA-235, Zona 5-7-8-2, Setor Echo, câmbio final.

Essa é minha garota. – falou o capitão beijando a moça no rosto.

Pare, não quero que a tripulação veja… vão achar que está me favorecendo para o cargo de piloto.

Eu estou lhe favorecendo, menina.

Ela gargalhou.

Obrigada por me dar uma chance tio.

Seu pai teria orgulho da mulher que você se tornou, pequena.

Ela apenas sorriu, e voltou a mexer no painel com os olhos marejados.

Vou avisar a tripulação pra se preparar. – resfolegou a garota.

Está certo vou descer para a zona de cargas.

O capitão se afastou, enquanto ela ligava o canal interno.

Aqui é a piloto Sarah Khanavry se dirigindo a tripulação. Preparar máscaras de oxigênio para sair na atmosfera de Velha Terra, a temperatura lá fora é de 87°C, e estamos no meio de uma chuva tóxica, então usem as roupas herméticas e preparem as proteções devidas para descarregarmos o contrabando… ops, nossa carga.

Ela pode ouvir as risadas abafadas da tripulação nas outras partes da nave.

Sarah sorriu, manobrando a nave entre as nuvens descendo em diagonal olhando com cuidado os instrumentos até que finalmente as nuvens ficaram acima dela. Uma rajada de água cor âmbar atingiu o vidro frontal da cabine. A nave sacolejou ao entrar em uma breve turbulência, trovões rugiam acima. Abaixo uma gigantesca cidade surgiu com um aspecto tão industrial como o de sua nave. Gigantescos prédios com quilômetros de altura se misturavam as imensas chaminés de fábricas, fora isso restavam pequenos prédios aglomerados, se estendendo em todas as direções formando uma imagem desoladora de favelas industriais até onde não se podia mais ver. Milhares de espaçonaves humanas ou não trafegavam, pousavam e decolavam entre os prédios e vielas. Outdoors holográficos de tamanhos descomunais flutuavam ao redor de prédios e torres. Eram a única coisa colorida na paisagem com cores vibrantes e intensas que fariam um epilético cair se contorcendo no chão.

Finalmente a Banshee encontrou seu destino na doca e pousou. A plataforma estava quase vazia. Havia espaço para mais umas trinta naves ali, apenas seis ocupavam as vagas.

A garota soltou o cinto, e colocou o sistema de propulsão em rotação mínima. Levantou-se e passou pelas três cadeiras na cabine, eram de couro moído com várias partes rasgadas e com forro escapando, ela já tinha perdido as contas de quantas vezes costurou aquelas malditas cadeiras. Inúmeros fios e cabos estavam à mostra no teto, o estado da espaçonave não era das melhores. Algo que se podia esperar de uma nave humana contrabandista da pré-guerra. Ela passou pisando firme pelas grades no chão e fechou a escotilha da porta cabine, a trancando ao digitar um código no painel ao lado.

porta trancada, piloto Sarah” – avisou Dianna.

Obrigado Diana, fique de olho em tudo.

positivo”

O andar inferior estava tomado pela tripulação cerca de 20 ao todo, 15 humanos e 6 aliens de espécies distintas.

Assim que a ruiva desceu as escadas para o corredor um rapaz de pele azulada e grandes olhos completamente negros, surgiu sacudindo as mãos no ar falando em sua língua nativa.

Olá, Gharthy . Qual o problema?

As silabas surgiam rápidas e anasaladas intercaladas com estalidos de dentro dos orifícios frontais da face do alienígena que possuía dois pares de narinas

Claro, pode deixar assim que entregarmos as encomendas falo para o capitão que precisamos comprar os mantimentos. Ok?

O humanoide sorriu com seus lábios finos e fez uma reverência falando algo que poderia facilmente ser identificado como um complexo “obrigado”.

A jovem seguiu seu curso até o andar inferior da nave onde todos se arrumavam no compartimento de cargas.

Belo pouso, Sarah. – comprimento de modo sorridente um jovem recém-ingresso na tripulação, estava ali a menos de três microciclos, mas sempre mostrou certo interesse por ela e as coisas que fazia.

Ela sorriu em resposta enquanto mexia no cabelo.

Obrigado, Nate.

Ele acenou com a cabeça enquanto terminava de colocar o traje hermético.

Sarah se dirigiu ao seu armário e começou a trocar de roupa juntamente com os demais. Retirou o macacão laranja de mecânico que estava usando e ficou apenas com sua mini blusa cinza e um shorts exageradamente curto e emborrachado na parte externa que normalmente as mulheres usavam como peça intima. Pelo espelho do armário ela pode ver Nate cuidando as curvas do seu corpo. Ela não se importou, ela gostava do modo que ele olhava ela. Na verdade se perguntava quando ele pararia de só olhar.

