A Irmandade Dos Bruxos Modernos (Pt. 16) – Perdidos na mata

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Capítulo 16 – Perdidos na mata

Escrito Por: Alfredo Dobia

No dia seguinte, eles já estavam a caminho do deserto. Fazia horas que seus olhos só vislumbravam montanhas e arbusto. As estradas que passavam eram quase desérticas — não havia muito alvoroço de carros como haviam visto em Luanda.

Na verdade quando eles chegaram em Luanda, se atreveram a pensar que aquela cidade era igual a Nova York. Pelo menos concernente a correria. Tal como Nova York, Luanda é uma cidade altamente frenética. O número de pessoas entrando e saindo dela era incrivelmente surpreendente.

— Vocês viram isso? — perguntou Lúcia, maravilhada,  enquanto olhava para o vidro traseiro do carro.

A diversidade de animais que eles viam era fascinante, muitos deles só eram vistos nos documentários de televisão.

— Aquilo era uma seja — disse Chris.

— Uma quê?

— Uma seja — repetiu. — Eles são animais raros de se encontrar, e muitas das vezes servem de alimento para as pessoas destas regiões.

— Quantas coisas raras existem em África? — disse Valter de modo brincalhão.

Eles riram.

— Como você sabe tudo isso? — Lúcia quis saber.

— Não dá para viajar de um continente para o outro sem conhecer um pouco de suas culturas e seus hábitos alimentares.

Ela abriu um curto sorrio encantador.

Valter se virou para Sasha e disse:

— Ah, falando em alimento… Que coisa era aquela delícia que comemos ontem?

— Acho que você está falando do Mufete.

— É, acho que é isso mesmo. Eu amei. Olha, quando voltarmos pra Nova York eu vou querer que tu faças um prato só pra mim — ele olhou de relance para o Chris. — E um pouco pro ele também.

Eles riram, abanando a cabeça.

Apesar de algumas vezes agir como um idiota, Valter era divertido e descontraído. Ele sabia muito bem como fazer as pessoas rir, e isso era só um terço do seu charme.

Logo depois o carro fez um deslize, dificultando a concentração do Sr. Roger, e acabou batendo abruptamente em uma árvore enorme. A batida foi tão forte que originou um apagão do Sr. Roger. Ele desmaiou de seguida.

Sasha envolveu a mão directa no pescoço do seu tio, verificando se ele suas veias ainda latejavam.

— O que foi isso? — perguntou Lúcia, preocupadamente. — Ele está vivo?

— Sim, está. Só desmaiou. Ele bateu muito forte com a cabeça no vidro ao lado. Acho que algo bateu na gente.

Eles estavam, confusos e assustados, sem saber o que havia acontecido de concreto. Até olharem para os vidros e ver penumbras de asas batendo em movimentos lentos.

— O que é isso agora? — Sasha disse com a voz temerosa de quem não ia gostar de descobrir.

Ao tentar sair do carro, Valter Anderson é travado por um par de asas negras gigantesca e uma plumagem incrivelmente cheia. Lúcia e Sasha entraram em pânico ao perceber que estavam sendo atacados por corvos — mas não eram corvos comuns, eram corvos gigantes.

— Porquê você não nos disse que em África tem corvos gigantes? — murmurou Lúcia, espavorida.

— Porque do pouco tempo que cá vive, não me lembro de ter visto ou ouvido falar de uma coisa dessas.

Com seus bicos compridos e destrutivos, os corvos começaram a perfurar o teto do carro de forma violenta. Queriam invadir o carro e devorar todo ser que estivesse respirando dentro do veículo, e aquilo causava arrepio total no corpo de todos eles.

— Provavelmente a gente deve estar muito perto do deserto. Esses corvos não apareceram por acaso. Cyrius deve ter descobrido o nosso plano, por isso mandou essas criaturas atrás da gente — explicou Chris.

— Ele pode fazer isso? — Lúcia quis saber.

