O Casarão Assombrado do Votorantim

*Inspirado nas lendas da cidade de Mairiporã

Por: Natasha Morgan

Quando o som estridente do telefone na cabine ecoou pelo salão de jantar, ele soube que os oficiais estavam chegando. Em toda aquela aldeia pitoresca ele era o único que possuía aquela regalia moderna, um presente de um amigo muito influente na política. E naquele momento se amaldiçoou por ser tão privilegiado.

Seus olhos sombrios se voltaram para o fone marrom escuro e ele o apanhou, retorcendo os lábios finos a cada palavra que ouvia da outra linha.

– Senhor, aconselho-o a se apressar. A estrada velha está abarrotada de oficiais. Meia hora até chegarem à fazenda.

A esposa o fitava silenciosamente, sentada no banco almofadado em frente ao piano, olhos assustados o sondavam enquanto ele mantinha uma conversa pouco amigável ao telefone.

Quando desligou o aparelho, a expressão em seu rosto era sombria.

– Apanhe as crianças. Leve-os ao alçapão e espere lá até que um de meus homens de confiança venha busca-los.

– Senhor meu marido…

– Ande, Mulher. Sem perguntas. Apenas obedeça.

Ele não lhe deu espaço para argumentos, rapidamente se virou e estalou os dedos para que o capataz o seguisse.

O pátio da fazenda estava vazio, lavado pela chuva forte que caía e iluminado pelos relâmpagos que iluminavam ocasionalmente aquela noite fria.

– Bastião! Reúna dois escravos fortes e me encontre no jardim.

Sua ordem foi ladrada com rispidez e o capataz se apressou em correr até o que costumava ser a senzala daquele casarão antigo.

Os olhos do coronel Manfredo se fixaram na campina de grama verde, visão privilegiada que a varanda da casa lhe fornecia. A paisagem bucólica que lhe conferira tantas festas no passado abrigava um grotesco tronco de madeira, conspurcado por correntes enegrecidas.

O tronco do flagelo, como sua família costumava chamar.

Os escravos costumavam ser castigados ali, empapando o solo verde de sangue e profanando a natureza com a crueldade de seus ancestrais. Dizia a lenda que nas noites chuvosas era possível ouvir os lamentos ecoando pelas árvores mais altas. O engraçado era que ele mesmo nunca ouviu nada e com o passar nos anos concluiu que as histórias que a ama de leite contava não passavam de mitos ridículos.

Anos se passaram, a abolição fora acordada. Mas em sua fazenda ainda restavam negros fortes que trabalhavam por uma boa refeição e cama seca para dormir. Não era algo que o orgulhava, mas era como funcionava naquelas terras pitorescas.

Seus olhos se deslocaram do tronco grotesco e se fixaram no capataz que voltava pela estradinha de pedregulhos, trazendo junto dois escravos altos e fortes.

Quando sua mãe foi forçada a libertar os escravos que possuía, logo após o acordo da abolição, muitos voltaram implorando por um lar e comida em troca de trabalho, permanecendo na fazenda por todos aqueles anos e constituindo famílias servis.

Os homens vinham acanhados, ostentando as cabeças baixas e os olhos cuidadosamente respeitosos. O medo dominava os negros daquela fazenda, e com razão. Para cultivar bons trabalhadores era preciso manter a disciplina de ferro. E o coronel Manfredo nunca decepcionava aqueles que cometiam o erro da indolência.

Coronér, como o senhor mandou, aqui estão os nego.

O coronel Manfredo os encarou com seriedade, cada um deles, apreciando o tremor percorrer seus corpos amendoados.

Sem dizer uma única palavra, ele apanhou um baú descorado da varanda e o dispôs aos pés dos escravos. Com um sinal para seu capataz, caminhou a passos largos pela estradinha que dava a volta ao casarão e levava ao jardim de funcho.

Os dois escravos os seguiram em silêncio, sentindo o peso frio da chuva em seus cocurutos enquanto carregavam o gigantesco baú misterioso. Os pés chapinavam na lama escorregadia e os galhos das árvores impiedosas arranhavam a carne nua dos braços musculosos, mas eles permaneceram firmes em sua tarefa.

