A Costa Brasile Pt. 01 – Cativo

*Inspirado no relato de Hans Staden, alemão capturado pelos Tupinambás na costa de Ubatuba

Por: Natasha Morgan
Ele estranhou a demora do escravo.

Mandara-o buscar comida fazia algumas horas, o sol ameaçava torrar seus cocurutos e nada do selvagem voltar.

Hans espiou as árvores lá fora, imaginando onde estaria o maldito idiota.

Amaldiçoou baixinho e se embrenhou na mata, atrás do escravo. Será que teria ele fugido? Pouco provável. O selvagem vinha da tribo carijó, eram amigos dos portugueses. Trocavam seus serviços por pequenos objetos ordinários que lhes despertavam o interesse.

Mas onde se metera o palerma então?

Hans praguejou novamente, chutando uma pedra que surgiu em seu caminho.

De repente ouviu gritos. Desatou a correr, seguindo o som caótico e penetrando cada vez mais fundo nas entranhas da mata.

Foi cercado instantaneamente. Uma tribo hostil. Selvagens besuntados de vermelho, portando lanças hostis, expressões severas e cocares gigantescos.

Hans pensou em recuar e fugir, mas eles eram muitos. Espetaram sua perna com as lanças afiadas, pequenas alfinetadas dolorosas que fizeram verter seu sangue e empapar a calça folgada que usava. Eles rapidamente o despiram de suas vestes imundas e lhe ataram o pescoço com várias cordas com as quais o arrastaram pela mata sem qualquer delicadeza.

Alguns selvagens riam, dando pequenas mordidas em seu braço como um claro sinal de que pretendiam lhe devorar. Um dos guerreiros deu um soco no outro que o puxava, rosnando palavras ameaçadoras e reivindicando o prisioneiro como seu. Hans passara muito tempo entre os colonos portugueses e tribos amistosas. Compreendia um pouco da língua tupi. Era fácil para ele entender o que os selvagens diziam. Assim como compreendia que estava sendo disputado entre os guerreiros.

Acusavam-no da morte de seus amigos.

Ameaçavam devorá-lo.

Arrastavam-no pela floresta, puxando as cordas atadas a seu pescoço, quase o enforcando, derrubando-o, fazendo-o engasgar.

Chegaram a costa do litoral de São Vicente, as canoas preenchiam as águas turvas. Havia centenas deles. Hostis, carrancudos e famintos.

O chefe se aproximou. Ostentava um cocar de penas vermelhas, maior do que os outros. Sua carranca era enrugava e severa. Encarou o prisioneiro com hostilidade e o examinou em silencio por alguns minutos.

– Vamos levá-lo para casa. – disse o chefe, naquela língua selvagem. – Que as mulheres se divirtam com sua prisão e que o cauim ferva para a cerimonia sagrada!

Os selvagens gritaram, comemorando a ordem dada e Hans foi obrigado a entrar numa das canoas, atado a madeira flutuante como um animal prestes a ser abatido.

Eles navegaram ao som ululante de seu canto, espantando os animais de seus galhos e atraindo os portugueses receosos.

Os colonos espreitaram a costa, armados e prontos para defender seu território dos hostis. As balas voavam para cima das canoas e eram refutadas pelo arco e flecha dos selvagens, setas embebecidas em substancias venenosas.

O chefe da tribo apanhou uma espingarda de seus pés e a entregou ao cativo, obrigando-o a atirar nos portugueses na costa. Hans fitou a espingarda com curiosidade.

– Um presente dos amigos franceses. – o chefe disse.

– Tupinambás. – Hans sussurrou com assombro. Sua situação era mais complicada do que imaginava. Aquela tribo hostil odiava portugueses e se aliava com o inimigo.

O grito severo do chefe o tirou de suas divagações momentâneas e Hans fez o que eles lhe ordenaram, mirou a espingarda para seus antigos aliados portugueses e atirou.

Muitos caíram, abatidos por balas ou alvejados pelas flechas venenosas. Os corpos despencavam nas águas turvas, desaparecendo no abraço das ondas.

