Desire

Escrito por Naiane Nara

Luis foi puxado do mais profundo sono até a realidade. Era assim que se sentia quando o despertador tocava todas as manhãs. “Manhãs”, resmungava odiando essa palavra tão suave, pois acordava de madrugada, quando o Sol ainda não tinha nascido. Era necessário para poder pegar todas as conduções e chegar a tempo no trabalho desgastante.

Levantou rapidamente, foi até a cozinha e procurou algo para comer no armário. Esquecera de comprar pão e o vale refeição ainda não havia caído. Improvisou um omelete, que comeu correndo e foi direto ao banheiro, tomando banho e escovando os dentes simultaneamente, a fim de economizar tempo e água.

Se vestiu com a primeira camiseta que encontrou, repetindo a calça do dia anterior, e do dia anterior a esse. Havia muito tinha perdido o gosto em se arrumar para ir trabalhar, então acreditava que estava bom demais não ir quase nu, como algumas colegas mulheres. Seu senso de moda não importava, assim como sua opinião, desde que estivesse presente.

Andou rapidamente até o ponto de ônibus, que se localizava a cerca de cem metros de sua casa. Pelo menos nisso tivera sorte ao alugar o local. O ônibus logo passou, e com um suspiro desanimado, subiu e ficou em uma fila de pessoas para passar a catraca, já que ” sentar” era um eufemismo. Nem se lembrava do última vez que tinha conseguido ir sentado.

A viagem foi massacrante, como sempre. Lotada e desconfortável, pior ainda era o momento em que, quarenta minutos depois, havia a descida na estação de trem. As pessoas se acotovelavam para sair, em completo desespero, na esperança de que saindo mais rápido conseguiriam um bom lugar no trem. Ele por sua vez, nem se animava. Sabia que era lotado demais para sonhar, e queria evitar ser pisoteado de manhã, então esperava todo mundo sair para fazer o mesmo.

Entrou na estação. Sempre enquanto aguardava o trem, sonhava com o que faria com o dinheiro caso ganhasse algum jogo de loteria. Escolhia mentalmente o carro, a casa, as coisas que daria aos pais. Quando ficava quase alegre, o trem passava e a sensação de dissipava.

O trem passou e ele mais uma vez, deixou os desesperados entrarem na frente, a fim de evitar quedas. Quando entrou, estava ainda mais lotado do que o normal. Tentou se acomodar no canto perto da porta e escutar alguma música no celular trincado, mas um dos fones estava sem funcionar, e o outro estava com um chiado que impedia a compreensão de qualquer coisa. Desistiu e tentou se concentrar na saída das pessoas a cada estação, para não ser arrastado junto pela pequena multidão que se deslocava a cada saída. Uma hora depois, desceu também e saiu andando por cerca de quinze minutos até o local em que trabalhava.

Ele sabia que tinha que ser grato por ter um emprego em uma época tão difícil, mas odiava aquele lugar com todas as suas forças. A empresa pagava o limite do aceitável, que era muito pouco, cobrava metas excessivamente, de forma constrangedora; e o supervisor se comprazia em humilhar seus subordinados publicamente.

Ás vezes tentava procurar outro emprego, mas sabia que a situação se repetiria, em maior ou menor grau. As coisas dificilmente mudam, empresas querem resultados, ambiente bom para funcionários vem bem depois. E depois dos resultados, quase todos esquecem de verificar quem fez, como se sente, o que pode ser feito para melhorar.

– Se ganhasse em um jogo de loteria… Qualquer um, saberia o que fazer.

Disse isso sem perceber que fora em voz alta. Podia criar algo diferente, um ambiente que estimulasse o crescimento…

Parou em frente ao prédio, interrompendo seus pensamentos. Suspirou, tomando coragem. Precisava disso. Sua maior fonte de paz, que eram as contas pagas e geladeira cheia, precisavam se alimentar desse seu inferno particular.

Entrou.

O dia foi pior do que o comum, com clientes mais estúpidos que o culpavam pelos erros da empresa, que aconteciam com cada vez mais frequência. Em vários momentos os olhos se encheram de lágrimas. Tentou repetir as mesmas palavras de desculpas diversas vezes por erros que não tinham sido seus, mas na maioria das vezes só recebia mais xingamentos antes da ligação ser cortada. Seu supervisor escolhera aquele mesmo dia para cobrar resultados publicamente, gritando e expondo a ele e seus colegas a todo momento.

Isso atingiu o limite, alguma coisa dentro de si se quebrou. Precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa, ou surtaria.

Ao sair do prédio da empresa, no caminho em que andava de volta à estação, ficou parado algum tempo olhando o céu estrelado. Havia pouco movimento na rua, mas teve que parar e olhar.

Estava lindo, estonteante, perfeito. Sem perceber, acabou sussurrando:

– Ei, você, Deus que não conheço. Sei que não nos falamos muito… Será que poderia olhar por mim? – Respirou fundo, envergonhado. – Se eu arriscar o pouco dinheiro que tenho num jogo de loteria, você poderia me ajudar?

Tudo continuou em silêncio, embora as estrelas tenham ficado mais brilhantes. “Não sei por quê pensei que funcionaria.” Pensou ele com amargura. Continuou olhando o céu por mais um momento, para gravar aquela beleza na memória, mas sabia que não podia demorar, ou o risco de ser assaltado era grande. Ao se voltar para a rua, deu de cara com um homem de branco a menos de meio metro dele, como se estivesse esperando pela sua atenção.

“Ferrou, agora vou ser assaltado mesmo…”

O homem sorriu com tristeza. Tinha a pele morena queimada de Sol, o nariz largo e achatado, os lábios grossos. Vestia branco, uma roupa antiga… Os cabelos pretos e curtos eram uma indecisão entre crespo e encaracolado. Uma coroa… De espinhos… Ao redor da testa. Luis ficou sem ar de assombro ao perceber quem era, mas não conseguiu se ajoelhar. Não podia ser Jesus, aquele homem tão escuro, de traços tão comuns…

O homem de branco disse, com uma voz maravilhosa e brilho no olhar:

– O que me pedes é ridiculamente fácil. Porém, preciso fazer uma pergunta antes. Sua resposta vai decidir se te concederei o que pediu ou não.

Luis ficou assombrado. Era mesmo Jesus! E ele nem ao menos se ajoelhou, apenas por ele ser diferente da imagem que passaram!

Engoliu em seco, sem dizer nada.

O homem prosseguiu: – Tomarei seu silêncio por assentimento. Farei a pergunta.

Luis nem respirava, em expectativa.

– Seja sincero, alguma vez, – tornou o homem – você tentou jogar?

Luis caiu ao chão, sem sentir as pernas, fraco e chorando como uma criança. Não, nunca havia jogado na loteria, mas sempre quis ganhar. Assim como nunca havia tentado nada diferente, mas queria resultados diferentes…

Chorou e chorou. O homem o pegou gentilmente pelos ombros e o levantou.

– Agora vá, e faça acontecer.

Luis sorriu e o toque cálido daquela mão com um ferimento cicatrizado, estaria para sempre em sua mente, assim como a imagem Dele desvanecendo em… Pó de estrelas.

Fim…

Será?

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