— Sim, ele pode — Valter respondeu. — Mas nós levamos vantagem em uma coisa.

— E que coisa é essa? — perguntou Sasha.

— Acontece que essa planta afasta toda magia negra de perto dela, e magia negra é o tipo de magia que Cyrius pratica. Por isso ele mandou esses corvos, para evitar sua destruição rústica.

— Mas apesar disso, ele ainda pode nos atacar — acrescentou Chris. — Com seu poder de controlo mental, ele pode fazer que esses corvos estraçalhem nossos corpos até não houver mais carne.

— Nossa, como você é optimista — ironizou Sasha.

Eles sabiam que a entrada assassina dos corvos era só uma questão de minutos caso não fizessem alguma coisa.

— A gente tem que sair daqui — sentenciou Valter. — É perigoso de mais ficarmos aqui dentro.

Chris assentiu com a cabeça em concordância.

— Temos de fazer alguma coisa, antes que esses corvos devorem a gente. Temos de enfrenta-los. Você, Sasha e Lúcia peguem no Sr. Roger. Eu vos dou cobertura.

— O quê? — Lúcia disse, num tom de quem não gostou muito do plano. — Não Chris, você não vai enfrentar esses

— Esqueceste que eu sou um bruxo? Sei me cuidar muito bem. Além disso, já enfrentei coisas muito piores.

— Não duvido disso. Mas mesmo assim eu fico com você.

Chris arqueou as sobrancelhas

— Não, você não pode arriscar sua vida assim dessa maneira.

— Ah, e você pode? Não seja machista Chris. Olha, estamos juntos nessa e ninguém precisa de morrer por ninguém hoje.

— Mas…

— Será que vocês podem fazer o favor de calarem as vossas bocas e terminar essa vossa novela numa outra hora? — murmurou Valter, ligeiramente irritado. — Estamos prestes a ser devorados droga. Será que só eu vejo isso. Agora percebo porque você gosta dela. Ela é tão teimosa e determinada quanto você. Mas você tem que dar um tempo C        ris. Ela está com o arco e você sabe que ela dá-lhe bem com isso.

Chris assentiu em concordância, percebendo que estava sendo um idiota e que nada do que ele dissesse iria fazer Lúcia mudar de ideia.

— Ok, então. No três a malta sai.

Respirou fundo e começou a contar.

— 1, 2…

No três, ele contraiu toda sua força na perna directa, apertando forte no banco. Todavia, Chris chutou a porta de forma bruta. A porta saiu do lugar e voou pra longe. A seguir suas mãos brilharam na formação de um escudo. O mesmo que ele usara semanas atrás no ataque do Crady. Logo depois, com a Ajuda da Sasha, Valter colocou Sr. Roger nos ombros, enquanto Lúcia lançava suas flechas em direcção aos corvos que sobrevoavam a poucos metros de suas cabeças.

O chão enchia-se de penas negras danificadas.

Sua pontaria era certeira, ela não falhava nenhuma mira, mesmo não usando o manto da concentração. Uma das flechas acertou o peito de um dos corvos e travou em algum órgão da criatura voadora.

O corvo guinchou dolorosamente. Não resistiu a dor e caiu no chão, causando um tremor dos horrores. Provavelmente a flecha havia acertado alguma entranha do animal.

Reparando que seus oponentes eram muitos e não paravam de atacar, Chris abaixou-se, pousando sua mão firme e grossa sobre a terra. Pronunciou algumas palavras — e a terra começou desabrochando plantas vivas. Plantas que cresciam muito rapidamente prendiam as asas e pernas de alguns corvos, impedindo-os de se moverem. Mas seu contra-ataque não teve muita durabilidade. Ele ficou completamente de boquiaberta ao ver os corvos ateado fogo nas suas plantas vivas.

— Como pode! — disse, perplexo.

