Sob Olhos Sombrios Pt. 1

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Por: Natasha Morgan

Num suave roçar do vento, ela desapareceu.

Ernest

Ela desceu do avião um tanto assustada. Não esperava uma viagem repentina como aquela. Não esperava ter que deixar os campos verdejantes do interior e se arriscar até New York debaixo de uma chuva cinzenta. Não logo após a morte de sua amada mãe.

Mas ela também não esperava ser confrontada com uma notícia como aquela.

Seu pai.

Alguém misterioso de quem sua mãe nunca falava, privando-a da figura que ela idealizara durante todos aqueles anos. A expressão sombria no rosto da mãe era o suficiente para amargar seus dias toda vez que ousava mencionar a ausência da figura paterna.

E agora estava ali, diante dele.

Um respeitável militar, pai de família, marido afetuoso e cidadão de bem.

Fora o que ouvira falar nas revistas e jornais mais respeitáveis. Sim, ela havia pesquisado antes de se lançar nessa empreitada.

Antes de concordar com o advogado que se apresentou diante dela, naquele hospital decrépito, aconselhando-a de que seria uma boa ideia se mudar sob a tutela de seu pai. Ele a queria. Desejava um recomeço com a filha que jamais soubera existir.

Foi o que o advogado dissera.

Fitando o homem corpulento a sua frente, as roupas formais, a postura rija e o rosto recém barbeado, ela não tinha certeza de quem era ele. Ou os motivos que o levaram a aceita-la em sua casa logo após descobrir sua existência.

Ela se aproximou, incerta e assustada.

O homem a fitava esperançoso. Os olhos escuros estavam vermelhos, como se houvesse chorado na véspera. E a tensão era bastante visível em sua postura e gestos. Ele não exibiu um sorriso, como ela esperava. Mas segurou seus ombros com firmeza, tentando lhe passar confiança e afeto.

– Ernest, não é? – a voz dele era grossa.

Ela assentiu.

– Minha mãe gostava de filmes estrangeiros. – ela se obrigou a explicar diante do olhar confuso dele.

Era comum que as pessoas demonstrassem confusão ou estranheza diante de suas peculiaridades.

O homem assentiu devagar.

– Pobre Serafine. Sinto por sua perda.

Ernest engoliu as lágrimas que ameaçaram irromper.

A mulher que o acompanhava, ela supunha que fosse a esposa, fitou-a com curiosidade. Os olhos amendoados eram amistosos e exibiam uma sabedoria antiga.

– Terá tempo para o luto, Pequena. – disse a mulher em sua voz suave. – Fico feliz em finalmente conhece-la.

Ernest a agradeceu, um tanto acanhada. Não se sentia confortável quando as pessoas faziam algo por ela ou demonstravam afeto. Não que não estivesse acostumada. Serafine sempre fora muito carinhosa. Ela é que tinha dificuldade em acreditar na bondade das pessoas.

E agora fitando aquela mulher estonteante, com os ombros delgados e negros, o terno Armani, o cabelo elegantemente ajeitado e as unhas bem feitas, não tinha ideia do que ela faria naquela família sofisticada.

Ela, uma garota mirrada de dezessete anos, cabelos escorridos e escuros, calça jeans desbotada, camiseta branca e All Star. De onde teria saído a ideia absurda daquele homem respeitável com uma família maravilhosa e elegante convidar a filha bastarda para viver junto a eles?

Mas o olhar dele não trazia reprimendas ao encarar suas roupas e a mochila surrada que carregava. Seu olhar era apenas curioso. Como se desejasse desvendar os segredos por trás daqueles olhos escuros.

– Eu sinto muito mesmo por sua mãe. – ele disse novamente. – Por… Tudo.

Ernest assentiu, incapaz de dizer alguma coisa.

– Espero que possamos resgatar o tempo perdido.

Ernest assentiu, embora detestasse quando as pessoas começavam daquele jeito. Em sua experiência com erros humanos, nada de bom advinha de quem desejava recuperar o tempo perdido. Porque geralmente essas pessoas só despejavam mais erros em sua segunda chance.

