Um conto de Thommas Bradley [Parte I]: Velho Amigo

Capa thom

Por Gabi Waleska.

Se havia uma coisa que Tom odiava eram as viagens “em família”. Com bastante ênfase na palavra família, já que visitar parentes na companhia de sua irmã, sendo levados e literalmente largados naquelas cidades no meio do nada por sua tia, não era o que se define por viajar em família. Não era por causa de sua incompreensível irmã gêmea, que preferia se afundar em livros e passeios solitários a socializar, completamente o oposto de si. Não a culpava, acreditava que sua mente estava sempre em outro estado de espírito, que não o terreno. Tampouco era por causa de sua afável, porém assoberbada tia, que os acompanhava, já que eram menores de idade até a casa dos parentes mais distantes e em seguida ia embora, para somente voltar para acompanhá-los no retorno.

O que ele odiava de verdade eram as mensagens de seu glorioso pai “encontro vocês lá!“, ou “vou ter que adiar por dois dias“, chegando no último dia de sua estadia, só para levá-los na viagem de volta, ou sequer chegando, com uma breve ligação do tipo “marcaram uma conferência de última hora” e só dando as caras semanas depois. Por causa disto, também, Tom odiava ser chamado de Thommas, como seu pai, e rebelara-se desde os seus 14 anos a ficar em casa ouvindo conjecturas idiotas sobre seu pai ser ocupado e o quanto se pareciam com ele, com os mesmos olhos verdes e cabelo escuro.

Por este motivo havia saído esta noite. Nos dois últimos verões crescera o suficiente para aparentar ter 18 anos, ao contrário da irmã que era bem menor e aparentava 15 anos. Muitas pessoas acreditavam que ele já estava na faculdade, apesar de ter apenas 16. Isto somado ao estilo que ele sua irmã adotaram, roupas escuras e sóbrias, e a aparência séria e fechada que herdaram de seu pai, não havia quem o impedisse de comprar uma boa bebida ou sair com algumas garotas.

Agora estava muito confortável em um pub tranquilo que encontrara no centro da cidade, ao lado de uma garota interessante que conhecera ali mesmo. Candice, que devia ter uns 17 anos, havia terminado a escola e esperava ser chamada para alguma universidade que ele não prestara atenção no nome. Como de costume, estava interrogando seus conhecimentos de rock e blues, porque o conhecimento sobe música era, para ele, um dos mais importantes requisitos, depois da aparência e da inteligência.

Ele era um verdadeiro conquistador. Sempre tinha uma moça bonita ao seu lado, ou na sua cama. Desde os 14 anos aprendera a ganhar a garota que queria, mas não ficava com qualquer uma. Gostava das que se podia conversar, além de só ficar. Candice parecia ser adorável, não muito esperta, mas muito simpática, e conhecia algumas bandas legais. Por isto, a viagem e a noite não pareciam totalmente perdidas. Isto até…

– Thommas Bradley! – Tom virou-se ao ouvir a voz e soltou um palavrão baixo quando viu o rapaz alto e louro atravessando o hall do pub em sua direção.

– Só pode ser piada – resmungou, tentando não mostrar a Candice seu incômodo. Virou-se volta para Candice, tentando fingir que não o conhecia.

– Há quanto tempo, cara! – exclamou o outro, já alcançando-o, com um sorriso que Tom julgou ser presunçoso, e piscando para Candice. Isto reviveu a raiva antiga. Tom sempre fora popular nas escolas, tinha o dom de fazer amizade e se misturar rapidamente, com humor e boa conversa e, ao contrário de sua irmã, era facilmente aceito entre os grupos – isso aparentou haver um abismo entre suas idades, apesar de gêmeos -. Só houve uma única vez que tivera problemas, quando morou em Nova York, onde havia seu único rival na escola, Christian. E era ele que se aproximava agora, dois anos depois, no local mais improvável.

Lembrou-se de quando Christian tentava roubar-lhe as namoradas, tendo alguns sucessos. Foi quando Tom começou a frequentar academias, já que Christian tirava vantagem de seu porte de jogador para conquistá-las. A disputa era tal, que competiam nas festas até pela quantidade de bebida ingerida, – algo bem idiota, pelo que Tom lembrava agora, já que a ressaca o derrubava por um dia inteiro, quando era mais jovem.

– Tempo insuficiente, eu diria – Tom respondeu amargamente.

