Circus…

harley2

Por L. Orleander

Respeitável público! Bem vindos ao  nosso humilde lar!

Casa das ilusões, do riso fácil e de todos os mistérios entre a vida e a morte…

Meu nome é Sarah e este é o Grand Posttegliarè!”

É assim que as cortinas se levantam diante de olhares atentos e curiosos, necessitados de uma pequena fuga da realidade, um momento mágico e um espetáculo sobrenatural.

“Aqui jaz a fabrica de pobres almas perdidas, almas mundanas como as de vós, que buscais apenas um alivio de vossos fardos diários… E eu?

Bom, terei a honra de ser sua bela anfitriã!”

Aplausos ecoavam e olhos famintos se deliciavam nos bastidores escolhendo os que mais lhe agradavam. A língua saliente passeava de um lado á outro pelas presas albinas e brilhantes, feito porcelana chinesa.

Assistentes de palco em plumas vermelhas se apresentavam dançando Cancã sem as roupas intimas, mostrando a pele pálida e os pequenos triângulos  ruivos, negros ou loiros sobre o próprio sexo, sem qualquer pudor ou medo de rejeição.

A iris de um vermelho quase negro, brilhava hipnótica, convidando os desavisados a se banquetearem dentro de suas pernas bem torneadas e coxas firmes, rapazes em plena flor da idade se estregavam fácil ao fascínio e a luxuria, enquanto as damas de sorrisos ingênuos, os dirigem a lugares agora vazios, risinhos tímidos e meigos, com a candura de um anjo, mas sob a pele, o demônio.

O alimento vem ao caçador sem qualquer esforço e sem pestanejar, recusam – se a ouvir o instinto do medo gritando alto e claro em cada célula do corpo: “PERIGO!”

O sangue corre pela garganta insaciável, rubro. Sugado com veemência dado de bom grado, sem luta ou temor, enquanto a pele em estado de secura cola – se aos ossos ressequidos, lentamente transformando – se em poeira.

Membros enrijecidos, antes erguidos pelo êxtase do momento dentro das cavidades femininas, das devoradoras dançarinas, murcham feito botões de rosas que não foram colhidos no Outono.

O som retumbante de estalos repicam pelo picadeiro avisando a próxima horda de desafortunados, o pó brilhante é lançado ao ar e muitos se prendem a ele com atenção, fazendo com que alguns esqueçam quem são, outros das pessoas ao seu lado e mesmo daqueles que a pouco deixaram seus assentos e ali já não mais se encontram, (pelo menos não vivos… Rs) .

Pele de cobra, fria e fina, e quem ousaria dizer o oposto, visto que nem mesmo ossos sobraram?

Cavalos negros adentraram a arena, tão escuros feito a noite densa, de relinchar estridente feito trovões, assustam a platéia enquanto marcham como soldados em círculos mostrando sua obediência ao chicote.

Mentes animalescas e profanas se agitam, corações pulsam rápidos a ponto de querer saltar do peito e ajoelhar – se diante da beleza de tais seres. A canção clama em seus ouvidos a cada relincho, respondendo a tambores invisíveis a olho nu e ao rugido da pantera de olhos amarelos e garras afiadas que surge magnânima ao centro do ensaiado trote..

Caminha sinuosa, faminta, devorando as almas que se entregaram a selvageria nas noites de sabbaths amaldiçoados, onde corpos eram trazidos diante de muitos e neles se cometia atrocidades, cópulas possuídas por deuses e demônios, onde vitimas enlouqueciam e jamais encontravam o caminho de volta ao lar, mentes perdidas quantas ali haviam, impregnando  a pele do mal feitor?

O animal ronrona manhoso, sedento de carne vermelha, de carne humana, alguns correm segurando a cabeça diante dos horrores que praticaram e saem do recinto buscando salvar – se, mas é tarde.

A Lua Negra banha o céu escondendo os cavalos que agora somem feito fumaça e são vistos apenas pelos olhos arroxeados, a pantera se une a dança e alimenta – se sobre a grama verde.

Pedaços e mais pedaços são arremessados para dentro da escuridão como carniceiros da Morte, feras bestiais se mostram como são cuspindo fogo e empalando em seus chifres aqueles que ainda resistem. Urros de dor, uivos de lobos se misturam ao cheiro de sangue e enxofre.