Mas olhando para aqueles olhos sinceros, ela decidiu que valeria a pena dar uma chance ao pai que nunca teve.

Não tinha muita escolha afinal. Sua mãe deixara a casa para ela e alguns bens substanciais. Mas como era menor de idade precisava de um adulto para acolhê-la em sua juventude.

Sorte a dela que a cavalaria chegara antes de um abrigo horrendo.

A voz da esposa elegante cortou a linha de seus pensamentos.

– Num momento como esse é maravilhoso que Ernest tenha o apoio de uma família.

O homem, seu pai, sorriu.

– Você vai se dar bem com a Joy. Tenho certeza de que ela vai lhe ajudar no que for preciso neste momento e em qualquer outro que possa vir a precisar.

Ernest sabia que Joy era psicóloga. Havia lido sobre a carreira promissora da elegante mulher. E olhando bem para a madrasta podia ver os traços observadores e compreensivos que traziam os terapeutas.

– Nada nos deixaria mais feliz do que acolhe-la em nossa família.

Mas o olhar sombrio do pai não demonstrava toda essa alegria.

– Peço que me perdoe, Ernest. – Mark disse e sua voz transbordou sinceridade – Na verdade sua chegada veio num momento extremamente conturbado em minha vida. Perdão se não lhe pareço um pai feliz e receptivo com a chegada de uma filha que eu sequer tinha ciência sobre a existência. Mas a dor… A dor da perda me consome.

– A dor da perda consome a todos nós. – Joy aparentava pesar. – Mas a sua chegada foi uma salvação e esperança. Tenha a certeza de que será bem acolhida e amada no seio dessa família.

Eles estavam falando de Robin.

Foi o que Ernest pensou imediatamente.

Quando aquela estranha carta chegou naquela noite brumosa em que sua mãe agonizava no leito do hospital, contando sobre o misterioso pai da menina, Ernest pesquisou sobre Mark Turnner. Um leque inteiro se abriu sobre o militar e sua família exemplar. Joy, a esposa e brilhante psicóloga, e Robin, a filha recém formada em Antropologia.

Agora Ernest encarava a ambos com o rosto intrigado.

– A vida lhe deu uma nova chance. Seja gentil e aproveite. – ela ouviu Joy sussurrar no ouvido do marido. E então ambos a levaram de lá.

No trajeto do aeroporto até a residência da família Turnner, enquanto olhava pela janela do Audi prata, ela ficou sabendo da tragédia que assombrava aquela família.

Robin havia desaparecido.
Havia saído para se encontrar com uma amiga no Starbucks na noite anterior e não voltou para casa. Um comportamento estranho para uma garota que enalteciam por ser responsável, querida e amada.

– Ela levou um pedaço de nós quando desapareceu. – Joy havia dito.

Ernest sabia que Robin não era filha de Joy, mas notou um grande carinho por parte da madrasta.

A polícia havia sido acionada. As autoridades estavam fazendo tudo o que podiam. E Mark lutava contra a ânsia de abandonar tudo para ir pessoalmente liderar a busca por sua filha.

– Você foi a razão por ele voltar a sanidade. – Joy disse. – Quando Theodors, o advogado, nos ligou ontem a noite informando que encontrara uma filha perdida de Mark, Robin havia acabado de ser dada como desaparecida. Você foi um anjo que apareceu em nossas vidas conturbadas.

Ernest olhou para o pai, a expressão conturbada e a dor cintilando nos olhos. Acreditou no que Joy dizia. Não devia haver dor maior para um pai do que perder a filha.
Ela tentou não sofrer pela meia irmã desaparecida. Mas era impossível não sustentar o pesar diante da ausência de alguém que poderia ser muito para você.

Sempre quis uma irmã. E de certo precisava de uma agora.

Mas ela havia desaparecido.

E o destino, satiricamente, a colocou lá para assumir seu lugar na família Turnner.

Sob o olhar curioso e triste do pai e a expectativa presente na madrasta, ela se sentiu desconfortável. Como se a qualquer momento pudesse decepcioná-los. E não era isso que ela fazia com maestria, decepcionava as pessoas?

