A Maldição da Cherokee

Por: Natasha Morgan

As vozes estavam sempre sussurrando, roçando seus ouvidos com acidez.

Murmúrios bruscos que lhe arrepiavam a espinha.

Incitavam a sua ira. Fria, cruel, miserável.

Aquelas vozes perturbavam seu sono, tumultuavam sua paz.

Se é que, algum dia, aquela alma conheceu alguma paz.

Dia e noite, aquele zumbido perturbador roçando seus ouvidos, provocando-o.

Aquele murmúrio infernal o fazia bater nela.

Sarah.

A mulher mais bonita que já tinha visto. Mas de pele escura.

Ele não sabia dizer onde seu racismo se formou. Talvez na família em que foi educado, sem nenhuma referencia negra e recheada de comentários maldosos. Talvez em sua própria formação de caráter que não dera muito certo. Sua adolescência fora conturbada, cheia de drogas e com uma boa dose de violência e raiva.

E era assim que ele justificava suas atitudes cruéis. Minguava a expressão, tempesteava os olhos escuros e dizia que era fruto de sequelas de seu tempo nas drogas. Eximia-se de qualquer culpa por seu comportamento.

E Sarah aceitava.

Sarah.

Mulher linda. Mas negra.

Ele não sabia ao certo por que tinha se envolvido com ela. Linda, sim. Doce, carinhosa, um raio de sol. Mas a cor de sua pele era um ultraje para seu racismo mascarado.

Sarah.

Talvez a solidão o tenha levado para ela. Estava sozinho, acabara de sair da clínica de reabilitação. Limpo. Meticulosamente limpo. Sua mãe falecera, um câncer cruel a levou, embora no fundo ele soubesse que a morte a levara com piedade pelos desgostos que ele lhe tinha provocado.

Sozinho, limpo e cheio de um ódio absurdo e remorsos que lhe corroíam a alma, ele conheceu Sarah. Um raio de sol, brilhante e ofuscante, que ameaçava iluminar as suas trevas com doçura.

Ele precisava de alguém para cozinhar, lavar, passar. E alguém para lhe esquentar a cama. Alguém que ele pudesse sugar, descontar seu ódio e dividir as coisas mais simples e atrozes de sua vida.

Sarah parecia perfeita. Pobre, jovem, apaixonada. Uma presa perfeita para sua teia nefasta.

Eles foram morar juntos em um março chuvoso.

E assim começou o tormento dela.

E o ápice da ira dele.

Gustave sempre teve ciência de que sua raiva era cruel e perturbadora. Mas nunca se viu tão perturbado como nos últimos meses. As vozes surgiram do nada, poucos anos depois que se juntara com Sarah. Tornou o tormento de sua existência ainda maior e sua ira ainda mais instável. Qualquer coisa o fazia explodir. Uma panela cheia demais, o latido do cachorro, alguma coisa que desaparecia. O sorriso sereno e quieto nos lábios da mulher.

Qualquer coisa o fazia voar para cima dela, cobrindo-a de pancadas e soltando uma enxurrada de palavras grotescas que lhe feriam a alma.

Como um homem educado numa família cristã, começou frequentar a igreja em busca de uma calmaria para sua ira, embora não estivesse certo de que Deus existia ou se importava com ele. Mas o silencio da igreja só o confortava enquanto permanecia dentro de suas paredes rochosas. As vozes o esperavam, respeitosamente, lá fora. E assim que saía, elas o abraçavam novamente, sem piedade, fazendo transbordar sua ira.

Um dia, no meio da missa, o padre o fitou com curiosidade. Arregalou os olhos num centésimo de segundo e adotou uma expressão estranha.

Aquilo o deixou ainda mais perturbado. Tentou conversar com o padre, mas o homem se recusou, fugindo para a sacristia. Furioso, Gustave esmurrou as vidraças da igreja, estilhaçando-as em meio a seu ódio. Foi convidado a se retirar sob olhares severos da população que frequentava a paróquia.

Na semana seguinte ele retornou, exigindo falar com o padre.

As vozes estavam impossíveis naquela noite, provocando-o. Seu monstro interior estava próximo demais de sua superfície, ameaçando transbordar sua ira nefasta.

Esperou a missa terminar, as pessoas saírem e o padre estar sozinho na sacristia. Abriu a porta sem muita delicadeza e encarou o homem de batina, os olhos transbordando raiva.

 – Posso ajudá-lo, meu filho? – o padre perguntou, educado.

 – Diga-me você, Padre? Por está fugindo de mim?

