A Lua do Caçador { parte I }

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        O suor cobria suas peles como uma membrana cintilante sob a meia-luz. Os homens gritavam xingamentos e palavras obscenas para as duas mulheres dentro do cercado de madeira, quase invadindo a área em um frenesi animalesco. Não havia como esperar menos do público cativo das lutas clandestinas. Nobres e pés-rapados não se preocupavam com as diferenças entre si, espalhados pelo porão abafado. O odor rançoso de urina e sangue não lhes causava asco. O perigo de contrair a gripe não os assustava. Apostavam quantias gordas ou as moedas para o almoço do dia seguinte, reunidos ali para se deleitar com a humilhação da raça considerada inferior à sua.

         Não era difícil encontrar lugares assim em toda a província do Rio de Janeiro. A Taverna das Libélulas, localizada nos arredores do Largo do Paço, era uma das mais antigas. Charles Leach, um libertino inglês, havia se tornado o dono do local após fugir da França para não morrer nas mãos de maridos traídos. Contudo não fora seu charme o responsável por atrair o interesse das mulheres necessitadas, e sim o prêmio pago às vencedoras dos torneios. A esperança de conseguir um patrono rico também era um grande atrativo; a chance de usufruir de uma vida confortável em vez da existência miserável era tentadora.

         Das participantes dos torneios, muitas não apreciavam a luta em si. A sensação de poder era um privilégio das raras afortunadas. Com tanto em jogo, concentravam-se apenas em vencer, ignorando a pouca roupa — às vezes nenhuma —, os abusos dos homens ao redor, os ferimentos e a ruidosa barriga vazia. Naquele instante, a gana em ganhar podia ser vista no olhar de apenas uma das adversárias, apesar da respiração pesada e a guarda frouxa frente ao cansaço. Na outra, apenas tédio disfarçado de concentração por trás da máscara de couro curtido.

         A Imperatriz de Éter não via a hora de acabar com aquela luta, para vestir algo mais confortável que a anágua de renda e o corpete. Por outro lado, não fazia questão de espezinhar sua oponente, a Donzela do Porto. Havia uma discrepância gritante no nível de ambas, incapaz de despertar a voracidade da lutadora experiente. Antes de sua rotina pessoal mudar, suas batalhas eram travadas com homens e autômatos, repletas de brutalidade e o sentimento de dever cumprido ao alcançar a vitória. Combates assim terminavam com hematomas da cabeça aos pés e lábios ou supercílios cortados. Sua vida pregressa permitia se safar com desculpas razoáveis para os machucados visíveis. Um luxo que não lhe pertencia mais.

         Ao contrário da mulher à sua frente, tivera a oportunidade de lapidar suas habilidades com ótimos instrutores. Possuía também a maldade das ruas; seu parque de diversões por anos. As demais competidoras entravam no espetáculo com uma fraca reprodução da performance masculina. Às vezes, com sorte, carregavam a força bruta do trabalho braçal para dentro da arena. Não era justo. Não há dignidade em ganhar assim, a Imperatriz desviou de um soco, sob as vaias do público. Outro soco, outra esquiva. A impaciência aumentava a cada segundo. A Donzela arrastava os pés na areia suja, acompanhando-a com o olhar embaçado pela exaustão.

         A Imperatriz afastou os cabelos pretos do rosto com o dorso da mão. Quase conseguia ouvir a respiração ofegante da mulher; os lábios entreabertos, peito subindo e descendo em um ritmo acelerado e olhos caídos. Mesmo compreendendo a desigualdade entre ambas, odiava perder. Demorara para ganhar notoriedade nesse submundo dominado por homens. Temia que não ganhar uma luta tão fácil simbolizaria o início de sua derrocada. Um sopro e a derrubo.

         À medida que os gritos do público se tornavam mais agressivos, a imagem da Donzela do Porto começou a desfocar para dar lugar aos semblantes enfurecidos dos homens ao redor. Naquela arena, sentiam-se como deuses sequiosos por sacrifício humano. Patéticos, Imperatriz umedeceu os lábios, provando o gosto salgado do suor. Quando tudo terminasse, voltariam para os cortiços ou sobrados. Suas vidas seguiriam incólumes enquanto as mulheres mal conseguiriam se levantar pela manhã sem gemer de dor. Uma dor que lhes valia apenas uma pataca.

         As duas voltaram a se encarar e, sem pensar muito em sua escolha, Imperatriz abaixou sua guarda como se vencida pela luta extenuante. Ela se aproximou da Donzela com cuidado, dando-lhe um momento para raciocinar. O tempo de resposta foi lento, mas chegou. O soco displicente passou a poucos centímetros de distância do queixo da Imperatriz, que acompanhou a trajetória com a cabeça como se o golpe tivesse sido forte o suficiente para deslocar sua mandíbula. Saliva e suor caíram nos homens mais próximos antes de ela desabar no chão. Uma mordiscada no lábio e o sangue escorreu. Cuspiu-o junto com a areia suja.

         A vitória da Donzela foi anunciada sob o clamor inconformado do público, inebriado pelas bebidas espirituosas. Os xingamentos à Imperatriz eram os piores. Tudo o que ela fez foi se levantar e sair da arena como se nada tivesse acontecido. Eles podiam esbravejar, mas em hipótese alguma podiam tocar nas mulheres. Ordens da casa.

         Ao passar por um ajuntamento, fechou-se para o mundo ao redor e pensou no conforto de sua cama.

         — Ah, mil perdões — pediu ao esbarrar em um senhor barrigudo, cujas pontas do bigode branco se voltavam para dentro. — Estou um pouco fragilizada graças à luta. — Uma mão no peito dele e o sorriso besta brotou para exibir os dentes amarelados do fumo. — Com sua licença.