Mas eles pareciam tão cegos diante de sua pequena falha.

A casa da família Turnner não era uma mansão, como se via nos filmes: Uma jovem e órfã garotinha abrigada por uma família rica que morava numa mansão assombrada. Mas os Turnner não eram uma família rica e não moravam numa mansão assombrada. Eles eram a sua família e a casa onde viviam era apenas grande, estilo colonial.

Ela se viu cercada por um jardim verdejante onde plantaram lindos girassóis.

Joy sussurrou em seu ouvido que ela mesma cuidava das flores. Havia um certo orgulho em sua voz e seus olhos brilhavam quando olhava o jardim.

Eles a acolheram com amabilidade, todos muito prestativos. Até mesmo Mark que se mostrara um tanto distante, oferecendo-lhe um ou dois olhares curiosos ao longo do dia. Ele parecia nervoso, segurando aquele celular o tempo todo. Como se esperasse uma ligação dizendo que sua filha preciosa havia sido encontrada.

Joy foi gentil em lhe apresentar a casa, seus passos ecoando no linóleo antigo enquanto apontava as salas de visita, a cozinha excessivamente grande onde se gabara que adorava cozinhar, os lavabos espalhados ao longo do corredor, a varanda que se abria para a piscina e os quartos.

Eram quatro, no total.

A suíte do casal. Elegante, uma cama de dossel e colchas amarelas. Um quarto com a porta entreaberta onde se ouvia o som de um baixo tocando. Na porta elegante de madeira havia uma placa pendurada de Não Incomode.

– Você verá que meu filho pouco aparece em nossos jantares. – Joy disse com certo ressentimento.

– Seu filho? – Ernest parecia surpresa.

– Tive um filho na juventude. Antes de me casar com seu pai. Mark foi muito gentil em me ajudar a cria-lo. Receio que não leu isso em suas pesquisas.

Ernest corou.

Joy sorriu.

– Não se preocupe. Entendo perfeitamente a curiosidade e preocupação de uma jovem que foi privada por muito tempo da presença do pai. É natural querer conhecê-lo.

Ela prosseguiu pelo corredor.

O próximo quarto ostentava a porta fechada e era palpável a densidade da energia que emanava de suas paredes.

– O quarto de Robin. – disse Joy num suspiro lamentoso. – Da forma que deixou ontem à noite.

– Tem certeza de que ela desapareceu? É cedo demais para constatar desaparecida.

Joy balançou a cabeça.

– Se conhecesse Robin saberia que ela jamais passaria a noite fora sem avisar.

Ernest deve ter esboçado uma expressão triste porque Joy sorriu amavelmente.

– Você teria gostado de conhecê-la. Quase tanto quanto ela gostaria de te conhecer.

Ernest não soube dizer por que, mas percebeu algo estranho no tom da mulher. Sua voz sedosa acariciou com humor a frase um tanto triste.

Elas se encararam por um breve momento.

– Venha, vou lhe mostrar seu quarto. – Joy guiou a menina pelo final do corredor. – Terá que ficar com o quarto de hóspedes. É simples. Mas com o tempo pode decorá-lo como desejar.

Ela abriu a porta.

Cama de solteiro, um guarda-roupa embutido, paredes lisas.

Simples.

Mas de certa forma, adorável.

Ernest não ligaria de dormir no sofá. Desde que houvesse um lugar em que pudesse dormir. Desde que sua mãe falecera de tuberculose naquele leito mofado de hospital ela se perguntara para onde iria. Sempre fora somente ela e a mãe. Sozinhas num mundo grande demais.

Agradeceria a Deus naquela noite pela misericórdia de enviar aquela carta às suas mãos. Agradeceria à Ele pela coragem que esboçara ao ligar para o número do advogado indicado naquelas letras datilografadas que manchavam o papel pardo.

Quem quer que fosse a alma bondosa que lhe mandara aquela carta, seria abençoado até o fim de seus dias.