As canoas passaram pela costa sem muitos danos e navegaram pelas águas silenciosas. Hans abaixou a cabeça, lágrimas empoçando seus olhos. De seus lábios secos emanou uma canção triste, uma prece lamuriosa a seu Deus misericordioso.

Os selvagens rosnaram, encarando-o com exasperação.

– Ele chora! – disse um deles, indignado.

E os outros se limitaram a rir e lhe caçoar.

Quando chegaram a costa das terras deles, Hans se viu diante de uma aldeia onde se abrigavam sete casas as quais os selvagens chamavam de Ubatyba. A areia branca cercava a praia, fofa e morna. Por lá eles seguiram até onde se encontrava uma plantação de mandioca – comida a eles tão importante e sagrada.

As mulheres estavam lá, trabalhando na colheita para fabricar sua bebida sagrada.

Os guerreiros se aproximaram com o cativo e um deles obrigou o prisioneiro a gritar uma troça.

– Aqui estou, vossa comida! – Hans gritou naquela língua selvagem.

As mulheres vieram correndo, rindo, rodeando-o, estapeando-o e cantando.

Elas o levaram para uma oca apertada e abafada onde rasparam sua barba loura, ameaçaram devorá-lo e o acusaram de ter matado seus amigos.

Hans amaldiçoou baixinho, lembrando-se do forte que construiu em São Vicente e dos selvagens hostis que havia perseguido e matado junto com os colonos portugueses. De alguma forma, aquela tribo sabia que ele havia sujado suas mãos. Mas como é que não saberiam? Ele estava junto com os portugueses. Os tupinambás eram inimigos mortais dos colonos portugueses.

Maldita hora em que se lançou naquela aventura pela costa daquele continente maldito. Maldita hora em que seu navio naufragara na costa de São Vicente e ele concordara em se estabelecer entre os portugueses!

Uma das mulheres o estapeou violentamente, arrancando-o de suas blasfêmias. Elas o puxaram pelas cordas que atavam seu pescoço, arrastando-o pela aldeia, fazendo-o rodear as sete casas em meio a uma cantoria ululante. Sua perna ferida doía como o inferno e os tabefes bruscos daquelas selvagens não o ajudavam a manter seu equilíbrio.

Os guerreiros riam, disputando quem seria o agraciado em devorá-lo. Dois deles brigavam por sua posse, afirmando que foram os primeiros a captura-lo. Um deles avançou entre as mulheres, alisou seu rosto com as mãos besuntadas de urucu e afirmou que o cativo lhe pertencia, iria dá-lo de presente ao amigo selvagem.

As mulheres afastaram os guerreiros e marcharam dançando até a presença de seu chefe, onde jogaram o prisioneiro bruscamente diante do soberano.

Uratinge Wasu era seu nome e encarou o prisioneiro com sua severidade.

Hans procurou o tacape com os olhos, cauteloso. Sabia que aquele objeto indígena era o abatedor de homens. Mas o que encontrou, escondida na oca, foi uma mulher mais velha e misteriosa, portando um cajado de onde pendia um cristal na ponta.

As mulheres o seguraram diante de Uratinge e a velha se aproximou com o cajado, seus olhos eram frios e severos. O cristal ameaçador se aproximou dos olhos do cativo e num rasgar selvagem, arrancou-lhe as pestanas.

Hans gritou, debatendo-se nos braços das mulheres selvagens.

O som ululante de seu canto o enlouquecia.

– Matem-me! Matem-me logo!

A súplica lamentosa que escapou de seus lábios e as lágrimas angustiadas irritaram profundamente os selvagens.

Uratinge se ergueu de seu pequeno trono de brasile e o encarou com um sorriso arrepiante.

– Não vamos matá-lo agora, Estrangeiro. Ainda não.

A risada perturbadora do chefe reverberou pela aldeia.

E Hans só desejou que Deus o levasse.

Seu tormento estava apenas começando…

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