Devoradora de Homens

Por Natasha Morgan

Devoradora de Homens

Imediações de Der Schwarzwald, Baden-Wurttemberg.

O Tenente parecia entediado, embora sua postura e olhos sérios. Aquela era a última fase do treinamento daquele pelotão, uma aventura na floresta onde eles deveriam se mostrar capazes com tudo o que aprenderam em treinamento.

E onde foi que a mente brilhante do Coronel inventou de levar aquele grupo de soldados de bunda magra e expressão arrogante? Na porra daquela floresta!

Der Schwarzwald, também conhecida como Floresta Negra era a área mais temida de toda a Alemanha. Abrigada numa cordilheira a sudoeste da Alemanha, a floresta de ares sombrios era um campo cercado de belas árvores e rochedos brumosos que assustavam garotinhos em lendas antigas. Local de extensa vegetação, neblina, cavernas e histórias, aquela floresta inspirava o receio de toda a população de Baden-Wurttemberg.

Qualquer filme de terror alemão, usava aquela paisagem para lhe dar foco.

Qualquer lenda urbana se utilizava de suas cavernas para dar embuste ao medo da garotada.

Qualquer adolescente idiota usava aquelas trilhas estreitas para seu rito de passagem.

Animais sumiam, crianças desapareciam e a população inteira se mantinha longe da superfície da Schwarzwald.

Até o Coronel Hans decidir que era uma boa ideia levar seus soldados para um passeio.

Russel praguejou, imaginando o que sua úlcera lhe faria no fim do dia.

Aquele bando de idiotas eram bem treinados, mas estava na cara que dariam trabalho sob aquela densa vegetação cinzenta.

Ele avançou com seus homens, alertando-os desde o princípio, que não aceitaria gracinhas ou comportamento inapropriado dentro daquela floresta. Deveriam estar sempre juntos, usando o que tinham aprendido no exército. Era uma fase final em sua formação. Eles precisavam demonstrar coragem, habilidade e estratégia.

O Tenente deu um sorrisinho, encarando sua turma. Estavam tão ansiosos para provar seu valor, segurando os fuzis naquela postura de durão, as fisionomias sérias, os olhos atentos e um sorrisinho debochado no canto da boca.

Pobres miseráveis! Se em sua época a juventude fosse como a da modernidade, o exército inteiro estaria fodido.

– Isso será divertido. – murmurou um deles, ostentando uma expressão divertida.

O Tenente revirou os olhos, prosseguindo pela trilha fechada.

Tolos imberbes, todos eles.

Achavam-se espertos e durões somente porque serviam ao exército. Pensavam que ostentar aquela farda camuflada lhes conferia um posto sedutor entre as mulheres, que seu fuzil os colocaria numa categoria especial. Mas no fundo eram apenas garotos mal saídos dos cueiros.

Toda aquela arrogância e pretensão causava náuseas ao Tenente.

Se um daqueles idiotas se deparasse com uma real situação de risco, com um homem derramando as tripas na sua frente, como seu pai havia visto na Grande Guerra, ele tinha certeza que o cretino amarelaria. Tornar aqueles caras verdadeiros corajosos, imbatíveis, disciplinados e firmes era seu trabalho. E era por isso que ele estava ali naquele dia.

Seus olhos se voltaram para as árvores assombrosas que fechavam a trilha, a aura sombria daquela floresta assustava as almas mais corajosas. As histórias que se ouvia nas redondezas, as lendas horripilantes que os adolescentes espalhavam uns aos outros antes de dormir prevaleciam nas mentes dos alemães.

Nem a Grande Guerra fora tão cruel quanto as trilhas brumosas de Schwarzwald.

Era preciso colhões para ousar pisar naquele solo seco. E um respeito da porra.

O Tenente amaldiçoou novamente o Coronel Hans pela missão dada.

Um burburinho se fez ouvir logo à frente. Os soldados estancaram, congestionando a passagem e tirando seu Tenente de suas divagações e maldições.

O grupo de rapazes imberbes formou um círculo, rodeando alguma coisa no chão. Suas expressões iam de receosos a enojados.

– O que há agora?

Um dos soldados apontou para o chão logo à frente, onde a neve branca exibia manchas de um vermelho profundo. Repousando no solo profanado havia o corpo dilacerado de uma raposa, a barriga aberta onde se podia enxergar as entranhas transbordando numa profusão vermelha.

– Alguma coisa a apanhou. – disse o soldado, examinando o animal morto.