O padre o encarou em silencio, enxergando o ódio cintilando naqueles olhos, a postura ofensiva, as sombras que o rodeavam e a forma como suas costas estavam levemente inclinadas.

 – Procura a ajuda de Deus. Mas temo que ele não possa ajudá-lo.

Gustave franziu o cenho.

 – Muitos homens como você buscam a igreja como uma forma de desfazer o mal lançado. – prosseguiu o padre. – Mas nós, meros servos de Deus, não podemos com algo tão poderoso. Deus é um pai bondoso e justo. Mas nem sempre Sua bondade e justiça podem lidar com algumas perversidades. Tem que procurar a criatura, meu filho. Só ela pode desfazer o que lançou.

 – Do que é que está falando, Padre?

 – Você foi amaldiçoado. As costas curvadas. Há um demônio suspenso em sua nuca, sugando-lhe a energia, sussurrando em seu ouvido. Ele se alimenta da sua raiva.

 – Eu não acredito nessas coisas. – Gustave disse numa voz fria, mas em seu interior estremeceu.

 – Não o conheço, meu filho. Embora frequente a minha paróquia. Não sei por onde andou ou o que fez em sua vida. Mas suponho que tenha provocado uma criatura.

 – Uma criatura?

 – Uma bruxa. Feiticeira. Sacerdotisa do mal. Como quiser chamar.

Os cantos dos lábios de Gustave se curvaram num sorriso frio.

 – Eu conheço uma bruxa.

O padre se limitou a encará-lo por alguns segundos.

 – Então sugiro que fale com ela. E implore para que ela desfaça isso.

 – A cadela não se atreveria a lançar suas malditas crenças em mim.

 – Lamento, filho. Mas parece que alguma delas o fez. Pode orar a Deus para que faça cessar seu tormento. Mas somente a bruxa que lhe amaldiçoou é capaz de desfazer o feitiço. Acredite ou não, o tormento que emana de você é resultado de uma maldição.

Gustave cuspiu um rosnado por entre os lábios crispados e esmurrou a mesa da sacristia, fazendo pular o padre assustado. Praguejou alguma coisa e saiu bufando, batendo as portas e jogando no chão velas e cálices.

As vozes o alcançaram lá fora, um zumbido quase ensurdecedor. E ele se deu conta do peso em suas costas, algo que sempre o incomodava e fazia doer sua coluna. Passou a mão na nuca, balançando a cabeça.

O maldito padre estava certo.

Ahhhh, Sarah… Ele iria matá-la!

 

Uma garota linda, alegre, cheia de energia e sonhos promissores.

Foi cruelmente envolvida por braços assombrosos e um ódio absurdo.

Sarah vinha de uma família podre, simples e pouco afetuosa.

Cresceu ao lado da mãe silenciosa, calma e astuta.

Apesar de não receber afeto que transbordasse, amava sua mãe. E aprendeu com ela a arte da família, o culto a natureza e a honra aos deuses antigos. Seu caráter foi ricamente formado, cheio de nobreza, amor e gentileza. Sua alma era um jardim colorido e cheio de flores. Ela acreditava que estava no mundo para ajudar as pessoas e transmitir todo amor que cultivava.

Foi por isso que aceitou as sombras de Gustave.

No fundo, acreditava que ele era uma boa pessoa, atormentado pelas coisas ruins que viveu na infância e adolescência. Acreditava que podia salvá-lo com o amor que lhe ofertava todos os dias. Amor esse que ele destruía sempre que tocava.

Em dias tempestivos, ela pensava que não aguentaria aquela violência.

Mas os dias ensolarados não tardavam a chegar e ela facilmente o perdoava, ofertando os cacos de amor que reciclava. Não sabia dizer como era capaz de amar um homem como ele, embora se esforçasse para enxergar o que havia de bom lá dentro.

Suas crenças lhe diziam que ela era luz e que era seu dever iluminar as almas sombrias que vagavam pelo mundo. Mesmo quando essas almas escolhiam permanecer no escuro.

Mesmo quando essas almas ameaçavam despedaçá-la.

Gustave era tudo o que ela tinha.

Sua amada mãe, um dia tão forte e bela, agora definhava numa cama. Isso a entristecia, a amargurava e ameaçava jogá-la num penhasco vazio e espinhento. Amava sua mãe. Queria salvá-la e aproveitar com ela o tempo que Gustave lhe tirou.