         O velho balbuciou uma resposta, mas a Imperatriz já tinha se afastado, misturando-se à multidão. Em sua mão, o relógio de bolso recém-adquirido reluziu ao abri-lo. Atrasada, pensou, correndo até o camarim reservado às lutadoras. As vestes se encontravam no mesmo local em que as deixara. Ninguém ousaria furtá-la. Com a habilidade de quem estava acostumada com a situação, ela se vestiu com destreza — atrás de uma cortina carcomida por traças —, trocando a máscara pelos óculos de proteção. Blusa, calças e sapatos. Tudo masculino, coberto por um sobretudo preto emprestado assim como o relógio. Quanto menos chamasse atenção, melhor.

        Os postes de luz a gás a guiaram até onde estacionara a motocicleta, embora recorresse às sombras e ao nevoeiro para camuflar sua passagem. Meia-noite não era horário para uma moça de família perambular, acompanhada ou não. Também havia perigo na segurança. Ser parada pela polícia significaria dar explicações comprometedoras. Ser cuidadosa e discreta, felizmente, fazia parte de suas qualidades. Não ganhara o apelido Imperatriz de Éter à toa.

         Mesmo assim havia outros riscos para levar em consideração. Desde a epidemia de febre amarela, boa parte da população vinha evitando conglomerados. A situação não melhorou quando descobriram que a doença chegara acompanhada de outra. Uma mutação nunca vista da influenza. A Imperatriz, por outro lado, não costumava ficar doente. Sempre fora assim. Enquanto as pessoas andavam com máscaras pelas ruas, ela se preocupava com o ar pesado graças à poluição das fábricas.

         Quando chegou ao palacete, abriu o portão de ferro devagar. As engrenagens soltando o ruído familiar a lhe dizer “bem-vinda”. Ela olhou em volta para se certificar de que não havia ninguém por perto, pouco antes de o dirigível do Corpo Policial da Corte passar acima de Santa Teresa. O facho de luz varreu uma área próxima, atravessando o nevoeiro, e a Imperatriz se adiantou para não ser pega no escrutínio dos vigilantes.

         — Sra. Éter? — Próxima à entrada do pátio, uma mulher surgiu. As mangas de chiffon do robe deixavam o braço mecânico à mostra. — Por deus, pensei que algo de ruim tivesse acontecido.

         — A luta demorou… um pouco. — Imperatriz retirou os óculos e o sobretudo, entregando-os à mulher enquanto entrava pela porta da cozinha. — E nada de Éter aqui, Lucinda, mesmo que Theodore não esteja em casa. Não estamos mais na arena e você não é mais uma das minhas oponentes.

         — Ora essa, eu nunca fui apenas uma das suas oponentes, Sra. Una Graves. — Lucinda pegou a chaleira fumegante com a mão mecânica sem esforço. — Fui a melhor até a senhora voltar da Inglaterra e resolver me aposentar mais cedo. — Una sorriu, entrando no corredor em direção às escadas.

         A mudança para a nova casa era recente. Em menos de um mês, conhecia muito pouco do funcionamento da mansão. O lugar carregava a atmosfera do país do Sr. Graves consigo. Tudo era fechado demais para Una, acostumada com a liberdade de espaços amplos desde criança. Lucinda e as outras empregadas sofriam para que os móveis não tivessem cheiro de objetos guardados.

         — E por que demorou tanto para terminar o combate? — Havia mais do que curiosidade na voz de Lucinda. Uma certa urgência em alimentar sua saudade pelas lutas através da amiga. — Voltou a lutar com autômatos?

         — Para acabar com rosto cheio de marcas roxas? Não, obrigada. Estou muito velha para isso —  As passadas cansadas pesavam nos degraus.

         Na metade da escada, as engrenagens da porta da frente começaram a girar. Una e Lucinda se viraram, surpresas, e observaram os mecanismos e trancas de moverem por alguns segundos antes de se darem conta do que estava acontecendo.

         — É o Theodore — murmurou Una, dando um passo atrás. — Corra!

         As duas subiram o mais rápido que seus pés permitiam sem fazer barulho. No corredor escuro, precisaram tatear até encontrar a porta do quarto. Una começou a girar a maçaneta quando ouviu um baque vindo do hall de entrada. Ela parou, virando-se na direção de Lucinda, e esperou por mais um sinal que não chegou.

         — Sra. Una? Sra. Una, o que está fazendo?

         — Preciso saber o que aconteceu — explicou, passando por Lucinda. — Ele não me verá assim. Não se preocupe.

         Guardar sua vida dupla do marido não lhe exigia muito. O Sr. Graves era uma pessoa reservada e costumava dormir cedo, quando não ficava trancado em seu escritório ou no porão. Dois locais proibidos para qualquer um que não ele. Havia também o acordo feito antes do casamento onde, dentre muitas coisas, Theodore prometera à noiva que nunca a tocaria sem autorização. Demonstrara mais interesse na presença dela em sua casa que na figura de esposa. Una se sentia como uma governanta.

         Ela caminhou junto ao balaustrado da escada, respirando fundo para manter a calma. Não havia escutado nada desde o barulho anterior. Seu marido era silencioso por natureza, mas nem mesmo o som da porta se fechando quebrou a quietude. Una se abaixou com cuidado e espiou por entre os balaústres.

         — Ah, não. — Ignorando a sensatez, saiu correndo, quase pulando os degraus. — Lucinda, venha aqui!

         Caído na soleira da porta, com a blusa ensanguentada, Theodore Graves.

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