– Estraçalhou, você quer dizer. – disse outro soldado, exibindo um olhar receoso aos arredores da floresta.

Os outros acompanharam aquele olhar, ouvindo os ruídos pouco amistosos fluíam por entre as árvores enormes.

– É a floresta. As coisas são devoradas por aqui. – o Tenente disse e fez um sinal para que o grupo voltasse a se mover. – Logo vai escurecer. Não vão querer arrastar seus rabos congelados pela floresta nesse frio do caralho.

Os soldados se desvencilharam do animal morto e prosseguiram pela floresta, seguindo seu Tenente mal-humorado.

Conforme iam adentrando as profundezas escuras de Schwarzwald, o frio se intensificava, infiltrando-se pela farda agasalhada numa carícia rude, ameaçando congelar seus corações. O vento uivava, ecoando seu lamento pela imensidão fria da floresta.

– Firme, Soldados. – gritou o Tenente, elevando a voz acima do uivar do vento. – Não deixem o frio grotesco de Schwarzwald congelar seus cus!

Os soldados riram rigidamente, batendo os dentes e se apertando na farda agasalhada.

– Uma refeição quente e uma fogueira é o que posso lhes prometer quando chegarmos ao outro lado.

– Podia nos beneficiar com um par de seios e cerveja. – quis fazer troça um dos soldados.

– Não seja ambicioso, Daniel’s, ou serei obrigado a deixa-lo cumprindo penitência nas entranhas da floresta.

Os outros riram.

Prosseguiram, fazendo troça de qualquer coisa que lhes viesse à cabeça e se jogando em cantigas antigas do exército alemão, tentando se distrair do frio. Seu Tenente sempre á frente, sério e atento.

A noite ameaçava tingir o céu azul num negrume opaco quando eles avistaram a choupana isolada nas profundezas da floresta. Sua constituição grotesca parecia estar fundida entre os troncos das árvores entrelaçados um no outro, rodeada pelos galhos secos e espinhos que se projetavam em forma de garras.

O Tenente estancou no meio do caminho, obrigando seus soldados a pararem.

Seu olhar espreitou a choupana de longe, analisando os arredores da floresta.

Ali o frio era ainda mais intenso, brumoso, úmido.

O silêncio era quase sepulcral, dominando as profundezas sombrias de Schwarzwald.

Desconfiado, o Tenente ensaiou um passo cauteloso, o fuzil firme em suas mãos.

A porta da choupana se abriu numa suavidade sedosa, deixando a criatura sair.

A mulher exibia um corpo perfeitamente desenhado em curvas sedutoras, a pele marfim parcialmente coberta pelos longos cabelos de ébano encheram os olhos do Tenente e posteriormente de seus soldados ansiosos.

Ela sorriu, curvando os lábios rubros numa expressão irresistível.

O Tenente sentiu seu corpo aquecer instantaneamente, dissolvendo o frio impiedoso que lhe subia pelas pernas como gavinhas pegajosas de trevas. Seu membro endureceu dentro da calça, ameaçando explodir num desejo selvagem. Inconscientemente, ele se viu abaixando o fuzil e dando um passo na direção daquela criatura misteriosa.

Ela o recebeu em seus braços, explorando o rosto másculo com curiosidade. Sua boca se fechou sobre a dele, devorando-lhe os lábios com sofreguidão. As mãos espalmadas passearam pelo corpo musculoso, apalpando-o, suas garras curvilíneas se cravaram na pele macia do peito, afundando-se pela farda agasalhada e penetrando a carne, rasgando, explorando até tocar o esterno. Os dedos monstruosos partiram-lhe o osso num estalo oco e alcançaram o coração pulsante.

A criatura o arrancou numa série de torções e puxões, levando o músculo pulsante aos lábios famintos, diante do olhar perplexo de sua plateia assustada. Ela o devorou em questão de segundos, gemendo de prazer.

Os soldados pareceram despertar para o horror que se abatia sobre eles. Desataram a correr em histeria, alguns disparando seus fuzis a esmo enquanto se embrenhavam no meio da floresta sombria.

A Criatura sorriu, esplandecendo numa beleza ainda mais jovem enquanto o coração devorado alimentava o feitiço de sua juventude. A língua longa e bifurcada espreitou para fora da boca, lambendo os lábios rubros antes que ela se voltasse para Schwarzwald e prosseguisse em sua caçada.

Sua alma ainda tinha fome.

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