– Ora Thommas, vamos lá! Se anime com este reencontro! – Christian lançou o braço direito sobre seu ombro, em um abraço lateral, exibindo uma força exagerada, o que fez tom revirar os olhos.

– Não tenho porque me animar, se nem meu nome você fala certo. – falou, a voz monótona. – Vá embora, estou ocupado. – Concluiu, percebendo que sua companheira estava admirando abobalhada o rosto do rapaz.

– Seu nome é Thommas. – Constatou Christian, agora se divertindo em chateá-lo.

– E qualquer idiota sabe que é para me chamar de Tom. E não repetirei. – Disse agora ríspido e voltou-se para a moça – Vamos conversar na minha casa, Candice? – concluiu, levantando-se da banqueta. Ela suspirou e levantou-se também.

– Está fugindo? – Christian provocou.

Os ombros de Tom estavam tensos sob o casaco. Ele realmente queria ignorar o outro, mas a vontade diminuía a cada instante. Era incrível como um único ser humano, além de seus parentes, conseguia tirá-lo da sua paz apenas por estar no mesmo ambiente. Mas pelo bem de sua noite, guiou Candice para fora do bar, tomando uma refrescante lufada de ar gelado, indicando que a neve cairia em poucas horas. Sentiu a cabeça esfriar, e só então percebeu que ela não parecia nem um pouco animada.

– Olha, quer que eu te deixe em casa? – Ela assentiu timidamente. A caminhada foi curtíssima e silenciosa.

– Desculpe-me por isso, estou cansada. – Ela disse, ao chegar na varanda de sua casa simples. Tom deu de ombros e voltou pela mesma rua mal iluminada, as mãos no bolso, chutando a neve que caíra de manhã. Estava sem vontade de namorar, nem se dera ao trabalho de tentar convencê-la a ir com ele.

O Canadá estava mexendo demais com sua cabeça. Precisava beber, mas parecia que todos os bares estavam fechando cedo, por causa do fraco movimento em conta do frio. Expirando exasperado, tornou a passar pelo pub que estivera meia hora mais cedo. Aparentemente todos que não tiveram sucesso nos outros locais se reuniram ali, o lugar estava mais cheio, com várias vozes e música soando pelas janelas. Entrou rezando que Christian já tivesse saído.

Logo estava em sua terceira dose, mais animado, conversando com duas garotas. Já iniciara uma dança com uma delas quando percebeu Christian, com um drink na mão, sentado à parte. Levantou o copo à Tom em brinde e tomou de vez. Mas Tom estava animado demais para lhe dar o benefício da provocação e continuou dançando e beijando a garota. Percebendo o espírito relaxado e livre do outro, Christian se aproximou e puxou a outra moça solitária para dançar animadamente.

O clima descontraído da festa era ótimo, cada um com uma garota na pista de dança, sem disputas, e o álcool surtindo seus efeitos, logo fez com que as tensões antigas se dissipassem e algumas músicas depois, os quatro estavam sentados juntos, curtindo a noite como velhos amigos. Conversando animados, Tom viu que Christian amadurecera e eram quase iguais, no porte, no gosto por garotas, bebidas e música.

– Cara, eu realmente não queria te provocar mais cedo – Christian falou quando as garotas foram ao toilete – Só queria me desculpar pelo que eu fazia em NY.

– Ah, cara, – Tom abanou o ar – Esqueça isso, eu me deixei levar pelo estresse da viagem. Afinal, já fazem dois anos! Nós crescemos…

– Hahahahaha – Christian riu – Crescemos tanto que ninguém pede nossos documentos para beber! – E riram juntos.

– O que faz por aqui, neste fim de mundo? – Tom pergunta, depois de um gole na Gim Tônica.

– Meus pais têm uma casa aqui e viemos visitar meus avós para as Festas, sabe como é?

– É, – Tom resmunga – Sei… Minha família está espalhada por aí e sempre faço essas viagens. – Conclui com um riso sarcástico.

– Ah, pelo menos conseguimos uma bela noitada, com belas garotas – Christian fala mais com a volta das moças, arrancando risinhos. – Vamos brindar! – Diz com seu copo na mão – À amizade, à maravilhosas garotas – beija a sua acompanhante que senta em seu colo – e às férias de inverno!

Todos repetem o brinde, bebendo e aproveitando a noite até o bar fechar.

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Continua.

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