O coronel os levou jardim a dentro, passando pelas jabuticabeiras gigantes, pela praça da donzela e entrando a fundo na mata. Seu silêncio era sepulcral e assustava os negros tanto quanto ao capataz.

A noite escura parecia amaldiçoada por Deus, cuspia a chuva com violência, profanando o silêncio com estrondos grotescos dos trovões furiosos.

– Coronér, não seria sabido o senhor esperar os oficiais na casa grande? – o capataz perguntou, ansioso, olhando a mata com desconfiança.

– Calado. – rosnou o coronel e voltou a caminhar em seu silêncio habitual.

Seus passos apressados o levaram a milhas de distância do casarão e foi justamente ao lado de um abeto gigantesco que ele parou, voltando os olhos sombrios aos escravos.

– Cavem. – foi tudo o que disse.

Os negros soltaram o baú no chão lamacento e apanharam as pás que traziam penduradas por uma corda nas costas, violando a terra com suas bocas de metal.

Cavaram até obter um buraco largo e fundo, onde lhes foi ordenado jogar o baú. Quando a terra abraçou o couro descorado e preencheu o buraco novamente, os negros ofegavam.

– O que tem aí, Coronér? O cadáver de um de seus garotinhos? – o capataz brincou.

– Uma língua do tamanho da sua. – seu olhar silenciou o outro.

Os negros se apoiaram nas pás, aguardando silenciosamente uma segunda ordem.

O coronel os fitou com pesar.

– Serviram-me bem. – ele disse.

Os homens estremeceram. Era possível sentir a névoa fria que penetrava pelas árvores, infiltrando-se pela campina atarracada de árvores e mato.

– Mas não posso deixar testemunhas de onde se encontram meus tesouros.

O capataz deu um passo estudado para longe bem no instante em que o coronel retirou um gancho de aço do paletó encharcado. O primeiro golpe abriu a garganta do escravo à sua direita, fazendo verter sangue.

O segundo negro tentou fugir, prendendo o grito que se formou em sua garganta. Mas o gancho de pendurar porcos o acertou com brutalidade na nuca, penetrando a carne amendoada e arrancando-lhe um naco. Ele caiu no chão lamacento, cravando os dedos grossos na terra e tentando içar o corpo dormente.

O coronel avançou a passos largos, cutucando o corpo com o bico da bota de couro. O negro foi virado bruscamente de barriga para cima, forçado a encarar os olhos inexpressivos de seu algoz. Ele agonizava, engasgando-se no sangue que vertia.

O gancho cruel se cravou em sua garganta, rasgando e silenciando-o para sempre.

O sangue vazou do corpo inerte, regando o chão lamacento e profanando o solo.

O coronel voltou seus olhos para o capataz que sorria.

– Você me serviu bem, Bastião.

O capataz arregalou os olhos.

– Não! – ele gritou.

Aterrorizado, voltou-lhe as costas e saiu correndo.

O coronel Manfredo não se preocupou em usar o gancho desta vez, apanhou a garrucha que levava junto ao cinto e puxou o gatilho.

A alguns passos de distância o corpo caiu, afundando-se na lama fria.

A terra não precisava de mais sangue, estava saciada aquela noite. E ele tinha pressa… Precisava lidar com aqueles oficiais.

{…}

Tempos atuais

Rosa foi admitida na cozinha do casarão naquele outono fresco, depois de uma entrevista meticulosa com a dona da casa, a senhora Antoinette. Com gestos finos de uma dama bem educada, a senhora do casarão enfatizou o quanto era importante que sua cozinha permanecesse organizada, sua prata polida e o restante da casa arrumado.

Caprichosa como era, Rosa tinha certeza de que não teria problemas com isso e lhe sorriu com gentileza, prometendo que a senhora não se arrependeria de contratá-la. Ao que Antoinette respondeu com um olhar observador.

Com cinco filhos para criar e um marido para sustentar, Rosa estava feliz com o novo emprego. Feliz o suficiente para não se importar com os rumores que a cidade invejosa proclamava sobre aquele lugar antigo.