A seguir colocou seu traje, sem o uso dele mesmo que a temperatura estivesse aceitável seria muito arriscado andar em meio às chuvas tóxicas da Velha Terra, assim como ficar muito tempo sem a máscara de oxigênio. A atmosfera do planeta humano era rica em CO2 o que tornava a vida terrestre outrora abundante agora impossível. Todos respiravam com máscaras nas áreas abertas, já não existia nenhum traço de vegetação sobre a superfície desolada do planeta, assim como os oceanos que agora não passavam de nada além de mais um monte de lixo e ácido radioativo. O planeta se tornou uma única grande cidade constituída apenas por imensas fábricas e faveladas industriais cobrindo toda a superfície não aquática do mundo. Não haviam países apenas corporações onde as pessoas que as serviam fossem humanos ou aliens não eram nada além de mais um produto da companhia.

Quer ajuda? – a voz de Nate surgiu logo atrás de Sarah.

Ela se virou instantaneamente.

Como?

Ele já estava devidamente equipado.

Com a sua máscara… – ele apontou sorridente – quer ajuda pra colocar?

Ah sim, claro.

Ela se virou enquanto ele a ajudou a colocar a pequena mochila de filtros e cilindros nas costas e prender os tubos de respiração nela.

Pronta?

Sarah olhou por sobre o ombro, toda a parte frontal da máscara era feita de vidro deixando o rosto bem a mostra. Ela sorriu e fez positivo com a mão.

Nate ligou o compressor que pressurizou a roupa e a máscara liberando oxigênio e estabilizando o uniforme dela, um pequeno reator se ativou no lado esquerdo do peitoral da roupa emitindo uma luz azulada que recobriu o uniforme dela e o vidro da máscara deixando uma luminosidade baixa, quase imperceptível.

escudos ativados” ressoou uma voz dentro do traje dela.

Um dos humanos, um homem negro e alto se aproximou de Sarah.

Ai está! A nossa nova piloto! – ela sorriu e abraçou.

Olá Thane! Obrigada. – ela ficou séria – Já recebeu notícias do seu irmão?

Não, nada ainda… não desde que os X’henosgra’al destruíram as defesas de Khaidenar VI no sistema Obalarion.

Não podemos perder as esperanças, seu irmão é um excelente soldado.

Eu sei, só que…

Atenção todos! – gritou o capitão.

O silêncio se fez no andar de cargas.

Essas câmaras de criogenia que estávamos transportando são da era pré-guerra e como sabem, valem milhões de créditos no mercado negro. Vamos descer elas envoltas nesses plásticos protetores negros e levar até a zona interna do hangar onde o comprador está nos aguardando. Não fiquem despreparados, preparem as armas.

Um coro de armamentos de várias épocas e raças sendo engatilhadas e carregadas tomou o ar. Thane preparou a sub-metralhadora de Gauss, enquanto Sarah carregou o rifle de plasma.

Diana, drene o oxigênio da sala. – sentenciou o Capitão.

positivo, drenando oxigenio”

Os exaustores trabalharam apressadamente sugando todo o ar que existia dentro do lugar até que não restasse mais nada.

Abrir rampa de descarga.

positivo, abrindo rampa”

A rampa desceu, todos foram sacudidos quando a atmosfera invadiu o local.

Estamos prontos, vamos descer – disse o Capitão a olhando firmemente para a tripulação.

O Capitão tomou a frente, logo os demais homens da tripulação pegaram as capsulas que estavam pré-alocadas em macas de sustentação antigravidade e as deslizaram pra fora.

A chuva caia com força encobrindo o solo por alguns centímetros de resíduos tóxicos.

As turbinas estão ligadas ainda… – resmungou Nate.

Sim, caso precisemos fazer uma partida emergencial. – explicou Sarah prontamente. Ela não pode deixar de observar a inquietação no rosto dele, ele sempre estava sorrindo, mas agora parecia nervoso.

Isso não vai gastar energia a toa?

Relaxa, Nate…

Eles avançaram até a metade da doca, quando as portas de metal grandes o suficiente para comportarem a passagem de um cruzador começaram a se afastar.

Esperem! – ordenou Thane – Capitão?

Tudo bem, Thane. Vamos seguir em frente e… – a voz dele falhou.

Cerca de cinquenta homens armados surgiram devidamente equipados dentre as portas, e logo um alien veio até a frente. Diferente de todos os demais ele não estava de máscara ou roupa de proteção, usava apenas uma armadura leve e um sobretudo negro que reluzia com a chuva tóxica que caia sobre ele.

Capitão, Vauller… o maior contrabandista do sistema Terráqueo.

Kenevar… – repugnância transbordou na voz do capitão da Banshee ao pronunciar o nome do alien.

O ser seguiu se aproximando lentamente, com os demais homens armados. Sua pele era cinza e escamosa, e em alguns pontos a musculatura de sua face ficava a mostra em tons de um vermelho escuro, e sua cabeça mais alongada para trás terminava em seis tentáculos.

