A Lua do Caçador {parte 2}

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         Lucinda abriu as cortinas um pouco mais tarde naquela manhã. A luz iluminou a bacia de ferro, refletindo nos olhos castanhos de Una. Ela virou o rosto por instinto e suspirou, exausta, após descansar apenas duas horas em uma bergère desconfortável. O pano úmido sobre o criado-mudo pingava uma água avermelhada próxima aos seus pés descalços, ainda sujos de areia. Sua pele cheirava a suor e fumaça da arena; um lembrete de sua péssima luta.

         Afastara-se do marido apenas uma vez durante a noite, para trocar a roupa masculina por um robe. Passara as horas seguintes cuidando dos cortes no torso pálido de Theodore, enquanto ele alternava entre gemidos de dor e inconsciência. A tensão cedeu à medida que Una verificava a profundidade das feridas. Tivera piores em uma de suas últimas lutas com um autômato.

         — Tem certeza de que não precisamos chamar um médico, senhora? — Una negou com cabeça e se levantou para ajeitar a coberta de Theodore.

         Ela afastou uma mecha de cabelo do rosto do marido. As cicatrizes antigas eram como ravinas em sua face esquerda, cujo trajeto desviara por pouco ao redor do olho. A aparência incomum deixara de chamar a atenção de Una logo na primeira semana de casamento. Embora não fossem discretas, vira marcas mais grosseiras em seus vinte e cinco anos, especialmente nos circos dos horrores que visitara na Inglaterra. Isso não a impedia, é claro, de imaginar quem as criara, sem coragem para perguntar.

         — Ele deixou bem claro, antes de desmaiar, que não desejava ser atendido por um médico. Talvez mamãe possa ajudar. — Una se apressou em direção à porta. — Pedirei ao Sr. Amaro que me leve até a casa dela. Não se preocupe em esquentar a água para meu banho. A da banheira servirá. — Ela olhou o marido mais uma vez, preocupada. — Tome conta dele.

         O espartilho comprimindo suas costelas se tornou ainda mais incômodo ao se sentar na caleche. Chegou a sentir falta do pinicar das roupas masculinas, surrupiada de um dos seus empregados. Amava seus vestidos, o luxo dos brocados e a silhueta moldada pelo corset, mas, naquele instante, desejava apenas conforto. Não se importaria em usar algo mais subversivo caso não precisasse esconder sua outra realidade. Aos olhos da sociedade, comportava-se como a boa esposa de um dos herdeiros da grande companhia Aethera; a maior quando o assunto era aeróstatos.

         Apesar do tempo nublado, Una abriu a sombrinha e tentou apreciar o trajeto até o Aqueduto da Carioca, ao contrário de seu cocheiro, cuja máscara respiratória tapava metade do rosto. O local havia perdido parte de seu ar nababesco com as reformas ordenadas pelo presidente da província. A elite foi substituída por pobres, vadios e meretrizes. O casario pomposo virou sede de prostíbulos e imitações decadentes da Taverna das Libélulas.

         A oficina de dona Jacinã ficava ao lado de uma casa de jogatina. Una insistira diversas vezes para a mãe se mudar do lugar, mas entendia os motivos dela em permanecer. A polícia não se aventurava por ali, não só pelo risco maior de contaminação pela influenza. Os responsáveis pelo entretenimento da área possuíam conchavos fortes para proteger sua fonte de renda. Com isso, os moradores não precisavam se preocupar com as atividades dúbias, contanto que não afetassem diretamente as pessoas de fora do seu mundinho boêmio.

         — A senhora quer que eu espere aqui? — perguntou o Sr. Amaro, parando em frente à oficina.

         — Dê uma volta pelo Passeio Público e esteja de volta em vinte minutos, sim? — Una viu sua mãe poucos metros à frente, ao lado de uma carroça repleta de sucata.

         Os pés afundaram na terra úmida e Una precisou recuar quando o cocheiro se afastou com a caleche, para a lama não manchar o vestido mais do que já tinha manchado. A discussão entre sua mãe e o adeleiro envolvia o preço de uma perna mecânica e mais algumas quinquilharias. Pelo semblante carrancudo do velho carroceiro ao receber as moedas, a senhora havia saído com a vantagem.