A casa era enorme, um verdadeiro casarão antigo com todas as relíquias às quais tinha direito. O assoalho de cerejeira rangia quando se caminhava pelos cômodos, as janelas eram enormes e arqueadas como costumavam ser os casarões dos século XVIII – época em que se julgava ter sido construído o casarão do Votorantin -, as portas ainda ostentavam aquela madeira rústica e pesada, e a cozinha exibia utensílios da época da colonização.

Rosa não pôde deixar de abrir a boca de espanto e admiração quando se deparou com aquela riqueza antiga, seus olhos brilharam diante da relíquia.

Antoinette foi gentil em lhe apresentar os cômodos da casa, seu quartinho especial no quintal e o restante da família com quem iria conviver durante o tempo que se estabelecesse como doméstica no casarão.

Manoel era o patriarca da família, um senhor baixo e barrigudo que usava seu fino cabelo grisalho num rabo de cavalo amarrado rente à nuca. Estava sempre usando calças de cowboy, camisas de algodão e um chapéu bege de mafioso. Seu bom humor alegrava a casa em piadas espontâneas, assim como seu mau humor temperava com acidez quando encasquetava com alguma coisa e os filhos não lhe davam ouvido. Formalmente, todos o tratavam com respeito e o chamavam Seu Manoel. Mas por trás seu apelido odioso era véio.

Manoel e Dona Antoinette formavam um casal feliz e bem humorado, sendo a senhora francesa uma bela mulher de pele clara, olhos azuis, cabelos louros e uma agradável voz rouca. Juntos tinham dois filhos.

Henrique era o mais velho, um rapaz alto, bonito e originalmente alegre. Costumava povoar a casa com suas ideias malucas e inovadoras. Até se casar com Marcolina, um tipo desagradável que todos na família comentavam ter dado no pobre rapaz o golpe da barriga. Depois do casamento, a alegria do jovem rapaz minguou e ele passou a ser um capacho da esposa, abraçando a bíblia com fidelidade e se tornando o projeto de um pastor. Suas pregações se tornaram tão vívidas que lhe foi dado o apelido de Maomé.

Bartolina era a segunda e única filha, uma mulher inteligente que adorava seu trabalho renomado numa empresa famosa na grande capital. Apesar da independência financeira preferiu continuar morando com os pais para não deixa-los sozinhos uma vez que o irmão se mudara para uma cidade vizinha com a detestável esposa. Era noiva de um rapaz forte, barrigudo, bonito e rosado como um porco, cujo nome era Bartolo. Conheceram-se numa festa de amigos comuns e julgando a coincidência do nome julgaram amor a primeira vista.

Todos receberam Rosa muito bem e lhe prometeram uma estadia agradável no que uma vez fora uma Fazenda próspera.

À princípio, Rosa se sentiu a vontade, administrando muito bem as ordens e deveres que a senhora da casa lhe passara. Mas era inevitável se sentir intimidada com alguns cantos do casarão.

Por exemplo, quando necessitava lavar roupas era obrigada a adentrar a construção em ruínas do que um dia fora a grande senzala da fazenda. Aquele local escuro, úmido e laborioso lhe conferia calafrios. O pessoal das redondezas afirmava que se podia ouvir os murmúrios dos negros que dormiam ali num passado bem próximo e Rosa percebeu os ruídos sussurrados que se fazia ouvir naquela imensidão fria, arrepiando os pelinhos de sua nuca.

Da mesma forma ouvia passos dentro da casa, onde o assoalho rangia sem ninguém tê-lo pisado. Os quadros nas paredes de antigas personalidades da família pareciam encará-la quando ela lhes tirava o pó, e o vento que espreitava pelas frestas das janelas uivavam como um demônio enlouquecido.

Contente pelo novo emprego e granjeada de elogios por parte dos Monteiro, Rosa tentou se fazer sentir confortável. Até que a noite fria chegou e com ela o Mal que espreitava a imensidão daquela fazenda.

A sopa estava pronta, a cozinha arrumada e a barriga cheia quando decidiu se recolher no pequeno e simples quartinho que lhe fora conferido ao lado de fora do casarão. Rosa tomou um banho morno, vestiu-se com a camisola de algodão e se enfiou embaixo das cobertas, remexendo-se até esquentar o corpo trêmulo. Aquela fazenda era gelada como uma tempestade de neve, capaz de congelar até os ossos.

