A Irmandade Dos Bruxos Modernos (Pt. 15) – Angola

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Capítulo 15 – Uma festa em Angola

Escrito Por: Alfredo Dobia

 

Depois de uma hora, eles chegaram a casa do Sr. Roger, tio da Sasha. Já era quase vinte da noite. Sasha bateu de leve na porta e ficou parada esperando. Um minuto depois apareceu um rapaz de aproximadamente desasseis anos de idade.

— Olá, eu sou Sasha — disse, abrindo um curto sorriso para o rapaz. — Estou procurando o Sr. Roger. Poderia me dizer se ele ainda vive aqui?

O rapaz franziu a testa, observando o rosto da Sasha que lhe parecia familiar. Ele estava sentado a uma cadeira de rodas.

— Quem é? — indagou uma voz masculina vindo de dentro da casa.

Sasha soltou um suspiro de alívio, ao ouvir a voz grossa e rouca do seu tio. Era impossível ela esquecer aquela voz.

— Estão aqui duas jovens extremamente bonitas procurando pelo Sr. — Respondeu o rapaz.

Roger se aproximou a porta e um sorriso nasceu de seus lábios ao ver a sobrinha. Ele era alto e forte, e tinha a barba muito bem arrumada. Seu cabelo era curto, muito curto na verdade.

— Santo Deus… Não acredito que estou vendo você novamente. Faz tanto tempo — ele parecia reconhecer Sasha perfeitamente, o que era conveniente para eles. Assim evitariam um monte de explicações confusas.

— Sim, como faz. E o tio, como vai? Parece que não mudou em nada.

— Tio! — disse o rapaz entre dentes, ligeiramente atónico. — Então quer dizer que essa morena linda é minha prima. Por isso o rosto dela me parece tão familiar.

— Sim filho.

Sasha riu novamente.

Os Anderson e Lúcia não conseguiam entender nada do que eles diziam. Sasha porém, apesar de muitos anos fora de sua terra indígena, ainda falava português, não com a mesma perfeição de antes, mas o suficiente para se comunicar.

— Então. A que se deve essa incrível visita repentina? — ele estava tão emocionado ao ver a sobrinha que não reparava que ela ainda estava parada na porta, esperando ser convidada para entrar.

O rapaz bateu de leve nas pernas do pai, lembrando-o de a convidar para entrar.

— Me desculpe minha querida, entrem.

Sasha se virou e acenou com a cabeça, e os Anderson e a Lúcia a seguiram.

— Bem, para começar, deixa-me apresentar-te os meus amigos — ela disse, depois de adentrarem na sala espaçosa do tio. — Estes são os Anderson. Valter Anderson e Chris Anderson — eles trocaram um aperto de mão, sentindo a mão firme e calejada do Sr. Roger depois do sinal da Sasha. Era sem dúvida um homem que passara por muito trabalho do campo para atingir o êxito da vida actual. — E esta é a minha melhor amiga Lúcia Wayler — terminou.

Ele beijou as bochechas da Lúcia.

Depois de apresentar os amigos, Sasha começou a explicar:

— Nós viemos cá em estudo. Estamos fazendo uma pesquisa para a nossa tese da universidade sobre uma planta muito rara que só existe cá em África.

— Deixa-me adivinhar, Welwicthia Miarabiles.

— Essa mesma. Acontece que nós não temos muitos recursos para chegarmos até ela, por isso viemos cá, na esperança de que o Sr. nos pudesse ajudar.

— Lamento imenso minha querida, está planta que vocês procuram é um património nacional e não pode ser estudada por ninguém sem a autorização das autoridades.

Sasha se virou novamente para seus amigos e em inglês repetiu as palavras do seu tio. Eles insistiram que ela tentasse novamente.

— Olha tio. Eu sei que é difícil pro Sr. violar uma regra tão importante como está. Mas infelizmente não temos tempo suficiente para pedir uma autorização. Porque não fazemos o seguinte? O Sr nos leva até o deserto, não precisa chegar até as plantas, e a malta se vira sozinho para encontrá-la. Dessa forma não estará se envolvendo em nada que possa vir acontecer depois.