Joy lhe deixou a vontade, avisando que o jantar era as 20h00min. Seu rastro deixou o aroma de amêndoas que se mesclou com o suave lilás do quarto.

Ernest se jogou na cama, fechou os olhos e se permitiu relaxar.

Em poucos minutos arrumou suas poucas roupas no guarda-roupa, tomou um banho e desceu. A porta fechada do quarto de Robin a amedrontou quando passou pelo corredor, mas ela decidiu ignorar. Seus passos hesitantes a levaram pela casa, explorando em silencio seu novo lar. Não queria aborrecer Joy em seu escritório, nem Mark na clara discussão que tinha ao telefone. Preferiu se sentar no balanço da varanda, olhando as águas turvas e cristalinas da piscina.

Alguém nadava nas sombras da noite.

A figura esbelta dando braçadas na água num vai e vem quase atlético.

Ernest o observou em silêncio, escondida sob as árvores farfalhantes.

O garoto era adorável. Tinha a pele negra como a da mãe, os músculos rígidos flexionando-se conforme nadava. Os cabelos eram raspados, rente ao crânio e a fisionomia de seu rosto deixava explícita a beleza.

Ele deu umas trinta voltas na piscina até se cansar.

Ergueu-se pela borda de pedra, espirrando água e chacoalhando a cabeça, como se enxugasse o cabelo.

Enrolou-se numa toalha felpuda e se aproximou de onde a intrusa se escondia.

Seus olhos eram de um amendoado extraordinário e ela se lembraria para sempre de como eles costumavam brilhar a luz do sol.

Ele sorriu ao ver que ela o espionava e embora seu sorriso também fosse lindo, não era amistoso. Trazia um escárnio malicioso.

– Aquela Que Todos Esperavam – a voz dele era ressonante.

– Eu sou Ernest. – ela se apresentou, um tanto incerta.

– Que tipo de nome é Ernest?

– Francês.

– Então sua mãe tem bom gosto. Diferente da minha que resolveu caçoar de mim desde o momento em que me expeliu pela vagina.

Ernest tentou não demonstrar o desconforto com a agressividade na voz dele.

Ele a observou em silêncio por algum tempo, avaliando o rosto dela e as roupas que usava. O sorriso em seus lábios se curvou acentuadamente.

– Todos esperavam por você, Ernest. Mas ao contrário do que pensa, não vai se sentir confortável nesta família. Acredite, foi por isso que Robin se foi.

– Racoon. – a voz de Joy os atingiu, um tanto preocupada.

– Meu nome é Ron! – ele dirigiu a hostilidade para a mãe.

Joy pareceu desconfortável, como se aquela antipatia não fosse comum.

– Não seja grosseiro.

– Claro, claro. – o sorriso dele foi carregado de ironia. – Serei como Robin e quando as nuvens cobrirem o céu, desaparecerei.

– Isso não tem graça. – a voz de Joy assumiu uma tonalidade ríspida. – Vá se vestir. O jantar está sendo servido e todos o esperam na mesa, como uma família.

– Para entreter a novata, eu suponho. Não seja tola, mãe, ela não é a nova Robin, prometendo redenção a todos vocês.

Racoon deu as costas a todos e desapareceu pelo corredor.
Joy parecia chateada, mas não deixou o ressentimento toldar seus olhos.

Ofereceu um pequeno sorriso a Ernest.

– Sinto muito por Racoon. Ele não é sempre assim. Ficou chateado com o desaparecimento de Robin. Todos nós estamos.

– Acho que ele não gostou muito de mim. – Ernest observou.

– Não se preocupe. Racoon se acostumará à sua presença nessa casa. Como se acostumou com Robin.

Ernest descobriria que a presença naquela família era cercada de semblantes sérios e silenciosos. Os olhares esperançosos de Mark a fitaram no jantar e jamais a abandonaram. Joy estava sempre observando o marido e relanceando aqueles olhos amendoados para a enteada, o sorriso gentil fixo naqueles lábios escuros.

Pareciam gratos por sua presença.

E inquestionavelmente gentis.

Uma pena que estivessem tão errados.

Continua!

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