Por algum motivo absurdo, Gustave nutria por sua mãe um ódio irracional. Sempre blasfemando pela casa palavras absurdas sobre ela. Esses eram os raros momentos em que Sarah o detestava. Podia enxergar em suas palavras maldosas o ódio profundo que ele nutria pelas mulheres, especialmente aquelas agraciadas pela maternidade.

Naquela noite, depois da missa, ele chegou extremamente perturbado.

Ela podia sentir a energia nefasta emanando dele mesmo antes dele abrir a porta. Mas essa energia contrastava totalmente com a expressão divertida com que ele a encarou. Os lábios dele, sempre severos, exibiam um sorriso perigoso e seus olhos, sempre cintilando raiva, exibiam frieza.

 – Você me ama, Sarah? – ele perguntou, encarando-a. – Tem algum respeito por mim?

Sarah recuou cautelosamente.

 – É claro. – sussurrou com voz acanhada.

Gustave avançou sobre ela, envolvendo o pescoço delgado com as mãos.

 – Como ousa lançar suas feitiçarias para cima de mim?

O hálito quente, profanado de raiva, roçou o rosto dela, gelando as lágrimas que lhe escaparam pelos olhos arregalados. Sarah o encarou com medo. Balançou a cabeça numa tentativa vã de negar a acusação.

 – O padre me contou! – Gustave gritava, aumentando o aperto que exercia sobre o pescoço da mulher. – Um maldito padre enxergou o que eu não percebi nesses últimos quinze anos!

Ele a libertou, vendo-a se contorcer em fungadas sôfregas.

 – Vagabunda! – ele avançou novamente sobre ela, estapeando seu rosto três vezes. – Depois de tudo o que eu fiz por você!

Sarah se arrastou pelo ladrilho, tentando se livrar das pancadas do marido.

 – Eu não… – ela tossiu, recuperando o ar em tragadas desesperadas. – Eu não o enfeiticei!

 – Ousa negar? – ele ameaçou bater nela de novo. As vozes eram um zumbido irritado em seu ouvido, os sussurros queimavam. Suas costas curvas doíam como o inferno e a raiva queimava.

Sarah o encarou intensamente, procurando os sinais.

 – Você se diz uma bruxa! – Gustave trovejou. – Há quinze anos acende velas e empesteia a casa com sua feitiçaria. Eu nunca reclamei, jamais a proibi de honrar sua maldita natureza. Mesmo porque nunca acreditei nessas porcarias. Mas voltar suas feitiçarias contra mim? Há meses que estou sofrendo de insônia, perturbado por vozes que não sei de onde vem. Há meses minha coluna me mata. Eu me queixo com você e você olha nos meus olhos e me incentiva a procurar um médico! Você, a cadela que fez isso comigo!

Gustave deu um murro na cadeira de madeira que cercava a mesa da cozinha, derrubando o peso maciço na esposa jogada ao chão. Num acesso de fúria descabida, ele destruiu a louça dos armários, jogando a porcelana no chão e esmurrando o mármore da pia.

Sarah se arrastou pelo ladrilho, livrando-se dos cacos espatifados e da fúria do marido. Ergueu-se cambaleante e se apoiou na porta de mogno, os cabelos bagunçados, a pele profanada e o pescoço marcado por dedos vis. Fitava tudo com assombro, encarando, pela primeira vez, a criatura pendurada na nuca de Gustave. Elas se encararam em questão de segundos, intensamente. O demônio sorriu, fincando as garras nos ombros de sua vítima.

Isso pareceu irritar ainda mais Gustave. Seus olhos injetados se voltaram para a esposa, dando-se conta de que ela ainda estava ali.

 – Vai desfazer isso! – ele gritou, assustando-a. – Vai desfazer isso ou eu juro pelo Senhor Deus que a mato!

Avançou sobre ela, ameaçando afogá-la em sua fúria.

Sarah apanhou um vaso da prateleira e arremessou na cabeça do marido.

Gustave cambaleou, perturbado.

O demônio em sua nuca ria, deliciando-se.

 – Eu não vou desfazer nada. – a voz de Sarah soou fria. – Não sou aquela que o amaldiçoou. E mesmo se fosse, me matar só prolongaria o seu sofrimento e alimentaria a criatura que te atormenta.

Ela apanhou as chaves do carro de cima da mesa e lhe deu as costas, correndo pelo gramado frio e fugindo da ira de Gustave.

 

A velha estava sentada em sua cadeira de balanço, na varanda fresca de seu chalé. Sua respiração dificultosa chiava, fazendo-a engasgar e tossir violentamente. Seus olhos cansados enchiam-se de lágrimas e o corpo ancião se chacoalhava.

