Déjà vu

Deja vu

Escrito por: Lua Morgana

Baseado em uma história real, nomes e locais não revelados para preservar a vítima.

*

Desde muito nova sempre fui sedenta por liberdade… terminei meus estudos e antes dos 20 já estava morando só. Era bem perto dos meus pais, por me sentir segura, mas era longe o bastante para me fazer sentir livre. Não tinha ido para a faculdade ainda, porém era um sonho não muito distante. Arrumei um emprego que me sustentava e ainda sobrava para me dar uns luxos, tipo um carro que consegui comprar. Era antigo, mas dava pro gasto.

Aos poucos consegui mobiliar minha casa, com a ajuda de meus pais, que não posso deixar de mencioná-los e minha tão amada irmã mais velha, Rachel. Estava vivendo um sonho de liberdade até que um dia me senti tão presa, tão imóvel e insegura dentro da minha própria pele, o dia em que vi ele pela primeira vez.

Era um dia comum, rotineiro, acabei de chegar do trabalho e liguei a tv para ver as notícias diárias, a previsão do tempo e etc. Deparei-me com uma matéria falando de um serial killer local, me deu um arrepio assim que ouvi falar o nome da minha cidade e que a última vítima morreu em um bairro não tão distante do meu. A insegurança bateu a primeira vez ali. Fiquei triste pela morte de uma jovem, me imaginei naquela situação… logo desliguei a TV e falei pra mim mesma ir fazer o que deveria fazer e ir descansar, sem ficar pensando muito no assunto.

Tomei um banho, jantei algo rápido e fui deitar para descansar e voltar a rotina no dia seguinte. Sabe quando você fecha os olhos e sente que tem alguém te observando? Abri os olhos e reparei que a janela do quarto estava aberta e o vento soprava forte – foi isso – pensei comigo mesma, não tem ninguém aqui. O coração ainda estava disparado e o bolo na garganta estava presente, porém falei pra mim mesma que não era nada, era só coisa da minha cabeça, porque fiquei impressionada com a matéria que vi no jornal.

O dia seguinte foi normal, mesma coisa de sempre, trabalhei e vivi como se nunca tivesse pensado naquela hipótese de ser uma possível próxima vítima do assassino. Cheguei até a comentar com umas amigas do trabalho sobre o caso e elas ficaram compadecidas pela morte da jovem, porém, logo mudamos de assunto e planejamos uma saída depois do turno de amanhã, já que era sexta-feira.

Cheguei em casa mais uma vez e já estava fazendo planos mentalmente para nossa sexta das meninas, fui à caixa de correio do prédio ver se tinha alguma carta, já era no começo da noite, quando fica aquela penumbra, estava tentando abrir minha caixa e sinto um arrepio, como se tivesse alguém me observando, olhei pra trás e vi um homem bem longe, olhando fixamente pra mim. Não dava pra ver a fisionomia por causa da distância, mas eu senti que ele estava com os olhos em mim e minha única reação foi de sair dali e nem olhar mais se tinha carta ou não.

Fui para meu apartamento e liguei para minha irmã, que prontamente veio me socorrer e ficar comigo aquela noite. Ela tentou me acalmar, me disse que eu era facilmente impressionável e que não deveria ver mais esses noticiários sensacionalistas, senti-me mais calma e acreditei que era somente coincidência ou algum louco aleatório. Tentei encaixar na minha cabeça a palavra “COINCIDÊNCIA”, mas estava difícil de acreditar, minha paranoia começou a me afetar físicamente.

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Minha irmã acabou mudando a rotina dela e mudou-se para minha casa, praticamente, durante 2 meses. Ela era daquele tipo de irmã coruja, que fica cuidando de você mesmo depois de adulta, me sentia super protegida com ela lá e a sensação de perseguição simplesmente passou, não vi mais ninguém rondando minha casa e não senti mais aquele calafrio de ser observada durante a noite.

Uma certa noite de sexta-feira, eu estava me sentindo bastante confiante e segura para retomar minha rotina sozinha e também fiquei com pena da minha irmã dormindo na minha casa, numa cama de solteiro e largando a rotina dela por minha causa e das minhas paranóia. Pedi a ela para que voltasse para sua casa, que eu já estava melhor e ela precisava retomar seus afazeres, afinal, ela tinha 2 filhos – que estavam com o pai durante esse tempo, ela cuidava deles durante o dia e dormia comigo, na minha casa, morávamos relativamente perto uma da outra, por segurança.

Ela assentiu, aliviada e preocupada ao mesmo tempo, mas não discutiu, dava para ver que aquela rotina era desgastante para ela. Fiquei me sentindo culpada, de certa forma.

Aquele dia tinha sido ótimo, jamais, em toda minha existência, pude se quer imaginar que passaria por tudo o que passei naquelas horas, que pareciam uma eternidade.

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Cheguei em casa por volta das 19hrs da noite, pedi uma pizza, comi e assisti uma série aleatória na TV de comédia. Tomei um banho, me senti confiante e segura o suficiente para dormir sozinha depois de 2 meses. Deitei-me, pensei em coisas boas, rezei e liguei um radinho de pilha para ouvir música enquanto dormia, para não me sentir só. Enfim, peguei no sono.

Até que ouvi um barulho, pareciam passos… meu deus! Aquela sensação horrível dentro de mim havia voltado, meu coração parecia que ia sair pela boca de tão rápido que batia, demorou tanto para sumir e apareceu tão rápido, como se nunca tivesse ido embora.