Valter encarou os olhos do Sr. Roger, quase persuadindo-o a aceitar a proposta da Sasha. Lúcia olhou pra ele, e viu os olhos do jovem bruxo cintilando um azul profundo, tão profundo como o habitar das Cêntricas.

— Eu aceito — Sr. Roger disse, sem controlo de suas próprias palavras. Abanou a cabeça, com a mente nublada. — Mas com uma condição — continuou —, que você me promete que não vai fazer nenhuma besteira pelo amor de Deus.

Sasha assentiu com a cabeça, em sinal de concordância.

Valter riu maliciosamente. Ele sabia que o Sr. Roger não iria aceitar tão fácil e fez uma de suas coisas de bruxo para dar uma ajudinha.

— E quando vocês tencionam fazer tudo isto?

— O mais rápido possível. Na verdade Amanhã mesmo se o tio não se importar. É que primeiro a malta precisa procurar um hotel para tomarmos banho e organizar as ideias.

Sr. Roger franziu a testa, exibindo uma pequena tristeza nos olhos.

— Que hotel que nada, vocês vão dormir aqui mesmo, essa casa é grande o suficiente para mais quatro pessoas.

— Desculpa tio. Mas a malta não quer incomodar.

— Não incomodam coisa nenhuma. Alias, hoje vai ter uma festa aqui perto de casa. Eles trarão músicos muito bons e muita boa comida. Porque não aproveita o momento para lembrar os pratos da tua terra? Aposto que sentis falta de tudo aquilo ou vai dizer que não?

Sasha não sabia como responder, aquilo a pegou de surpresa, sem dar tempo suficiente para uma resposta nítida.

— Não demoraremos muito — continuou Roger — e com isso poderás fazer seus amigos experimentarem coisas novas.

Ela se virou para os Anderson e a Lúcia. Logo depois os contou sobre a ideia do seu tio. Eles concordaram, achando justo depois do Valter ter mexido na mente dele. Afinal de contas conhecer uma cultura diferente por algumas horas, pode vir a ser uma ideia bem interessante.

— Está bem — ela disse para o tio — a malta vai sim a essa festa, mas por favor, nada de exagero tio, amanhã temos de partir muito cedo.

— Combinado.

 

Enquanto eles adentravam no grandioso salão, seus olhos suspendiam-se com a quantidade de gente dançando tão vivamente, como se não houvesse problemas em suas vidas. A eufonia do artista que animava a festa era contagiante. Eles não tinham uma única pista de dança, parecia que todos os cantos do salão eram pistas de dança. Aquelas danças eram novas pra elas, mas elegante e divertido de se ver.

O ritmo acelerado da música era algo que simplesmente deixava Sr. Roger contente.

— Eu já venho, vou pegar alguma coisa para bebermos — disse Roger.

— Está bem tio.

As mulheres que passavam por eles, tinham transas de cabelos muito lindos e cada uma delas era esbelta a sua maneira. Suas vestes eram ousadas na medida certa. A cultura africana não era muito liberal nas vestimentas, as mulheres vestiam de tudo um pouco, mas sempre controlando as partes íntimas do corpo.

De longe eles podiam sentir o cheiro agradável dos pratos angolanos saindo das cubas que estavam por cima das mesas encostadas a uma parede de cor creme. Bateu-lhes uma vontade de provar quase tudo que seus narizes cheiravam. Eles estavam com fome, muita fome após uma longa viagem.

O rapaz que abrira a porta para Sasha e seus amigos a algumas horas atrás, se aproximou deles com um sorriso simplesmente encantador.

— E aí, o que estão achando da festa? — ele disse.

Os Anderson e a Lúcia franziram a testa, impressionados. O rapaz acabara de falar inglês, isso foi inesperado.

— Esquisito — Valter respondeu.

— Divertido — corrigiu Chris, batendo levemente no ombro do irmão. — Ele quis dizer divertido.