Um preço justo para quitar a dívida de uma alma corrompida.

Há muito fora uma jovem bonita, alegre e disposta. Orgulho do pai e da aldeia. Aprendera o segredo da magia e ofertava amor a terra. Quando envelheceu, tornou-se uma sábia para aqueles que ainda honravam as antigas crenças.

Por anos ofertou boas energias a terra.

Até que escolheu ter a alma brutalmente corrompida.

Quando profanou a palma de sua mão com o punhal sagrado e proferiu as palavras sem volta, ofertando a terra uma energia grotesca, sabia o preço que teria de ser pago. E estava disposta a pagá-lo. Como vinha fazendo nos últimos anos.

Seu acordo com as trevas fora selado com sangue. E o preço pela barganha ceifava sua vida, pouco a pouco e cruelmente.

Ela não ousava dizer que o processo era agradável. Mas enfrentava tudo silenciosamente, ciente de que fora uma escolha sua. E a cada dia que seu corpo definhava, seus órgãos falhavam e seus passos se aproximavam da beira perigosa da morte, deliciava-se com a satisfação de ver sofrer aquele que provocara sua raiva.

Ouviu os passos roçaram as tulipas em seu jardim. Suaves, cautelosos e assustados. Sabia que ela viria, cedo ou tarde. A energia lançada a levaria até ali, para seus braços acolhedores novamente.

 – Mãe. – ela sussurrou.

A velha abriu os olhos e encarou a filha.

Uma garota tão linda e alegre foi um dia.

Agora não passava de uma carcaça cansada preenchida por uma alma fragmentada que se agarrava com todas as forças aos resquícios de bondade, energia e alegria que ainda restava em suas profundezas. Seus cabelos tão cheios de vida estavam um caos, espetados em seus cachos acobreados com uma onda de energia caótica. A camisola de seda trazia manchas de gordura, os pés descalços afundados na terra macia. Os olhos eram tristes e o pescoço exibia marcas roxas.

 – Eu sabia que você viria. – disse a velha. – Só não tinha certeza de que estaria tão despedaçada.

 – Foi você. – Sarah disse e não havia acusação em sua voz. Apenas um cansaço profundo que ameaçava derrubá-la.

 – Fui eu. – a velha confirmou com um aceno frio.

 – Por quê?

 – Aquela noite chuvosa em que você chegou, toda marcada, batendo em minha porta. Eu jurei a meus deuses que não a deixaria passar por isso.

 – Foi uma escolha minha. Permanecer ao lado dele sempre foi uma escolha minha. – as lágrimas despencaram dos olhos dela.

 – Você acredita que pode salvá-lo. Acha que Gustave é apenas uma alma assombrada pelas coisas ruins que aconteceram no passado dele. Acredita que sua luz é o suficiente para afastar as sombras do ódio que preenche aquele homem.

A velha encarou a filha com frieza.

 – Eu sinto muito, Menina. Tudo o que há dentro dele são sombras, remorso, ressentimento e crueldade. O que você acredita ver de bom não passa de uma sombria ilusão. Não há amor, esperança ou bondade. Ele é como um poço escuro, fundo, úmido e transbordando maldade.

Sarah aproximou-se, ajoelhando diante da velha.

 – Mãe, precisa parar isso.

A velha esboçou um sorriso.

 – Não se pode voltar atrás num acordo com um demônio.

 – A senhora vai morrer!

 – Um preço justo a se pagar.

Sarah chorou, copiosamente.

 – A escolha foi minha. Eu deveria viver com ela, não a senhora.

 – E eu vivo com a minha. – os olhos da velha eram frios. – Não há nada que eu ame mais do que você, minha filha. Não há nada que eu não fizesse por você. Até mesmo quando escolhe viver em sofrimento por uma alma maldita, eu escolho salvá-la e libertá-la. Mas não pode me obrigar viver para vê-la minguar diante de meus olhos. E não pode me tirar o sabor da vingança.

A velha enxugou as lágrimas da filha com os dedos ossudos.

 – Meu tempo está acabando. Estou partindo. E o tormento de Gustave está apenas começando.

Sarah balançou a cabeça, transbordando em lágrimas.

 – Lembre-se, Menina. Podemos manter inimizade com os demônios que perturbam as pessoas ou cativar sua amizade, ajudando-os a se alimentar e se deliciar com quem merece o tormento.

O vento zumbiu forte, a velha tombou.

E a maldição se fortificou.

O sangue que verte também amaldiçoa.

 

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2 comentários em “A Maldição da Cherokee

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