Pavilhão Cinza

*Conto inspirado nos relatos acerca do hospital psiquiátrico de Barbacena.

Por: Natasha Morgan

Aquela não era uma boa época para se usar saias.

Quando coronéis trajando uniformes cáqus e fumando charutos importados assombravam a seca do sertão, manipulando, intimidando e dirigindo o povo carente era um fardo ser a jovem bela e promissora de uma família em ascensão.

Foi o que descobriu Ana naquela tarde fatídica em que estendia as roupas no varal puído de seu quintal. Quando os olhos cinzentos do Coronel Alfredo pousaram sobre seu corpo juvenil e cintilaram em malícia selvagem.

Quando as mãos grossas daquele homem grotescamente perfumado passearam por seu corpo, invasivas. Quando seus lábios secos experimentaram o sabor de sua pele e seus músculos a sufocaram no celeiro, ameaçando afundá-la na palha áspera conforme ele violava sua inocência e fragmentava sua alma.

Ana não pode dizer nada.

O que o Coronel queria, ele pegava.

Fora ensinada sobre essas leis conforme crescia na pequena vila daquelas bandas das Gerais, numa família pobre que recebera promessas ambiciosas de prosperidade caso o patriarca respeitasse e honrasse os acordos com o Coronel.

Firmino, seu pai. Ele a olhou com repulsa quando ela voltou a pisar no assoalho da casa, ao anoitecer, os cabelos desgrenhados, o vestido rasgado e o rosto marcado por mãos vis.

A honra da família, imediatamente ele lamentou.

Um casamento as pressas foi orquestrado. De menor porte. Um açougueiro fétido aceitaria uma jovem profanada caso o dote despertasse seu olhar cobiçoso. Um bom dote o Coronel não recusaria para um cordeirinho abatido por seus desejos. Firmino tinha fé em seu Coronel. Respeito, medo. Motivo pelo qual não sustentou a indignação de pai e foi contestar a desonra de sua única filha.

Não.

Foi o que Ana ousou lhe dizer, entre lágrimas.

Não se casaria com um açougueiro rude ou qualquer outro homem. Sua alma se partira e pretendia se recolher num convento, orando a Deus que curasse suas feridas.

Mas a ideia de boas freiras cuidando de sua filha não foi o suficiente para aplacar o receio de Firmino pela honra de seu nome. O Coronel, receoso de que seus amados filhos e bela esposa soubessem de seus apetites fora do casamento, ordenou que a jovem fosse mandada para o Lugar do Esquecimento.

E assim Ana embarcou no Trem de Doidos, tendo o corpo esmagado pelas pessoas enfiadas aos borbotões nos vagões mal cheirosos. Todas rejeitadas, como ela. Algumas vítimas da loucura. Outras perfeitamente sãs. O olhar assustado, a tristeza e a conformação lhe tolhiam a alma. Já ouvira falar do Lugar do Esquecimento, embora acreditasse piamente, na época, que se tratava de um centro de recuperação e contenção para loucos.

Ela não era louca. E estava sendo mandada para lá.

O trem parou na Estação Bias Fortes, onde os pacientes desembarcaram aos tropeços e foram levados diante dos grandes portões de ferro que continham o fogo do inferno. Ao menos a energia densa que emanava de suas grades escuras dava essa impressão, como o calor de grandes labaredas nefastas.

Ela parou diante de um enfermeiro e encarou seus olhos gélidos, respirando fundo uma vez antes de ser tragada para dentro das garras daquele lugar.

Colônia.

Era como chamavam o inferno.

E conforme seus passos hesitantes lhe mostraram, ela descobriria que o hospital psiquiátrico de Barbacena em muito se parecia com o inferno.

Seu vestido velho de algodão lhe fora arrancado e trapos velhos de estopo lhe foram dados para cobrir parcialmente a nudez. Na sala ao lado via o mesmo acontecer com os outros pacientes e os cabelos dos homens serem cortado muito rente ao crânio. O banho ao qual todos foram submetidos era gelado e o pátio para onde foram empurrados, tão fétido que lhe pinicava o nariz.

Sob um frio que cortava a carne, os pacientes eram jogados, nus, no pátio aberto ao vento fustigante, onde bebiam a água pútrida de uma fonte de esgoto que atravessava o local.