O rapaz apenas sorriu pra eles, empurrando as rodas de sua cadeira para mais junto da Sasha.

— Vocês ainda não virão nada. Aqui em África, as festas são quase divididas. Existe o momento das passadas, como essas que vocês vêm agora — ele apontou para o pessoal que dançavam em pares. — Neste momento, as músicas tocadas não são muito agitadas, e as pessoas aproveitam para se conhecer. Essas músicas, ajudam-nos a desanuviar e os nossos mais velhos adoram. A seguir a isso, vem a minha favorita, que é o momento das músicas muito, muito dançante. Verão, quando a hora chegar — explicou com uma expressão de mistério no olhar e ainda com o sorriso entre os lábios.

 

— Quem é o velhote aí? — Valter apontou para o músico que animava a festa com uma banda, em cima de um palco improvisado. — Ele tem classe.

— Ah, aquele é o Paulo Flores, uma grande referência da música angolana. Sabe, ele é como Steve Wonder de Angola, só que não cego

Eles riram.

Seu bom humor era contagiante.

— O seu estilo musical é semba — continuou —, um dos estilos mais respeitados do país.

Lúcia e a Sasha o encaravam com uma certa fascinação nos olhos imaginando o que um adolescente tão gentil e inteligente fizera de errado para estar em uma cadeira de rodas.

— Perdão pela pergunta — Sasha disse — mas o que aconteceu com suas pernas? Porque você está nessa cadeira?

Ele remexeu-se de forma minuciosa antes de responder.

— Isso é uma longa história. Aconteceu num acidente de carro, quando eu e alguns amigos decidimos ir a praia em comemoração ao nosso término do ensino médio, mas a pessoa que estava no volante estava totalmente desencartado e na volta já com os copos falando mais alto, ele acelerava descontroladamente até sermos perseguidos pela polícia e dai bem, já imaginam… o nosso carro bateu em um outro carro e capotamos duas vezes. Infelizmente três de nós acabaram mortos de imediato e apenas dois sobreviveram, mas com um custo altíssimo a pagar. Eu acabei perdendo o movimento das pernas e o outro entrou em coma profundo e já az um ano que ele não acorda. Os pais dele são muito religiosos e se recusam a dar ordens de desligar os aparelhos na esperança de que ele venha a acordar algum dia.

— Sinto muito por te fazer lembrar de tudo isso.

— Não sinta, está tudo bem. Eu já me conformei com a minha nova realidade e venho implorando a Deus que faça ele viver. Ele é o meu melhor amigo e não merece um destino tão cruel.

Ouvir o rapaz falando era emocionante, mas aquela não era a hora nem o memento pra lembra das coisas tristes. Lúcia decidiu mudar de assunto.

— Onde você aprendeu a falar tão bem o inglês?

— Com os vossos filmes e series — respondeu o rapaz. — Principalmente os que envolvem mistérios, como guerra dos tronos, ou o Sr. dos anéis – ele fez uma pausa. — Adoro o Senhor Dos Anéis. Já li os livros e vi os filmes. Super fantástico. Há quem diga que sou meio viciado nessas coisas.

Eles riram novamente.

— Gostei de você! — Lúcia disse — você me lembra muito um amigo nosso que deixamos em Nova York. Aposto que ele iria adorar te conhecer.

— Concordo com a Lúcia — disse Sasha. — Quando eu saí de África ainda era só uma menina e você — ela bufou — nem adianta falar. Mas agora, depois de tanto tempo, vejo que você se tornou um homem e muito inteligente. Sério, sinto muito orgulho de você.

Sasha e inclinou para lhe dar um abraço.

— Como você se chama mesmo? — Lúcia quis saber.

— Ricardo, me chame de Ricardo.

O Sr. Roger finalmente vinha com as bebidas. Ele entregou-as a sua sobrinha e os seus amigos.

A música que subia era poderosamente contagiante, o que despertava a atenção dos emigrantes. Eles viam as pessoas abrindo uma roda enorme. Tudo havia mudado. Os pessoais que dançavam em pares juntavam-se a roda, com euforia estampada no rosto.