O capitão olhou rapidamente para os demais homens de sua tripulação.

Algum problema, meu antigo capitão? – a criatura alienígena esboçou um sorriso.

Fogo! – gritou Vauller para os subordinados.

Prontamente eles responderam a ordem, disparando incessantemente contra os inimigos a frente. Alguns dos soldados caíram sem reação no chão enquanto os outros corriam para se abrigar e retribuir fogo a tripulação de contrabandistas.

Kenevar se jogou para o lado rolando agilmente e correndo mais rápido que qualquer humano até se achegar a uma barricada.

O que estão esperando seus imbecis matem todos eles!

Projeteis incandescentes e feixes de lazer cortavam o ar em ambas as direções, e homens dos dois lados caiam rapidamente. Principalmente da tripulação que corria de volta a nave sem cobertura e tentando não perder a carga.

O alien sacou uma granada e a lançou com força atingindo o centro da formação dos membros da Banshee que fugiam.

Granada sônica! – gritou Jhácony segundos antes do artefato explodir o partindo ao meio matando mais 10 tripulantes. Nate caiu no chão junto com Sarah e o Capitão. O jovem rapidamente se levantou e correu da direção de Vauller.

Estou ok, garoto, ajude a Sarah!

Nate apontou a arma para a cabeça dele.

Lembranças de Kenevar.

Três disparos surgiram da arma de laser atravessando a cabeça de Vauller, que caiu.

Tio! – o grito de Sarah foi abafado pelo tiroteio.

Nate apontou a arma para ela, mas antes de disparar teve o corpo trespassado por inúmeros projeteis.

Thane corria na direção da menina em meio ao fogo cruzado.

Sarah rastejou se levantando em seguida correndo até o corpo de seu tio pegando seu comunicador.

Dianna, inimigo a 9 horas, abrir fogo!

positivo, inimigo encontrado”

Os canhões da nave giraram na direção dos inimigos.

disparar”

O canhão duplo iniciou os disparos contra os homens de Kenevar, enquanto Thane alcançava a garota.

Venha, vamos!

A carga, os outros!

Dane-se a carga! Vamos embora!

Todos que estavam em condições de correr entraram na nave, alguns ainda se arrastavam feridos pelo chão implorando ajuda.

Não podemos fazer nada por eles Sarah, já estão mortos tire a nave daqui agora! – gritou Thane enquanto disparava com outros atiradores se escondendo na rampa de carga.

A jovem correu até a cabine e iniciou a decolagem.

Diana, concentre o fogo neles enquanto eu decolo!

afirmativo”

Kenevar estava escondido atrás da barricada atirando esparsamente contra a nave assim como seus homens quando percebeu a potência das turbinas aumentando.

Malditos, eles vão decolar! Ganadhor exploda essa maldita nave logo.

Um dos soldados puxou uma grande arma de dois canos e aponto pra nave, mas antes de disparar foi alvejado pelo canhão dela.

Uma violenta explosão atingiu os soldados.

Vamos lá…. – Sarah decolou, guinando a nave para fora da doca, e fechando o compartimento de carga simultaneamente. Mergulhando numa descida e subindo rapidamente se afastando dali.

Kenevar saiu de trás da barricada e andou até Nate, que ainda agonizava no chão.

Você fez, garoto?

sim senhor…

O alien se abaixou e pegou um controle da cintura do rapaz.

Muito bom, seus serviços já não são necessários. – ele sinalizou para um dos soldados que prontamente executou-o com um tiro na cabeça.

Ele andou até a beira da plataforma onde ao longe podia ver a Banshee se afastando.

Bem-vindos a Velha Terra…

Ele levantou o controle e apertou o botão vermelho.

alerta, artefato hostil a bordo”

O que? – Sarah olhou para o painel.

categoria, explosivo”

Não… – disse ela incrédula.

Um clarão seguido de um forte estrondo tomou as cercanias do hangar, Kenevar observou a carcaça em chamas da Banshee mergulhar em um prédio.

Dianna! – gritou Sarah em desespero enquanto a neve era envolvida em fogo.

O alienígena sorriu vendo a grande explosão.

Peguem todos as crio-câmaras e o armamento que encontrarem e levem para nossa nave o mais rápido possível vamos partir. Os compradores estão ansiosos por esses artefatos.

Eles iniciaram a retirada ocupados de mais para perceber a pequena esfera cinza preza em uma das câmaras

Ao longe um alguém observava tudo de cima de um prédio com um binoculo holográfico.

Capitão as crio-câmaras não estão mais no alvo primário… – ele fez uma pausa – Sim, coloquei um rastreador acredito que roubá-las será muito interessante.

***

Dentro da Bashee as chamas se espalhavam quando Thane apareceu ensanguentado na cabine.

Vamos garota! – disse ele chegando os sinais vitais de Sarah.

Ela abriu os olhos aturdida com o impacto.

Okay, piloto… temos que sair daqui.

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