Ana reprimiu o nojo que lhe subiu pela espinha.

Eu não sou louca! Não deveria estar aqui!

Ela brandiu a plenos pulmões.

E a insubordinação foi o que lhe rendeu uma visita à sala do eletrochoque.

Sua cabeça doeu pelas próximas duas semanas. Ela urinava na roupa e babava pelos cantos do pavilhão.

Foi também o que a tornou extremamente violenta.

Suas regras não vieram por dois meses, fazendo-a supor uma gravidez. E então vieram em demasia numa noite fria onde tremia e suava na cama de capim, comprovando o aborto espontâneo.

Ana se sentiu aliviada. Pelo menos não teria que cobrir seu corpo de fezes para evitar ser examinada, como vira muitas mulheres fazendo. Os guardas gostavam de judiar das grávidas, ostentando um humor cruel em seus jogos de tortura.

Ela foi surrada, torturada, abusada.

E não havia um dia em que o ódio não toldasse suas feições, transformando-a num monstro.

Ela batia, chutava, arranhava, ofendia os enfermeiros e mutilava os colegas.

Como na vez em que conseguiu furtar um objeto de metal da cozinha e conseguiu arrancar o olho esquerdo do enfermeiro Rogério. Ele era conhecido por molestar as mais novas, trancá-las num armário de ferro enquanto se tocava ouvindo seus gritos desesperados.

Foi levada para um buraco fétido em reprimenda. Trancafiada em suas profundezas por meses a fio até que se esquecesse de seu nome. Suas fezes se acumulavam no chão e sua urina era a única coisa que podia beber para manter o corpo hidratado.

Foi ali, nas profundezas daquela masmorra úmida que ela passou a ouvir os sussurros.

Desesperada, achou que finalmente sua sanidade estivesse sucumbindo à loucura daquele lugar.

Mas a voz vinha acompanhada de um leve roçar.

No rosto. No ombro. Nas pernas.

Um toque suave no meio de tanta perversidade.

Salve-se. Salve-nos.

Ana tirou forças da companhia daquela voz para suportar os dias.

Acalentava-se com aquele suave roçar.

No anoitecer de seu aniversário a soltaram. De volta ao pavilhão cinza. De volta ao frio cortante. De volta a sua cama de capim úmido. Mas desta vez em companhia da voz.

Sofia.

Fora como se apresentara.

Num sussurro amargurado lhe contou que fora uma paciente de Barbacena. Há muitos anos. Internada lá por uma turba temerosa de sua bruxaria. Foi morta num dia de tempestade, estuprada por um enfermeiro rude. Seu corpo parcialmente destruído fora vendido para os homens de branco, doutores que precisavam de material para estudar em suas universidades. Desde então fora condenada a vagar pelos corredores mofados de Colônia, procurando pela paz jamais alcançada.

Ajude-se. Ajude-nos.

Sofia sussurrava nas noites frias, o roçar suave de seus dedos fantasmagóricos aquecendo o corpo gélido da jovem Ana. Sabia uma forma de escapar. Sabia uma forma de se vingar.

Dê-me o poderio de seu corpo.

A voz era como seda.

Dê-me o poderio de ser corpo e seremos um. Forte o bastante.

Ana enfrentava os enfermeiros, cuspia no doutor. Esperneava ao ser colocada na maca, onde seu cérebro sofreria as correntes elétricas.

Deixe-me entrar.

Seu corpo era submerso numa banheira de fezes e os guardas riam de seus guinchos, de seu choro, de seus lamentos.

Seremos uma. Fortes o suficiente. Podemos derrota-los.

Ana sorriu para os relâmpagos que cruzavam a negritude do céu.

– Sim!

Ela abriu os braços num convite aberto.

Sofia a abraçou, unindo sua alma a de Ana.

Duas almas fragmentadas.

Agora fortes o bastante para lidar com as sombras que aterrorizavam aqueles muros cinzentos.

Aquele inferno iria ruir.

E as chamas abafariam o tormento daqueles que seriam aprisionados de forma tão vil.

Continua!

3 comentários em “Pavilhão Cinza

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