Vampira da Augusta

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Escrito por Naiane Nara

 

A madrugada é cinza, dolorosa e fria, mas sei que ainda não é hora de amanhecer. A luz nunca vem tão facilmente quando precisamos dela. Antes… Oh, antes temos que enfrentar o mais profundo do abismo.

As ruas estão desertas, e minhas pernas, movidas a whisky e tequila após uma noitada e tanto na Augusta, se esgueirando sozinhas pela escuridão me levam a todo lugar e a lugar nenhum.

Sinto a cabeça e os ombros muito leves, a dor vem apenas do coração. Queria tanto encontrar alguém que pudesse me ouvir, me entender, olhar para mim com outros olhos expurgando assim toda a tristeza e sensação de inutilidade.

Paro por um momento, o peito arde e as pálpebras se fecham sozinhas para evitar outra torrente de lágrimas. Por quê quando estou ao redor das pessoas que deveriam se importar me sinto tão sozinho como estou aqui, andando pela Augusta, com seus trechos desertos e cheia de pessoas apressadas como as que passaram pela minha vida?

Ninguém vê, ninguém se importa… Por quê isso não acaba nunca?

O projeto pelo qual trabalhei metade da minha vida… Arruinado. O amor a quem me dediquei por anos… Deixado de lado pelo meu orgulho, minha arrogância. Familiares, amigos? Eles só aparecem quando tudo está bem, para colher os frutos do sucesso que não ajudaram a construir.

Com isso no pensamento, abro os olhos e recomeço a andar. Não é que eu queira receber tudo de graça da vida, tenho disposição e garra para lutar pelos meus sonhos. Só queria que as coisas não desmoronassem depois de tanto esforço com essa facilidade absurda, afogando a minha vida num mar de decepções.

Se eu fosse melhor, mais forte, mais bonito, mais talentoso, quem sabe?

– Quem sabe eu não seria tão descartável…

A última parte sai em voz alta, fazendo ecoar minha voz patética pelos prédios, becos e esquinas. A voz esganiçada de um perdedor, posso ouvir por cima de toda a balbúrdia e música. Um fracassado, tudo que jurei que jamais seria. Ah, mas algumas promessas são difíceis de serem cumpridas, não são?

Com os olhos semicerrados, prestes a se fechar para novamente impedir as lágrimas, vejo um reflexo de luz azul em uma esquina na quadra à minha frente. Estranho. Será que já adormeci em um canto qualquer, vencido pela bebida, e estou sonhando?

A luz azul aparece de novo, dessa vez se movendo com graça e velocidade entre as árvores e bancos de barzinhos na calçada. Parei extasiado: se é possível ter alucinações, que elas sejam sempre bonitas assim.

– Ei, luzinha bonita! Pare se for real, por favor!

A luz parou no canto mais escuro da rua, rindo deliciosa e discretamente. Só o reflexo pálido do azul era visível, reparei que nenhum dos transeuntes passava por lá, nem olhava naquela direção. Andei cautelosamente, com medo de chamar atenção caindo na sarjeta. Isso seria a minha cara, arruinar a noite anunciando à todos presentes naquele trecho da Augusta que sou um desastrado e um bêbado.

A luz azul ficou mais forte, à medida que andava em minha direção também. Onde a completa escuridão encontrou a luz, na semi obscuridade da madrugada, divisei uma mulher baixa, de vestido preto justo, decote generoso e botas. A boca vermelha entreaberta que ainda ria, deixava entrever dentes impressionantemente brancos. Seus cabelos, à altura dos ombros, eram pretos e ondulados; porém as duas mechas da franja grande na frente eram azuis.

Então era isso que eu vira.

Ela andou até mim de um jeito muito distinto, quase felino. A expressão do rosto era doce, mas alguma coisa naquele andar me fez sentir medo.

– Você está sozinho, numa noite perigosa e cheia de diversões…

A voz era maviosa e hipnótica. Não consegui responder mais do que um sussurro:

– Venho sempre aqui.

Ela jogou a cabeça para trás, inspirando o ar da noite e tornou:

– Eu adoro mais do que tudo esse lugar em São Paulo. Mistura bênção e maldição, diversão e demência, e o perigo? – sua voz se abaixou até quase um ronronar. – O perigo me traz surpresas muito agradáveis.

Ela sorriu novamente, mas de uma maneira diferente, quase um esgar. Minhas pernas parecem gelatina ao notar que seus dentes muito brancos são muito pontudos, como, como…

Ela ficou séria, com a expressão triste.

– Você precisa de amor, criança. Tudo que não tenho. Mas te levarei comigo. A eternidade é um tédio.

Com o coração disparado, não sei o que dizer ou fazer. Correr não adianta, sóbrio já sou desastrado, e algo nesse corpo pequeno e delicado me faz ter medo de sequer respirar.

Mas será que minha vida é tão preciosa assim para que eu a proteja? Se ela puder dar um fim a tudo isso, a toda essa dor, e me levar com ela pela eternidade… Será assim tão ruim deixar a humanidade para trás?

Dou só mais um passo em direção a ela, que terminou de encurtar a distância entre nós com velocidade sobre-humana, vindo diretamente ao meu pescoço, afundando seus dentes em mim.

A sensação é indescritível: uma volúpia e prazer tão intensos que só podiam ser os últimos da vida.

E realmente foram, pois logo deram lugar a uma dor excruciante à medida em que ia ficando mais fraco.

Ela terminou, com o rosto ensanguentado e uma só mão, me atirou a uma distância inacreditável.

Com mais dor do que já imaginei ser possível, vi um homem se esgueirar pelas sombras, negro e alto, de olhos dourados. Ele gargalhou como se aquilo fosse maravilhoso:

– Até quando vai enganar os pobres tolos fazendo-os pensar que vai transformá-los, Alicia?

Ela não ri de volta, sua língua serpenteia pelo rosto para usar todo meu sangue, ao mesmo tempo que a luz da Aurora começa a se mostrar timidamente.

Os cabelos pretos com mechas azuis caem, dando lugar a madeixas muito longas e muito louras, ela inspira o ar mais uma vez de uma maneira quase sensual, como se ansiasse a luz do Sol.

O homem a pega pelo braço:

– Nem pense nisso, vamos logo.

Então ouvi as vozes cada vez mais distantes, enquanto meus olhos fechavam para sempre:

– Vai pintar o cabelo todos os dias, mesmo sabendo que o Sol nascendo faz tudo ruir e mostra quem você é, como foi transformada?

– O que mais posso fazer? – Tornou ela. – A eternidade é um tédio.

O último rasgo de dor me levou para sempre com essas palavras.

 

Fim… Será?

Inspirado na música ” Vampira da Augusta” da banda 333, de Itaquaquecetuba SP.

 

 

 

 

 

 

 

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