Tentei fechar os olhos, orar e pensar que aquilo era fruto da minha imaginação, mas não era.

Abri os olhos e recebi um soco na minha face, que me fez gemer alto de dor, nunca senti tanta dor de cabeça na minha vida. Em seguida, alguém me agarrou pelos braços e me amarrou minhas mãos na cama. Eu queria gritar, mas não conseguia, tamanha a dor na minha face. Recebi mais socos e ele dizia para eu ficar quieta se não ia me matar. Fiquei paralisada, perguntei o que ele iria fazer comigo e ele apenas dizia para eu calar a boca. Calei.

Minhas roupas foram rasgadas e tiradas de mim com violência, fui violada sexualmente enquanto ele me disferia socos e tapas em todo o corpo, aquele momento parecia que nunca ia acabar. Por fim, ele pareceu satisfeito e chegou no ápice do seu prazer doentio e parou. Sentou e ficou me olhando.

Eu perguntei:

– Haverá o amanhã para mim? – mal conseguia falar tamanha a dor, só queria que tudo acabasse logo, seja como fosse.

Ele respondeu, depois de alguns minutos pensando.

– Sim… – Não havia emoção nenhuma na voz dele, só frieza.

O meu carrasco me soltou e simplesmente saiu da minha casa, pela porta da cozinha, que havia sido arrombada e sumiu no escuro. Fiquei paralisada durante alguns minutos e, do nada, uma corrente elétrica tomou conta do meu corpo e saí correndo para a casa da minha irmã e pedi ajuda, desesperada. Minha irmã chorou comigo e se culpou, ligamos para nossa mãe, que veio correndo e chorou com nós duas, elas sentiram minha dor.

Fomos para a delegacia, não tinha como eu fazer retrato falado, pois não vi o rosto dele, estava coberto por uma máscara preta. Mas, no exame do IML*, puderam coletar o DNA dele que ficou dentro de mim e compararam rapidamente com outros crime de estupro… e pasmem: era o mesmo DNA do assassino em série que estava atacando mulheres na minha cidade.

Eu tive sorte, de certa forma, de não ter morrido, porém, parte de mim morreu ali: toda minha inocência e fé na humanidade. Uma depressão profunda tomou conta de mim durante meses, parecia que eu ia sucumbir de tanta tristeza. Às vezes, me questionava, por que ele não me matou logo, por que me deixou sofrendo dessa maldita tristeza e vazio infinito?

Sofri durante bastante tempo, fiquei de luto por mim mesma, por tudo que foi arrancado de mim naquela noite. Fiz terapia, tomei remédios, não comia, não sonhava, não me sentia livre para seguir em frente.

Lutei com meus próprios demônios internamente por cada minuto passado, até que, aos poucos, fui me sentindo melhor a cada dia, me sentindo menos triste e menos presa aquele sentimento de querer morrer.

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Passaram-se 8 meses depois do ocorrido, arrumei um novo emprego, fui morar em outra casa e uma amiga minha me chamou para ir numa boate local para se divertir. Passou tanto tempo que eu nem sabia mais como me vestir para sair a noite! Umas amigas foram até minha casa, nos arrumamos juntas, rimos e partimos para a tal boate.

Estava pronta para viver de novo, mas não pronta para ter um namorado ou algo assim… não e não, precisava de mais tempo para poder voltar a pensar nisso, quem dirá praticar.

Chegando lá, fomos para a fila, a boate estava lotada. Principalmente de mulheres novas e bonitas. Estava quase chegando minha vez de passar pelo segurança e entrar quando, de repente, senti um calafrio igual da primeira vez, como se alguém mal estivesse me olhando… olhei para o segurança e senti aqueles olhos frios em mim. Não podia ser! Falei com minha amiga discretamente e ela assentiu, saímos dali e fomos direto para a delegacia, eu sabia que era ele, aquele olhar me assombrou durante muito tempo.

Cheguei lá e falei para o delegado que tinha certeza que era ele o assassino e estuprador. O delegado ficou um pouco desconfiado, mas no dia seguinte foi até a boate e pediu para todos os funcionários fizessem um teste de DNA para comparar com o do assassino, já que ele havia esgotado todas suas cotas de suspeitos, achou melhor não ignorar meu depoimento e sentimento.

Enfim… finalmente saíram os resultados e sim, era aquele segurança da boate o assassino em série e estuprador da nossa cidade.

Era daquela forma que ele escolhia suas vítimas: olhando-as na boate, decorando seus nomes e as perseguindo, até ter oportunidade de atacá-las e matá-las.

Tive sorte de sobreviver para poder olhar naqueles olhos e ter certeza que ele nunca mais faria nenhuma mulher sofrer igual me fez. Nenhuma outra vítima pôde sobreviver para contar história, mas por ironia do destino, eu sobrevivi e pude fazer justiça por todas nós.

Quando sua intuição te alertar, ouça, nunca deixe que te chamem de louca ou paranóica. Sempre tem alguém nos observando, para o mal ou para o bem. Aquela sensação de Déjà vü** sempre quer nos contar uma história.

FIM

*Instituto Médico Legal – É um instituto brasileiro responsável pelas necropsias e laudos cadavéricos para Polícias Científicas de um determinado Estado na área de Medicina Legal.

**Déjà vü- É quando nós vemos ou sentimos algo pela primeira vez e temos a sensação de já ter visto ou experimentado aquela sensação anteriormente. Diversas teorias errôneas, como intenção, vidas passadas ou visões sobrenaturais, surgiram para explicar o fenômeno.

Um comentário em “Déjà vu

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