Asas de morcego e couraças pétreas dançam com leveza sobre a carne humana dilacerada, engolida pela terra para selar um segredo macabro.

Era hora dela subir aos ares como um anjo e descer da mesma forma feito um caído, belo e frágil sob o tecido lilás cintilante.
Mulheres olhavam com inveja e as unhas enterravam – se nas palmas das mãos pálidas. Gotículas de sangue se acumulavam nos vincos deixados ali, enquanto a fúria tornava – as cegas a ponto de não sentir a dor auto – imposta.
A deusa dos cabelos cor de palha estendia seus encantos aos de mais e eles sorriam feito bobos, incapazes de pensar.
Mãos ossudas saiam da penumbra da lona cravando unhas manchadas de terra e sangue seco em cabeças distraídas roubando memórias, sugando espíritos e vontades, enquanto damas recatadas se dirigiam as cordas com nós prontos a espera de um pescoço. A moça dançava tocando com a ponta dos pés revestidos em uma sapatilha de porcelana lilás no mesmo tom do tecido, os nós de cada corda balançando – se vez ou outra, olhando com frieza para a procissão que ao centro do picadeiro se formava.
Uma a uma, elas se dirigiam as cordas, colocando – as como um lindo colar de pérolas ao redor do pescoço. Com um movimento de mãos gracioso da jovem donzela, as cordas subiram, alguns sapatos caíram fazendo um eco abafado no chão, transformando os corpos que se debatiam, em corvos, que grasnavam em uníssono.

Aplausos ecoaram mecânicos enquanto bocas esprimiam um “Oh” de espanto e descrença.

Uma névoa estranha formou – se em meio ao picadeiro enquanto o anjo caia direto pra dentro dela em queda livre. Formou – se um leve tornado e uma musa de pele negra e olhos esmeraldinos sorriu colocando a cartola de volta em sua cabeça, transformando o tecido de sua antecessora em papel picado.

Olhou de um lado a outro e chamou um senhor idoso como seu assistente, as luzes focaram nela e no sorriso complacente, dócil alguns diriam.

Ela sussrurrou algo nos ouvidos do tal senhor e olhou dentro de seus olhos, a pele se tornava cinza e ele gritava de dor apontando o dedos em várias direções.

Idosos, tão idosos quanto ele ou mais, retorciam em seus lugares ficando tão duros quanto o mármore, tão brancos como o marfim e mortos num piscar de olhos, a face bela da ilusionista mudou de repente, feito cera de vela, o lado esquerdo escorria deixando a mostra uma cicatriz escura continuando o sorriso, o olho esmeraldino espelia uma secreção amarela e mal cheirosa.

Ela gargalhou impiedosa e o som de sua risada doentia atraia cobras negras que alcançando seus pés subiam por seu corpo até transformarem – se nos seus fios de cabelo, agora revoltos e sibilantes.

Um raio cortou a noite e agora quase não havia mais platéia para a infante violinista que espreitava pela cortina a explosão de luz e fumaça que faziam desaparecer a ilusionista.

O som começou suave e sutil e foi ganhando força, seduzindo feito linhas invisíveis cada ser que ainda restava ali, era leve feito pluma e alguns até reconheceriam os pequenos acordes de Lacrymosa.

A lona não mais existia e pelo desfiladeiro eles seguiam, uma procissão fúnebre sem vontade e vazia, partia rumo ao abismo.

Um a um se jogando do penhasco e caindo de encontro ao mar.

Corpo sobre corpo destroçado sobre as pedras que logo se levavam para receber nova remessa…

 

“Senhoras e senhores! Esperamos que tenham gostado do espetáculo e que nos perdoem o mal jeito. Lembrem – se nosso lar é a morada das ilusões, entre a vida e a morte…

Voltem sempre que quiser e boa noite!”

Sarah era aplaudida por pessoas aturdidas, algumas olhavam para as próprias roupas, outras buscavam o sangue que achavam ter perdido, enquanto mulheres passavam as mãos ao redor do pescoço sutilmente procurando a corda.

No meio do picadeiro todos acenavam e agradeciam ao público, sorridentes e reais.

Teria tudo sido um sonho?

FIM…

 

 

 

 

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