         — Ajude-me a carregar isso. — Jacinã se virou de repente na direção da filha, entregando-lhe uma bolsa grande de palha entulhada com as aquisições recentes. — Agora conseguirei terminar de consertar aquele autômato enferrujado e dar um jeito no gato.

         — Mamãe, preciso de ajuda. — Ela carregou a bolsa sem dificuldade até a oficina, largando-a sobre uma das mesas menos tumultuadas. — Na verdade, Theodore precisa.

         Jacinã não respondeu, mais interessada em procurar algo em sua mesa de trabalho. Os fios pretos do cabelo colavam em sua testa suada. Ela andava de um lado ao outro na oficina abafada, recolhendo ferramentas e peças de metal.

         — O gato precisa de umas mudanças — murmurou, secando as mãos na saia humilde de algodão. — O que disse?

         — Theodore. — Una estreitou os olhos ao ver um gato mecânico sair debaixo de uma das mesas e se aproximar a passos incertos. — Deu-me um susto ao chegar de viagem coberto com ferimentos. Acabou por desmaiar na entrada de casa.

         — Ora, isso não me parece muito bom. — A mulher parou por um instante, de costas para a filha, e então se abaixou para pegar o gato. — Acho que a peça não lhe servirá, Etê. Pobrezinho. Talvez seja hora de libertá-lo, não acha? — O bicho soltou um gemido metálico, remexendo-se no colo da dona. — Tudo bem, tudo bem. Verei o que posso fazer.

         Una suspirou e se aproximou da mesa de trabalho. Conseguir a atenção de Jacinã em um instante como aquele era uma tarefa quase impossível. Aprendera isso ao longo dos anos. A oficina funcionava como fonte de renda há duas décadas, pertencendo primeiro ao seu falecido marido. Os serviços se tornaram mais numerosos após assumir o comando, graças ao seu talento com as máquinas. A paixão pelo ofício, por outro lado, não foi absorvida pela filha. Una havia crescido cercada por engrenagens desde o dia em que fora encontrada perto da fonte dos amores, no Passeio Público; uma recém-nascida entregue ao relento.

         — Isso não irá demorar. — Ela sorriu para a filha antes de erguer o gato à altura de seus olhos escuros.

         Una assentiu, observando com atenção enquanto a mãe sussurrava algumas palavras em tupi. A boca do felino se abriu com um rangido incômodo e Jacinã copiou o movimento, aproximando os lábios do dele. Ela sugou o ar com delicadeza até uma fumaça esbranquiçada deslizar do autômato até sua boca. Quando terminou, deixou-o sobre a mesa — prendendo a respiração — e pegou um pote de barro, transferindo a matéria vaporosa para ele e o tapando.

         — Pegue os meus… — Antes de terminar o pedido, a filha lhe entregou a máscara de solda e as luvas. — Obrigada. Agora se afaste. Não quero que se machuque

         Quando as faíscas começaram, Una já estava entretida com um zootropo. Costumava ajudar sua mãe na oficina durante a infância e aprendera uma coisa ou outra para não acabar a atrapalhando. Preferia contribuir com seus pequenos furtos e trapaças pela província. Em um dia de sorte, conseguia o suficiente para as sustentar por um mês. Jacinã nunca perguntou de onde o dinheiro vinha. Os únicos conselhos dados foram: nunca apanhe de quem precisa mais ou tanto quanto nós e não seja pega.

         — Os cortes são fundos? — As chamas do maçarico se extinguiram.

         — Não muito. Tenho certeza de que seus cataplasmas serão o suficiente. — A mulher respirou fundo, olhando de soslaio para a filha. — Ele não quis ver um médico e… — Una parou ao vê-la erguer a mão, silenciando-a.

         Jacinã entreabriu o pote de barro e sugou a fumaça mais uma vez. Una vira a mãe realizar algo parecido apenas duas vezes. Embora não tivesse entendido com clareza a primeira vez, algo lhe foi muito claro: tratava-se de um segredo de ambas e mais ninguém. A manipulação da quintessência era um mito para uns, heresia para outros. Para as duas, algo a ser utilizado com muito cuidado e nunca em humanos.

         O autômato voltou a se mexer ao reabitar a alma do gato e Jacinã o colocou no chão, sorrindo para a filha.

         — Pronto. Agora veremos o que posso fazer por Theodore.

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