Depois de o Valter ter colocado Sr. Roger no chão aos cuidados da Sasha, ele percebeu que tinha de fazer alguma coisa. Percebeu que seu irmão e a Lúcia não iriam conseguir derrubar todos aqueles corvos sozinhos. Dessa forma, ele pronunciou algumas palavras e segundos depois, sacou suas facas escondidas e lançou-as para o ar. Sorriu, de modo vitorioso, como se não acreditasse muito que aquilo fosse funcionar, mas estava acontecendo mesmo. As facas flutuavam no ar de modo estático. Era como se ele tivesse desligado a gravidade do objecto.

Aquilo era altamente impressionante, mas ele não tinha tempo para se gabar como de costume, pelo menos até se certificar que eles não morreriam nas garras dos corvos gigantes.

Num movimento dos seus braços, as facas circulavam nos ares, entrando e saindo nos corpos dos corvos. Sangue muito pegajoso era libertado dos corpos feridos dos animais voadores e saltavam em seus rostos.

— O meu Deus, que nojo! — disse Lúcia, angustiada, quando uma bola de sangue dos corvos caiu sobre sua blusa.

A luz que Chris produziam campo em comportamento de escudo, que protegia Sasha e seu tio foi enfraquecendo até se apagar por completo, permitindo um dos corvos voar até Sasha de forma destrutiva. O corvo atacou ela violentamente, com uma de suas asas grossas. A batida foi forte de mais. O corpo frágil da Sasha não ofereceu resistência e foi abruptamente arremessado para o carro — e um dos vidros acabou se quebrando e sua blusa ficou presa em alguma coisa. Ela lutou para se soltar, mas foi inútil.

— Sasha!!! — Gritou Lúcia, pousando seu arco no chão para verificar a amiga.

Por sorte a morena não havia fracturado nenhum osso com o impacto bruto que seu corpo havia sido exposto.

— Calma Sasha, vai ficar tudo bem, a gente vai tirar você daqui.

Sasha estava apavorada com tudo aquilo. Ver o chão sujo de sangue , ver os corvos guinchando de dor pelas facadas do Valter e outros ainda faminto voando a poucos centímetros de suas cabeças, era de mais pra sua mente processar. Aquilo era completamente insano. Provavelmente se alguém a contasse sobre isso sem ela ter vivido, ela já mais acreditaria.

Mas aquilo estava longe de ser o fim. O pavor voltou a invadir ainda mais seu coração ao ver a cabeça de um dos corvos rolando no chão enquanto seu corpo ainda se mexia. Ela fechou os olhos, fingindo absurdamente que aquilo não estava acontecendo. Desejando muito que aquilo fosse apenas um sonho, um sonho muito ruim que acabaria assim que ela abrisse os olhos.

— Chris — Chamou Valter, enquanto um dos corvos voava rápido em sua direcção.

Chris olhou firme pra ele, apercebendo-se logo do que o irmão estava pensando. Aquilo era uma de suas melhores qualidades. Eles lutavam sempre em sintonia, sabiam exactamente o que fazer quando o outro precisasse de uma mãozinha.

Valter posicionou-se em formação de ataque e esperou o embate com o gigantesco corvo. Chris sacou suas facas escondidas e arremessou-as para ele. Valter agarrou as facas com precisão e apertou-as firme. O corvo estava prestes a enfiar seu bico assassino no peito do jovem, mas o mesmo desviou-se habilmente e saltou por cima dela. Valter levantou os braços e as facas em sua mão transformaram-se em duas poderosas lâminas, com tamanho suficiente para cortejar pedaços por pedaço de cada corvo maldito que os atacasse. Mas ao invés disso, ele preferiu apenas afundar as lâminas nas asas da criatura. Seu ataque foi executado com tanta mestria, que acabou por separar as asas do corvo, desmembrando-as completamente em um perfeito acto de chacina.

O animal acabou por cair, jorrando sangue no lugar das asas como um chafariz.

Lúcia porém, foi abruptamente atacada por um outro corvo que cravou suas garras nos ombros dela e levantou vou de seguida.

— Socorro! — gritou ela, implorando por ajuda, enquanto era levada pelo animal voador.