— Agora sim as coisas vão ficar interessante — disse Ricardo.

Ele chamou-os para se juntarem na criação da enorme roda.

— Isso que vocês ouvem agora, chama-se Afro-House. Um estilo de música muito popular na África Do Sul, Nigéria e Angola. Vocês vão amar.

Dessa vez o pessoal entrava na roda para exibir seus incríveis movimentos de pernas e braços — era energia pura, eles sentiam o cheiro de diversão africana. Todo mundo parecia conhecer todo mundo, o espírito de irmandade era tão forte, que Ricardo não resistiu e empurrou levemente sua prima para o meio. Infelizmente Sasha estava muito enferrujado a aquele tipo de dança. Seus passos eram curtos e deixava no ar uma pequena expressão de vergonha.

Lúcia riu do embaraço da amiga. Mas seus olhos foram surpreendidos, por dois rapazes que adentravam na roda, dançando esquematicamente, de modo frenético.

— Eles são bons não são? — Indagou Ricardo.

— Bons! Eles são de mais — Lúcia respondeu, sorrindo.

— Como você sobreviveu longe disso por tanto tempo? — perguntou Chris, contagiado com a adrenalina do momento.

Sasha riu.

Dois moços de boa aparência, corpos atléticos e um corte de cabelo muito bem desenhado, se aproximavam em direcção a eles, com um gracioso sorriso entre os lábios.

— Então Ricardo — disse um dos jovens. — Não nos vai apresentar suas novas amigas?

Ricardo olhou pra eles, parecendo incomodado com suas presencias.

— Dá um tempo pessoal.

Os jovens encaravam Lúcia e Sasha com expressão libidinoso nos seus belos pares de olhos escuros. Suas idades poderiam ser compreendida entre os vinte aos vinte e dois anos.

Chris olhou de relance pra eles.

— Quem são essas pessoas? — sussurrou Valter nos ouvidos do Ricardo. — Acho que meu irmão não gostou muito deles.

— E ele não é o único. Esses caras são uns idiotas altamente chatos. São como areia no sapato. É uma droga saber que homens como eles existem em todas as partes do mundo.

Valter riu.

Os jovens tentaram chegar mais perto delas, mas Chris entrou na frente.

— Confiem em mim pessoal, vocês não vão gostar de começar uma briga com ele — aconselhou Sasha. — Sabe aquele tipo de pessoa que você mal começa brigar, e já sabe que vai levar uma surra como nunca tinhas levado na tua vida. É, ele é um deles. Então, bora dar meia volta e fingir que nunca nos vimos e nunca tivemos essa conversa.

Os dois Jovens olharam para o Chris e de alguma forma inexplicável sentiam que a jovem morena não estava só sendo tagarela. Na verdade, estava sendo bem realista. Olharam para o Ricardo e a seguir para o Valter.

— O que está havendo aqui? — Sr. Roger quis saber.

— Nada tio. Esses dois moços encantadores já estão de saída.

Os jovens lançaram um olhar no Sr. Roger e se retiraram daquele lugar.

— Infelizmente idiotas existem em todos os continentes. Até aqui em África — Sr. Roger disse, entregando mais bebida pra eles.

Sasha riu, ainda observando o pessoal que dançavam.

Isto está muito divertido, mas acho que já está na hora da malta se deitar — disse Chris. — Temos um dia longo amanhã e vamos precisar de toda nossa energia.

— Ah, já — murmurou Valter. — Logo agora que estou começando a se divertir. Porque você sempre tem que ser tão chato?

Sasha e a Lúcia riam.

— O Chris está certo, pois até onde eu me lembro, as festas aqui só costumam terminar no dia seguinte. Se a gente se deixar levar não veremos a hora passar e tenho a certeza que não é isso que queremos — explicou Sasha. Logo a seguir ela explicou tudo para seu tio e juntos foram pra casa.

CONTINUA…

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