Seus olhos se fecharam num suspiro enquanto proferia suas orações habituais. Lentamente, a inconsciência chegou, levando-a para os braços ternos de Morfeu.

O toque foi suave, como um roçar de lábios gélidos. Roçou seu tornozelo numa carícia e foi se alastrando pelas pernas delgadas.

Rosa se remexeu inquieta na cama, ainda sonolenta.

O toque persistiu, perturbando seu sono… Seduzindo-a.

Ela abriu os olhos, de cenho franzido.

De posse de suas faculdades mentais, desperta, avaliou o que sentia embaixo daquelas mantas quentes. Arrepiou-se inteira e chutou para bem longe o cobertor, pondo-se em pé de um salto e encarando o quarto escuro.

Seus dedos tatearam a parede, buscando o interruptor.

A luz se acendeu num repente, iluminando o quarto minúsculo e revelando uma sombra fantasmagórica.

Ele usava ainda seus trajes formais, um chapéu elegante e um chicote que se prendia na cintura. Seu rosto muito pálido era tomado por uma expressão maliciosa e quando sorriu, exibiu dentes perfeitos.

Rosa gritou, desesperada.

– Eu sempre apreciei belas negras. – a voz lhe sussurrou, pastosa.

Desesperada, a mulher tropeçou para fora de seus aposentos, lutando contra a porta que não queria abrir. A noite fria a recebeu com hostilidade, açoitando seu rosto com ventos gelados. Seus pés descalços cambalearam pelo terreno arenoso do pátio, tropeçando nos tocos de árvores decepadas enquanto ela corria desenfreada até a porta do casarão, esmurrando a madeira e gritando por socorro.

O som de metal contra cimento se fez ouvir ao longe, aproximando-se com lamúria.

Rosa voltou seus olhos para a direção de onde vinha o ruído quase ao mesmo tempo em que a porta da antiga Senzala se fechou com brusquidão.

Ela gritou novamente, esmurrando a madeira com mais veemência.

Algo se moveu atrás dela, tocando-lhe o ombro.

Virou-se e se deparou com outra sombra fantasmagórica.

Rosto macilento, dentes podres que lhe sorriam.

Rosa gritou, desvencilhando-se daquelas mãos caquéticas que ameaçavam segurá-la.

Seus passos vacilantes a levaram novamente para o pátio arenoso, de onde se aproximava aquele som lamurioso de metal contra cimento.

Ela os viu se aproximar com lentidão, vindos da antiga senzala vazia e úmida, trajavam aquelas calças puídas de trabalhador, o peito largo, nu e musculoso à mostra onde ostentavam cicatrizes grotescas. Seus pulsos estavam fechados em grilhões enferrujados, atados a uma corrente que os unia um ao outro. Os aros de aço se arrastavam pelo chão arenoso, provocando aquele ruído lamentoso.

Rosa estancou, o medo borbulhando dentro de si, preso à garganta.

– A… Juda. – balbuciou o negro que seguia à frente. – A-Ajuda. – estendeu-lhe a mão apodrecida onde se podia ver o sangue de outrora encrostado.

Rosa recuou, balançando a cabeça em negação.

Eles se aproximaram, implorando de mãos estendidas.

Ao longe se podia ver a outra sombra fantasmagórica que lhe visitara no quarto.

O coronel se aproximava com seu chicote em riste, ameaçando os pobres escravos que lamentável em pequenos e grotescos balbucios.

A outra sombra se juntou a eles, os dentes pobres expostos no sorriso maldoso.

O capataz.

Rosa gritou, liberando o medo preso nas profundezas de sua alma e fazendo-o ecoar num lamento desesperado pelo casarão. Desapareceu no meio da floresta escura que rodeava a Fazenda, correndo o mais rápido que suas canelas doloridas lhe permitiam.

No casarão, Manuel e Antoinette dormiam profundamente, ressonando baixinho. Enquanto num outro quarto gigantesco, Bartolina e Bartolo roncavam como grandes porcos rosados.

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