Os Anderson se viram para ela e inconformados com a ideia de perdê-la nas garras dos corvos malditos. Chris abriu a garagem do carro e dela tirou a corda de reboque. Segurando firme, ele girou uma das pontas para ganhar velocidade e a altura suficiente que pretendia, logo a seguir, lançou para o alto em direcção ao corvo que tentava levar Lúcia para longe. A corda circundou uma das pernas do corvo e se amarrou nela magicamente.

O corvo fez alguns movimentos bruscos para livrar-se da corda. Seus movimentos arrastaram Chris até a cabeça separada do corpo de um outro corvo, fazendo-o soltar a corda. Mas Chris é um Anderson e os Anderson não desistem fácil. Notando que o corvo ganhava altitude ele acenou pro irmão, que rapidamente percebeu a ideia.

Valter uniu suas mãos e contraindo toda sua força nela, aguardou pelo irmão que vinha correndo cautelosamente. Chris saltou, pisando as mãos unidas do irmão e Valter lançou-o para o alto, permitindo que ele alcançasse a corda novamente.

O Corvo voava com dificuldade até desaparecer do campo de visão do Valter e a Sasha. Duas pessoas eram demais para a fera.

Lúcia morria de medo e não percebia que já não estava mais onde o acidente ocorrera. O corvo perdia o norte enfraquecidamente, e acabou por solta-la no meio de uma mata sem aterrar primeiro. Mais ela ao cair, Chris largou a corda e ainda no ar abraçou-a cuidadosamente e segundos depois pronunciou algumas palavras e uma das plantas da mata liberou uma de suas folhas grossas e resistentes, o que fez com que Chris e Lúcia caíssem sobre ela, sãs e salvos.

— Você está bem? — indagou Chris.

— Sim, estou — Lúcia respondeu, ofegante.

Seus olhos revistaram a mata por alguns segundos, percebendo que não estavam mais perto dos seus amigos.

— É impressão minha ou estamos perdidos?

— Parece que nós estamos perdidos nessa mata. Mas não se preocupe, iremos sair daqui logo, logo — Chris respondeu de modo a amenizar a preocupação dela, mas ele não fazia ideia nenhuma do lugar onde estavam metidos.

— Oh droga, a Sasha — Lúcia disse, clareando a memória e lembrando da situação perturbadora em que sua amiga se encontrava.

— Ei, ei calma. Ela está com o Valter. Ele vai protege-la. Meu irmão não permitira que nada de mal aconteça com ela nem com seu tio. Nisso eu dou a minha palavra.

— Como vocês confiam tanto um no outro?

— Eu só tenho a ele e ele só tem a mim. Se não confiarmos um no outro, em quem mais vamos confiar?

Lúcia abriu um sorriso curto pra ele.

— Parece que vocês levam mesmo essa coisa de protecção bem a sério. Quer dizer, você quase morreu só pra me salvar.

— Não foi nada. É a minha missão.

Os olhos castanhos-claros dela se entristeceram ao ouvir aquilo. Ela deduziu que Chris havia se dado aquele todo trabalho simplesmente pela sua maldita missão. Lúcia poderia jurar que não era só aquilo, mas o jovem bruxo a confundia. Era sério de mais, misterioso de mais, e não se deixava levar facilmente pelos sentimentos.

— Ahm, a missão, eu percebo — disse, num tom quase inaudível. — Me diz que tens um plano pra sairmos dessa mata. Já está quase escurecendo e vai que aparece esses corvos de novo. Ou ainda pior, vai que aparece um leão e eu estou sem o arco.

Chris riu em zombaria.

— Leão. Sério isso?

— O que foi? Porque tanto espanto. Estamos preso em uma mata na África. Tudo é possível. Você não vê Nacional Geográfico não? Ou não existe tv no mundo dos bruxos?

Chris abanou a cabeça, ainda rindo.

— A gente dá um jeito — disse.

CONTINUA…

OBS: PT. Português de Portugal.

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